22/02/2014 - 14h02min

Entre a glória e a escória

É tempo de Festa da Uva, e Caxias do Sul está engalanada para celebrar a epopeia da imigração italiana outra vez. Nas praças, nos canteiros e nas ruas onde acontecem os desfiles alegóricos, o espírito é o mesmo, ou seja, exaltar a coragem daqueles que ergueram a cidade graças ao trabalho árduo, desbravando a inóspita região da Serra Gaúcha com admirável paciência. A tendência cega ao “lavoro”, ao cultivo da terra e ao desenvolvimento da indústria acabou sendo a marca registrada do cidadão caxiense ao longo do século XX. Outros valores, como religiosidade e o culto à família, permanecem até hoje como herança dos primeiros italianos que aqui se instalaram, no remoto ano de 1875.

 

Por outro lado, e a despeito dessa bonita história, existe ainda uma espécie de menosprezo  em relação à figura do caxiense, principalmente por parte de alguns moradores da capital, que elegeram os “gringos da colônia”, com seu sotaque e provincianismo, como alvo de chacotas e escárnio. Trata-se de uma postura curiosa, pois a lógica seria o habitante da metrópole manter uma atitude magnânima em relação àquele do interior, preservando e legitimando, assim, a sua suposta superioridade. Entretanto, parece haver algo que incomoda, e não apenas inspira brincadeiras saudáveis, no caráter do descendente italiano.

 

No mundo futebolístico, esse padrão se repete. Longe de fazer frente aos clubes da capital, a dupla Ca-Ju, em oportunidades isoladas, conseguiu dobrar o poderio de Grêmio e Internacional. Como esquecer a conquista do Gauchão de 2000 pelo Caxias, patrolando o Grêmio de Ronaldinho, Zinho e Danrlei? Ou da retumbante goleada de 4 a 0 imposta pelo Juventude ao Inter, em pleno estádio Beira-Rio, um ano antes? Mesmo com todo o seu cartel de títulos e conquistas, a ousadia dos “comedores de polenta” foi algo difícil de tolerar pelos dois gigantes do futebol brasileiro.

 

O preconceito contra o imigrante italiano foi algo presente também nos EUA. O pugilista Jake La Motta, filho de um mascate oriundo de Messina, viveu dias marcados pela pobreza extrema durante a sua infância em Nova Iorque. Eram os anos da Depressão, e a sua estirpe italiana em nada contribuiu para que ele ascendesse socialmente. Mais tarde, quando começou a ganhar algum dinheiro com o boxe e a aparecer em revistas, Jake era sempre retratado de forma estereotipada, fotografado enquanto comia uma prato de macarrão, como se um italiano não soubesse fazer outra coisa.

 

O “Touro do Bronx” seria campeão dos pesos-médios entre 1949 e 51. A sua defesa do título contra Laurent Dauthuille, quando Jake, após estar perdendo por uma grande diferença de pontos, conseguiu um nocaute improvável a poucos segundos do final da luta, é um capítulo indelével na história do esporte. Entre outros boxeadores de sangue italiano que marcaram época no país ianque, poderíamos destacar Rocky Marciano (na verdade Rocco Marchegiano), Tony Canzoneri, Willie Pep e Carmen Basílio.

 

Quando era apenas uma criança brincando nas ruas de Hoboken, em Nova Jérsei, Frank Sinatra talvez não imaginasse os percalços enfrentados pelos seus antepassados para se estabelecer em solo americano. Na época em que seu avô Francesco desembarcou em Nova Iorque, no ano de 1900, as oportunidades eram poucas. Francesco acabou sobrevivendo graças ao ofício de sapateiro, o mesmo que ele desempenhava em Lercara Friddi, sua cidade natal na Sicília. Segundo Anthony Summers, um dos biógrafos de Sinatra, nesse período “os italianos eram conhecidos como sujos, ignorantes e criminosos, e eram tratados como vilões”. Ainda assim, Frank, a exemplo de seu avô, acabou triunfando, até ser reconhecido como um dos maiores cantores do século passado nos Estados Unidos.

 

De fato, o italiano é um ser musical por natureza, de coração quente, alegre e brincalhão.  Sem embargo, traz consigo a veia de trabalhador incansável, pronto a arregaçar as mangas quando preciso. E as hordas de imigrantes que aqui chegaram, prontas a enfrentar os desafios da América na busca pela felicidade e pelo pão de cada dia, tinham nesse traço de caráter a sua maior credencial.

