16/08/2014 - 12h08min

Felicidade em preto e branco

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Folheando a esmo os livros sobre futebol e boxe que repousam na minha estante, encontrei algumas fotos em preto e branco dignas de comentário. Em uma delas, Joe Louis está sentado em uma mesa meticulosamente arrumada com toalha de linho branco, pratos de porcelana e taças de cristal. Atrás dele, um armário de madeira escura, trabalhada por algum talentoso artesão, contrasta com o papel de parede em motivos florais.  Ao redor do campeão estão sua mãe, com um sorriso protetor oferecendo uma travessa com pedaços de frango assado ao filho; e sua mulher, lábios pintados e cabelo bem arrumado, com uma jarra de chá gelado na mão, servindo Joe com diligência.  Em um momento de descanso entre as lutas que, no final dos anos 1930 o elevaram à condição do negro mais famoso da história norte-americana até então, Joe desfrutava do conforto e da harmonia do lar.

 

O apelo de Joe Louis entre as massas não era fruto do acaso. Considerado o melhor peso-pesado que já vestiu luvas em todos os tempos, o garoto nascido no Alabama exercia seu ofício com lealdade, nunca apelando para golpes baixos, sendo lembrado como alguém que teve o mérito de devolver a dignidade perdida ao boxe. Fora dos ringues, Joe também tinha um comportamento exemplar. Em sua juventude, não fumava nem bebia, servindo de modelo para milhões com seu jeito cândido, humilde e altruísta. Após ter pendurado as luvas em 1949, com apenas uma derrota em seu cartel, no ano seguinte Joe empreendeu uma infrutífera volta aos ringues. Em outubro de 1951, Rocky Marciano nocauteou o velho campeão (de quem era fã), pondo um ponto final na carreira de Joe. Foi um dia triste para o mundo do boxe. Afinal, quem estava beijando a lona, solitário no ringue do Madison Square Garden, era um dos mais populares ídolos gerados nas entranhas deste belo, brutal e misterioso esporte.

 

Embora chateado com o papel de carrasco, Rocky continuou firme em sua senda de vitórias, até conquistar o cinturão da categoria. Agora, quem abria a intimidade da sua casa para os fotógrafos era ele. A cozinha é revestida de azulejos, com cortinas de tecido quadriculado e uma janela aberta ao fundo. Sentado à mesa, Rocky troca olhares carinhosos com sua mãe, enquanto ela, toda de preto, com seus braços fortes, típicos das “mamas” italianas, serve um prato fumegante de espaguete com almôndegas ao filho.

 

Como bem disse Ibsen, o lar é onde o coração do homem cria raízes. Um dos maiores craques da história do futebol argentino, Enrique Omar Sívori, que o diga. Criado nas categorias de base do River Plate, com apenas vinte anos o garoto foi vendido à Juventus da Itália, onde rapidamente tornou-se ídolo da torcida. Para não se sentir tão só em seu novo endereço, Sívori levou para Turim sua mãe e sua esposa. O funambulesco jogador, então, foi flagrado no ambiente doméstico, apoiando os braços cruzados sobre a mesa da cozinha, enquanto sua mulher está de pé, ao lado da sogra, de avental servindo café. O bule é multifacetado, caprichosamente concebido em metal espelhado, e sobre a toalha repousam um açucareiro e três xícaras de porcelana.

 

Sívori bem que merceia todo esse amor e doçura. Com um repertório de gols, dribles e passes desconcertantes, ele encantou o mundo com sublimes atuações no campeonato sul-americano de Lima, em 1957. Na ocasião, a seleção argentina ergueu o caneco embalada pelas proezas de Sívori, Angelillo e Maschio, um trio de ataque fabuloso que recebeu o apelido de “os anjos da cara suja”, devido à tenra idade dos seus membros. E foi assim que o rapaz chamou a atenção da poderosa Juventus, que cinicamente desembolsou uma pequena fortuna para contar com o seu talento. Em Lima, uma das vítimas de Sívori e companhia foi o Brasil do técnico Osvaldo Brandão e dos ases Didi, Zizinho e Pepe. Junto com o resto do time, Didi assistiu atônito à passagem do furacão argentino sobre a relva. Por mais que tentasse, o nosso maestro nada pôde fazer em seu duelo particular contra Sívori, e a seleção canarinho acabou derrotada pelo placar de 3 a 0.

