14/09/2013 - 23h09min

Poema para uma amiga virtual

Agora que te vi em uma rede social

Menina de lisos cabelos platinados

Sorriso maroto e lábios vermelhos

Em fotos tiradas na frente do espelho

 

Agora que estou no escuro da sala

Sozinho pensando lindos devaneios

Como um cego vidrado na tela brilhante

Onde mil rostos passam em um só instante

 

Queria mergulhar

No poço negro e molhado

Dos teus olhos

Meigos e profundos

 

E se um dia

Na rua eu te achasse

Com emoção pediria 

Como vai você?

 

 

                                                                *         *         *

 

 

Vitória importante do Caxias contra o Crac. Mais do que os três pontos na tabela e a liderança da chave, o esquadrão grená, com o resultado, ganha novo fôlego para a sequência da competição. O time tocou a bola como há muito tempo não fazia, diante de um bom público na tarde quente do inverno que se aproxima do final.

 

A tabela entre Walacer e Zambi surtiu efeito finalmente, trazendo um sopro de esperança para a torcida, ávida por um pouco de beleza no futebol apresentado pelo time. Trípodi mostrou ser o guerreiro de sempre, brigando pela posse da bola no ataque com destemor. Zé Mário pode ser um valioso elo de ligação no meio campo, e a dupla de zaga Jean e Tiago mais uma vez rechaçou os ataques inimigos sem maiores problemas.

 

A hora é de dar apoio total e irrestrito ao técnico Picoli e ao plantel, a cada jogo que passa o Caxias está mais perto da Série B! Este agradável cenário, contudo, não pode trazer qualquer tipo de relaxamento. Contra o Madureira, a tropa bordô deverá entrar em campo com a faca entre os dentes outra vez, mas sem deixar que ações urdidas com critério e inteligência façam parte do seu repertório de jogadas.

 


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09/09/2013 - 21h09min

A arte salva, a fama condena

Conheci a história de Wladyslaw Szpilman através do filme “O Pianista”, de Roman Polanski. Escondido como um rato entre os escombros de Varsóvia durante a Segunda Guerra, o músico judeu atravessa maus bocados e está à beira da morte quando, finalmente, é encontrado por um capitão nazista. A lógica dos fatos apontaria para o fim do pobre homem, sendo mandado de volta a algum campo de concentração, ou, pior, tendo os miolos estourados com uma bala na cabeça no mesmo instante. Mas a vida reserva surpresas. Graças ao seu talento musical, Szpilman acaba enternecendo o carrasco, ao dedilhar, no piano da mansão em ruínas onde estão, uma balada de Chopin. O alemão, Wilm Hosenfeld era seu nome, não apenas poupa sua presa como lhe dá comida e um casaco, garantindo a sobrevivência de Szpilman.

 

Alguns anos se passaram e um novo tipo de música surgiu. Era o rock’n’roll, matéria feita de menos lirismo e mais picardia, eletricidade e um cantor com brilhantina no cabelo animando adolescentes histéricas. Mais tarde vieram as bandas, tocando alto e pesado. Seus integrantes eram geralmente cabeludos branquelas, como Paul “Ace” Frehley, um rapaz normal de Nova Iorque, que tinha na guitarra sua fiel companheira. No desolado bairro do Bronx, Ace, que não era muito afeito aos estudos, em um determinado momento acabou adernando para a marginalidade. Membro de uma gangue, sem muita perspectiva de um futuro sólido, seu destino era incerto. Entretanto, prevaleceu o amor pela música e o ritmo frenético do rock. Em suas reminiscências, Ace, que depois faria sucesso junto com o grupo Kiss, confessa que o fato de tocar guitarra abriu novas portas para ele, impedindo que o hábito de crimes o levasse a um triste final.

