04/01/2014 - 12h01min

Esporte, violência e hipocrisia

Tenho ouvido comentários reclamando do banho de sangue, transmitido ao vivo pela televisão, decorrente das lutas do evento denominado UFC. Especialmente agora, quando a grave lesão sofrida pelo brasileiro Anderson Silva transcorreu diante dos olhos de milhões, a ojeriza por esse tipo de violência espetacular, incompreensível para muitos, parece atingir o ápice.

 

Na verdade, a modalidade chamada MMA, ou “artes marciais mistas”, pode ser considerada uma espécie de involução de um esporte de verdade, e que hoje se encontra condenado ao ostracismo e ao desdém da grande mídia. Estou falando do boxe, prática que tem suas raízes na Inglaterra vitoriana do século XIX. Desde então, o caráter brutal do pugilismo tem sido tema de críticas e controvérsia, ao mesmo tempo em que desperta empatia e interesse popular. Afinal, não é absurdo considerá-lo um reflexo, ainda que indesejado, da própria natureza humana, com suas nuances obscuras de ódio e retaliação.

 

Com o passar dos anos, o boxe tornou-se uma profissão. Um ofício arriscado e grotesco, mas que, de acordo com a astúcia e força do sujeito, poderia render muito mais dinheiro do que os empregos convencionais. Além disso, o boxe tornou-se uma saída, talvez a única, para muitos jovens acossados pela miséria e a delinquência das ruas. Antigos criminosos, como, por exemplo, Jake La Motta, Sonny Liston e Mike Tyson, puderam extravasar a sua veia assassina dentro dos ringues, galgando os cumes da fama e da fortuna. Assim como eles, uma infinidade de marginais anônimos encontrou, através do boxe, uma maneira de sobreviver dignamente, como homens, atletas e cidadãos.  

 

Horas depois do malfadado combate protagonizado por Anderson Silva, o ex-piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher sofreu um terrível acidente enquanto esquiava nos Alpes Franceses. Curiosamente, ninguém protestou, ou se escandalizou com a violência do episódio. Após desafiar a morte durante anos a bordo de um bólido capaz de atingir velocidades magníficas, o piloto alemão, agora aposentado das pistas, continuou trilhando caminhos grandiosos em sua busca frenética pelo perigo e aventura. Essa ânsia parece ser, assim como a raivosa troca de golpes nos ringues, um comportamento indissociável em muitos de nós.

 

Alcançar a montanha mais alta, ou o ponto mais fundo do oceano, superando os limites do tempo e do espaço, nunca foi uma tarefa simples. Talvez por isso, os pilotos de Fórmula 1 mortos em desastres, como Ayrton Senna, sejam vistos como heróis. O risco “procurado” pelos ases do volante, em suas desvairadas corridas no asfalto, nunca foi condenado pela sociedade, nem foi visto como aquilo que talvez ele seja na verdade: um simples e vil capricho de jovens magnatas privilegiados. 

 

Portanto, vale a pena lembrar que o sangue derramado é o mesmo, quer seja sob as luzes lúridas de um ringue, quer seja sob o sol que brilha para poucos em uma estação de esqui nos picos nevados europeus.

 


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23/12/2013 - 21h53min

Fábulas do futebol

No ano que passou, o Brasil viveu um momento único em sua história. As passeatas que  sacudiram as ruas no mês de junho apontaram um novo caminho a seguir, com a esperança de menos desigualdades e mais qualidade de vida para o cidadão comum. Ao mesmo tempo, a partir da realização da Copa das Confederações, entramos em um período marcado por eventos esportivos de grande relevo, como a Copa do Mundo, no ano que vem, e as Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016.

 

É importante dizer que tais competições carregam consigo um significado maior, algo que supera questões políticas e religiosas, fazendo com que o amor à pátria volte a ser uma coisa possível. Contudo, o estigma do desperdício de dinheiro na construção de certos estádios é um fato real e detestável. Seria bom se ele pudesse servir como um alerta contra a corrupção atávica que impera no país. Somente quando essa chaga for totalmente extraída da nossa sociedade poderemos apreciar toda a beleza do esporte, com seus dramas de vitórias e derrotas, prazer e dor, luzes e sombras.