 

Entretanto, assim como a vida, o esporte é uma engrenagem que está sempre a girar, e a tristeza de hoje pode ser a alegria de amanhã. No fim daquele ano, o Botafogo de Didi venceria o campeonato carioca após uma sensacional goleada sobre o Fluminense. Em função de uma promessa, Didi, ainda com o uniforme do jogo, foi a pé do Maracanã até a sua casa, onde uma cena singela fez a festa dos fotógrafos. Sentado no sofá da sala, ao lado de uma televisão de tela grossa e ovalada, sobre a qual repousa um abajur, Didi tem as pesadas chuteiras desamarradas com devoção pela sua mulher. Aninhada no seu corpo esguio, vestido com a camisa da estrela solitária encharcada de suor, a pequena filha do craque é puro contentamento. Mais do que taças douradas ou garrafas de champagne, o convívio familiar é o único prêmio ansiado por Didi após o esforço titânico e a retumbante vitória dentro de campo.

 

Não se sabe até que ponto essas fotografias eram meramente promocionais, combinadas com antecedência, ou se realmente espelhavam a realidade, com sua aura de felicidade resplandecendo entre quatro paredes. De qualquer maneira, imagens revelam detalhes sutis, impossíveis de serem reproduzidos pelo mais hábil poeta. Uma mãe alimentando seu filho, o amor de uma mulher por um homem, o sossego do lar, enfim, são coisas difíceis de explicar. Momentos fugazes que se perderiam na memória, não fossem os artifícios de máquinas frias, mas capazes de derrotar a tirania implacável do tempo que obscurece a beleza da vida.

 


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09/08/2014 - 10h08min

As aventuras do sarrafo humano

Os escaninhos da memória humana são diferentes. Ao contrário de documentos arquivados em computadores, eles vão sumindo aos poucos, sem deixar vestígios, em um lento processo de esquecimento, torpor e confusão. Mergulhar nesse labirinto é uma tarefa ingrata, uma luta na qual cada vez mais nos tornamos perdedores, vencidos pela ação inexorável do tempo que dilui as lembranças em nossa mente.

 

Mesmo correndo o risco de não ser fiel com a verdade, ainda recordo do dia em que penetrei nas entranhas do estádio Centenário pela primeira vez. Levado por um amigo do colégio, essa visita inaugural ao templo do esporte grená permanece envolta pelas brumas do olvido. Apenas sei que assistimos o jogo, que se não me engano era contra o Grêmio, no setor das cadeiras, com o tapete verde do gramado bem lá embaixo, e os jogadores tão pequenos que quase não dava pra ver. Pouco tempo depois, o Caxias expugnou o estádio Alfredo Jaconi,  vencendo um clássico Ca-Ju por 1 a 0, gol do destemido atacante Nilson, o “Patada Atômica”. Lá estávamos nós de novo, sentados no cimento duro da arquibancada próxima à rua Hércules Galló, espaço destinado à torcida visitante na época. Foram dias de vinho e rosas, berço do meu romance com um time de futebol e sua engrenagem.

 

Um time sensacional, diga-se de passagem, regido pela batuta esperta do técnico Orlando Bianchini dentro de campo e sob os auspícios do presidente Ênio Costamilan fora dele. Barbirotto, custodiando o arco, tinha a consistência de um escolho intransponível, passando segurança aos zagueiros Eduardo e Carlinhos. Nas laterais, Marques e Ricardo calçavam as chuteiras com devoção, nunca esmorecendo nas divididas. O meio de campo era um amálgama de verdadeiros gênios da pelota: Caçapava, Joel Marcos e Ranielli. No setor ofensivo, por sua vez, destacava-se a fúria goleadora do trio João Carlos, Nilson e Edelvan, vultos que habitavam os pesadelos mais profundos dos defensores rivais. O vice-campeonato gaúcho foi, ao mesmo tempo, um prêmio e uma decepção, tendo em vista o tremendo potencial daquele grupo.