 


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04/02/2014 - 22h02min

Um dia no inferno

Parece que a onda de calor que se abateu sobre o país veio para ficar. Neste, que é o verão mais rigoroso dos últimos tempos, realizar coisas simples, como caminhar nas ruas da cidade, cumprir a rotina laboral, ou apenas dormir à noite, tem se tornado uma verdadeira epopeia. Aviões sendo impedidos de decolar, frangos morrendo em aviários, brigadianos usando bermudas e sandálias no lugar de calças e coturnos, são algumas das notícias que estampam os jornais atualmente. Cada amanhecer é como se fosse a porta de entrada para mais um dia no inferno. Não adianta fugir nem se esconder, o bafo quente e o mormaço do ar vão te pegar, queimando mais do que as lavas de um vulcão.

 

Durante as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, a temperatura escaldante do oeste americano também fez suas vítimas. Mesmo entre os atletas, seres dotados de condicionamento físico exemplar, o castigo do sol inclemente sobre a cabeça foi um fardo pesado demais para suportar. Na ocasião, pela primeira vez na história dos Jogos foi disputada a  maratona feminina, e o desfecho da prova deixaria para a posteridade um momento inesquecível. As três primeiras colocadas preparavam-se para receber os louros da vitória, entre abraços e sorrisos de alegria. Uma a uma, as retardatárias iam ultrapassando a linha de chegada, quando, de repente, algo inusitado aconteceu.

 

Um calafrio percorreu a espinha da multidão no instante em que aquela criatura de corpo frágil, movendo-se lentamente, adentrou o Los Angeles Coliseum. Mal conseguindo se manter em pé, a figura avançava em zigue-zague, ao estilo dos bêbados que perambulam nas calçadas. Logo ficou claro se tratar de uma competidora, mais precisamente Gabrielle Andersen, da Suíça. O passo canhestro e trôpego da moça, extenuada pelo calor intenso, desidratada e com cãibras, despertou o sinal de alerta entre a equipe médica. Entretanto, segundo as regras da competição, se fosse tocada Gabrielle seria desclassificada, e ela, não se sabe como, sinalizou que queria concluir o trajeto sozinha.

 

Durante os metros finais, a plateia prendeu a respiração, atônita com a determinação da atleta que andava como um pássaro ferido sobre a pista laranja, com os  braços retorcidos e movimentos cambaleantes. Finalmente, no segundo após cruzar a linha fatal, Gabrielle foi amparada pelos socorristas, vindo a se recuperar sem maiores sequelas. O gesto dramático da corredora, contudo, ficou eternizado na retina de milhões. Pouco importa se Gabrielle foi apenas a trigésima-sétima colocada no percurso. A sua têmpera comoveu o mundo, tocando fundo no peito de qualquer um que tenha visto a cena, repetida várias vezes, através dos tubos da televisão.

 

Eis aí a beleza do esporte. Um bálsamo que conforta e estimula simples mortais, acossados pelas garras de um clima cada vez mais inóspito, a seguir em frente. Pois, se é provável que o próprio homem seja o causador desse apocalipse moderno, com sua ganância desafiando as forças da natureza e alterando o equilíbrio do planeta, também ele é capaz de superar a si mesmo, dando esperanças de que nem tudo está perdido.

 


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12/01/2014 - 16h01min

Estranhas criaturas de ébano

É cada vez maior a presença de africanos nas ruas de Caxias do Sul. Caminhando em grupos, com roupas coloridas e falando uma língua esquisita, esses estrangeiros são uma atração à parte. É compreensível. Já houve um tempo em que era difícil avistar indivíduos da cor negra por aqui. Afinal, a “pérola das colônias” foi erigida por imigrantes italianos no final do século dezenove, e eles não tinham escravos. Com o passar dos anos, o crescimento da cidade trouxe novos moradores, oriundos de outras regiões do estado e do país. Pessoas que, assim como os magotes de senegalese que vemos hoje, vieram em busca de oportunidades de emprego e de um futuro melhor.