 

Voltando nosso olhar em direção ao passado, temos a ideia de como o homem está involuntariamente sujeito aos estranhos desígnios de um simples jogo de bola.  A exemplo do que irá ocorrer agora, em 1950 o Brasil teve a oportunidade de hospedar uma Copa do Mundo, fato que provocou enorme expectativa na população. O futebol já era o esporte nacional por excelência, e a turba que acorreu aos estádios viveu dias de sonho, embalada pelas façanhas de uma equipe sensacional. Craques como Barbosa, Danilo, Zizinho e Ademir tratavam a bola com carinho e maestria, aplicando terríveis goleadas em seus adversários.

 

Antes da partida final contra o Uruguai, o clima de euforia era incontrolável, e ninguém imaginava outro resultado que não fosse a vitória. Entretanto, a empáfia da torcida e da imprensa acabou castigada. O Brasil perdeu o jogo pelo placar de 2 a 1, plasmando para sempre a lenda e a tragédia do “Maracanazo” nos livros dourados do esporte. Foi uma dura lição, que permanece a nos lembrar da importância de valores como humildade e respeito, tanto dentro como fora campo.

 

Que venham 2014 e a Copa! E com eles um futuro mais humano para o país, inspirado nos bons exemplos presentes em uma partida de futebol.

 


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15/12/2013 - 14h12min

Mensagem na garrafa

Escrever é preciso. Entretanto, mais do que uma forma de expressão e uma maneira de humanizar e civilizar-nos, escrever é um caminho repleto de armadilhas. Se a literatura, por um lado, já foi classificada por Poe como sendo “a mais nobre das profissões” (isso em meados do século XIX), aqui no Brasil ela dificilmente pode ser considerada como uma profissão afinal.  Pelo menos para a grande maioria dos escritores, ou aspirantes a tal, não é remunerada a árdua tarefa de lutar contra as teclas do computador em busca de um texto primoroso e bem acabado. Para piorar, além da falta de uma compensação financeira, como ocorria nos Estados Unidos de Poe, onde qualquer poema, resenha, conto ou crônica publicada nos jornais e revistas de então rendiam algum troco ao seu autor, existe ainda a incerteza atroz de que nossos rascunhos, pelo menos, chegarão a um destinatário qualquer.

 

Como bem disse Eduardo Galeano, o ato de escrever é como lançar uma mensagem dentro de uma garrafa no oceano. Esse cenário desolador, especialmente para o autor que não conta com os beneplácitos da grande mídia, leva invariavelmente a uma série de perguntas. Escrever para que, se não sabemos se alguém irá ler os nossos devaneios? De que adianta gastar tempo e neurônios, desperdiçando saliva como um pregador no deserto? O ato de escrever acaba se tornando um gesto de egoísmo, ainda que involuntário e indesejado.

 

Esse raciocínio leva a outras questões. É realmente preciso escrever para o grande público? Não seria esse um desejo apoiado em uma reles vaidade? O sentido do fazer literário não poderia repousar, por exemplo, em alcançar um único leitor que seja, quem sabe mudando os rumos de uma vida, abalando as estruturas de tão somente um indivíduo? É provável que dos milhares de volumes impressos na edição de uma determinada obra, muito poucos irão encontrar o seu verdadeiro e legítimo leitor, aquele que irá ter sua atenção capturada pela leitura, como no caso dos milhões de espermatozóides que ficam pelo caminho, enquanto um apenas atingirá o óvulo.

 

De qualquer maneira, a grande dúvida permanece. Quer seja mirando nas multidões ou em um solitário leitor, o escritor convive com o sentimento triste, mas instigante e desafiador, de colocar no papel as suas entranhas, fazendo um voo cego na busca do eco adormecido da sua arte e da sua própria alma.

 


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01/12/2013 - 18h12min

Maconha e Maracanazo

Ao eliminar a Jordânia na repescagem e carimbar o passaporte para a Copa do Mundo do Brasil no ano que vem, o Uruguai fez com que velhas lendas do futebol viessem à tona. O fantasma do chamado “Maracanazo” passou a rondar saudosistas e profetas do apocalipse de plantão, ressurgindo das sombras com altivez. É inegável que a presença da “celeste olímpica” trará um verniz de drama e nostalgia ao espetáculo, fazendo com que páginas e mais páginas sejam escritas evocando a final da Copa de 1950, quando o Brasil perdeu dentro do recém-inaugurado Maracanã para o time de Obdulio Varela e companhia. Foi um duro golpe, pois além de ter mostrado um futebol bonito durante todo o torneio, gerando grande expectativa entre o público, a seleção deixou escapar a oportunidade única de faturar o caneco jogando dentro da sua casa. Uma nova chance de hospedar o famoso evento poderia levar uma eternidade, pensava o desolado torcedor enquanto via a taça Jules Rimet viajar com destino a Montevidéu.

