13/12/2014 - 12h18min

Caminhos cruzados

Um belo dia, o homem desperta para a sua vocação. Quando Rubem Braga, então um garoto de 15 anos, mudou-se para Niterói a fim de realizar seus estudos, passou a enviar regularmente relatos para o jornal dirigido por seus irmãos mais velhos. "O Correio do Sul", situado na bucólica terra natal de Rubem, Cachoeiro do Itapemirim, era um periódico com forte viés político, que fazia apologia ao Partido Republicano. O ano era 1928. Através das suas impressões sobre o Rio de Janeiro, Rubem começou a extravasar a sua veia de cronista, incorporando para sempre tal ofício. Foram os primeiros passos de um gigante das letras. Em 1936, é lançado o livro de estreia de Rubem, "O Conde e o Passarinho", pela editora José Olympio. No prefácio, o autor se define: "sou jornalista, o que quer dizer: nem um literato nem um homem de ação." Para muitos, ele foi o maior cronista que o Brasil já teve.

Às vezes precisamos de um "empurrãozinho" para encontrar o nosso rumo, o nosso destino. Trabalhando como arquivista do "Tribuna da Imprensa", Zuenir Ventura teve o incentivo do professor Hélcio Martins para começar a escrever para jornal. Futuro vencedor do Prêmio Esso e autor do elogiado "1968, o Ano Que Não Terminou", Zuenir ficou com aquele vaticínio na cabeça. Um belo dia, o irascível e habilidoso político Carlos Lacerda, dono da "Tribuna", irrompe na redação demandando uma matéria sobre o falecimento do escritor Albert Camus, que acabara de ocorrer. Instintivamente, Zuenir ergue o braço, aceitando o desafio e dando início a uma brilhante carreira dentro da imprensa nacional.

Mais de 45 anos como colaborador de um jornal não é pouca coisa. Pois esse é o tempo (mais precisamente desde 1968) que Horacio Pagani vem se dedicando ao diário argentino Clarín. Essa longa estrada teve começo quando o jovem Horacio, desinteressado pela faculdade de Ciências Econômicas e pelo emprego no Banco de Boston, escutou o conselho de um amigo, Julio Palazzo. Ciente das manias de Horacio - como, por exemplo, narrar partidas de futebol imaginárias e anotar freneticamente os resultados dos jogos em uma planilha -, Palazzo sugeriu ao rapaz a carreira de jornalista esportivo.

Em Buenos Aires havia a escola do Circulo de Periodistas Deportivos. Nesse ambiente, Horacio escreveu seus textos iniciais até chamar a atenção de seu ídolo Osvaldo Ardizzone. Figura respeitada, Ardizzone era nome de relevo na revista El Gráfico. Além disso, atuava como professor. E foi assim, corrigindo redações, que teve acesso ao trabalho de Horacio. Os elogios do mestre foram fundamentais para despertar o jornalista adormecido que havia no pupilo.

A palavra está nas tintas de um jornal e está, também, nas ondas do rádio. Luiz Mendes, um dos maiores locutores esportivos do Brasil, teve a chance de debutar em uma transmissão na Radio Globo por obra do imponderável. Como o titular Gagliano Neto não compareceu ao trabalho em um dia fortuito, Mendes aproveitou a deixa e acabou se firmando no posto por vários anos, criando bordões e cativando a audiência com a sua voz límpida e macia. Mais tarde, o próprio Mendes ajudaria outro notável profissional da área, ao sugerir o nome artístico e incentivar o futuro apresentador Leo Batista, quando este era um jovem em início de carreira.   

 

Para alguns, o desvelar de uma vocação é algo natural, constante e firme. Para outros, acontece por acaso, tardiamente, graças a algum conselho, um sinal qualquer ou à interferência de alguém mais experiente no ramo que vislumbre um talento escondido e aponte o caminho a ser tomado. Nesse dia, o homem nasce pela segunda vez, encontrando aquele destino que lhe trará a felicidade, a cidadania e o seu ganha-pão.

 


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26/11/2014 - 21h11min

Os ossos da donzela

Linda donzela dos meus sonhos

Eras tão jovem e sem dores

Quando eu vinha do campo, a cavalo

Trazendo-te um buquê de flores


As tuas mãos frágeis e faceiras

Trabalhavam sem atraso

Quebrando os ramos mais compridos

Que não cabiam em teu vaso


Alguns anos se passaram

Envoltos nessa fantasia

Até que tu, linda donzela

Cansou da minha companhia


E então cinicamente

Nosso castelo abandonaste

Para buscar um outro amor

Que a tua boca osculasse


Sentada sob as sombras

De um carvalho muito antigo

Com os braços esticados

Para esse novo amigo


Acabaste falecendo

Ainda jovem e tão bela

Trazendo em teu olhar tristonho

Uma lágrima singela


Então o prático coveiro

Dos braços rijos, da tua mão

Foi quebrando aqueles ossos

Que não cabiam no caixão



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19/09/2014 - 17h19min

Enquanto isso, em algum lugar do oceano...