 

Em outras regiões do mundo, como na Escandinávia, criaturas de ébano estranhas aos nativos causaram espanto e admiração em tempos remotos. Quando a delegação norte-americana desembarcou em Helsinki, para competir nas Olimpíadas de 1952, a presença de atletas negros foi um verdadeiro espetáculo para os olhos dos cidadãos. O pugilista Floyd Patterson, então com parcos 17 anos, não se contentou em conquistar apenas o calor humano dos residentes, amealhando a medalha de ouro na categoria peso-médio. Patterson tinha o corpo esguio e ombros largos, reflexos rápidos e punhos devastadores, além de um temperamento afável e tranquilo fora dos ringues. Era um sujeito diferente da maioria dos boxeadores, donos de pavio curto e cara de poucos amigos. Mais tarde, ele seria campeão dos pesos-pesados como profissional, nocauteando Archie Moore em Chicago para assumir o posto deixado vago por Rocky Marciano, quando este se aposentou.

 

E o que dizer do fascínio provocado por Pelé e Didi entre as crianças escandinavas quando o Brasil foi disputar a Copa do Mundo na Suécia, em 1958?  A bucólica concentração da seleção em Hindas acabou se tornando o cenário de um contato inusitado entre as meninas de olhos azuis e cabelos dourados, que, em um misto de assombro e alegria, não perdiam a oportunidade de apalpar a pele escura dos nossos craques, como se eles fossem alienígenas vindos do espaço sideral. Dentro de um barquinho, flutuando sobre as águas plácidas do lago vizinho ao campo de treinamento, Djalma Santos, Moacir e Zózimo se deixam levar pela correnteza. Quando o bote alcança a margem, as garotinhas, montadas em suas bicicletas, não podem conter o riso. Felizes, elas cercam e bajulam os tripulantes, em uma inocente confraternização.   

 

Era uma terra livre de preconceitos, enfim. Com suas vastas paisagens de geleiras e berço de povos guerreiros como os vikings, essa misteriosa parte do nosso planeta acabou ela própria capturada pela aparência exótica e pela simpatia de alguns dos maiores campeões forjados pelo esporte.

 


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04/01/2014 - 12h01min

Esporte, violência e hipocrisia

Tenho ouvido comentários reclamando do banho de sangue, transmitido ao vivo pela televisão, decorrente das lutas do evento denominado UFC. Especialmente agora, quando a grave lesão sofrida pelo brasileiro Anderson Silva transcorreu diante dos olhos de milhões, a ojeriza por esse tipo de violência espetacular, incompreensível para muitos, parece atingir o ápice.

 

Na verdade, a modalidade chamada MMA, ou “artes marciais mistas”, pode ser considerada uma espécie de involução de um esporte de verdade, e que hoje se encontra condenado ao ostracismo e ao desdém da grande mídia. Estou falando do boxe, prática que tem suas raízes na Inglaterra vitoriana do século XIX. Desde então, o caráter brutal do pugilismo tem sido tema de críticas e controvérsia, ao mesmo tempo em que desperta empatia e interesse popular. Afinal, não é absurdo considerá-lo um reflexo, ainda que indesejado, da própria natureza humana, com suas nuances obscuras de ódio e retaliação.

 

Com o passar dos anos, o boxe tornou-se uma profissão. Um ofício arriscado e grotesco, mas que, de acordo com a astúcia e força do sujeito, poderia render muito mais dinheiro do que os empregos convencionais. Além disso, o boxe tornou-se uma saída, talvez a única, para muitos jovens acossados pela miséria e a delinquência das ruas. Antigos criminosos, como, por exemplo, Jake La Motta, Sonny Liston e Mike Tyson, puderam extravasar a sua veia assassina dentro dos ringues, galgando os cumes da fama e da fortuna. Assim como eles, uma infinidade de marginais anônimos encontrou, através do boxe, uma maneira de sobreviver dignamente, como homens, atletas e cidadãos.  

 

Horas depois do malfadado combate protagonizado por Anderson Silva, o ex-piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher sofreu um terrível acidente enquanto esquiava nos Alpes Franceses. Curiosamente, ninguém protestou, ou se escandalizou com a violência do episódio. Após desafiar a morte durante anos a bordo de um bólido capaz de atingir velocidades magníficas, o piloto alemão, agora aposentado das pistas, continuou trilhando caminhos grandiosos em sua busca frenética pelo perigo e aventura. Essa ânsia parece ser, assim como a raivosa troca de golpes nos ringues, um comportamento indissociável em muitos de nós.