 

Se pararmos para pensar, veremos que a arte pode salvar a vida de uma pessoa. E ela não precisa dominar algum instrumento para tanto. Qualquer um que assista a um bom filme, peça de teatro, escute uma música ou leia um livro, poderá encontrar nessa atividade um poderoso lenitivo, e, até mesmo, um novo sentido na sua vida. Curiosamente, a arte possui uma parente chamada fama. Com suas carícias de popularidade e poder, a fama transforma o ser humano para o bem e o mal. Mas também é uma armadilha, onde muitas celebridades involuntariamente acabam caindo.

 

Ace Frehley, na sua juventude, era fã da banda inglesa Rolling Stones. Porém, foi sobre um dos “quatro garotos de Liverpool”, rivais dos Stones, que a fama aplicou a sua peça mais dantesca. John Lennon, grande mentor intelectual dos Beatles, foi atacado por um louco, sendo morto a tiros com apenas 40 anos de idade. É claro que o ato do assassino foi um caso isolado, fruto de uma demência extrema. Mas não deixa de ser um indício de que a fama pode trazer consequências terríveis. Lennon era um sujeito pacato, vejam só. Não se perdeu na noite, na boemia ou no trago, tinha a “cabeça feita”. Nunca procurou o perigo, como James Dean ou Jim Morrison. A sua arte lhe rendeu fama, mas foi só a fama a causadora da sua morte.

 

Se por um lado a presença da fama é capaz de gerar uma tregédia, em certos casos a sua ausência pode ser ainda pior.  Como na realidade do artista que acaba se frustrando por não obter sucesso com o seu trabalho, por exemplo. Quando o pintor Van Gogh morreu, um dos seus problemas era a depressão. Uma doença que pode ter sido provocada pela falta de reconhecimento de suas obras junto ao público. Se tivesse tido um pingo de fama, talvez a história de Van Gogh acabasse de outro modo.

 

Voltando para o espectro da arte, mais do que um alento para o cidadão comum, ela é ainda uma forma de inclusão social (basta lembrarmos do maestro Dudamel com suas orquestras para jovens), além de uma ideia e um sonho bom a ser perseguido. E, o mais importante, não precisa da fama para existir. Esta, na maioria das vezes cresce no vácuo de circunstâncias que pouco tem a ver com a arte, em ambientes de larga difusão e superficialidade, sendo resultado de uma máquina promocional, passageira e artificial.

 

Mas é inegável que tanto a arte como a fama vivem no mesmo mundo, como duas vizinhas rabugentas, envolvendo os reles mortais ora com a suavidade de uma clave de sol, ora com a violência de um punho de ferro.

 

                                                                         *       *        *

 

Gostaria de extravasar meu sincero agradecimento aos professores Jeferson, Leda e Glaci, da escola Dante Marcucci, bem como a diretora Liciene Vaccari e a professora Vera da 4ª CRE. Na última quinta-feira estive falando com os alunos sobre meus livros, o esporte, a literatura e outras coisas da vida. Para minha surpresa e emoção, a sala estava toda decorada com trabalhos feitos pela gurizada, como desenhos, maquetes e dicionários relacionados ao tema futebol. Os alunos, que já haviam lido trechos dos meus livros, fizeram perguntas, abrindo um leque de interpretações até então desconhecidas por mim. Por outro lado, espero ter deixado alguma coisa de positivo para esses jovens pairando no ar entre as palavras.

 


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01/09/2013 - 12h09min

Coroa de lata

Os músicos da orquestra

Com seu peito estufado

Em uma heróica sinfonia

Vibram no palco aveludado

 

Tudo é tão lindo e radiante

E na seção dos violoncelos

Apareceu um casalzinho

Entre sorrisos amarelos

 

Doutores usam seus jalecos

Cortando fundo na ferida

Em suas mãos o bisturi

E o rumo de uma vida

 

Quanta nobreza e fidalguia!

Nesta nobre profissão

Todo médico é sem dúvida

Um notável cidadão

 

E nos salões do tribunal

Soa brilhante glossário

Onde o juiz é a estrela

Tecendo o seu comentário

 

Tem um anel de rubi

O distinto magistrado

Tem poderes e prestígio

Nosso caro advogado

 

E o poeta quem será?

