11/11/2013 - 23h11min

Uma paixão maquinal

Tarde quente e abafada em Porto Alegre. O mormaço é sinal de chuva, mas ela só viria  dias depois, causando destruição e alagamentos na cidade. Estou andando pelas calçadas da Lima e Silva, lembrando dos tempos em que eu era apenas um estudante morando na vizinhança. O clima boêmio das ruas perdeu um pouco do seu mistério e encanto, agora os bares estão revigorados, há uma nova fachada em quase todos, e o ar parece mais limpo e pasteurizado. Subitamente reencontro, entre a sombra das árvores, um dos botecos onde eu e meus colegas tínhamos “carta branca”. Não resisto ao convite da nostalgia e sento para beber uma cerveja.

 

Um grupo de rapazes conversa na mesa ao lado, as palavras ditas com inconfundível sotaque português. Há um hotel perto do bar, certamente é de lá que saíram os distintos europeus. Quem seriam eles? Estudantes, médicos (que agora eles vem de fora), estagiários de alguma multinacional, turistas...De qualquer modo, dentro da minha mente limitada, o assunto futebol surgiu como uma tentativa razoável de estabelecer contato com aqueles estrangeiros. Tomei mais um gole para dar tempo e abrir espaço à investida. Afinal, nada mais deselegante e perigoso do que abordar estranhos com tolices. “Ô garoto, pode me dizer quem foi melhor? Eusébio ou Cristiano Ronaldo?”.

 

O rapazola olhou desconfiado, surpreso com a questão inusitada feita por aquele brasileiro desagradável, que, afinal, podia ter ficado de boca fechada. A resposta foi curta e grossa, Cristiano Ronaldo era o melhor. Enquanto eu processava aquela sentença desconcertante, o grupo levantou-se para deixar o estabelecimento. Um dos gajos da turma, contudo, antes de sair explicou-me que o seu amigo, como torcedor do Porto, jamais daria uma colher de chá ao famoso “Pantera Negra”, mesmo que este tivesse prestado inúmeros e relevantes serviços à seleção portuguesa. Tudo isso apenas porque Eusébio havia sido um dos grandes ídolos do Benfica, famigerado rival do Porto.

 

Mais do que aprender uma curiosidade sobre a cultura esportiva lusitana, ficou nítido para mim que o ódio cego das plebes, quando se trata de adorações clubísticas, é algo incontornável, não só aqui como em várias partes do mundo. A resposta do rapaz me pareceu, afinal, uma fraude, um impulso sentimental e sanguíneo, sem qualquer dose de raciocínio ou meditação. Fiquei triste com aquilo, pois além de persistir a minha dúvida (apesar de sabermos bem como é difícil comparar craques de épocas diferentes), persistiu também a sensação de que o futebol nos leva a atitudes mesquinhas. A verdade de cada um costuma ser feita de uma paixão maquinal por esta ou aquela cor, sufocando um pouco a beleza que habita os gramados e os bares da vida.

 


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02/11/2013 - 15h11min

Os cigarros do meu amor

Estou fumando os cigarros do meu amor

Enquanto ela está na cama exalando todo o seu calor

É noite alta e sou refém da madrugada

Dorme em paz, amor, enquanto eu sigo as tuas pegadas

 

A luz da lua banhando o teu corpo nu

Me fez bater nas portas do paraíso

Hei de velar teu sono até o sol nascer

Mesmo que eu saiba que amanhã vou te perder

 

E como é triste esta certeza dentro em mim

De que o romance cedo ou tarde vai ter fim

E eu que queria ficar sempre do teu lado

 

Já adivinho as garras vis da solidão

Que no futuro, entre outros tragos de alcatrão

Hei de sentir enquanto lembro do passado

 

 

                                                                  *         *         *

 

 

Está terminado o sonho do Caxias de voltar à Serie B do campeonato brasileiro. Pelo menos por enquanto, o torcedor terá que enrolar a bandeira e dar adeus às tardes de futebol com um gosto amargo na boca. A luta do time pelos gramados do país afora foi heróica e repleta de belos momentos. Entretanto, é preciso reconhecer que o Caxias está pecando, nos últimos anos, pela falta de um maior poder de decisão e contundência, principalmente quando chega a hora da verdade, e é preciso liquidar o adversário sem escrúpulos.

