01/07/2014 - 19h07min

Simplesmente Givanildo

Terminado o sufoco e o drama da seleção brasileira em Belo Horizonte, um dos jogadores mais criticados foi o atacante Hulk. Injustiça! Hulk foi um dos únicos a mostrar raça,  partindo para cima do time chileno sempre que possível (enquanto outros se escondiam da bola), além de tentar atiçar os brios da apática torcida presente ao Mineirão. É verdade que o bravo e corpulento camisa sete perdeu o seu pênalti no desempate final, mas isso em nada tira o seu mérito, nem apaga a sua atuação positiva.

 

Se pararmos para pensar, o apelido do jovem paraibano, inspirado no gigante verde criado por Stan Lee e Jack Kirby, em 1962, traz uma coincidência escondida em seu bojo. Afinal, Hulk é aquilo que chamamos de “super-herói”, um sujeito cheio de poderes fantásticos, capaz de fazer coisas que os reles mortais jamais ousariam, como atravessar o mundo dando pulos quilométricos ou açoitar terríveis inimigos com socos demolidores. Vivendo no universo fantasioso do "pais do futebol", acostumados com conquistas e láureas mil através dos tempos, às vezes parecemos acreditar que o simples fato de vestir a camisa canarinho transformará qualquer atleta em um estupendo jogador, como se ele fosse um personagem de uma história em quadrinhos. Em nossa  arrogância cega e desvairada, exigimos que Julio César seja infalível, que Neymar drible todo o time adversário sempre que receber a bola, que Fred marque um golaço em todas as partidas, que Luiz Gustavo não erre nenhum passe durante os noventa minutos do prélio.

 

Acho que deveríamos tirar, pois, a máscara de salvador da pátria imposta a Hulk, abandonando o apelido suntuoso e passando a chamá-lo pelo seu nome de batismo, ou seja, Givanildo. Um nome de craque, aliás, se lembramos da figura do volante Givanildo Oliveira, que jogou no Santa Cruz, Sport, Corinthians e na própria seleção brasileira durante a década de 1970.  Ao contrário do seu xará musculoso, o Givanildo de antigamente tinha o corpo esquálido, os membros finos e um rosto peculiar, sendo também conhecido entre a torcida como Givanildo “cabeça de navio”.

 

Voltando ao jogo do Mineirão, vale a pena destacar a qualidade do adversário, um time sólido e perigoso, formado por uma geração de craques como poucas vezes se viu no país andino. Sem dúvida, a rapaziada brasileira superou um escolho duríssimo na longa corrida rumo ao título. Um título que dificilmente será alcançado, contudo, se persistir a aura fabulosa criada ao redor conjunto, como se os nossos atletas fossem criaturas de um outro planeta. Mais sensato seria tratá-los como seres humanos de verdade, sujeitos à emoção, ao erro vil, ao choro deslavado. Sentimentos terrenos, mas, assim como a humildade e a coragem, necessários para encontrar a vitória sublime, onde quer que ela esteja afinal.

 


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17/06/2014 - 09h06min

Cidade fantasma

Desde que começou a Copa do Mundo, tenho vivido em uma espécie de torpor permanente, confortavelmente anestesiado com as partidas que passam sem parar, todos os dias, pela televisão. Imerso nessa overdose futebolística, tenho desfrutando a beleza e a plasticidade do esporte em todas as suas nuances, além de admirar o espetáculo da confraternização entre os povos, sem moderação. Trata-se de uma mania passageira e fugaz, que se repete religiosamente a cada quatro anos.

 

Mas nem sempre foi assim. Houve uma fase da minha vida em que eu abdiquei dos encantos de uma Copa do Mundo. Foi em 1986, no período excêntrico da adolescência, onde eu tinha asco a tudo aquilo que pudesse ser considerado "convencional". Depois do trauma de 1982, quando Paolo Rossi destruiu os sonhos da nossa seleção, e eu, ainda criança, chorei por causa de futebol pela única vez na vida, eu parecia vacinado contra as armadilhas daquele jogo tão banal. Minha paixão agora era outra: as curvas e as cordas da uma guitarra vermelha modelo Les Paul, novinha em folha, e que eu deixava encostada no sofá do quarto, de modo que eu pudesse ficar olhando para ela de noite na cama até dormir. A minha prioridade era, pois, aprender a tocar aquele instrumento misterioso e fascinante.

