11/07/2013 - 23h07min

O caderninho

Em um café de Paris, nos anos 1920, Hemingway apontava seu lápis, bebendo doses de rum entre a atmosfera laranja do crepúsculo. As lascas caiam como folhas secas sobre o balcão, enquanto o escritor buscava inspiração e coragem para prosseguir em sua labuta. Uma trama interessante para botar no papel, feita de uma verdade toda sua, era o que o jovem procurava. Entretanto, as parisienses que iam e vinham, com sua beleza e seu perfume estonteante distraíam o artesão das palavras. Às vezes as ideias surgiam por acaso, e a história ganhava vida própria, independente da vontade do autor. Com a cabeça em um estado de confusão, Hemingway guarda no bolso de dentro do paletó o pequeno bloco, toma o último gole do seu drink, e mergulha na rua gelada da metrópole.

 

Noel Rosa, por sua vez, usava um toco de lápis tão pequeno que quase desaparecia entre seus dedos. Com o violão embaixo do braço e um copo de chop sobre a mesa do botequim, o exímio compositor criava freneticamente, escrevendo em um guardanapo ou num pedaço qualquer de papel. Uma parceria com Almirante aqui, uma canção vendida para Francisco Alves acolá, Noel ia acabando com seus tocos de lápis. E que lindos sambas ele fez! É certo que a ironia era o seu forte. Na forma mordaz de falar de amor, sem muito romantismo ou grandes ilusões, o boêmio encontrou a matéria-prima da sua música.

 

O mesmo amor inacessível aos olhos de Noel ainda é motivo de versos escritos com paixão em diários adolescentes. Disponíveis em capas das mais variadas cores e tamanhos, cada diário é um rascunho de confidências e segredos com o nome da pessoa amada desenhado em letra caprichada e tintas berrantes. Páginas que despertam a cobiça da gurizada, curiosa em saber por quem cada garota bonita da classe nutre seus sonhos de carinho. 

 

Pepe não era mais nenhum colegial quando cultivou o hábito de anotar, em um estimado caderninho seu, as proezas da carreira de jogador de futebol. Uma paixão tão intensa como a sentida por uma mulher, diga-se de passagem. O popular “Canhão da Vila Belmiro” trilhou um caminho repleto de conquistas, graças ao estrondo olímpico da sua perna canhota. Adornadas com a caligrafia inconfundível de Pepe, certamente constam em seu diário as peripécias do tremendo ataque do Santos na década de 1960. Deixemos que os devaneios da memória conduzam o enredo daqui para frente.

 

O porto-alegrense Dorval Rodrigues, na ponta-direita, encantava a todos com suas arrancadas, sempre perigosas e certeiras. Vindo de Laguna, Santa Catarina, Mengálvio era uma peça chave para o sucesso do conjunto, cadenciando o ritmo do jogo com elegância. Com a camisa nove brilhava Antonio Wilson Honório, ou simplesmente Coutinho. Rapaz de Piracicaba, era o sócio perfeito do mineiro Pelé, o maestro do quinteto, na confecção de gols e tabelas mirabolantes. O lado esquerdo da ofensiva peixeira era o território do nosso dublê de escritor e último integrante desse verdadeiro ninho de cobras. Pepe nasceu em Santos, construindo seus castelos de areia na praia até o dia em que se tornou atleta profissional. E que estupendo jogador ele foi! Legítimo paladino do nosso futebol, Pepe fez sua estreia na seleção brasileira em partida contra a Argentina, no ano de 1956.

 

E foi assim, ora vestindo a camisa canarinho, ora aquela do clube alvinegro, que Pepe viveu a sua inesquecível aventura com a bola nos pés. Curiosamente, para contar tantas lendas e histórias, Pepe acabou trocando os pés pelas mãos. Com o pulso firme, escrevendo em seu caderninho com devoção, o craque afiava a ponta do lápis, enquanto via reminiscências e felpas de madeira caírem, uma após a outra, através da lâmina fria de metal.