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23/07/2014 - 21h07min

Tintas da paixão

O cimento da arquibancada é duro e cinzento, e o pintor sabe que não será fácil vencê-lo. O estádio está vazio, e na relva onde se joga o popular esporte ainda brilham as gotas do orvalho da madrugada. Um bando de quero-queros está ciscando sobre a geada, entre a claridade difusa do novo dia. Destilando o líquido viscoso dentro de um recipiente, enquanto aspira o ar fresco da manhã, o pintor pede coragem aos céus para enfrentar mais uma árdua jornada de trabalho. Perdido na vastidão da arena desabitada, ele executa sua obra como a própria natureza, sem mestres, nem prazos.

 

Antes de ser exatamente um profissional (chamá-lo de “pintor” é uma espécie de licença poética para a consumação destas memórias), esse curioso personagem, movido por uma cega paixão, entregou-se de corpo e alma à tarefa de embelezar as tribunas do estádio Centenário. Sim, o palco de tantas vitórias avassaladoras e perenes do estimado SER Caxias precisava de uma dose de carinho, após ser castigado por anos de chuva, sol, sangue, suor e lágrimas derramados sobre a sua impassível estrutura de concreto. Com a mão firme, o pintor busca o equilíbrio das tintas em sua aquarela, imprimindo pinceladas cheias de emoção. Enquanto isso, sonha com voos mais altos do Caxias nos gramados da vida. O almejado acesso à série B do campeonato brasileiro há de chegar, pensa ele ajoelhado sobre a superfície áspera da arquibancada.

 

Como um Aleijadinho lapidando os seus Profetas, ou um Michelângelo criando os afrescos da Capela Sistina, o pintor solitário trabalha em silêncio, buscando inspiração na sua musa encantadora, na sua deusa particular. Empregando técnicas dignas de um Mondrian, ele dispõe de três cores básicas para desenhar e homenagear o seu amor maior. Azul, branco e grená formam a paleta das tintas derramadas no cimento, nas cadeiras, grades e paredes do estádio, para regozijo dos milhares que, como eu, testemunhavam o progresso lento e constante da obra-prima a cada domingo, quando o estádio abria as portas e acalentava a turba espessa em suas entranhas.

 

Já é noite. As lâmpadas da favela se acendem e os morcegos do cemitério acordam outra vez. O pintor recolhe o seu material, deixando que tintas e pincéis descansem até o dia seguinte. Por entre as ruas escuras da cidade, ele caminha feliz, assobiando uma canção rumo ao conforto do seu lar.

 

 

                                                                                                                                                                                                        Crônica dedicada ao torcedor Adriano Gardelin 

 


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09/07/2014 - 19h07min

O anfitrião aniquilado

No dia da festa, o anfitrião acordou cedo. Embora não fosse do seu costume, a ocasião exigia certos sacrifícios, como arrumar a casa, preparar os doces e salgados, além de providenciar bebida para o bar.  Afinal, ele receberia convidados de vários países, e tudo tinha que estar no capricho. Mesmo assim, certas providências ficaram para a última hora: a sujeira da sala acabou sendo varrida para baixo do tapete, e algumas teias de aranha permaneceram incólumes nos cantos da casa verde e amarela.

 

Mais tarde, quando o evento estivesse no auge, o anfitrião poderia finalmente convencer a sua mulher que ele era um grande jogador de futebol. A sua autoridade seria posta em xeque, o seu repertório de dribles, fintas, e a sua vocação irresistível pela vitória seriam testados no campinho do próprio quintal. Dentro dos seus domínios, ele seria o dono da bola outra vez! A mulher era uma torcedora, não muito fiel, diga-se de passagem, do marido, e estava ansiosa pelo desempenho daquele homem que ultimamente vivia atrelado a glórias e conquistas do passado. Ela, que adorava futebol, estava cansada da arrogância do marido, usando sempre a mesma camisa com cinco estrelas costuradas, se julgando o maioral. Não é que ela não o amasse. Pelo contrário, tinha certo orgulho do marido, sabia que ele era um sujeito de bom coração, prestativo, que gostava de samba, entre outras qualidades. Depois de tomar banho e vestir uma roupa nova, o anfitrião disse à mulher: “Querida, podemos ser humildes, e é verdade que a nossa mesa não é tão farta, mas a melhor iguaria que alguém pode oferecer às visitas é a alegria!”.