 

A perda da vaga contra o Luverdense foi um duro golpe, uma derrota que pode ser incluída entre as maiores da história recente do Caxias. Quando soou o apito final do juiz no estádio Centenário, no jogo contra a equipe do planalto, o castelo construído pacientemente pela torcida ruiu de forma implacável e cruel. O time grená esteve apático, atuando dentro de seus domínios com uma ingenuidade apavorante. A partida de volta, em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, acabou sacramentando o triste final de uma campanha irregular, onde faltou um pouco mais de experiência aos pupilos de Picoli, fazendo valer a tradição da camisa grená e da raça gaúcha. Talvez tenha havido um excesso de jogadores técnicos, que primam pelo toque de bola, deixando o ataque leve demais. Mesmo que eu considere Wallacer, Zambi e Charles Chad excelentes atletas, parece que a trinca carioca ficou devendo durante a competição. É verdade que outros setores da equipe também renderam menos do que o possível, então não é hora de eleger culpados pela derrocada.

 

Que venham os prazeres do verão e das férias! Deixemos que as paixões e desilusões do futebol permaneçam em segundo plano, adormecidas em um túmulo de pedra. Mas que as lições da temporada que passou sirvam ao clube como inspiração para novos voos no futuro, levando o Caxias, enfim, a conquistar o seu espaço entre as maiores equipes do nosso popular esporte.

 


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26/10/2013 - 15h10min

O vilão galante

A grande polêmica da semana que passou foi o pênalti perdido pelo atacante Alexandre Pato. Ao desperdiçar sua cobrança na decisão contra o Grêmio, sendo hipnotizado por Dida e recuando a bola mansamente para o veterano arqueiro, Pato tornou-se o alvo da fúria da torcida corintiana. Pode ter sido a gota d’água em uma relação que mal começou e já está ameaçada, como um amor que morre ainda em botão.

 

Desde cedo paparicado e envolvido pelo mundo da mídia, o garoto Alexandre Pato acabou acostumando-se com as carícias da fama e da fortuna, ainda mais depois que foi vendido pelo Internacional ao Milan. Em gramados europeus, contudo, Pato passou por momentos difíceis. Seu problema foram as lesões, segundo alguns observadores, resultantes de um método de preparação física inadequado. Para piorar a situação e fazer a alegria das revistas de fofoca, a vida pessoal e amorosa do craque virou uma gangorra de encontros e separações alucinante, incluindo seu casamento-relâmpago com uma bela atriz, e um caso com a filha do poderoso chefão do Milan e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi. “Il Cavaliere”, cada vez mais acossado pela justiça italiana em razão de festinhas com adolescentes e outras fraudes, mal teve tempo de aproveitar a companhia do novo genro. Pato acabou voltando para o Brasil, em uma transação milionária que teria rachado o elenco do Corinthians. O coquetel misturando fama, beleza e dinheiro acabou explodindo agora, depois do malfadado pênalti cobrado pelo jovem camisa sete.

 

Com seu rosto de “baby Johnson”, sorriso permanente nos lábios e uma agenda típica das celebridades da noite e do mundo da moda, Pato foi eleito como o vilão que a massa alvinegra buscava para aplacar a sua sede de vingança. Desiludido com os péssimos resultados do time, oprimido pela riqueza inalcançável e exorbitante de seus ídolos, o aficionado corintiano não pôde conter o sentimento de amargura no peito, extravasando sua ira contra o galante artilheiro. Entretanto, assim como nas cores da bandeira do Corinthians, nem tudo é totalmente preto ou branco. Pato tem feito gols importantes, ajudando o seu clube sempre que possível, nunca deixando de ser profissional. Como esquecer as suas duas proezas contra o Bahia, em plena Fonte Nova, ou do oportunismo ao fazer o gol da vitória contra o Criciúma recentemente?