 


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03/07/2013 - 22h07min

O sono pesado dos poetas

Nada como fazer um gol deitado. Além de ser um golpe de grande habilidade técnica e rara beleza, trata-se de um gesto repleto de significados. Afinal, dormimos deitados e assim sonhamos, imersos em lindos e loucos devaneios madrugada adentro. É também mais cômodo mandar a bola para as redes nessa posição, a própria lei da gravidade vive nos puxando para baixo, e o corpo fica mais descansado assim. Na horizontal, o atleta pode, inclusive, olhar para as estrelas no céu (se o jogo for à noite). E, quem sabe lembrando da namorada, provocar um frenesi coletivo entra a torcida, fazendo tremer o rígido concreto das arquibancadas com um leve chute na pelota.

 

Levantemos o manto de olvido para analisar o primeiro gol desse quilate feito por um centroavante com a camisa canarinho no Maracanã.  Foi em junho de 1969, muito antes da façanha protagonizada por Fred, recentemente, contra a Espanha. O centroavante em questão foi Eduardo Gonçalves de Andrade, mais conhecido nas entranhas do nosso popular esporte como Tostão. Era um rapaz de ar puro e inocente, ainda que fosse um pequeno demônio com a bola aos seus pés. Sua testa era grande e tinha bochechas redondas, brancas como a neve. Tostão sabia fazer gols como ninguém, cheios de raça e inteligência. E foi assim no amistoso frente à Inglaterra, quando, após um tremendo sururu no interior da pequena área britânica, ele castigou o famoso goleiro Banks, mesmo escorregando rumo ao solo, em um lance de puro lirismo e picardia. 

 

Entretanto, sou forçado a admitir que o gol de Fred, o nosso bom e correto Frederico Chaves Guedes de Teófilo Otoni, foi mais “deitado” que o de Tostão. Tal qual um “bonvivant”, confortavelmente esparramado sobre a grama fofa e aconchegante do Maracanã, o camisa nove, acossado por um magote de defensores europeus, teve o lampejo típico dos gênios, vencendo o terrível Casillas com maestria.  Para o lance terminar de forma ainda mais bela, só faltou Fred permanecer deitado após o gol. E dormir, assim como os demais jogadores e a multidão, entregues ao sono pesado dos poetas e sonhadores.

 


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27/06/2013 - 22h06min

Cadafalso

A corda presa no pescoço

Abutres dançam de alegria

Mais um da plebe rumo ao fosso

Cavado pela Tirania

 

No Velho Mundo dos fantoches

Feitos de fome e cansaço

“Se não tem pão comam brioches!”

Disse a rainha em seu palácio

 

Até que um dia com estrondo

Veio a Revolução

E a turba em fúria fez um rombo

Nos muros ocos da prisão

 

O sangue azul da realeza

Jorrou de forma repentina

Cabeças de outra beleza

Rolaram sob a guilhotina

 

Alguns séculos mais tarde

De tão sinistro festival

Nas ruas houve novo alarde

Num país belo e tropical

 

E nas esquinas da cidade

Houve grande comoção

Por mais pudor e honestidade

Nas entranhas da Nação

 

Então o falso governante

Para fugir do cadafalso

Com a cara radiante

 

Trocou de tom sem sobressalto

Virou amigo do estudante

“Andar de ônibus é um assalto!”

 


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20/06/2013 - 21h06min

De olhos bem fechados

O jogo entre Itália e Japão pela Copa das Confederações me fez lembrar como o futebol pode ser bonito. Os noventa minutos correram frenéticos, viajando em um carrossel de emoções sem precedentes, com as duas equipes goleando e brigando sem trégua do início ao fim. O conjunto da terra do sol nascente mostrou que está em franca evolução no que diz respeito às artimanhas e segredos do violento esporte bretão. Além de atuar com mais coração, os pupilos do técnico Alberto Zacheroni exibiram uma técnica superior, praticando um jogo vertical e ousado, trocando passes de primeira e levando ao desespero os defensores italianos.