 

O tempo passou, e agora muita coisa está diferente. A começar pela curiosa situação vivida pelo nosso antigo rival. Uma polêmica lei que legaliza o consumo de maconha está em discussão no Uruguai, e, se aprovada, poderá ser uma alternativa às políticas de repressão geralmente utilizadas ao redor do mundo. A droga seria vendida pelo próprio governo, em pequenas quantidades, para usuários cadastrados previamente. De qualquer maneira, em solo brasileiro, a única erva que poderemos oferecer aos visitantes uruguaios é o popular chimarrão, iguaria apreciadada não apenas lá como aqui entre os gaúchos também, e que não faz mal à saúde de quem bebe. Ou será que faz? Bem, melhor deixar essa pergunta aos cientistas...

 

O que sabemos é que, assim como o mundo mudou, trazendo ideias de vanguarda e revoluções, o time do Uruguai apresenta figuras de outro calibre em seu elenco. No lugar dos mortíferos Gigghia e Schiaffino, a dupla de ataque Suárez e Cavani faz a alegria do torcedor oriental, podendo ser considerada uma das mais fortes do planeta. Além disso, se Diego Forlán apresentar condições, poderá constituir-se em um perigoso reforço na busca do gol.  Afinal, não foi ele eleito o melhor jogador da Copa da África do Sul, em 2010? Desde o banco de reservas, o técnico Oscar Tabarez segue firme no comando do grupo que tentará levar a taça de volta ao país vizinho, 64 anos depois da epopeia do Maracanã.

 

Com erva ou sem erva, vamos receber de braços abertos nossos irmãos sul-americanos. Dentro das quatro linhas, contudo, é preciso atuar sem soberba nem temor, caso o destino nos coloque frente a frente com a celeste outra vez. Só assim poderemos impedir a reprise de um triste episódio, que ainda hoje assusta e intriga a imaginação popular, gerando polêmicas tão indevassáveis quanto o dilema que envolve a questão das drogas ao longo da história.

 


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18/11/2013 - 23h11min

Investigando Vavá

Em um tempo futuro e distante, onde imperam a tecnologia e o frenesi das grandes metrópoles, as relações humanas encontram-se banalizadas, e o amor verdadeiro tornou-se algo tão raro como um trevo de quatro folhas. Nesse cenário sinistro e desolador, foi dada a um detetive a missão de investigar um certo cidadão chamado Edvaldo Izídio Neto.

 

Caminhando incógnito pelas ruas de Recife, o agente inicia os seus trabalhos. Foi lá que, em 1934, nasceu Vavá, o homem a ser seguido. Quando era apenas um garoto de olhos escuros e pele morena, Vavá vivia sonhando com gols e o clamor da turba nos estádios. Vestindo a camisa rubro-negra do Sport, o jovem teve seus primeiros contatos com a realidade dura e fascinante do futebol. Imaginemos Vavá respirando fundo o doce perfume do mar, enquanto vê as ondas se desmanchando na areia da praia de Boa Viagem. Seu destino, sabia bem ele, repousava além da linha do horizonte. A despedida é breve. Ainda menor de idade, Vavá beija seus familiares com emoção, antes de ir para a capital do país, tentar a sorte como jogador profissional.

 

Procurando por pistas, o detetive sem rosto revolve os arquivos de metal do estádio de São Januário. Foi aqui, defendendo as cores do Vasco da Gama, que Vavá tornou-se um terrível carrasco de goleiros. Com sua bravura descomunal, Vavá foi integrante de uma memorável trinca de ases pernambucanos a atuar no clube cruzmaltino. Antes dele, Ademir havia sido um ídolo querido para o torcedor. Também conhecido como “Queixada”, Ademir, inclusive, chancelou a vinda de Vavá para o Rio de Janeiro, sabedor das qualidades e potencial do jovem artilheiro. Veterano de mil pelejas no time conhecido como “Expresso da Vitória”, Ademir preparava-se para pendurar as chuteiras. Mais tarde, outro conterrâneo faria bonito no Vasco. Almir, mais do que um corajoso jogador, foi um personagem polêmico, tema de crônicas de Nelson Rodrigues, e que acabou tragicamente assassinado em uma briga de bar em Copacabana, no ano de 1973. 