 

Ninguém desaprende a jogar futebol de uma hora para outra. Pato é, sim, um grande jogador. Além de seriedade na hora fatal de bater seu pênalti na última quarta-feira, o que tem faltado ao prodígio atleta é um pouco mais de introspecção. Apenas se afastando das luzes frenéticas dos holofotes, em silêncio, rumo às sombras da sua própria alma, Pato poderá conquistar outra vez o coração do torcedor mais humilde. É lá, afinal, onde mora a sabedoria que separa os homens bons e maus dentro do velho esporte bretão.

 


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13/10/2013 - 13h10min

Devaneios e saudades na feira do livro

Agora que terminou a 29ª Feira do Livro de Caxias do Sul, gostaria de trazer à tona algumas reminiscências do que eu vi e vivi durante o evento. Caminhando sobre as pedras coloridas da praça Dante, entre os bancos e barracas de madeira, logo senti de volta a alegria típica que cerca o encontro do povo com o mundo misterioso  da literatura. Desde a criança até a vovó, todos queriam ver, tocar e aproveitar esse sonho passageiro, mas real, onde a imaginação e as palavras reinam absolutas. De repente, vislumbro as figuras inconfundíveis de Luis Narval e Maikel de Abreu conversando próximos à cerca de um canteiro e uma poça d’água. Como sempre, tivemos dias chuvosos nessa Feira. Intrometo-me no colóquio dos distintos colegas escritores, procurando encontrar um sentido e um rumo a seguir na epopeia literária em que estamos perdidos.

 

Para o escritor, de uma certa forma é vedado o prazer tão singelo de passear entre as bancas mansamente, como fazem as pessoas que não tem livros publicados. Pelo contrário, a preocupação de verificar se os nossos livros estão expostos de forma visível nas estantes acaba sendo um fardo. Oh, como eu gostaria de apenas folhear e mergulhar nas páginas dos volumes que se oferecem à investigação meticulosa e profunda! Mas não, meu dever é fiscalizar, como um inquisidor cruel, onde e como estão as minhas obras. Para piorar, o mau humor de alguns livreiros é evidente, evitando o contato com o escritor até o último instante, desviando o olhar cinicamente, como se ele fosse uma espécie de leproso ou tarado. Dentro de um ramo onde a emoção e o lirismo são o combustível necessário para a criação, encontramos situações onde as relações são travadas de forma fria e ignóbil, e onde as pessoas são tratadas com desdém, contrariando um pouco a lógica de que, no fim, somos todos  seres humanos. Por outro lado, esse cenário de desencanto e desencontro também serve de tema para a literatura, então parece que é um ciclo que se fecha.

 

Tais devaneios tomam conta da minha mente enquanto ando devagar pelos corredores da Feira. Digo olá à Angela Broilo e cumprimento Leandro Angonese, mas seria impossível relacionar todos os poetas e artistas que circulam em profusão pelo ambiente cinza do final de tarde. E como esquecer a palestra do baiano Antônio Torres, um dos monstros sagrados da nossa literatura? Mediado pelo cronista Tiago Marcon, o bate-papo terminou da forma mais agradável possível, com Antônio autografando suas obras e brindando a todos com sua experiência e simpatia. Nessa Feira, ainda, tive a alegria de lançar meu novo livro, “Lições da Barbearia”, e rever amigos e colegas há muito tempo distantes. 

 

A partir de agora, tudo é saudade. A imensa planície que se abre diante dos meus olhos, repleta de novos desafios e compromissos, hei de percorrer, até que venha a Feira do Livro do próximo ano, com seus paradoxos de fantasia e ilusão surgindo como um oásis no deserto. 

 


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05/10/2013 - 15h10min

O escritor grená

Lá vem o escritor grená

Descendo a rua da favela

De sapato engraxado

Em uma tarde triste e bela

 

Pelos caminhos tortuosos

Até o estádio Centenário

Entre as praças da cidade

E a turba de operários

 

Olhando além do horizonte

Versando com maestria

Sobre os grandes esquadrões

Da história do Caxias

 

Campeão municipal

No ano de quarenta e sete

Quando ainda era Flamengo

O nome do temido escrete

 

O loiro craque Alemãozinho

Provocava frenesi

Vazando as redes inimigas

Com os irmãos Sady e Lady

 

Alguns anos se passaram

Pelas pedras do cemitério

Bem do lado do gramado

Onde nascem os mistérios

 