Que ninguém presta atenção

Chego até a duvidar

Se ele existe ou não

 

Sua coroa de lata

Tem a forja do mistério

Mas não entra nas cabeças

Deste seleto ministério

 


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24/08/2013 - 16h08min

A praça dos mistérios

O bólido azul-marinho roda suavemente pelo asfalto. Estou com o olhar fixo na estrada, a luz dos faróis rasga a escuridão enquanto minha mão pesada repousa sobre o volante. A estrada é sinuosa, a claridade da lua cheia se mistura entre as sombras das árvores ao redor. Vez por outra um carro surge na pista contrária, despertando os sentidos adormecidos. Dirijo alguns metros ainda, antes de entrar à direita e penetrar na simpática província de Nova Milano.

 

Dizem que foi aqui que a imigração italiana teve início em solo gaúcho. Uma rua com um canteiro no meio, algumas casas pitorescas, uma bodega, a torre alta da igreja. Na praça, em breve vai ter início o show do cantor Erasmo Carlos. Um evento de rara fortuna, para um lugar tão afastado das metrópoles e cidades. Não posso perder essa, penso enquanto desligo o motor. Deixo o carro em um terreno baldio nas cercanias, parece que toda a população do lugar estará presente para conferir o ídolo das matinês da jovem guarda. O vento gelado da noite açoita meu rosto, enquanto caminho devagar pela calçada. A praça está tomada com bancas de artesanatos e guloseimas, tudo faz parte da programação de um encontro de folclore italiano, inclusive o concerto do “Tremendão”. Vago em direção a uma tenda onde está escrito: “agnolini frito”. Vivendo e aprendendo, penso com meus botões. Para mim, agnolini era só para colocar na sopa, mas o gringo que é gringo tem lá os seus luxos. Experimento a iguaria sentado em um banco de pedra, degustando o agnolini como se fosse pipoca, junto com um copo de quentão.

 

Assim que soam os primeiros acordes do show, constato que Erasmo continua em forma. Mesmo com toda a sua extensa ficha de serviços prestados à música brasileira, o homem segue compondo novos temas. Mas foi quando ele tocou um dos seus antigos sucessos que eu vibrei de verdade. “Sou uma criança não entendo nada”, filosofa Erasmo, provando que o eterno garoto está vivo. À medida  que avança o carrossel de lindas canções, passo a observar o povo reunido ao redor do palco. O que estaria se passando dentro da cabeça da “nona” na minha frente? Trajando um casaco de lã sobre o corpinho frágil, óculos de aros grossos e cabelo tingido de vermelho, talvez tivesse idade similar à do astro. Ainda que o mundo frenético do rock’n’roll fosse estranho para ela, acompanhava o show com atenção, as luzes coloridas refletindo em seu rosto branco e enrugado.

 

Quando o roqueiro que há em Erasmo cede espaço ao cantor romântico, o resultado é ainda mais devastador. Frutos da sua parceria com Roberto Carlos, como “Sentado à beira do caminho” e “Detalhes”, são resgatados em um instante mágico, fazendo com que eu vire o pescoço na tentativa de encontrar os olhos da bela morena que está um pouco atrás. Ela retribui com o rosto sério, mas convidativo, preenchendo meus sonhos de calor humano e fantasia. Enquanto isso, muito à vontade na ribalta, o Tremendão é o dono da noite. O amor está nos corações, e o responsável por isso é o bardo dos cabelos prateados. Sucedem-se novos lapsos de emoção e nostalgia, até que o concerto ruma para o seu momento derradeiro. Entre as palmas, o gelo seco e a apoteose do “gran finale”, tento outra vez avistar a minha musa dos olhos amendoados.  Onde terá ido a doce criatura? Não a vejo mais, quanta desilusão! 