 

Os convidados foram chegando aos poucos, enquanto caia a noite cheia de estrelas no céu. Por alguns instantes, o anfitrião e a mulher foram felizes, servindo quitutes, bebidas e simpatia a todos. A festa, não restava dúvidas, estava sendo um sucesso. O rumor das risadas histéricas, o estouro das rolhas, e a música que tocava sem parar, preenchiam o ambiente da casa simples, mas acolhedora. Contudo, após duas ou três doses de uísque, o anfitrião passou a se comportar de forma estranha.  A mulher, que já conhecia o jeito do marido, temeu pelo pior, ainda mais quando ele, visivelmente nervoso e emocionado, passou a fazer embaixadinhas com uma bola de plástico. A cena, que misturava tragédia e comédia, comoveu a todos os presentes.

 

Nesse instante, o convidado alemão se aproximou e, demonstrando sangue frio e fidalguia, amparou o anfitrião, que repetia com a voz trêmula, “eu sou o melhor, eu sou o melhor!”.  O alemão não sabia fazer embaixadinhas, mas estava sóbrio, e, à medida que os ponteiros do relógio giravam madrugada adentro, tomou gentilmente a bola das mãos do anfitrião, como quem tira o doce de uma criança. Depois, esbofeteou o anfitrião sete vezes na cara, para que este acordasse do seu estado de torpor. Feito isso, despediu-se, e calmamente tomou o caminho da rua. Os demais convidados foram saindo devagar, chocados com o fiasco proporcionado pelo anfitrião.

 

Fim de festa. Esparramado no sofá da sala, o anfitrião observa os copos e as garrafas vazias ao redor, os cinzeiros repletos de baganas de cigarro sobre a mesa, os quadros imóveis na parede. Tudo parece um pesadelo tristonho e cruel. No banheiro do quarto, a mulher remove a maquiagem na frente do espelho, a tintura escorrendo pelo ralo junto com a ilusão perdida na noite. Um tênue raio de sol surge implacável através da cortina, enquanto o galo canta em algum lugar da vizinhança.   

 


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01/07/2014 - 19h07min

Simplesmente Givanildo

Terminado o sufoco e o drama da seleção brasileira em Belo Horizonte, um dos jogadores mais criticados foi o atacante Hulk. Injustiça! Hulk foi um dos únicos a mostrar raça,  partindo para cima do time chileno sempre que possível (enquanto outros se escondiam da bola), além de tentar atiçar os brios da apática torcida presente ao Mineirão. É verdade que o bravo e corpulento camisa sete perdeu o seu pênalti no desempate final, mas isso em nada tira o seu mérito, nem apaga a sua atuação positiva.

 

Se pararmos para pensar, o apelido do jovem paraibano, inspirado no gigante verde criado por Stan Lee e Jack Kirby, em 1962, traz uma coincidência escondida em seu bojo. Afinal, Hulk é aquilo que chamamos de “super-herói”, um sujeito cheio de poderes fantásticos, capaz de fazer coisas que os reles mortais jamais ousariam, como atravessar o mundo dando pulos quilométricos ou açoitar terríveis inimigos com socos demolidores. Vivendo no universo fantasioso do "pais do futebol", acostumados com conquistas e láureas mil através dos tempos, às vezes parecemos acreditar que o simples fato de vestir a camisa canarinho transformará qualquer atleta em um estupendo jogador, como se ele fosse um personagem de uma história em quadrinhos. Em nossa  arrogância cega e desvairada, exigimos que Julio César seja infalível, que Neymar drible todo o time adversário sempre que receber a bola, que Fred marque um golaço em todas as partidas, que Luiz Gustavo não erre nenhum passe durante os noventa minutos do prélio.

 

Acho que deveríamos tirar, pois, a máscara de salvador da pátria imposta a Hulk, abandonando o apelido suntuoso e passando a chamá-lo pelo seu nome de batismo, ou seja, Givanildo. Um nome de craque, aliás, se lembramos da figura do volante Givanildo Oliveira, que jogou no Santa Cruz, Sport, Corinthians e na própria seleção brasileira durante a década de 1970.  Ao contrário do seu xará musculoso, o Givanildo de antigamente tinha o corpo esquálido, os membros finos e um rosto peculiar, sendo também conhecido entre a torcida como Givanildo “cabeça de navio”.

