03/04/2014 - 10h04min

O artista está sozinho

A imagem de Jeanne Moureau caminhando desolada pelas ruas de Paris tocou fundo no meu peito. Agora que eu descobri o fascínio desta bela atriz nas prateleiras da locadora, fiquei meio viciado no seu rosto, no seu jeito, na sua doçura. Vagando pelas calçadas da metrópole, enigmática e rebelde, procurando por algo escondido dentro de si, a musa de olheiras profundas parece tão sozinha.  Ela ganhou minha admiração desde a primeira vez que a vi, no papel da pintora Eva, naquele filme preto e branco francês. Jeanne era também uma pensadora sagaz quando não estava representando. “Moral é o que nos permite ser fiéis a nós mesmos”, disse a grande dama do cinema europeu.

 

E isso é tão difícil às vezes, especialmente quando somos bombardeados por conselhos, opiniões e palpites dos outros em nossas vidas, em nossos projetos. Para Falcão, Dario e Escurinho, não foi fácil resistir ao assédio do técnico Rubens Minelli, quando este criticava certa jogada ensaiada pelo trio nos treinos do Internacional. A jogada era deveras mirabolante: Dario levantaria a bola até Escurinho, posicionado na meia-lua da área adversária. Como elemento surpresa, Falcão viria de trás, efetuando uma tabela de cabeça com Escurinho, até ficar em condições de chutar para o gol.  Minelli, dono de um estilo conservador, não suportava a megalomania da ideia. Segundo Falcão, o técnico costumava dizer, meio censurando, meio gozando, que aquela jogada “nunca iria dar certo”.

 

A trinca de ases colorados, contudo, confiou na sua jogada secreta até o fim. Partida decisiva contra o Atlético Mineiro pelo torneio nacional de 1976, o jogo já nos seus estertores, placar de um a um. A turba no Beira-Rio está em transe. O time ataca sem parar, mas não consegue superar a zaga do Galo. Em determinado instante, a bola sobra para Dario, na intermediária do campo. O esguio centroavante levanta a bola na cabeça de Escurinho, que entrega para Falcão, que devolve para Escurinho, que toca para Falcão. É a tal jogada sendo executada em um momento crucial do prélio! O espanto nas tribunas é geral, ninguém consegue acreditar no que está acontecendo dentro da grande área atleticana. O ídolo de louros cabelos cacheados chuta com o pé murcho, mas com força suficiente para vencer o bom goleiro Ortiz, concretizando um dos gols mais bonitos da história do futebol brasileiro. Graças à audácia dos três loucos atletas, a alegria tomou conta do estádio Beira-Rio, e Minelli, apesar de contente, teve que dar o braço a torcer.

 

Assim como o jogador de futebol, o escritor vive em uma espécie de corda bamba, nunca sabendo ao certo quando deve dar ouvido às sugestões alheias. Não escreva poesia. Escreva um livro infantil. Quando você vai fazer uma HQ sobre futebol? Escreva um romance. Não escreva mais nada, vá vender laranjas. Você escreve bem, mas acho que devia mudar essa palavra aqui. São tantas vozes ao mesmo tempo que fica difícil pensar direito. E, se por um lado duas cabeças pensam melhor do que uma, quase sempre o que resta dessa avalanche de comentários é apenas o silêncio e a incerteza.

 

A verdade é que, no fim, o artista está sozinho. Na hora da decisão, a última palavra tem que ser dele, e de mais ninguém, e ele tem que acreditar na sua voz interior com todas as forças. Essa é a única maneira possível de enfrentar a sua sina, errando, acertando e desvendando os mistérios da vida.

 


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20/03/2014 - 20h03min

Couro cru

Ademir de Menezes, o famoso “Queixada”, tinha uma técnica bastante curiosa para personalizar as suas chuteiras. Empunhando um alfinete, o atacante do Vasco da Gama e da seleção brasileira nos anos 1940 fazia vários furinhos no couro, desenhando as letras, uma após a outra, até formar a palavra “ADEMIR”.

