05/10/2013 - 15h10min

O escritor grená

Lá vem o escritor grená

Descendo a rua da favela

De sapato engraxado

Em uma tarde triste e bela

 

Pelos caminhos tortuosos

Até o estádio Centenário

Entre as praças da cidade

E a turba de operários

 

Olhando além do horizonte

Versando com maestria

Sobre os grandes esquadrões

Da história do Caxias

 

Campeão municipal

No ano de quarenta e sete

Quando ainda era Flamengo

O nome do temido escrete

 

O loiro craque Alemãozinho

Provocava frenesi

Vazando as redes inimigas

Com os irmãos Sady e Lady

 

Alguns anos se passaram

Pelas pedras do cemitério

Bem do lado do gramado

Onde nascem os mistérios

 

E onde um baita goleador

Surgiu de forma repentina

Bebeto, o Canhão da Serra

Ficou gravado na retina

 

Com seu faro de artilheiro

E calças boca de sino

Foi o símbolo de uma era

Que encantou muito menino

 

Tudo isso e muito mais

O escritor sabe de cor

Caminhando pela estrada

Sem temer pelo pior

 

Aquecendo os corações

E iluminando o breu

Relembrando lindos times

O escritor grená sou eu

 


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01/10/2013 - 23h10min

Asilo de trambiques

Com um gol marcado de forma irregular, a Juventus venceu mais uma partida dentro do campeonato italiano. Dessa vez, a vítima da escandalosa ajuda concedida pelos juízes à equipe do técnico Antonio Conte foi o Torino, uma esquadra humilde e trabalhadora, que mora do outro lado da rua da mansão alvinegra. A bela cidade de Turim, berço das eternas rivais, foi palco de uma espécie de assalto à mão armada executado com frieza pela “velha senhora” dos gramados. Um crime sinistro, cometido sem remorso contra a própria vizinha e irmã. O lance teve início após a cobrança de um escanteio em que Tevez, em nítida posição de “fuorigioco”, cabeceou a bola na trave. No rebote, o francês Pogba realizou o único e imerecido tento da partida. 

 

A Juventus está sendo favorecida pela arbitragem de forma deslavada e apavorante, algo que, diga-se de passagem, não chega a ser nenhuma novidade no mundo do “calcio”. No clássico do último final de semana, repetiram-se os estranhos fatos ocorridos no jogo da "vecchia signora" contra o Chievo, na rodada anterior, quando a equipe vêneta teve um gol absolutamente legal do atacante Paloschi anulado. Coincidências demais, mesmo para o mais imparcial dos observadores. Com a sua tremenda cara de pau, essa simpática velhinha me fez lembrar de uma personagem do escritor Stanislaw Ponte Preta.

 

A velhinha, com seus óculos de lentes grossas e cabelos prateados, cruzava a fronteira todos os dias em uma lambreta. Como ela carregava sempre um saco nas costas, o guarda desconfiou. Revista daqui, inspeciona dali, o conteúdo do maldito saco era apenas areia. Após jurar guardar segredo, o policial ouviu da esperta vovó qual era, na verdade, o produto do contrabando. Sem que ninguém desconfiasse, a velhinha dos dedos leves estava levando lambreta como muamba! Uma crônica típica de Stanislaw, cheia de humor e picardia.

 

E agora, eis que ressurge com esplendor a velhinha de Stanislaw, varando as ruas e a madrugada de Turim com a sua lambreta envenenada.  Quantas aventuras ainda fará ela, pilotando a motoca de forma selvagem na busca do prazer da contravenção? Jamais saberemos. Tudo que se vê, entre as sombras da noite, é o vulto do seu corpinho frágil guardando a lambreta na garagem e entrando sorrateiramente no asilo outra vez. Calçando as pantufas e tricotando novelos de lã ao lado de um gatinho, a vovó sorri sem dentes, enquanto acaricia a flâmula da Juventus na parede.