 

Voltando ao jogo do Mineirão, vale a pena destacar a qualidade do adversário, um time sólido e perigoso, formado por uma geração de craques como poucas vezes se viu no país andino. Sem dúvida, a rapaziada brasileira superou um escolho duríssimo na longa corrida rumo ao título. Um título que dificilmente será alcançado, contudo, se persistir a aura fabulosa criada ao redor conjunto, como se os nossos atletas fossem criaturas de um outro planeta. Mais sensato seria tratá-los como seres humanos de verdade, sujeitos à emoção, ao erro vil, ao choro deslavado. Sentimentos terrenos, mas, assim como a humildade e a coragem, necessários para encontrar a vitória sublime, onde quer que ela esteja afinal.

 


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09/06/2014 - 09h06min

Asas do absurdo

Quem tem sorte de ser jovem há mais tempo, assim como eu, certamente deve se lembrar de um filme chamado “Esses Homens Maravilhosos e suas Máquinas Voadoras”. Em uma época onde não havia internet ou videocassete, cada reprise da  aventura  na Sessão da Tarde era um verdadeiro acontecimento. A trama desta película inglesa de 1965, que tinha inclusive Alberto Sordi no elenco, girava em torno de uma corrida aérea sobre o Canal da Mancha, no começo do século passado. As cenas dos galantes competidores chegando de todas as partes do mundo com seus aviões rasgando o céu, voando baixo sobre a paisagem pastoril e as belas camponesas que mandavam beijinhos, fascinavam a minha cabeça de criança. Parece que foi ontem que eu passei momentos agradáveis na frente da televisão, sentado no sofá comendo pipoca, estarrecido com as peripécias da desastrada dupla alemã, do americano com chapéu de caubói, do italiano sentimental, do francês conquistador, do vilão e do mocinho inglês. A reunião dos pilotos de várias nações dirigindo seus pássaros de metal, cada qual com manias e bandeiras diferentes, era um espetáculo bonito de se ver. Deslumbrada com as novas maravilhas da ciência,  a trupe atirou-se aos céus rumo à glória urgente e desconhecida.

 

Algo parecido acontece agora, aqui no Brasil, quando vejo as delegações dos países que vão disputar a Copa do Mundo desembarcando com as suas tradições, táticas, sonhos e mistérios na bagagem. Qual será a equipe, dentro desse caldeirão étnico e cultural, que terá a honra de levantar o caneco? No grupo do Brasil estão a Croácia, trazendo as belezas da capital Zagreb e as memoráveis atuações na Copa da França, em 1998; o México, com a melodia dos “mariachis” e um futebol sempre aguerrido e goleador; e Camarões, com a sua irreverência e coragem características, surgindo como digno representante do continente africano.

 

Curiosamente, não havia nenhum aviador brasileiro, croata, mexicano ou camaronês no filme que eu assistia na infância.  Nota-se que todos eles seriam cidadãos de países à margem, fora do restrito clube das nações importantes do planeta. E, se por um lado demos ao mundo um Santos Dumont, homem capaz de rivalizar com as grandes mentes europeias e americanas pela primazia de ter inventado o avião, a nossa realidade hoje, assim como na época, é feita de aspirações bem mais rasteiras do que alcançar a brancura das nuvens e a grandeza dos ares. De fato, estamos em um nível abaixo, mais próximo da grama rala e do campo duro onde serão disputadas as partidas da Copa. Ruminando nessa relva de ilusões, vemos o nosso querido torrão infestado pela praga da corrupção, da incompetência, da falcatrua, da violência e da pobreza nas ruas. Apesar do país ter melhorado em muitos aspectos ultimamente, a greve no metrô em São Paulo, o caos no trânsito das cidades, e o absurdo das improvisações de última hora para hospedar a Copa são uma prova triste de como somos desorganizados e, porque não dizer, ainda subdesenvolvidos.

 

Viajando nas asas da bagunça e da malandragem, nosso teco-teco sem jato sobrevoa montanhas de dinheiro roubado e mares de problemas, exibindo a sua face indesejada para o mundo inteiro ver. Um cenário desolador, e que faz lembrar de como seria bom ter alguma alegria, nem que seja vencendo dentro de campo.  Afinal, quem sabe assim, erguendo a taça no Maracanã, o país acorde para as suas virtudes reais e reencontre a dignidade, também, em horizontes além do esporte.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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