 

Lembro-me de ir estudar violão com o professor Merônio, nas alturas do Edifício Estrela, justamente em um dia de jogo do Brasil na Copa do México.  Sim, eu era um “rebelde sem causa”, quase um delinquente juvenil, pronto para quebrar as regras da normalidade e das convenções sociais pré-estabelecidas. Como o professor também não era nenhum fanático por futebol, ficou decidido que haveria aula de qualquer maneira, apesar da coincidência de horário com a peleja em terras astecas. Quando penso nesse dia, às vezes acho graça. Mas, às vezes, sinto um terrível calafrio percorrendo a espinha.

 

Se não me engano, o jogo seria entre Brasil e Irlanda do Norte, ainda pela primeira fase do torneio. Lembro apenas que era um dia útil de semana, e à medida que eu me aproximava do centro da cidade, com os cabelos compridos até a altura dos ombros e o caderno de tablaturas e acordes embaixo do braço, um cenário surreal foi se descortinando perante os meus olhos. As grades de ferro das lojas, dos bares e das farmácias estavam, invariavelmente, fechadas. Não havia carros buzinando na avenida, nem pedestres transitando pelas calçadas, e até mesmo os mendigos e os pardais tinham desaparecido. Não havia guardas, nem entregadores de volantes impressos com as palavras “compro ouro”, nem camelôs, nem harekrishnas vendendo incenso, nem mulheres bonitas, nem vagabundos nos bancos da praça. Não havia ninguém ao redor. Por um instante, parei de caminhar, assombrado com aquela paisagem dantesca. Olhando para os prédios imóveis e mudos, para o céu onde brancas nuvens passavam devagar, e para as ruas desertas onde as pessoas costumavam caminhar freneticamente todos os dias, tive a sensação de estar em um mundo paralelo. Pálidos raios de sol repousavam sobre as pedras geladas, como se um dilúvio ou uma bomba atômica houvessem varrido da face da terra toda e qualquer forma de vida. O rumor do vento a farfalhar entre os galhos das árvores era tudo o que se ouvia, nessa tarde desolada e absurda.

 

Por via das dúvidas, no jogo seguinte do Brasil eu fiquei em casa, sentado no sofá, enquanto nossos craques corriam como lebres sobre o tapete verde na televisão.

 


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09/06/2014 - 09h06min

Asas do absurdo

Quem tem sorte de ser jovem há mais tempo, assim como eu, certamente deve se lembrar de um filme chamado “Esses Homens Maravilhosos e suas Máquinas Voadoras”. Em uma época onde não havia internet ou videocassete, cada reprise da  aventura  na Sessão da Tarde era um verdadeiro acontecimento. A trama desta película inglesa de 1965, que tinha inclusive Alberto Sordi no elenco, girava em torno de uma corrida aérea sobre o Canal da Mancha, no começo do século passado. As cenas dos galantes competidores chegando de todas as partes do mundo com seus aviões rasgando o céu, voando baixo sobre a paisagem pastoril e as belas camponesas que mandavam beijinhos, fascinavam a minha cabeça de criança. Parece que foi ontem que eu passei momentos agradáveis na frente da televisão, sentado no sofá comendo pipoca, estarrecido com as peripécias da desastrada dupla alemã, do americano com chapéu de caubói, do italiano sentimental, do francês conquistador, do vilão e do mocinho inglês. A reunião dos pilotos de várias nações dirigindo seus pássaros de metal, cada qual com manias e bandeiras diferentes, era um espetáculo bonito de se ver. Deslumbrada com as novas maravilhas da ciência,  a trupe atirou-se aos céus rumo à glória urgente e desconhecida.

 

Algo parecido acontece agora, aqui no Brasil, quando vejo as delegações dos países que vão disputar a Copa do Mundo desembarcando com as suas tradições, táticas, sonhos e mistérios na bagagem. Qual será a equipe, dentro desse caldeirão étnico e cultural, que terá a honra de levantar o caneco? No grupo do Brasil estão a Croácia, trazendo as belezas da capital Zagreb e as memoráveis atuações na Copa da França, em 1998; o México, com a melodia dos “mariachis” e um futebol sempre aguerrido e goleador; e Camarões, com a sua irreverência e coragem características, surgindo como digno representante do continente africano.