 

Com um bloco de papel e lápis na mão, o detetive anota tudo isso com atenção, buscando pequenos vestígios que pudessem jogar luzes sobre o objeto do seu estudo. Em seus começos, Vavá também era um observador. Tanto é que modelou muitas das suas artimanhas e técnicas dentro da área inimiga a partir do estilo do gaúcho Pirilo, notável craque do Flamengo na década de quarenta. Com humildade e paciência, Vavá foi aprendendo os truques do ofício, até se tornar ele próprio um goleador mortífero e contumaz.

 

Depois de conquistar o campeonato carioca de 1956, atuando ao lado de feras como Sabará, Pinga e Valter Marciano, sob a batuta do técnico Martim Francisco, Vavá triunfaria também com a camisa amarela da nossa seleção. Foi na Copa da Suécia que ele começou a pavimentar um lugar no panteão dos monstros sagrados do futebol brasileiro. Ao entrar no lugar de Dida, no jogo contra a Inglaterra, Vavá não sairia mais do time, sendo decisivo contra a URSS, e também na final contra os anfitriões suecos.

 

Em 1962, veio o bi mundial. Dessa vez a conquista foi no Chile, e Vavá deixou sua marca novamente, realizando um gol de puro oportunismo contra a Checoeslováquia. Atrapalhado pelo sol, o goleiro Schroif acabou deixando a bola escapar justamente nos pés de Vavá, que só teve o trabalho de cutucar o couro para o fundo das redes. A essa altura o moço de Recife colecionava títulos e apelidos, como “Leão da Copa” e “Peito de Aço”. Além disso, com o gol antológico marcado contra Schroif, Vavá passou a ostentar a invejável láurea de ser o único jogador a marcar em duas finais de Copa do Mundo. Mais tarde, Pelé, Breitner e Zidane se juntariam a ele, formando um seleto e admirável clube.

 

Juntando os fatos como se fossem peças de um quebra-cabeça, o investigador refaz as pegadas de Vavá. Terminado seu idílio com o Vasco, o atacante embarcou para a Espanha, onde defendeu com sucesso o Atlético de Madri. De volta ao Brasil, Vavá tomou a ponte-aérea e foi jogar no Palmeiras, formando um ataque inolvidável ao lado de Julinho, Servílio e Nilo, quando o clube do Parque Antártica venceu o campeonato paulista de 1963. Depois de atuar em equipes do México e Estados Unidos, Vavá encerrou sua trajetória nos gramados.

 

A vida pessoal de Vavá não foi devassada pelo detetive. A ele importam apenas as peripécias realizadas pelo craque dentro do espectro futebolístico. Sabe, porém,  que durante o seu funeral, um antigo e solitário companheiro de seleção protestou contra a falta de reconhecimento àquele que foi um dos maiores vultos do nosso popular esporte. Muitos anos haviam passado desde os tempos de glória, gols e jogadas emocionantes. Em seus últimos dias, o velho campeão vivia esquecido, voltando a ser notícia apenas na hora triste do adeus. 

 

Missão cumprida. As garras do crepúsculo tomam conta dos céus em Recife. Oculto entre o capote e os óculos escuros, o detetive acende um cigarro. O vento da praia leva a fumaça para longe, fazendo com que as lembranças desapareçam aos poucos, dançando como fantasmas dentro da noite vazia. 

 


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11/11/2013 - 23h11min

Uma paixão maquinal

Tarde quente e abafada em Porto Alegre. O mormaço é sinal de chuva, mas ela só viria  dias depois, causando destruição e alagamentos na cidade. Estou andando pelas calçadas da Lima e Silva, lembrando dos tempos em que eu era apenas um estudante morando na vizinhança. O clima boêmio das ruas perdeu um pouco do seu mistério e encanto, agora os bares estão revigorados, há uma nova fachada em quase todos, e o ar parece mais limpo e pasteurizado. Subitamente reencontro, entre a sombra das árvores, um dos botecos onde eu e meus colegas tínhamos “carta branca”. Não resisto ao convite da nostalgia e sento para beber uma cerveja.

 

Um grupo de rapazes conversa na mesa ao lado, as palavras ditas com inconfundível sotaque português. Há um hotel perto do bar, certamente é de lá que saíram os distintos europeus. Quem seriam eles? Estudantes, médicos (que agora eles vem de fora), estagiários de alguma multinacional, turistas...De qualquer modo, dentro da minha mente limitada, o assunto futebol surgiu como uma tentativa razoável de estabelecer contato com aqueles estrangeiros. Tomei mais um gole para dar tempo e abrir espaço à investida. Afinal, nada mais deselegante e perigoso do que abordar estranhos com tolices. “Ô garoto, pode me dizer quem foi melhor? Eusébio ou Cristiano Ronaldo?”.