 

As vitórias da saga eram comemoradas a bordo de um Uno de cor bege e quatro marchas que, tendo eu recém tirado a carteira de motorista, ficava à minha mercê na garagem lá de casa. E se o motor do bólido não era exatamente a oitava maravilha do mundo, sua buzina nunca falhou na hora de extravasar a alegria pelos triunfos grenás. Vagando heroicamente pelas ruas da cidade, éramos, eu e meus amigos, reis do castelo dourado da inocência, onde o tempo estava sempre a nosso favor, e sonhos brotavam como flores na primavera. O timoneiro dessa máquina movida a gasolina e devaneios era um cara de óculos redondos, narigudo, extremamente magro, batizado por algum malandro com o apelido de “graveto”.

 

Um dia, comprei uma bandeira de plástico, com as três listras horizontais em bordô, branco e azul, e o distintivo do Caxias no meio. Não era um artefato muito grande, mas serviu para incrementar os memoráveis buzinaços. Tremulando contra o vento, o singelo pavilhão farfalhava imponente junto à capota do carro, dando um ar solene à brincadeira. Quando terminou o campeonato, deixei a bandeira sobre uma escrivaninha no meu quarto, e ali ela permaneceu por vários meses, até desaparecer em alguma mudança, com suas cores mágicas enroladas em um sarrafo de madeira.

 

Os anos passaram e o garoto esquálido também sumiu, dando lugar a alguém de silhueta mais robusta, dono de uma pança abominável surgindo para a frente e para os lados. Perdido no meio da floresta do tempo, o galho fino de outrora cresceu junto com o fanatismo pelo Caxias, firme e inquebrável, como se fosse o tronco de uma sequoia-gigante subindo lentamente rumo ao infinito. 

 


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31/07/2014 - 22h07min

Manias de gaúcho

Agora que terminou a Copa do Mundo e se aproximam as eleições, vale a pena resgatar uma frase atribuída a Sergio Cabral, e que acabou reverberando nas memórias de Luiz Mendes: “o gaúcho tem duas manias, ser Presidente da República ou comentarista esportivo”. O apontamento, feito provavelmente em meados da década de 1970, justifica-se pelo fato da trinca Costa e Silva, Médici e Geisel ter dado as cartas, na época, nos gabinetes de Brasília; e em razão das brilhantes atuações dos jornalistas Ruy Porto, João Saldanha e do próprio Luiz Mendes nas rádios Tupi, Globo e Nacional, respectivamente. Luiz Mendes, depois de passar a infância na bucólica Palmeira das Missões e iniciar a carreira atrás dos microfones em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde tornou-se um dos gênios do ofício, criando bordões e analisando as partidas no Maracanã com inteligência e lucidez, até ser apelidado como “o comentarista da palavra fácil”. Não menos sagaz foi Sergio Cabral, ao perceber aquela coincidência e transformá-la em uma agradável zombaria.

 

De uns tempos pra cá, contudo, parece que a gauchada desenvolveu uma nova e estranha tara. Afinal, o cargo de técnico da seleção brasileira de futebol tem sido ocupado, invariavelmente, por nativos da bela e fria querência do Rio Grande. Depois de Silvio Pirilo, Osvaldo Brandão, João Saldanha (que atuou nas duas frentes de batalha, jogando pedra como homem de imprensa e sendo a própria vidraça como técnico) e Cláudio Coutinho em eras remotas, temos agora o curioso fenômeno da multiplicação de gaúchos no comando do time canarinho.  Dunga, Mano Menezes e Felipão tem se alternado no posto, atraindo a atenção dos holofotes e gerando polêmicas tão fartas como as coxilhas que se estendem a perder de vista em nossos pagos.