 


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23/09/2013 - 22h09min

Fogo no céu

O som estridente da sereia tocou, alertando os cidadãos de São Paulo. Era gol de Leônidas da Silva para o Brasil, quebrando a rotina daquele dia útil de trabalho nos escritórios, lojas e ruas da metrópole. A sereia, na verdade, era um artifício usado no distante ano de 1938 para informar sobre o andamento das partidas na Copa da França. Tratava-se de uma espécie de sirene, instalada no alto do prédio do jornal “A Gazeta”, e que podia, conforme o seu toque, mais grave ou mais agudo, denunciar gol contra ou a favor do time treinado por Ademar Pimenta.  O Brasil acabou despachando a Tchecoeslováquia, mas perderia o craque e artilheiro Leônidas, contundido, para a sequência do torneio.

 

A partida contra a Itália, realizada em Marselha, teria contornos épicos, e acabou famosa em razão de um lance protagonizado pelo grande Domingos Da Guia. Provavelmente Domingos tenha sido provocado pelo esperto atacante Piola durante uma ação da “squadra azzurra” contra a meta do goleiro Walter. O fato é que a "Estátua Noturna" foi tomada pelo fogo da fúria, e, contrariando seu caráter plácido, agrediu o italiano vilãmente. O juiz não titubeia em marcar pênalti, mesmo que a bola já tivesse rolado para fora do campo há algum tempo. Para muitos, o veredito do homem de preto foi um roubo contra a nossa seleção. Para outros, contudo, foi apenas mais uma das “domingadas” do zagueiro flamenguista. A cobrança é convertida por Meazza, e o Brasil acaba ficando de fora da grande final.

 

Nas ruas, a plebe caminha sem direção, como habitantes de um formigueiro destruído, atônita com o escândalo da derrota. O eco distante de um dia parecido, passado em Buenos Aires no ano de 1923, parece tomar conta do ar, das praças, dos bondes, dos corações e mentes. Na ocasião, a “Rainha do Prata” estava atenta, velando pelo sucesso de Ángel Firpo, cidadão argentino, pugilista peso-pesado que encontrava-se em Nova Iorque com a missão de destronar o grande Jack Dempsey. Dempsey, nos embriagantes anos 20 norte-americanos, onde a festa parecia nunca ter hora para acabar entre orquestras de jazz e champagne, foi um dos primeiros ídolos esportivos do país, sendo seu nome sinônimo de admiração e orgulho.

 

Firpo podia não gozar do mesmo cartaz do colega ianque, mas era um osso duro de roer, tendo derrubado, inclusive, o ex-campeão Jess Willard alguns meses antes. Apelidado de o “Touro Selvagem dos Pampas”, tinha o olhar intrigante e desafiador, os cabelos com gomalina penteados para trás e, mais importante do que tudo, a capacidade de absorver golpes em profusão sem pestanejar. Quando soou o gongo, a multidão presente ao Polo Grounds presenciou cenas de rara brutalidade e emoção. Dempsey derrubou Firpo nada menos do que sete vezes, apenas no primeiro assalto! Entretanto, um golpe rápido e violento do argentino conseguiu a proeza de mandar Dempsey para fora do ringue, arremessando o campeão através das cordas, rumo à mesa onde ficavam os homens da imprensa.

 

Em Buenos Aires, a loucura tomou conta da turba reunida nas cercanias do Palacio Barolo. O prédio, na época o mais alto da América Latina, havia sido recém inaugurado, e sua arquitetura impressionava a todos. Projetada pelo italiano Mario Palanti, a obra continha várias referências a Dante Alighieri e sua “Divina Comédia”, como o número de metros da torre condizendo com o número de cantos do poema, por exemplo. A intenção de Luis Barolo, idealizador do prédio da Avenida de Mayo, era trazer os restos mortais de Dante e depositá-los em um santuário no edifício, algo que nunca aconteceu.

 

No alto da cúpula do Barolo, foi instalado um farol para informar sobre a peleja que acontecia em Nova Iorque. Luz azul quando Firpo estivesse atacando, luz vermelha quando Dempsey fosse o agressor. No momento em que a luz azul rasgava o céu para alegria do povo portenho, Dempsey encontrava-se estatelado sobre uma fileira de máquinas de escrever, em uma das cenas mais incríveis da história do boxe. Infelizmente para Firpo e sua torcida, as coisas não acabariam da melhor maneira. O tempo transcorrido entre a queda de Dempsey e o seu retorno ao ringue foi muito superior aos dez segundos da contagem normalmente efetuada pelo juiz, fato que deu origem a uma polêmica que sobrevive até os dias de hoje.