 

Curiosamente, não havia nenhum aviador brasileiro, croata, mexicano ou camaronês no filme que eu assistia na infância.  Nota-se que todos eles seriam cidadãos de países à margem, fora do restrito clube das nações importantes do planeta. E, se por um lado demos ao mundo um Santos Dumont, homem capaz de rivalizar com as grandes mentes europeias e americanas pela primazia de ter inventado o avião, a nossa realidade hoje, assim como na época, é feita de aspirações bem mais rasteiras do que alcançar a brancura das nuvens e a grandeza dos ares. De fato, estamos em um nível abaixo, mais próximo da grama rala e do campo duro onde serão disputadas as partidas da Copa. Ruminando nessa relva de ilusões, vemos o nosso querido torrão infestado pela praga da corrupção, da incompetência, da falcatrua, da violência e da pobreza nas ruas. Apesar do país ter melhorado em muitos aspectos ultimamente, a greve no metrô em São Paulo, o caos no trânsito das cidades, e o absurdo das improvisações de última hora para hospedar a Copa são uma prova triste de como somos desorganizados e, porque não dizer, ainda subdesenvolvidos.

 

Viajando nas asas da bagunça e da malandragem, nosso teco-teco sem jato sobrevoa montanhas de dinheiro roubado e mares de problemas, exibindo a sua face indesejada para o mundo inteiro ver. Um cenário desolador, e que faz lembrar de como seria bom ter alguma alegria, nem que seja vencendo dentro de campo.  Afinal, quem sabe assim, erguendo a taça no Maracanã, o país acorde para as suas virtudes reais e reencontre a dignidade, também, em horizontes além do esporte.

 


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30/05/2014 - 14h34min

Pedras que rolam não criam limo

Outro dia, li uma entrevista com Mick Wall,  jornalista britânico que acaba de lançar uma biografia da banda de rock AC/DC. Sem querer desmerecer o trabalho do sujeito, acho que ele foi extremamente infeliz ao dizer que o conjunto “deveria ter parado de tocar há 30 anos”. Confesso que fiquei estupefato com essa declaração. Por que “ter parado”? Porque eles alcançaram o ápice do sucesso e depois disso lançaram alguns álbuns com composições que não estavam à altura dos grandes clássicos? Porque eles estão velhos e não tem mais a mesma energia de antes para fazer um show frenético por horas a fio?

 

Sinceramente, não vejo sentido nisso.  Afinal, o artista deve fazer aquilo que ele sabe, esse é o seu trabalho, e ele deve fazer isso até que tenha necessidade e disposição. E se os membros do AC/DC não fossem famosos? Se eles não tivessem os cofres cheios, o esperto jornalista iria aconselhá-los a simplesmente “parar” de tocar? Bem, nesse caso talvez fosse uma opinião sensata, afinal poucos músicos conseguem viver dignamente através da profissão. Mas, de qualquer maneira, se o indivíduo só sabe tocar guitarra na vida, esse deve ser o seu ganha-pão, e não o de marceneiro, nem o de leiteiro, nem o de advogado.

 

Oscar Niemeyer seguiu produzindo até a morte, já com mais de cem anos. Dercy Gonçalves atuou até os noventa. E Stanley Matthews jogou futebol até os cinquenta.  O lendário ponteiro direito inglês foi um atleta longevo graças à boa saúde, mas também porque  gostava de trabalhar. Afinal, as duas coisas se completam. Esse verdadeiro Matusalém dos relvados jogou em apenas dois clubes, Stoke City e Blackpool. Com o último, conquistou a Copa da Inglaterra de 1953. Vestindo a camisa da seleção inglesa, Matthews esteve no Brasil durante a Copa de 1950, fazendo parte do time que perdeu para a Espanha por 1 a 0, no Maracanã. Eleito o melhor jogador da Europa pela conceituada revista France Football, em 1956, além de ter sido agraciado com o título de “Sir” pelas autoridades do seu país, Matthews deveria ser mais lembrado nos dias de hoje, onde alguém com mais de trinta anos já é considerado velho para o esporte. 

 

Portanto, chega de preconceito! Deixem o pessoal trabalhar em paz, sejam eles jovens ou velhos, ricos ou pobres, gênios ou medíocres, boleiros ou violeiros. Talvez seja essa, afinal, a única fórmula possível para enganar o estigma da morte: continuar no batente sem parar, ativando a mente e os músculos enquanto houver gás para rolar as pedras e acalentar os sonhos que nascem a cada dia.