 

O rapazola olhou desconfiado, surpreso com a questão inusitada feita por aquele brasileiro desagradável, que, afinal, podia ter ficado de boca fechada. A resposta foi curta e grossa, Cristiano Ronaldo era o melhor. Enquanto eu processava aquela sentença desconcertante, o grupo levantou-se para deixar o estabelecimento. Um dos gajos da turma, contudo, antes de sair explicou-me que o seu amigo, como torcedor do Porto, jamais daria uma colher de chá ao famoso “Pantera Negra”, mesmo que este tivesse prestado inúmeros e relevantes serviços à seleção portuguesa. Tudo isso apenas porque Eusébio havia sido um dos grandes ídolos do Benfica, famigerado rival do Porto.

 

Mais do que aprender uma curiosidade sobre a cultura esportiva lusitana, ficou nítido para mim que o ódio cego das plebes, quando se trata de adorações clubísticas, é algo incontornável, não só aqui como em várias partes do mundo. A resposta do rapaz me pareceu, afinal, uma fraude, um impulso sentimental e sanguíneo, sem qualquer dose de raciocínio ou meditação. Fiquei triste com aquilo, pois além de persistir a minha dúvida (apesar de sabermos bem como é difícil comparar craques de épocas diferentes), persistiu também a sensação de que o futebol nos leva a atitudes mesquinhas. A verdade de cada um costuma ser feita de uma paixão maquinal por esta ou aquela cor, sufocando um pouco a beleza que habita os gramados e os bares da vida.

 


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02/11/2013 - 15h11min

Os cigarros do meu amor

Estou fumando os cigarros do meu amor

Enquanto ela está na cama exalando todo o seu calor

É noite alta e sou refém da madrugada

Dorme, dorme, amor, enquanto eu sigo as tuas pegadas

 

A luz da lua banhando o teu corpo nu

Me fez bater nas portas do paraíso

Hei de velar teu sono até o sol nascer

Mesmo que eu saiba que amanhã vou te perder

 

E como é triste esta certeza dentro em mim

De que o romance cedo ou tarde vai ter fim

E eu que queria ficar sempre do teu lado

 

Já adivinho as garras vis da solidão

Que no futuro entre outros tragos de alcatrão

Hei de sentir enquanto lembro do passado

 

 

                                                                  *         *         *

 

 

Está terminado o sonho do Caxias de voltar à Serie B do campeonato brasileiro. Pelo menos por enquanto, o torcedor terá que enrolar a bandeira e dar adeus às tardes de futebol com um gosto amargo na boca. A luta do time pelos gramados do país afora foi heróica e repleta de belos momentos. Entretanto, é preciso reconhecer que o Caxias está pecando, nos últimos anos, pela falta de um maior poder de decisão e contundência, principalmente quando chega a hora da verdade, e é preciso liquidar o adversário sem escrúpulos.

 

A perda da vaga contra o Luverdense foi um duro golpe, uma derrota que pode ser incluída entre as maiores da história recente do Caxias. Quando soou o apito final do juiz no estádio Centenário, no jogo contra a equipe do planalto, o castelo construído pacientemente pela torcida ruiu de forma implacável e cruel. O time grená esteve apático, atuando dentro de seus domínios com uma ingenuidade apavorante. A partida de volta, em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, acabou sacramentando o triste final de uma campanha irregular, onde faltou um pouco mais de experiência aos pupilos de Picoli, fazendo valer a tradição da camisa grená e da raça gaúcha. Talvez tenha havido um excesso de jogadores técnicos, que primam pelo toque de bola, deixando o ataque leve demais. Mesmo que eu considere Wallacer, Zambi e Charles Chad excelentes atletas, parece que a trinca carioca ficou devendo durante a competição. É verdade que outros setores da equipe também renderam menos do que o possível, então não é hora de eleger culpados pela derrocada.

 

Que venham os prazeres do verão e das férias! Deixemos que as paixões e desilusões do futebol permaneçam em segundo plano, adormecidas em um túmulo de pedra. Mas que as lições da temporada que passou sirvam ao clube como inspiração para novos voos no futuro, levando o Caxias, enfim, a conquistar o seu espaço entre as maiores equipes do nosso popular esporte.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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