 

No segundo assalto, já recuperado, o pugilista ianque finalmente nocauteou Firpo, pondo fim ao memorável combate. A notícia viajou pelo telégrafo até os operadores do farol nas alturas do Palacio Barolo. Então a luz vermelha surgiu apocalíptica no horizonte, tenebrosa como as labaredas do inferno de Dante, castigando a turba que vagava cegamente em busca da ilusão perdida nas calçadas. Ardendo entre as garras do fogo, o céu cobriu a cidade com uma cortina de veludo escarlate, encerrando o último ato do trágico espetáculo.  

 


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14/09/2013 - 23h09min

Poema para uma amiga virtual

Agora que te vi em uma rede social

Menina de lisos cabelos platinados

Sorriso maroto e lábios vermelhos

Em fotos tiradas na frente do espelho

 

Agora que estou no escuro da sala

Sozinho pensando lindos devaneios

Como um cego vidrado na tela brilhante

Onde mil rostos passam em um só instante

 

Queria mergulhar

No poço negro e molhado

Dos teus olhos

Meigos e profundos

 

E se um dia

Na rua eu te achasse

Com emoção pediria 

Como vai você?

 

 

                                                                *         *         *

 

 

Vitória importante do Caxias contra o Crac. Mais do que os três pontos na tabela e a liderança da chave, o esquadrão grená, com o resultado, ganha novo fôlego para a sequência da competição. O time tocou a bola como há muito tempo não fazia, diante de um bom público na tarde quente do inverno que se aproxima do final.

 

A tabela entre Walacer e Zambi surtiu efeito finalmente, trazendo um sopro de esperança para a torcida, ávida por um pouco de beleza no futebol apresentado pelo time. Trípodi mostrou ser o guerreiro de sempre, brigando pela posse da bola no ataque com destemor. Zé Mário pode ser um valioso elo de ligação no meio campo, e a dupla de zaga Jean e Tiago mais uma vez rechaçou os ataques inimigos sem maiores problemas.

 

A hora é de dar apoio total e irrestrito ao técnico Picoli e ao plantel, a cada jogo que passa o Caxias está mais perto da Série B! Este agradável cenário, contudo, não pode trazer qualquer tipo de relaxamento. Contra o Madureira, a tropa bordô deverá entrar em campo com a faca entre os dentes outra vez, mas sem deixar que ações urdidas com critério e inteligência façam parte do seu repertório de jogadas.

 


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09/09/2013 - 21h09min

A arte salva, a fama condena

Conheci a história de Wladyslaw Szpilman através do filme “O Pianista”, de Roman Polanski. Escondido como um rato entre os escombros de Varsóvia durante a Segunda Guerra, o músico judeu atravessa maus bocados e está à beira da morte quando, finalmente, é encontrado por um capitão nazista. A lógica dos fatos apontaria para o fim do pobre homem, sendo mandado de volta a algum campo de concentração, ou, pior, tendo os miolos estourados com uma bala na cabeça no mesmo instante. Mas a vida reserva surpresas. Graças ao seu talento musical, Szpilman acaba enternecendo o carrasco, ao dedilhar, no piano da mansão em ruínas onde estão, uma balada de Chopin. O alemão, Wilm Hosenfeld era seu nome, não apenas poupa sua presa como lhe dá comida e um casaco, garantindo a sobrevivência de Szpilman.

 

Alguns anos se passaram e um novo tipo de música surgiu. Era o rock’n’roll, matéria feita de menos lirismo e mais picardia, eletricidade e um cantor com brilhantina no cabelo animando adolescentes histéricas. Mais tarde vieram as bandas, tocando alto e pesado. Seus integrantes eram geralmente cabeludos branquelas, como Paul “Ace” Frehley, um rapaz normal de Nova Iorque, que tinha na guitarra sua fiel companheira. No desolado bairro do Bronx, Ace, que não era muito afeito aos estudos, em um determinado momento acabou adernando para a marginalidade. Membro de uma gangue, sem muita perspectiva de um futuro sólido, seu destino era incerto. Entretanto, prevaleceu o amor pela música e o ritmo frenético do rock. Em suas reminiscências, Ace, que depois faria sucesso junto com o grupo Kiss, confessa que o fato de tocar guitarra abriu novas portas para ele, impedindo que o hábito de crimes o levasse a um triste final.