 

Ao contrário do que a história nipônica de outros combates poderia nos fazer supor, não foi uma tática “kamikase”, mas uma jornada digna de figurar entre os grandes momentos do futebol mundial em todos os tempos. Sem se intimidar com a camisa e a tradição da famigerada “squadra azzurra”, o Japão conquistou a simpatia do público presente à Arena Pernambuco. Após abrir dois gols de vantagem de forma categórica, os bravos atletas de olhos puxados tiveram um raro momento de distração, o suficiente para De Rossi descontar no final da primeira etapa. No segundo tempo a Itália virou a partida logo nos primeiros minutos, cínica e mortal como sempre, aproveitando vacilos da retaguarda asiática. Mas o Japão não se entregou, logrando o empate com o habilidoso Okazaki. No fim, o gol da vitória italiana foi um castigo cruel, tendo em vista o maior volume de jogo apresentado pelos pequenos gigantes samurais.

 

Enquanto a bola rolava sobre a relva, protestos eclodiam de norte a sul, dando sequência ao momento único vivido pelo Brasil.  As espessas turbas municipais deixam seu recado dia após dia, escancarando as insatisfações do cidadão cansado de tanto trabalhar sem ver a cor do dinheiro, enquanto um bando de políticos ladrões manda e desmanda no país. Seria bom se a presidente Dilma, que lutou de forma tão corajosa contra a ditadura militar, tivesse uma atitude mais enérgica para enfrentar a ditadura atual. Que não é mais a ditadura dos tanques e torturas, mas a ditadura da corrupção que governa a nação sem escrúpulos, sufocando os anseios do povo por um futuro melhor. Espera-se que Dilma não permaneça de olhos fechados agora, como fizeram tantos governantes em eras passadas, fingindo normalidade, calados, surdos e cegos ante a absurda realidade que emerge nas ruas. Afinal, se o Japão tem crescido tanto no futebol, por que não pode o Brasil crescer em honestidade?

 


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17/06/2013 - 22h06min

Não culpem o futebol

Não dá para ficar indiferente a onda de protestos que assola o país. Todas as reivindicações são legítimas, principalmente aquela que clama por um preço mais acessível para o transporte público. É importante que se diga que a violência empregada pela polícia e por alguns manifestantes não tem justificativa alguma.

 

Entretanto, muitas vozes entre os descontentes reclamam da realização da Copa do Mundo no Brasil. Trata-se de uma polêmica que leva a vários caminhos e diversas análises, até porque ninguém garante que, se não houvesse Copa no ano que vem, recursos seriam realmente destinados para a saúde, segurança, etc. Provavelmente ficaríamos sem nada: nem Copa, nem melhorias na vida do cidadão comum.

 

Mais do que um esporte, a parafernália chamada de “verdadeira instituição brasileira” por Gilberto Freyre, vive imersa em terríveis paradoxos, despertando reações de amor e ódio desde os seus primórdios entre nós. O povo que protesta agora tem um argumento fortíssimo no que diz respeito ao desperdício de dinheiro público na construção dos estádios, ainda que isso seja consequência, antes de tudo, de incompetências políticas e administrativas, e, em última análise, da cultura de levar vantagem arraigada em nosso país.     

 

Ainda assim, eu poderia listar aqui vários benefícios trazidos pela Copa, como a geração de empregos, melhorias na infraestrutura das cidades, o Brasil voltando a aparecer na vitrina mundial como um país capaz de sediar eventos importantes. Não esqueçam que o Maracanã foi erguido em função de uma Copa do Mundo, e está aí até hoje, símbolo da  vitória de uma nação contra o atraso e o esquecimento.

 

A importância do futebol vai além. Somente em eventos esportivos os atuais governantes sofreram com vaias. Primeiro Lula, no Pan de 2007 e, agora, Dilma. São muxoxos da classe média, dirá alguém. Mas também ela, cada vez mais oprimida pelos altos impostos, têm direito ao protesto. E aqui repousa outro disparate, pois o povo de baixa renda é que deveria estar presente nos estádios da Copa das Confederações. Então o futebol virou uma coisa de elite, o que é detestável, mas de uma forma ou de outra serviu para canalizar insatisfações contra as autoridades que, afinal, são as responsáveis pelo preço da passagem de ônibus. O círculo se fecha.