E onde um baita goleador

Surgiu de forma repentina

Bebeto, o Canhão da Serra

Ficou gravado na retina

 

Com seu faro de artilheiro

E calças boca de sino

Foi o símbolo de uma era

Que encantou muito menino

 

Tudo isso e muito mais

O escritor sabe de cor

Caminhando pela estrada

Sem temer pelo pior

 

Aquecendo os corações

E iluminando o breu

Relembrando lindos times

O escritor grená sou eu

 


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01/10/2013 - 23h10min

Asilo de trambiques

Com um gol marcado de forma irregular, a Juventus venceu mais uma partida dentro do campeonato italiano. Dessa vez, a vítima da escandalosa ajuda concedida pelos juízes à equipe do técnico Antonio Conte foi o Torino, uma esquadra humilde e trabalhadora, que mora do outro lado da rua da mansão alvinegra. A bela cidade de Turim, berço das eternas rivais, foi palco de uma espécie de assalto à mão armada executado com frieza pela “velha senhora” dos gramados. Um crime sinistro, cometido sem remorso contra a própria vizinha e irmã. O lance teve início após a cobrança de um escanteio em que Tevez, em nítida posição de “fuorigioco”, cabeceou a bola na trave. No rebote, o francês Pogba realizou o único e imerecido tento da partida. 

 

A Juventus está sendo favorecida pela arbitragem de forma deslavada e apavorante, algo que, diga-se de passagem, não chega a ser nenhuma novidade no mundo do “calcio”. No clássico do último final de semana, repetiram-se os estranhos fatos ocorridos no jogo da "vecchia signora" contra o Chievo, na rodada anterior, quando a equipe vêneta teve um gol absolutamente legal do atacante Paloschi anulado. Coincidências demais, mesmo para o mais imparcial dos observadores. Com a sua tremenda cara de pau, essa simpática velhinha me fez lembrar de uma personagem do escritor Stanislaw Ponte Preta.

 

A velhinha, com seus óculos de lentes grossas e cabelos prateados, cruzava a fronteira todos os dias em uma lambreta. Como ela carregava sempre um saco nas costas, o guarda desconfiou. Revista daqui, inspeciona dali, o conteúdo do maldito saco era apenas areia. Após jurar guardar segredo, o policial ouviu da esperta vovó qual era, na verdade, o produto do contrabando. Sem que ninguém desconfiasse, a velhinha dos dedos leves estava levando lambreta como muamba! Uma crônica típica de Stanislaw, cheia de humor e picardia.

 

E agora, eis que ressurge com esplendor a velhinha de Stanislaw, varando as ruas e a madrugada de Turim com a sua lambreta envenenada.  Quantas aventuras ainda fará ela, pilotando a motoca de forma selvagem na busca do prazer da contravenção? Jamais saberemos. Tudo que se vê, entre as sombras da noite, é o vulto do seu corpinho frágil guardando a lambreta na garagem e entrando sorrateiramente no asilo outra vez. Calçando as pantufas e tricotando novelos de lã ao lado de um gatinho, a vovó sorri sem dentes, enquanto acaricia a flâmula da Juventus na parede.

 


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23/09/2013 - 22h09min

Fogo no céu

O som estridente da sereia tocou, alertando os cidadãos de São Paulo. Era gol de Leônidas da Silva para o Brasil, quebrando a rotina daquele dia útil de trabalho nos escritórios, lojas e ruas da metrópole. A sereia, na verdade, era um artifício usado no distante ano de 1938 para informar sobre o andamento das partidas na Copa da França. Tratava-se de uma espécie de sirene, instalada no alto do prédio do jornal “A Gazeta”, e que podia, conforme o seu toque, mais grave ou mais agudo, denunciar gol contra ou a favor do time treinado por Ademar Pimenta.  O Brasil acabou despachando a Tchecoeslováquia, mas perderia o craque e artilheiro Leônidas, contundido, para a sequência do torneio.