 

Uma técnica tão rudimentar quanto o ofício dos sapateiros que produziam as chuteiras nos albores do futebol na Inglaterra vitoriana. Parecidos com butinas, os artefatos eram feitos à mão, o couro moldado em uma fôrma de ferro, o martelo fustigando o material na bigorna até o acabamento final. A ponta do calçado era reforçada, pois o chute de bico era um recurso bastante utilizado pelos brutamontes, digo, jogadores de então.  Doc Greenwood, lendário zagueiro do Blackburn Rovers, time fundado em 1875, tinha uma espécie de mantra que lhe fora ensinado por um mestre do colégio: “Go for the man and never mind the ball”. Ou seja, a bola podia passar, mas o homem não.

 

Cada jogo era uma verdadeira carnificina, a ponto das regras do rúgbi, espécie de irmão mais velho do futebol, serem alteradas para diminuir a violência, já que muitos jogadores, que eram também operários nas fábricas, acabavam se machucando gravemente nas partidas, perdendo dias preciosos de trabalho. O couro cru das bolas, que em alguns casos tinham uma bexiga de porco em seu interior no lugar das câmaras de ar que viriam depois, era disputado com uma ferocidade irracional.

 

Ademir viveu e jogou em um tempo onde o universo do futebol estava em franca evolução. Os atletas já eram remunerados, ainda que não nas cifras astronômicas de hoje em dia. Mesmo assim, o velho esporte bretão conservava uma aura de romantismo, as camisas dos clubes não tinham patrocínios, o equipamento de jogo ainda era bastante rudimentar, e os jogadores às vezes eram tratados como animais, especialmente quando recebiam injeções e doses cavalares de anestésico para amenizar dores no joelho.

 

Com o passar dos anos, a tecnologia eliminou o couro das chuteiras e das bolas por matérias-primas sintéticas, as camisas ganharam desenhos arrojados e confecções modernas substituíram o tecido pesado de antigamente. A medicina evoluiu, o dinheiro tomou conta do futebol e os próprios jogadores perderam muito da identificação com os clubes, mudando de distintivo com uma velocidade cada vez maior, como ciganos sem pátria perambulando pelo mundo.

 

Entretanto, as paixões são um estado de espírito impossível de se aperfeiçoar. O sujeito que vai ao estádio vibrar e incentivar experimenta a mesma sensação misteriosa de eras remotas, sendo conduzido de forma vertiginosa do céu ao inferno conforme a sorte do seu time. Dentro das quatro linhas, essa atmosfera se repete. Lances de rara brutalidade, feitos da mais pura selvageria pelos protagonistas do espetáculo, vez por outra transcorrem diante dos olhos do atônito torcedor.

 

Afinal, não foi criada ainda uma fórmula científica capaz de amenizar o afã visceral com que os vinte e dois jogadores se entregam ao combate, buscando a vitória domingo após domingo com os dentes apertados e um sentimento que emana incontrolável das entranhas.

 


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08/03/2014 - 14h38min

A velha engrenagem

Vivemos a era digital em todo o seu esplendor. Aparelhos celulares e tabletes eletrônicos super sensíveis, onde o usuário navega entre redes sociais e outros sítios da internet, são a coqueluche do momento, trazendo as tentações e carícias da tecnologia através de um leve toque em uma tela de cristal. O que terá acontecido, por outro lado, com as máquinas velhas e pesadas da indústria, com engrenagens girando em meio à fumaça das fábricas como no filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin?  Em que mundo habitam os operários de macacão debruçados sobre as maravilhas da mecânica de outrora, e que hoje não passam de estruturas feias, sujas e obsoletas?

 

Parece que a única engrenagem que continua a girar com vigor é aquela costurada na camisa bordô do Caxias. A despeito das inovações cibernéticas, o escudo da equipe serrana mantém viva uma aura de mistério, rodando impávido rumo ao futuro, fascinando os amantes do futebol com seu ritmo firme e constante. São nove dentes afiados conduzindo milhares de corações com a sua força motriz, esmagando e triturando velhos e novos inimigos. De fato, a campanha do Caxias no Gauchão, longe de ser perfeita, tem trazido muitas alegrias ao torcedor, especialmente depois da última sequência de quatro vitórias consecutivas.