 

Alcançar a montanha mais alta, ou o ponto mais fundo do oceano, superando os limites do tempo e do espaço, nunca foi uma tarefa simples. Talvez por isso, os pilotos de Fórmula 1 mortos em desastres, como Ayrton Senna, sejam vistos como heróis. O risco “procurado” pelos ases do volante, em suas desvairadas corridas no asfalto, nunca foi condenado pela sociedade, nem foi visto como aquilo que talvez ele seja na verdade: um simples e vil capricho de jovens magnatas privilegiados. 

 

Portanto, vale a pena lembrar que o sangue derramado é o mesmo, quer seja sob as luzes lúridas de um ringue, quer seja sob o sol que brilha para poucos em uma estação de esqui nos picos nevados europeus.

 


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23/12/2013 - 21h53min

Fábulas do futebol

No ano que passou, o Brasil viveu um momento único em sua história. As passeatas que  sacudiram as ruas no mês de junho apontaram um novo caminho a seguir, com a esperança de menos desigualdades e mais qualidade de vida para o cidadão comum. Ao mesmo tempo, a partir da realização da Copa das Confederações, entramos em um período marcado por eventos esportivos de grande relevo, como a Copa do Mundo, no ano que vem, e as Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016.

 

É importante dizer que tais competições carregam consigo um significado maior, algo que supera questões políticas e religiosas, fazendo com que o amor à pátria volte a ser uma coisa possível. Contudo, o estigma do desperdício de dinheiro na construção de certos estádios é um fato real e detestável. Seria bom se ele pudesse servir como um alerta contra a corrupção atávica que impera no país. Somente quando essa chaga for totalmente extraída da nossa sociedade poderemos apreciar toda a beleza do esporte, com seus dramas de vitórias e derrotas, prazer e dor, luzes e sombras.

 

Voltando nosso olhar em direção ao passado, temos a ideia de como o homem está involuntariamente sujeito aos estranhos desígnios de um simples jogo de bola.  A exemplo do que irá ocorrer agora, em 1950 o Brasil teve a oportunidade de hospedar uma Copa do Mundo, fato que provocou enorme expectativa na população. O futebol já era o esporte nacional por excelência, e a turba que acorreu aos estádios viveu dias de sonho, embalada pelas façanhas de uma equipe sensacional. Craques como Barbosa, Danilo, Zizinho e Ademir tratavam a bola com carinho e maestria, aplicando terríveis goleadas em seus adversários.

 

Antes da partida final contra o Uruguai, o clima de euforia era incontrolável, e ninguém imaginava outro resultado que não fosse a vitória. Entretanto, a empáfia da torcida e da imprensa acabou castigada. O Brasil perdeu o jogo pelo placar de 2 a 1, plasmando para sempre a lenda e a tragédia do “Maracanazo” nos livros dourados do esporte. Foi uma dura lição, que permanece a nos lembrar da importância de valores como humildade e respeito, tanto dentro como fora campo.

 

Que venham 2014 e a Copa! E com eles um futuro mais humano para o país, inspirado nos bons exemplos presentes em uma partida de futebol.

 


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15/12/2013 - 14h12min

Mensagem na garrafa

Escrever é preciso. Entretanto, mais do que uma forma de expressão e uma maneira de humanizar e civilizar-nos, escrever é um caminho repleto de armadilhas. Se a literatura, por um lado, já foi classificada por Poe como sendo “a mais nobre das profissões” (isso em meados do século XIX), aqui no Brasil ela dificilmente pode ser considerada como uma profissão afinal.  Pelo menos para a grande maioria dos escritores, ou aspirantes a tal, não é remunerada a árdua tarefa de lutar contra as teclas do computador em busca de um texto primoroso e bem acabado. Para piorar, além da falta de uma compensação financeira, como ocorria nos Estados Unidos de Poe, onde qualquer poema, resenha, conto ou crônica publicada nos jornais e revistas de então rendiam algum troco ao seu autor, existe ainda a incerteza atroz de que nossos rascunhos, pelo menos, chegarão a um destinatário qualquer.