 


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22/05/2014 - 10h05min

A revolução do bigode

Agora que os protestos contra a Copa estão arrefecendo e a população está entrando no clima da festa, ciente de que é inútil continuar reclamando, passemos para os procedimentos que nos cabem aqui nesse espaço, ou seja, projetar as chances e analisar as nuances do time de Felipão que encara a perigosa Croácia no dia 12 de junho.

 

Uma das convocações acertadas, na minha opinião, foi a de Fred. O filho ilustre de Teófilo Otoni sempre foi um goleador implacável nos times em que passou, e tem sido um dos esteios dessa renovada seleção. Além disso, tem experiência, liderança, e até mesmo um lado excêntrico, como deixa claro o  bigode recentemente cultivado pelo craque. Uma atitude corajosa, tendo em vista o quanto este adereço está fora de moda entre os jovens. Mas Fred é um sujeito que tem as suas próprias convicções, e não liga muito para frivolidades e coqueluches. Tomara que ele possa repetir as picardias de Rivelino, o bigodudo mais famoso do futebol brasileiro, que em 1970 fascinou as plateias mexicanas com a sua “patada atômica”.   

 

No começo do século passado, usar bigode era algo normal entre a maioria dos homens. Charles Miller, tido como o introdutor do popular esporte no Brasil, era dono de um vasto “opcional”, com longas cerdas pontiagudas enroladas. Na década de quarenta, o bigodinho fino, típico do malandro carioca, entrou em voga, adornando a face dos craques de então, como Zizinho, Didi e Ademir. Nos dias de Rivelino, os bigodes pareciam ter uma inspiração “hippie”, e, no caso do canhoto genial, eram desgrenhados e rebeldes como os seus próprios cabelos.

 

Na Copa de 1978, enquanto Rivelino dava o seu canto de cisne com a camisa amarelinha, novos bigodes surgiam no horizonte. Durante o jogo entre Brasil e Argentina, por exemplo, houve uma contenda magnífica entre o volante Chicão e o atacante platino Luque. E não foi uma disputa apenas pela posse da pelota, mas para ver quem tinha o bigode mais volumoso, ambos os atletas parecendo “cucarachas” saídos de um filme de bandoleiros.  Mais recentemente, como uma andorinha que se perdeu e ficou para trás do bando, o atacante vascaíno Valdir ressuscitou o adereço, provando que o que é bom não tem idade.

 

Fred, ao exibir o seu bigode, causa uma pequena revolução nesse mundo onde reinam os craques de rostinho barbeado e milhões na conta bancária, como Messi, Cristiano Ronaldo e Beckham. O seu visual reflete, de um certo modo, o espírito do elenco reunido por Felipão, composto por jogadores pouco conhecidos (exceção feita a Neymar), seres que giram como planetas periféricos ao redor dos badalados astros do futebol europeu. Prova disso é a convocação de atacantes que atuam em clubes brasileiros, algo que há muito tempo não acontecia, como o próprio Fred, e Jô.  Este, inclusive, lembra a figura esguia de Dario, reserva da seleção de 1970 e que, assim como Jô hoje, defendia o Atlético Mineiro na época.

 

Apesar da saudável melancolia provocada por essas coincidências, ninguém aqui pretende que a seleção molde o seu jogo a partir de times de eras remotas, mesmo que esse time seja o de 1970, que encantou e venceu de forma contundente. Não. O que se quer é um time que mostre um bom futebol, dentro do que é possível desempenhar nos dias atuais. Para tanto, será preciso espírito de luta e disciplina, mas também uma dose de romantismo.  Algo de inocente e absurdo, que desfaça um pouco da empáfia dos metrossexuais e superdotados de plantão. Algo que possa estabelecer uma nova ordem, com bandeiras de uma revolta sem fuzis tremulando nos estádios e trazendo de volta as coisas simples do esporte.