 

Tanto o futebol como a corrupção fazem parte do DNA do país. A diferença é que o primeiro pode ser útil, enquanto a segunda é o grande inimigo a ser combatido para que haja uma maior igualdade e qualidade de vida para o povo brasileiro.  Não vamos botar tudo no mesmo saco, sob o risco de perder o tão sonhado "bonde da história".

 


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15/06/2013 - 13h06min

Balada do perdedor

Salvem o valente perdedor!

Que segue na vida a rolar

Ninguém percebeu a sua dor

Nem viu seu castelo desabar

 

Toda beleza escondida

Em um sonho terminado

Nunca curou a ferida

Nem trouxe o sol em seu reinado

 

Está escrito em um muro

Que é proibido perder

Na solidão de um beco escuro

Na luta em cada amanhecer

 

Entretanto essa vitória

É uma estranha em seu caminho

Pois não perseguiu a glória

De taças de ouro e vinho

 

Mas é proibido perder

Nas roletas da sociedade

E nas entranhas do poder

E nos pecados da cidade

 

Não existe perdão

Nem mesmo para o perdedor

Que rolou dados em vão

No jogo duro do amor

 


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06/06/2013 - 23h06min

Prisioneiros da arte

Zuenir Ventura disse certa vez que não gosta de escrever. Para o jornalista mineiro, o bom mesmo “é ter escrito”, um momento parecido com a hora do recreio no colégio, o instante em que soa o apito da fábrica, ou quando o pintor dá aquele passo para trás, a fim de olhar pela última vez a sua obra concluída.  Afinal, burilar as palavras é uma tarefa como qualquer outra, e, por mais genial e habilidoso que seja o escritor, nem sempre é possível adorar incondicionalmente o ato de escrever, ou extrair prazer do mesmo. Até que o texto esteja pronto para ser impresso ou publicado é um longo caminho, feito de trabalho pesado e cansativo.

 

Dizem que Gessy, um dos maiores e o mais misterioso craque da história do Grêmio, não gostava de jogar futebol. Escondido atrás de uma viga do vestiário, o maestro tricolor nos anos 1950 torcia para não ser visto pelo técnico Foguinho. Assim ele podia fumar seu cigarro em paz, e sonhar com a carreira de dentista. Quando não havia mais saída, Gessy ia para o treino, fazia a ginástica com enfado, chutava a bola burocraticamente. No dia do jogo, Gessy arrebentava com a partida, parindo lances repletos de fúria e sagacidade, como um lindo louco dos gramados.  Apesar da sua capacidade tremenda para o esporte, Gessy abandonou tudo precocemente, deixando atrás de si uma longa sombra de lendas e gols.

 

E houve Sugar Ray Robinson. Em um tempo em que o boxe ainda tinha muito a oferecer como esporte e espetáculo, Ray brilhou acima de todos, sendo considerado por especialistas o melhor pugilista “quilo por quilo” de toda a história da nobre arte. Entretanto, o estupendo campeão dos ringues afirmou que não gostava de lutar. Para Ray, a “doce ciência” do boxe soava como algo bárbaro e degradante, ainda que fosse um dos poucos caminhos para fugir dos fantasmas da pobreza e do preconceito racial. “Meu trabalho é machucar pessoas”, disse ele ao juiz que o interrogou posteriormente à morte de Jimmy Boyle, rival nocauteado por Ray em 1947 que não resistiu às lesões da luta. Uma resposta desconcertante e de triste ironia, mas dita com absoluta franqueza.

 

Apesar dessa fatalidade, Ray permanece como um atleta admirado até hoje. Curiosamente, o seu talento avassalador para o ofício acabou sendo maior do que a sua vocação para o boxe em si, acorrentando luvas de chumbo em seus mágicos punhos.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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