 

O clímax desta espetacular reação, foi, sem dúvida, a vitória no clássico Ca-Ju. Um triunfo incontestável e transparente, mas que foi pouco celebrado na mídia esportiva e até mesmo entre certos aficionados grenás. Parece que, para evitar melindres, o sucesso do Caxias foi abafado em nome de um “fair-play” ridículo e desnecessário. Afinal, onde está escrito que o Caxias não pode ganhar do seu maior rival, apenas porque o jogo foi incluído no programa de uma festa da cidade? Eu diria que foi uma vitória emblemática, fruto de uma melhor preparação e de uma superioridade insofismável demonstrada dentro das quatro linhas.

 

Entretanto, novos desafios aguardam os pupilos do técnico Beto Campos. A evolução à próxima fase do torneio descortinou um horizonte de possibilidades e jogos memoráveis, e deve ser creditada também ao antigo treinador, Picoli. O esboço do onze grená assemelha-se a uma pintura cubista, com formas geométricas diversas sobre a tela. O jovem goleiro Douglas, com boas atuações, tem sido uma grata surpresa. Em seu auxílio encontram-se os diligentes Léo Korte e Tiago, sempre prontos a rechaçar o perigo da área com frieza e contundência. Os laterais Dieyson e Bebeto são componentes vitais para o time, tecendo tramas envolventes com os meias Wallacer e Rafael Carioca. Um pouco mais atrás, “capitan” Alisson e Baiano dão mostras de caráter e ousadia, enquanto que os atacantes Julio Madureira, Lucão e Tiago Santana apavoram as defesas contrárias com seu faro de gol e picardia.

 

Sou um paladino incurável das causas perdidas, como frequentar barbearias, ler livros de papel e ouvir discos de vinil. Não posso, portanto, deixar de vibrar com esse time do Caxias. Um conjunto valente e bem azeitado, que lembra as engrenagens de antigamente, sempre girando e inspirando lindos sonhos, como se fossem as pás do moinho perseguido por Dom Quixote em seus devaneios medievais.

 

 

                                                                            *      *      *

 

 

Aproveito o ensejo para congratular todas as mulheres, em especial minha mãe Beatriz, pelo seu dia. Sem a sua força e beleza a amaciar os duros caminhos da vida, o homem não seria ninguém, e o mundo seria um lugar triste e perdido.

 


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22/02/2014 - 14h02min

Entre a glória e a escória

É tempo de Festa da Uva, e Caxias do Sul está engalanada para celebrar a epopeia da imigração italiana outra vez. Nas praças, nos canteiros e nas ruas onde acontecem os desfiles alegóricos, o espírito é o mesmo, ou seja, exaltar a coragem daqueles que ergueram a cidade graças ao trabalho árduo, desbravando a inóspita região da Serra Gaúcha com admirável paciência. A tendência cega ao “lavoro”, ao cultivo da terra e ao desenvolvimento da indústria acabou sendo a marca registrada do cidadão caxiense ao longo do século XX. Outros valores, como religiosidade e o culto à família, permanecem até hoje como herança dos primeiros italianos que aqui se instalaram, no remoto ano de 1875.

 

Por outro lado, e a despeito dessa bonita história, existe ainda uma espécie de menosprezo  em relação à figura do caxiense, principalmente por parte de alguns moradores da capital, que elegeram os “gringos da colônia”, com seu sotaque e provincianismo, como alvo de chacotas e escárnio. Trata-se de uma postura curiosa, pois a lógica seria o habitante da metrópole manter uma atitude magnânima em relação àquele do interior, preservando e legitimando, assim, a sua suposta superioridade. Entretanto, parece haver algo que incomoda, e não apenas inspira brincadeiras saudáveis, no caráter do descendente italiano.

 

No mundo futebolístico, esse padrão se repete. Longe de fazer frente aos clubes da capital, a dupla Ca-Ju, em oportunidades isoladas, conseguiu dobrar o poderio de Grêmio e Internacional. Como esquecer a conquista do Gauchão de 2000 pelo Caxias, patrolando o Grêmio de Ronaldinho, Zinho e Danrlei? Ou da retumbante goleada de 4 a 0 imposta pelo Juventude ao Inter, em pleno estádio Beira-Rio, um ano antes? Mesmo com todo o seu cartel de títulos e conquistas, a ousadia dos “comedores de polenta” foi algo difícil de tolerar pelos dois gigantes do futebol brasileiro.