 

A turba vai se dissipando aos poucos, enquanto parto em busca da minha carruagem de aço. Novos caminhos repousam à frente, prontos para serem desbravados. Entretanto, por mais que eu tente, nenhum deles vai me levar de volta àquela praça, com suas tradições, mistérios e desejos pairando no ar gelado de um sábado à noite.      

 


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17/08/2013 - 16h08min

Ringue rural

Foram anos bons e foram anos ruins para a lavoura. Em todos eles lá estava Carmen, semeando e colhendo cebola sob o sol escaldante sem reclamar. Apesar de ser apenas um garoto, a rotina de labores no campo era dividida com os bancos da escola na vila americana de Canastota. A família Basile tinha vindo da Itália em busca de novos horizontes, e agora dependia dos humores do clima, dos ventos e da chuva para prosperar. Carmen empunhava a enxada com humildade, arando a terra enquanto respirava o perfume acre do esterco das vacas.  Era um simples agricultor e uma criança, antes de crescer e se interessar pelo ambiente do boxe. Foi uma paixão fulminante, que sobreviveu aos protestos da sua mãe, sempre pedindo ao filho que abandonasse aquele esporte sujo e violento. Sua ascensão dentro dos ringues foi lenta, mas contínua, até o dia em que Carmen Basilio fez por merecer o papel de desafiante ao título dos meio-pesados.

 

Alguns anos antes, no início da década de 1940, um moço cubano chamado Gerardo Gonzalez buscava uma alternativa para o trabalho ingrato e árduo praticado por seus pais. Afinal, a vida cortando cana, entre cobras venenosas, seis dias por semana, além de render uma ninharia, não era o futuro almejado por ele. A luz no fim do túnel surgiu quando Gerardo passou a frequentar uma academia de boxe na cidade de Camaguey. Ir da roça para o ringue, contudo, não foi o passaporte para um mar de rosas. Mas com luvas ao invés de uma foice nas mãos, o garoto mostrou que tinha talento. Junto com a alcunha de Kid Gavilan, nasceu também um novo virtuose do boxe. Ainda que fosse impossível prever, quando se mudou para os Estados Unidos, em 1947, Gavilan estava fadado a tornar-se campeão. Seu estilo exuberante de lutar incluía o famoso “bolo punch”, um golpe aperfeiçoado e imortalizado por Gavilan. Essa manobra difícil, bela, e pouco ortodoxa, era feita com um dos braços estendido desenhando um círculo no ar, subindo e descendo até a linha do joelho para acertar o oponente como se fosse a roda de um moinho. Rapidamente Gavilan conquistou os fãs de boxe na costa leste do país ianque, graças ao seu carisma e artimanhas.

 

Em 1953, Gavilan reinava absoluto como detentor da coroa mundial dos pesos meio-médios, quando surgiu em seu caminho o antigo catador de cebolas de Canastota. Carmen Basilio vinha espreitando com paciência o trono de campeão, derrubando inimigo após inimigo, até despontar como um legítimo contendor. A luta foi marcada para Syracuse, reduto de Basilio próximo de Nova Iorque. Uma das qualidades de Basilio era absorver o castigo dos golpes, raramente acusando o baque do impacto, por mais tremendo que ele fosse. Apesar de ter derrubado o campeão no segundo assalto, Basílio foi aos poucos sendo envolvido pela imensa técnica e experiência de Gavilan. Dono de um corpo esguio, com braços finos e compridos, o cubano disparava golpes cirúrgicos contra o rosto do desafiante, deformando-o lentamente, como um pintor que produz uma obra sinistra e bizarra. Com o olho inchado e roxo, mais parecendo uma das cebolas que costumava colher na juventude, Basilio lutou bravamente, mas perdeu a decisão por pontos após quinze assaltos. Foi um resultado polêmico. Para muitos especialistas, Basilio teria vencido o combate. Sem embargo, as coisas nem sempre são o que parecem no teatro dos ringues. Trabalhando em silêncio, nas sombras, a máfia corrompia juízes e até pugilistas, tornando a doce ciência do boxe um jogo de cartas marcadas.