 

Se pararmos para pensar, veremos que a arte pode salvar a vida de uma pessoa. E ela não precisa dominar algum instrumento para tanto. Qualquer um que assista a um bom filme, peça de teatro, escute uma música ou leia um livro, poderá encontrar nessa atividade um poderoso lenitivo, e, até mesmo, um novo sentido na sua vida. Curiosamente, a arte possui uma parente chamada fama. Com suas carícias de popularidade e poder, a fama transforma o ser humano para o bem e o mal. Mas também é uma armadilha, onde muitas celebridades involuntariamente acabam caindo.

 

Ace Frehley, na sua juventude, era fã da banda inglesa Rolling Stones. Porém, foi sobre um dos “quatro garotos de Liverpool”, rivais dos Stones, que a fama aplicou a sua peça mais dantesca. John Lennon, grande mentor intelectual dos Beatles, foi atacado por um louco, sendo morto a tiros com apenas 40 anos de idade. É claro que o ato do assassino foi um caso isolado, fruto de uma demência extrema. Mas não deixa de ser um indício de que a fama pode trazer consequências terríveis. Lennon era um sujeito pacato, vejam só. Não se perdeu na noite, na boemia ou no trago, tinha a “cabeça feita”. Nunca procurou o perigo, como James Dean ou Jim Morrison. A sua arte lhe rendeu fama, mas foi só a fama a causadora da sua morte.

 

Se por um lado a presença da fama é capaz de gerar uma tregédia, em certos casos a sua ausência pode ser ainda pior.  Como na realidade do artista que acaba se frustrando por não obter sucesso com o seu trabalho, por exemplo. Quando o pintor Van Gogh morreu, um dos seus problemas era a depressão. Uma doença que pode ter sido provocada pela falta de reconhecimento de suas obras junto ao público. Se tivesse tido um pingo de fama, talvez a história de Van Gogh acabasse de outro modo.

 

Voltando para o espectro da arte, mais do que um alento para o cidadão comum, ela é ainda uma forma de inclusão social (basta lembrarmos do maestro Dudamel com suas orquestras para jovens), além de uma ideia e um sonho bom a ser perseguido. E, o mais importante, não precisa da fama para existir. Esta, na maioria das vezes cresce no vácuo de circunstâncias que pouco tem a ver com a arte, em ambientes de larga difusão e superficialidade, sendo resultado de uma máquina promocional, passageira e artificial.

 

Mas é inegável que tanto a arte como a fama vivem no mesmo mundo, como duas vizinhas rabugentas, envolvendo os reles mortais ora com a suavidade de uma clave de sol, ora com a violência de um punho de ferro.

 

                                                                         *       *        *

 

Gostaria de extravasar meu sincero agradecimento aos professores Jeferson, Leda e Glaci, da escola Dante Marcucci, bem como a diretora Liciene Vaccari e a professora Vera da 4ª CRE. Na última quinta-feira estive falando com os alunos sobre meus livros, o esporte, a literatura e outras coisas da vida. Para minha surpresa e emoção, a sala estava toda decorada com trabalhos feitos pela gurizada, como desenhos, maquetes e dicionários relacionados ao tema futebol. Os alunos, que já haviam lido trechos dos meus livros, fizeram perguntas, abrindo um leque de interpretações até então desconhecidas por mim. Por outro lado, espero ter deixado alguma coisa de positivo para esses jovens pairando no ar entre as palavras.

 


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01/09/2013 - 12h09min

Coroa de lata

Os músicos da orquestra

Com seu peito estufado

Em uma heróica sinfonia

Vibram no palco aveludado

 

Tudo é tão lindo e radiante

E na seção dos violoncelos

Apareceu um casalzinho

Entre sorrisos amarelos

 

Doutores usam seus jalecos

Cortando fundo na ferida

Em suas mãos o bisturi

E o rumo de uma vida

 

Quanta nobreza e fidalguia!

Nesta nobre profissão

Todo médico é sem dúvida

Um notável cidadão

 

E nos salões do tribunal

Soa brilhante glossário

Onde o juiz é a estrela

Tecendo o seu comentário

 

Tem um anel de rubi

O distinto magistrado

Tem poderes e prestígio

Nosso caro advogado

 

E o poeta quem será?