 

A partida contra a Itália, realizada em Marselha, teria contornos épicos, e acabou famosa em razão de um lance protagonizado pelo grande Domingos Da Guia. Provavelmente Domingos tenha sido provocado pelo esperto atacante Piola durante uma ação da “squadra azzurra” contra a meta do goleiro Walter. O fato é que a "Estátua Noturna" foi tomada pelo fogo da fúria, e, contrariando seu caráter plácido, agrediu o italiano vilãmente. O juiz não titubeia em marcar pênalti, mesmo que a bola já tivesse rolado para fora do campo há algum tempo. Para muitos, o veredito do homem de preto foi um roubo contra a nossa seleção. Para outros, contudo, foi apenas mais uma das “domingadas” do zagueiro flamenguista. A cobrança é convertida por Meazza, e o Brasil acaba ficando de fora da grande final.

 

Nas ruas, a plebe caminha sem direção, como habitantes de um formigueiro destruído, atônita com o escândalo da derrota. O eco distante de um dia parecido, passado em Buenos Aires no ano de 1923, parece tomar conta do ar, das praças, dos bondes, dos corações e mentes. Na ocasião, a “Rainha do Prata” estava atenta, velando pelo sucesso de Ángel Firpo, cidadão argentino, pugilista peso-pesado que encontrava-se em Nova Iorque com a missão de destronar o grande Jack Dempsey. Dempsey, nos embriagantes anos 20 norte-americanos, onde a festa parecia nunca ter hora para acabar entre orquestras de jazz e champagne, foi um dos primeiros ídolos esportivos do país, sendo seu nome sinônimo de admiração e orgulho.

 

Firpo podia não gozar do mesmo cartaz do colega ianque, mas era um osso duro de roer, tendo derrubado, inclusive, o ex-campeão Jess Willard alguns meses antes. Apelidado de o “Touro Selvagem dos Pampas”, tinha o olhar intrigante e desafiador, os cabelos com gomalina penteados para trás e, mais importante do que tudo, a capacidade de absorver golpes em profusão sem pestanejar. Quando soou o gongo, a multidão presente ao Polo Grounds presenciou cenas de rara brutalidade e emoção. Dempsey derrubou Firpo nada menos do que sete vezes, apenas no primeiro assalto! Entretanto, um golpe rápido e violento do argentino conseguiu a proeza de mandar Dempsey para fora do ringue, arremessando o campeão através das cordas, rumo à mesa onde ficavam os homens da imprensa.

 

Em Buenos Aires, a loucura tomou conta da turba reunida nas cercanias do Palacio Barolo. O prédio, na época o mais alto da América Latina, havia sido recém inaugurado, e sua arquitetura impressionava a todos. Projetada pelo italiano Mario Palanti, a obra continha várias referências a Dante Alighieri e sua “Divina Comédia”, como o número de metros da torre condizendo com o número de cantos do poema, por exemplo. A intenção de Luis Barolo, idealizador do prédio da Avenida de Mayo, era trazer os restos mortais de Dante e depositá-los em um santuário no edifício, algo que nunca aconteceu.

 

No alto da cúpula do Barolo, foi instalado um farol para informar sobre a peleja que acontecia em Nova Iorque. Luz azul quando Firpo estivesse atacando, luz vermelha quando Dempsey fosse o agressor. No momento em que a luz azul rasgava o céu para alegria do povo portenho, Dempsey encontrava-se estatelado sobre uma fileira de máquinas de escrever, em uma das cenas mais incríveis da história do boxe. Infelizmente para Firpo e sua torcida, as coisas não acabariam da melhor maneira. O tempo transcorrido entre a queda de Dempsey e o seu retorno ao ringue foi muito superior aos dez segundos da contagem normalmente efetuada pelo juiz, fato que deu origem a uma polêmica que sobrevive até os dias de hoje.

 

No segundo assalto, já recuperado, o pugilista ianque finalmente nocauteou Firpo, pondo fim ao memorável combate. A notícia viajou pelo telégrafo até os operadores do farol nas alturas do Palacio Barolo. Então a luz vermelha surgiu apocalíptica no horizonte, tenebrosa como as labaredas do inferno de Dante, castigando a turba que vagava cegamente em busca da ilusão perdida nas calçadas. Ardendo entre as garras do fogo, o céu cobriu a cidade com uma cortina de veludo escarlate, encerrando o último ato do trágico espetáculo.  

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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