 


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03/05/2014 - 09h04min

Batina negra

Desde que o Papa Francisco assumiu o trono da igreja católica em Roma, o San Lorenzo ganhou fama e prestígio em razão deste ilustre torcedor. O que talvez muitos não saibam, é que foi sob os auspícios de um outro padre que o clube de Buenos Aires deu os seus primeiros passos. No início do século passado, um grupo de jovens portenhos criou um time chamado “Los Forzosos de Almagro”. Vendo que a turma jogava as suas peladas em terrenos baldios sem as condições ideais, e, para que os garotos ficassem mais próximos da sua paróquia, o padre Lorenzo Massa aplainou e limpou um campo lindeiro ao oratório San Antonio. Além disso, providenciou o fardamento para o time, conquistando a admiração e o carinho dos atletas juvenis. Na assembleia de fundação do clube, em abril de 1908, o antigo nome foi abandonado, e os rapazes decidiram rebatizar o time prestando uma homenagem ao seu mentor. O padre aceitou, desde que a honraria fosse estendida ao santo de mesmo nome.         

 

A partir de então, o San Lorenzo iniciou uma longa trajetória, cheia de altos e baixos, até se firmar como um dos grandes clubes da Argentina. O primeiro título da era profissional veio em 1933, impulsionado pelos craques Arrieta e García. Em 1946, mais um campeonato, e o surgimento do célebre trio de ataque formado por Farro, Pontoni e Martino. E como esquecer do fabuloso artilheiro José Sanfilippo, integrante da equipe campeã de 1959? Seu faro de gol fora do comum fez de Sanfilippo uma presença constante também na seleção argentina daqueles tempos.

 

Entre tantos canecos, craques e emoções, o San Lorenzo recebeu diversos apelidos. “El Ciclon”, por exemplo, foi plasmado pelo jornalista Hugo Marini, depois da campanha avassaladora que levou ao título de 1933. Vale a pena lembrar que o maior rival do San Lorenzo é justamente o Huracán, clube baseado no bairro vizinho de Parque Patrícios. Dessa maneira, não seria nenhum disparate chamar o derby da zona sul de Buenos Aires de “clássico dos ventos”, opondo o ciclone e o furacão em uma luta descomunal entre duas forças da natureza e do futebol.

 

O mote de “corvos”, por sua vez, surgiu graças à inconfundível batina preta usada pelo padre Lorenzo Massa nos primórdios da instituição. A roupa, de tecido grosso com grandes botões redondos, parecia ter vida própria, flanando como um anjo negro nos treinos e jogos do time.  Uma indumentária sinistra, bem diferente do hábito branco do Papa Francisco, diga-se de passagem.

 

Aliás, se pararmos para pensar, não seria lógico que o Papa, como bom cristão, torcesse para que os atletas do San Lorenzo fossem mais solidários com os adversários dentro de campo? Afinal, segundo reza a Bíblia, é dando que se recebe, e Jesus ofereceu a outra face depois de um tapa. Imaginemos a cena: o goleiro Torrico deixando as bolas passarem, uma após a outra, sem esboçar reação, contente em fazer o bem ao próximo (no caso a torcida do time rival). Em seu quarto sem luxos no Vaticano, o Papa, ao pé do rádio, sorri com todos os dentes, satisfeito com a atitude de desapego praticada por seus ídolos. Como devoto de São Francisco de Assis, ele não deseja a riqueza, nem taças douradas de campeão.

 

Trata-se de um cenário muito bonito, mas pouco provável no mundo real. Até porque, se folhearmos as páginas da Bíblia outra vez, encontraremos a passagem na qual Jesus expulsa os cambistas do templo com um chicote. Uma atitude muito mais adequada às regras e costumes do futebol dos nossos dias, onde a força bruta é tão necessária quanto a habilidade para aplicar dribles e fintas desconcertantes. E onde uma batina negra, com algo de maligno e sombrio em suas costuras, pode ter significados tão profundos quanto aqueles de uma túnica alva, com suas mensagens de paz, amor e fraternidade.

 


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18/04/2014 - 11h04min

Cego no ringue do amor

No jargão do boxe, ele era conhecido como “O Touro do Bronx”. Nesse desolado bairro nova-iorquino, Jake La Motta nasceu, cresceu, e cometeu seus primeiros crimes. Após ser levado a um reformatório, o  delinquente juvenil, graças aos conselhos de um padre, passou a trilhar os caminhos tortuosos da nobre arte. Jake tinha cabelos negros cacheados, e seu nariz era torto e pontudo como o de uma bruxa. Seu queixo era feito de granito, mas suas mãos, pequenas e delicadas, pareciam de mulher. Sem ser franzino nem muito encorpado, o rapaz, depois de posto em liberdade, passou a lutar na categoria dos pesos-médios.