 

Não sabemos se esse foi o caso daquela luta entre Kid Gavilan e Carmen Basilio. O fato é que Basilio permaneceu fiel ao espírito do esporte e ao caráter puro do camponês que havia dentro dele, recusando-se a pactuar com os bandidos de terno e gravata ao longo da sua carreira. Seu memorável duelo com Gavilan foi, antes de tudo, a reunião de dois nobres campeões, que subiam no ringue com a coragem e a alegria do lavrador que levanta antes do sol nascer para trabalhar. E que só volta para o conforto do lar, cansado e feliz, quando a noite derrama suas estrelas sobre o campo.   

 


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05/08/2013 - 21h18min

Os bordões de Celestino

Com o retorno do Aimoré à primeira divisão do futebol gaúcho, creio ser a hora de resgatarmos um dos seus mais ilustres torcedores. Falo de Celestino Valenzuela, destacado jornalista de algumas décadas atrás. Durante meus últimos anos no colégio, era quase uma obrigação assistir Celestino apresentar a seção de esportes de um noticiário na televisão. Entretendo os lares e bares na hora do almoço com seus bordões, vestindo seu terno marrom na bancada do programa, Celestino narrava as jogadas com destreza. Quem não se lembra da sua chamada característica quando ia falar sobre o time azul e branco de São Leopoldo? “E o Aimoré...”, Celestino contorcia a voz, em uma tirada cheia de humor e inspiração. Ele foi um dos ídolos da minha geração, e continuaria sendo, se não tivesse se aposentado. Agora, Celestino apenas pesca, jogando a isca para pegar o peixe como fisgava o telespectador com sua verve.

 

Quando eram transmitidos os compactos do jogos, nos domingos à noite, Celestino brilhava, principalmente quando deixava fluir o seu inconfundível: “Que, lance!”. Isso acontecia depois de lances emocionantes e de grande perigo, mas que não acabavam em gol. Depois que o locutor saiu de cena, perdemos uma fonte de sagacidade na cobertura esportiva. Eu colocaria o moço de Alegrete em um patamar onde estivessem figuras como Januário de Oliveira, Carlos Valadares, Osmar Santos, e tantos outros gênios do ofício.

 

No que diz respeito ao Aimoré, vem à mente a campanha de 1959, quando, sob as ordens de Carlos Froner, o clube brigou pelo título gaúcho até o fim. Eram dias de sol e alegria nas arquibancadas do estádio Cristo Rei. Craques como Mengálvio, Marino e Gilberto Andrade fizeram história, ameaçando seriamente a supremacia da dupla Grenal. Tomara que o velho e bom Aimoré volte a fazer bonito agora, para deleite da torcida e do grande inventor de bordões que foi Celestino Valenzuela.

 


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29/07/2013 - 21h07min

O saci subiu a serra

O saci subiu a serra

Vestindo uma touca vermelha

Em sua funda um pedregulho

Em seu cachimbo uma centelha

 

Passando entre araucárias

Num dia de frio e sol

Foi armar sua arapuca

Em um campo de futebol

 

Que ficava bem do lado

De um triste cemitério

Onde a noite era gelada

E voavam quero-queros

 

O saci subiu a serra

Num dia de ventania

E olhou para as estrelas 

E caçou com valentia

 

Das praias quentes do Recife

Veio uma cobra-coral

Mas o saci com esperteza

Botou no saco o animal

 

Com seus dentes afiados

O tigre veio de mansinho

Mas caiu na armadilha

Que o saci fez no caminho

 

Em um lago cristalino

Com uma vara de pau

O saci pôs-se a pescar

E pegou um bacalhau

 

O coelho também veio

Conferir a confusão

Mas levou uma paulada

Seu saci, que ingratidão!

 

E até mesmo o urubu

Muito malandro e folgazão

Foi direto pra panela

Que o saci pôs no fogão

 

O saci subiu a serra

Pulando numa perna só

E chutando a pelota

Lá no fundo do filó

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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