Que ninguém presta atenção

Chego até a duvidar

Se ele existe ou não

 

Sua coroa de lata

Tem a forja do mistério

Mas não entra nas cabeças

Deste seleto ministério

 


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24/08/2013 - 16h08min

A praça dos mistérios

O bólido azul-marinho roda suavemente pelo asfalto. Estou com o olhar fixo na estrada, a luz dos faróis rasga a escuridão enquanto minha mão pesada repousa sobre o volante. A estrada é sinuosa, a claridade da lua cheia se mistura entre as sombras das árvores ao redor. Vez por outra um carro surge na pista contrária, despertando os sentidos adormecidos. Dirijo alguns metros ainda, antes de entrar à direita e penetrar na simpática província de Nova Milano.

 

Dizem que foi aqui que a imigração italiana teve início em solo gaúcho. Uma rua com um canteiro no meio, algumas casas pitorescas, uma bodega, a torre alta da igreja. Na praça, em breve vai ter início o show do cantor Erasmo Carlos. Um evento de rara fortuna, para um lugar tão afastado das metrópoles e cidades. Não posso perder essa, penso enquanto desligo o motor. Deixo o carro em um terreno baldio nas cercanias, parece que toda a população do lugar estará presente para conferir o ídolo das matinês da jovem guarda. O vento gelado da noite açoita meu rosto, enquanto caminho devagar pela calçada. A praça está tomada com bancas de artesanatos e guloseimas, tudo faz parte da programação de um encontro de folclore italiano, inclusive o concerto do “Tremendão”. Vago em direção a uma tenda onde está escrito: “agnolini frito”. Vivendo e aprendendo, penso com meus botões. Para mim, agnolini era só para colocar na sopa, mas o gringo que é gringo tem lá os seus luxos. Experimento a iguaria sentado em um banco de pedra, degustando o agnolini como se fosse pipoca, junto com um copo de quentão.

 

Assim que soam os primeiros acordes do show, constato que Erasmo continua em forma. Mesmo com toda a sua extensa ficha de serviços prestados à música brasileira, o homem segue compondo novos temas. Mas foi quando ele tocou um dos seus antigos sucessos que eu vibrei de verdade. “Sou uma criança não entendo nada”, filosofa Erasmo, provando que o eterno garoto está vivo. À medida  que avança o carrossel de lindas canções, passo a observar o povo reunido ao redor do palco. O que estaria se passando dentro da cabeça da “nona” na minha frente? Trajando um casaco de lã sobre o corpinho frágil, óculos de aros grossos e cabelo tingido de vermelho, talvez tivesse idade similar à do astro. Ainda que o mundo frenético do rock’n’roll fosse estranho para ela, acompanhava o show com atenção, as luzes coloridas refletindo em seu rosto branco e enrugado.

 

Quando o roqueiro que há em Erasmo cede espaço ao cantor romântico, o resultado é ainda mais devastador. Frutos da sua parceria com Roberto Carlos, como “Sentado à beira do caminho” e “Detalhes”, são resgatados em um instante mágico, fazendo com que eu vire o pescoço na tentativa de encontrar os olhos da bela morena que está um pouco atrás. Ela retribui com o rosto sério, mas convidativo, preenchendo meus sonhos de calor humano e fantasia. Enquanto isso, muito à vontade na ribalta, o Tremendão é o dono da noite. O amor está nos corações, e o responsável por isso é o bardo dos cabelos prateados. Sucedem-se novos lapsos de emoção e nostalgia, até que o concerto ruma para o seu momento derradeiro. Entre as palmas, o gelo seco e a apoteose do “gran finale”, tento outra vez avistar a minha musa dos olhos amendoados.  Onde terá ido a doce criatura? Não a vejo mais, quanta desilusão! 

 

A turba vai se dissipando aos poucos, enquanto parto em busca da minha carruagem de aço. Novos caminhos repousam à frente, prontos para serem desbravados. Entretanto, por mais que eu tente, nenhum deles vai me levar de volta àquela praça, com suas tradições, mistérios e desejos pairando no ar gelado de um sábado à noite.      

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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