 

Ao longo da sua carreira, Jake enfrentou rivais de todas as qualidades. Entretanto, assim como o capitão Acab encontrou um oponente fantástico na baleia Moby Dick, a grande nêmesis de Jake dentro dos ringues foi Sugar Ray Robinson. Foram seis lutas entre os dois, sendo que Jake venceu apenas uma, em 1943. Mas foi uma vitória repleta de significados, pois Ray, um pugilista nitidamente superior a Jake, jamais tinha sido derrotado até então. Segundo muitos especialistas, Ray foi o melhor homem a vestir luvas, em todos os tempos e categorias, praticando o belo e sujo ofício do boxe com atuações que beiravam a perfeição. Sem ser nenhum virtuose, Jake, por sua vez, não recebia a chance de disputar o título, por mais oponentes que ele derrubasse. Apenas após compactuar com a máfia que controlava o esporte, sendo obrigado a forjar uma derrota para o inexpressivo Billy Fox, é que Jake pôde finalmente assumir o papel de desafiante. E ele não decepcionou, conquistando o cinturão em uma luta emocionante contra o francês Marcel Cerdan, em 1949.

 

Dois anos depois, mais uma vez Sugar Ray Robinson surgiu em seu caminho. O combate final entre eles estava fadado a se tornar um clássico, entrando para a história como “O Massacre do Dia dos Namorados”. O apelido remete à chacina ocorrida em 1929, quando um magote de mafiosos irlandeses foi executado, supostamente a mando de Al Capone, no interior de uma garagem em Chicago. A luta ocorreu na mesma cidade e dia do misterioso crime, 14 de fevereiro, quando os amantes comemoram a sua data no país americano. Após um começo alucinante em que agrediu seu arqui-rival com a fúria de costume, Jake foi aos poucos sendo dominado por Ray, perdendo suas forças como a mosca que se debate na teia de uma aranha. O castigo final veio no décimo terceiro assalto, quando Jake foi fustigado sem piedade por Ray, fazendo com que o juiz interrompesse o combate a fim de evitar uma tragédia. Mesmo assim, o “Touro do Bronx” não beijou a lona, sustentando o peso do corpo surrado com os braços abertos entre as cordas.

 

A dor. Jake, durante a sua trajetória sobre os ringues, sempre pareceu imune a ela. Golpes no fígado, na têmpora, nos braços e na cabeça, desferidos com incrível violência, dos mais diversos ângulos e posições, nunca foram capazes de machucá-lo. Sem embargo, houve uma dor que ele não pôde suportar. Uma dor terrível, que penetrava no seu âmago com a força de mil ganchos e o veneno de um direto demolidor. Uma dor que dilacera corações quando a flecha do cupido acerta o seu alvo. A dor do ciúme, para Jake, foi uma companheira fiel e uma madrasta dominadora.

 

Vicki era uma jovem de rara beleza, dona de olhos negros e louros cabelos ondulados pendendo sobre a pele macia dos seus ombros. Nos anos em que esteve casado com ela, Jake, ao mesmo tempo em que encontrou a felicidade, perdeu a sua paz, sendo assolado pela sombra do ciúme cada vez que sua mulher falava, ou simplesmente olhava de um jeito diferente para outros homens. Nas suas memórias, Jake admite que seu problema era falta de auto-estima, e ele se perguntava a todo instante o que aquela tremenda beldade teria visto num cara ordinário como ele. Este instinto doentio acabaria sendo fatal, motivando brigas e precipitando a ruína do seu casamento.

 

Enquanto durou o romance, contudo, o bravo pugilista padeceu em uma espécie de inferno particular, transtornado por um sentimento que fazia tremer as suas pernas, como elas jamais haviam tremido, nem mesmo na mais brutal das suas lutas de boxe. Sem ter uma noção clara dos fatos, Jake tentava se esquivar dos golpes, bailando cegamente na escuridão do seu quarto, entre cortinas de seda e uma cama vazia. Seus olhos inchados, com hematomas púrpuros causados pelos punhos de um inimigo imaginário, nunca puderam ver as imagens do campeão, do marginal, do homem bom e do homem mau refletidas no espelho. No fim, eles pertenciam apenas a um sonhador inocente, que se deixou levar pelos labirintos inexpugnáveis do jogo do amor.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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