 

O preconceito contra o imigrante italiano foi algo presente também nos EUA. O pugilista Jake La Motta, filho de um mascate oriundo de Messina, viveu dias marcados pela pobreza extrema durante a sua infância em Nova Iorque. Eram os anos da Depressão, e a sua estirpe italiana em nada contribuiu para que ele ascendesse socialmente. Mais tarde, quando começou a ganhar algum dinheiro com o boxe e a aparecer em revistas, Jake era sempre retratado de forma estereotipada, fotografado enquanto comia uma prato de macarrão, como se um italiano não soubesse fazer outra coisa.

 

O “Touro do Bronx” seria campeão dos pesos-médios entre 1949 e 51. A sua defesa do título contra Laurent Dauthuille, quando Jake, após estar perdendo por uma grande diferença de pontos, conseguiu um nocaute improvável a poucos segundos do final da luta, é um capítulo indelével na história do esporte. Entre outros boxeadores de sangue italiano que marcaram época no país ianque, poderíamos destacar Rocky Marciano (na verdade Rocco Marchegiano), Tony Canzoneri, Willie Pep e Carmen Basílio.

 

Quando era apenas uma criança brincando nas ruas de Hoboken, em Nova Jérsei, Frank Sinatra talvez não imaginasse os percalços enfrentados pelos seus antepassados para se estabelecer em solo americano. Na época em que seu avô Francesco desembarcou em Nova Iorque, no ano de 1900, as oportunidades eram poucas. Francesco acabou sobrevivendo graças ao ofício de sapateiro, o mesmo que ele desempenhava em Lercara Friddi, sua cidade natal na Sicília. Segundo Anthony Summers, um dos biógrafos de Sinatra, nesse período “os italianos eram conhecidos como sujos, ignorantes e criminosos, e eram tratados como vilões”. Ainda assim, Frank, a exemplo de seu avô, acabou triunfando, até ser reconhecido como um dos maiores cantores do século passado nos Estados Unidos.

 

De fato, o italiano é um ser musical por natureza, de coração quente, alegre e brincalhão.  Sem embargo, traz consigo a veia de trabalhador incansável, pronto a arregaçar as mangas quando preciso. E as hordas de imigrantes que aqui chegaram, prontas a enfrentar os desafios da América na busca pela felicidade e pelo pão de cada dia, tinham nesse traço de caráter a sua maior credencial.

 


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04/02/2014 - 22h02min

Um dia no inferno

Parece que a onda de calor que se abateu sobre o país veio para ficar. Neste, que é o verão mais rigoroso dos últimos tempos, realizar coisas simples, como caminhar nas ruas da cidade, cumprir a rotina laboral, ou apenas dormir à noite, tem se tornado uma verdadeira epopeia. Aviões sendo impedidos de decolar, frangos morrendo em aviários, brigadianos usando bermudas e sandálias no lugar de calças e coturnos, são algumas das notícias que estampam os jornais atualmente. Cada amanhecer é como se fosse a porta de entrada para mais um dia no inferno. Não adianta fugir nem se esconder, o bafo quente e o mormaço do ar vão te pegar, queimando mais do que as lavas de um vulcão.

 

Durante as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, a temperatura escaldante do oeste americano também fez suas vítimas. Mesmo entre os atletas, seres dotados de condicionamento físico exemplar, o castigo do sol inclemente sobre a cabeça foi um fardo pesado demais para suportar. Na ocasião, pela primeira vez na história dos Jogos foi disputada a  maratona feminina, e o desfecho da prova deixaria para a posteridade um momento inesquecível. As três primeiras colocadas preparavam-se para receber os louros da vitória, entre abraços e sorrisos de alegria. Uma a uma, as retardatárias iam ultrapassando a linha de chegada, quando, de repente, algo inusitado aconteceu.

 

Um calafrio percorreu a espinha da multidão no instante em que aquela criatura de corpo frágil, movendo-se lentamente, adentrou o Los Angeles Coliseum. Mal conseguindo se manter em pé, a figura avançava em zigue-zague, ao estilo dos bêbados que perambulam nas calçadas. Logo ficou claro se tratar de uma competidora, mais precisamente Gabrielle Andersen, da Suíça. O passo canhestro e trôpego da moça, extenuada pelo calor intenso, desidratada e com cãibras, despertou o sinal de alerta entre a equipe médica. Entretanto, segundo as regras da competição, se fosse tocada Gabrielle seria desclassificada, e ela, não se sabe como, sinalizou que queria concluir o trajeto sozinha.