 

Como bem disse Eduardo Galeano, o ato de escrever é como lançar uma mensagem dentro de uma garrafa no oceano. Esse cenário desolador, especialmente para o autor que não conta com os beneplácitos da grande mídia, leva invariavelmente a uma série de perguntas. Escrever para que, se não sabemos se alguém irá ler os nossos devaneios? De que adianta gastar tempo e neurônios, desperdiçando saliva como um pregador no deserto? O ato de escrever acaba se tornando um gesto de egoísmo, ainda que involuntário e indesejado.

 

Esse raciocínio leva a outras questões. É realmente preciso escrever para o grande público? Não seria esse um desejo apoiado em uma reles vaidade? O sentido do fazer literário não poderia repousar, por exemplo, em alcançar um único leitor que seja, quem sabe mudando os rumos de uma vida, abalando as estruturas de tão somente um indivíduo? É provável que dos milhares de volumes impressos na edição de uma determinada obra, muito poucos irão encontrar o seu verdadeiro e legítimo leitor, aquele que irá ter sua atenção capturada pela leitura, como no caso dos milhões de espermatozóides que ficam pelo caminho, enquanto um apenas atingirá o óvulo.

 

De qualquer maneira, a grande dúvida permanece. Quer seja mirando nas multidões ou em um solitário leitor, o escritor convive com o sentimento triste, mas instigante e desafiador, de colocar no papel as suas entranhas, fazendo um voo cego na busca do eco adormecido da sua arte e da sua própria alma.

 


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01/12/2013 - 18h12min

Maconha e Maracanazo

Ao eliminar a Jordânia na repescagem e carimbar o passaporte para a Copa do Mundo do Brasil no ano que vem, o Uruguai fez com que velhas lendas do futebol viessem à tona. O fantasma do chamado “Maracanazo” passou a rondar saudosistas e profetas do apocalipse de plantão, ressurgindo das sombras com altivez. É inegável que a presença da “celeste olímpica” trará um verniz de drama e nostalgia ao espetáculo, fazendo com que páginas e mais páginas sejam escritas evocando a final da Copa de 1950, quando o Brasil perdeu dentro do recém-inaugurado Maracanã para o time de Obdulio Varela e companhia. Foi um duro golpe, pois além de ter mostrado um futebol bonito durante todo o torneio, gerando grande expectativa entre o público, a seleção deixou escapar a oportunidade única de faturar o caneco jogando dentro da sua casa. Uma nova chance de hospedar o famoso evento poderia levar uma eternidade, pensava o desolado torcedor enquanto via a taça Jules Rimet viajar com destino a Montevidéu.

 

O tempo passou, e agora muita coisa está diferente. A começar pela curiosa situação vivida pelo nosso antigo rival. Uma polêmica lei que legaliza o consumo de maconha está em discussão no Uruguai, e, se aprovada, poderá ser uma alternativa às políticas de repressão geralmente utilizadas ao redor do mundo. A droga seria vendida pelo próprio governo, em pequenas quantidades, para usuários cadastrados previamente. De qualquer maneira, em solo brasileiro, a única erva que poderemos oferecer aos visitantes uruguaios é o popular chimarrão, iguaria apreciadada não apenas lá como aqui entre os gaúchos também, e que não faz mal à saúde de quem bebe. Ou será que faz? Bem, melhor deixar essa pergunta aos cientistas...

 

O que sabemos é que, assim como o mundo mudou, trazendo ideias de vanguarda e revoluções, o time do Uruguai apresenta figuras de outro calibre em seu elenco. No lugar dos mortíferos Gigghia e Schiaffino, a dupla de ataque Suárez e Cavani faz a alegria do torcedor oriental, podendo ser considerada uma das mais fortes do planeta. Além disso, se Diego Forlán apresentar condições, poderá constituir-se em um perigoso reforço na busca do gol.  Afinal, não foi ele eleito o melhor jogador da Copa da África do Sul, em 2010? Desde o banco de reservas, o técnico Oscar Tabarez segue firme no comando do grupo que tentará levar a taça de volta ao país vizinho, 64 anos depois da epopeia do Maracanã.

 

Com erva ou sem erva, vamos receber de braços abertos nossos irmãos sul-americanos. Dentro das quatro linhas, contudo, é preciso atuar sem soberba nem temor, caso o destino nos coloque frente a frente com a celeste outra vez. Só assim poderemos impedir a reprise de um triste episódio, que ainda hoje assusta e intriga a imaginação popular, gerando polêmicas tão indevassáveis quanto o dilema que envolve a questão das drogas ao longo da história.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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