 

Durante os metros finais, a plateia prendeu a respiração, atônita com a determinação da atleta que andava como um pássaro ferido sobre a pista laranja, com os  braços retorcidos e movimentos cambaleantes. Finalmente, no segundo após cruzar a linha fatal, Gabrielle foi amparada pelos socorristas, vindo a se recuperar sem maiores sequelas. O gesto dramático da corredora, contudo, ficou eternizado na retina de milhões. Pouco importa se Gabrielle foi apenas a trigésima-sétima colocada no percurso. A sua têmpera comoveu o mundo, tocando fundo no peito de qualquer um que tenha visto a cena, repetida várias vezes, através dos tubos da televisão.

 

Eis aí a beleza do esporte. Um bálsamo que conforta e estimula simples mortais, acossados pelas garras de um clima cada vez mais inóspito, a seguir em frente. Pois, se é provável que o próprio homem seja o causador desse apocalipse moderno, com sua ganância desafiando as forças da natureza e alterando o equilíbrio do planeta, também ele é capaz de superar a si mesmo, dando esperanças de que nem tudo está perdido.

 


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25/01/2014 - 13h01min

Um casamento improvável

Enquanto Antonieta dedilha um dos noturnos de Chopin ao piano, Charles Miller, sentado em uma cadeira da sala, está de bermudas e chuteiras, enchendo a bola de futebol com uma bomba de ar. Extasiado pela melodia sublime, ele, por um instante, se esquece do jogo marcado com seus colegas do São Paulo Athletic Club. Afinal, poderia haver prazer maior do que admirar a beleza da própria mulher sentada elegantemente na frente do teclado, dando vida às obras-primas do famoso compositor polonês?

 

O casamento entre Charles Miller, conhecido como o responsável pela introdução do futebol em terras brasileiras, e Antonieta Rudge, aconteceu no ano de 1906. Ambos eram paulistas, de famílias tradicionais, e tiveram papel de destaque na sociedade da época. Antonieta foi uma das maiores pianistas da história do país, ombreando-se com Guiomar de Novaes e Magdalena Tagliaferro. Suas interpretações comoveram o mundo, merecendo elogios de mestres como Arthur Rubinstein. Terminado o recital, o silêncio toma conta da sala, e Charles demora alguns instantes para voltar a si. Quando finalmente percebe o balão de couro marrom entre as mãos, levanta-se célere, beija Antonieta, e parte em desabalada carreira rumo ao campo do Velódromo, onde mais uma renhida disputa contra o Paulistano, grande rival dos tempos do amadorismo em solo bandeirante, o espera.

 

Amador também era o espírito de Marcos Carneiro de Mendonça, goleiro do Fluminense tri-campeão carioca em 1917, 18 e 19. Todo um personagem, alto e imponente, usava fardamento de musselina branca e uma fita roxa para prender os calções. Por questão de princípios, Marcos não se jogava no chão durante as partidas, o que apenas aumentava a fama e a mística do galante defensor. Sua esposa foi a poetisa Anna Amélia Carneiro de Mendonça, que, além do talento literário, teve grande atuação na luta pelos direitos das mulheres na primeira metade do século XX. Nos vesperais de arte e teatro na sede do aristocrático clube das Laranjeiras, a presença de Anna Amélia era uma constante, declamando seus poemas para deleite da plateia.

 

Mais tarde, na década de 1960, quando o profissionalismo já dominava a cena futebolística nacional, desabrochou o romance entre Garrincha e Elza Soares. Elza, ao contrário de Antonieta e Anna Amélia, vinha de uma família pobre, e a sua adesão ao mundo artístico deu-se mais por uma questão de necessidade. Transbordando uma obstinação sem limites, Elza trilhou um longo caminho até se firmar como uma cantora de valor insofismável. Garrincha, por sua vez, podia ser considerado ele próprio uma espécie de artista com a bola nos pés. Charles Miller e Marcos, apesar de bravos atletas e campeões, não possuíam o gênio lírico e demolidor de Garrincha, com seus dribles desconcertantes e sua veia de palhaço encantando as multidões. De qualquer maneira, não se pode negar que Elza e Garrincha foram o exemplo derradeiro de um tipo de casal que já não existe mais, aquele formado por um jogador de futebol e uma mulher com dotes artísticos verdadeiros.

 

Parece que hoje em dia o que vale para a mulher é apenas o seu corpo e a sua aparência física, ao invés das suas características internas e subjetivas. Pode ser que Garrincha tenha sido atraído muito mais pelas curvas sensuais de Elza do que pelo seu virtuosismo musical, mas é inegável que ela era (e ainda é) dona de uma voz de rara sensibilidade, uma força da natureza, e uma legítima dama dos palcos. Por outro lado, os salários astronômicos dos craques atualmente fazem com que um sem número de beldades devassas e oportunistas, as famosas “maria-chuteiras”, façam plantão na saída dos treinos em busca de algo mais do que apenas um autógrafo. Em outras épocas isso não acontecia, justamente porque os jogadores não recebiam fortunas. A união entre futebol e cultura, enfim, hoje não passa de uma ilusão e de um eco distante do passado, quando os próprios protagonistas do espetáculo casavam com aquele tipo de mulher especial, que tinha alguma coisa que não se pode tocar, mas apenas sentir e admirar. 

 


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12/01/2014 - 16h01min

Estranhas criaturas de ébano

É cada vez maior a presença de africanos nas ruas de Caxias do Sul. Caminhando em grupos, com roupas coloridas e falando uma língua esquisita, esses estrangeiros são uma atração à parte. É compreensível. Já houve um tempo em que era difícil avistar indivíduos da cor negra por aqui. Afinal, a “pérola das colônias” foi erigida por imigrantes italianos no final do século dezenove, e eles não tinham escravos. Com o passar dos anos, o crescimento da cidade trouxe novos moradores, oriundos de outras regiões do estado e do país. Pessoas que, assim como os magotes de senegalese que vemos hoje, vieram em busca de oportunidades de emprego e de um futuro melhor.

 

Em outras regiões do mundo, como na Escandinávia, criaturas de ébano estranhas aos nativos causaram espanto e admiração em tempos remotos. Quando a delegação norte-americana desembarcou em Helsinki, para competir nas Olimpíadas de 1952, a presença de atletas negros foi um verdadeiro espetáculo para os olhos dos cidadãos. O pugilista Floyd Patterson, então com parcos 17 anos, não se contentou em conquistar apenas o calor humano dos residentes, amealhando a medalha de ouro na categoria peso-médio. Patterson tinha o corpo esguio e ombros largos, reflexos rápidos e punhos devastadores, além de um temperamento afável e tranquilo fora dos ringues. Era um sujeito diferente da maioria dos boxeadores, donos de pavio curto e cara de poucos amigos. Mais tarde, ele seria campeão dos pesos-pesados como profissional, nocauteando Archie Moore em Chicago para assumir o posto deixado vago por Rocky Marciano, quando este se aposentou.

 

E o que dizer do fascínio provocado por Pelé e Didi entre as crianças escandinavas quando o Brasil foi disputar a Copa do Mundo na Suécia, em 1958?  A bucólica concentração da seleção em Hindas acabou se tornando o cenário de um contato inusitado entre as meninas de olhos azuis e cabelos dourados, que, em um misto de assombro e alegria, não perdiam a oportunidade de apalpar a pele escura dos nossos craques, como se eles fossem alienígenas vindos do espaço sideral. Dentro de um barquinho, flutuando sobre as águas plácidas do lago vizinho ao campo de treinamento, Djalma Santos, Moacir e Zózimo se deixam levar pela correnteza. Quando o bote alcança a margem, as garotinhas, montadas em suas bicicletas, não podem conter o riso. Felizes, elas cercam e bajulam os tripulantes, em uma inocente confraternização.   

 

Era uma terra livre de preconceitos, enfim. Com suas vastas paisagens de geleiras e berço de povos guerreiros como os vikings, essa misteriosa parte do nosso planeta acabou ela própria capturada pela aparência exótica e pela simpatia de alguns dos maiores campeões forjados pelo esporte.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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