 

Felipão, aliás, acabou escorraçado por milhões, após o fiasco retumbante do Brasil contra a Alemanha, recentemente. Vestindo a capa negra de um vilão perfeito e terrível, aureolado como o grande responsável pela infâmia do Mineirão, o filho ilustre de Passo Fundo é o novo Barbosa do nosso futebol. De fato, a voz rouca das ruas, das televisões e dos jornais, não poupou Felipão de um dos maiores linchamentos morais já perpetrados contra um personagem do mundo esportivo no país. O próprio povo gaúcho acabou sendo pego de surpresa pelo pífio desempenho de Felipão na casamata verde e amarela, e com certeza decepcionou-se com o veterano treinador.

 

Por outro lado, o sucesso de um conterrâneo no comando da seleção talvez fosse capaz de resgatar um pouco a autoestima farroupilha, seriamente ameaçada pela situação do nosso querido rincão, que encontra-se, já há algum tempo, em estado de penúria financeira, sofrendo para pagar as suas contas a cada ano que passa. Em outras áreas o panorama é semelhante. A Educação, que sempre foi uma espécie de menina dos olhos dos governantes, hoje ocupa uma posição vexatória na comparação com o resto do país, envergonhando aqueles que ainda sonhavam em ver o Rio Grande como sinônimo de excelência no quesito. No âmbito político, o quadro é igualmente sinistro, já que há várias décadas não vemos alguém de bombacha e guaiaca subindo a rampa do Palácio do Planalto.

 

De qualquer maneira, voltando ao tema fascinante e fútil do futebol, resta a conclusão de que alguma qualidade os técnicos gaúchos devem possuir afinal. Se não, como explicar o mistério da avalanche de sujeitos munidos de cuia e chimarrão transitando pelos corredores da CBF ultimamente? Liderança? Disciplina? Astúcia? Difícil dizer. Uma coisa é certa, contudo. Quaisquer que sejam os méritos dos técnicos sulinos, eles passam longe do carisma e da psicologia, tendo em vista a dificuldade de trato com a imprensa esportiva, principalmente no caso do recém empossado Dunga. Um comportamento, aliás, que causaria tristeza no fidalgo Luiz Mendes, sempre disposto a conversar e contar histórias saborosas sobre a vida e a bola.

 


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23/07/2014 - 21h07min

Tintas da paixão

O cimento da arquibancada é duro, cinzento, e o pintor sabe que não será fácil vencê-lo. O estádio está vazio, e na relva onde se joga o popular esporte ainda brilham as gotas do orvalho da madrugada. Um bando de quero-queros está ciscando sobre a geada, entre a claridade difusa do novo dia. Destilando o líquido viscoso dentro de um recipiente, enquanto aspira o ar fresco da manhã, o pintor pede coragem aos céus para enfrentar mais uma árdua jornada de trabalho. Perdido na vastidão da arena desabitada, ele executa sua obra como a própria natureza, sem mestres, nem prazos.

 

Antes de ser exatamente um profissional (chamá-lo de “pintor” é uma espécie de licença poética para a consumação destas memórias), esse curioso personagem, movido por uma cega paixão, entregou-se de corpo e alma à tarefa de embelezar as tribunas do estádio Centenário. Sim, o palco de tantas vitórias avassaladoras e perenes do estimado SER Caxias precisava de uma dose de carinho, após ser castigado por anos de chuva, sol, sangue, suor e lágrimas derramados sobre a sua impassível estrutura de concreto. Com a mão firme, o pintor busca o equilíbrio das tintas em sua aquarela, imprimindo pinceladas cheias de emoção. Enquanto isso, sonha com voos mais altos do Caxias nos gramados da vida. O almejado acesso à série B do campeonato brasileiro há de chegar, pensa ele ajoelhado sobre a superfície áspera da arquibancada.

 

Como um Aleijadinho lapidando os seus Profetas, ou um Michelângelo criando os afrescos da Capela Sistina, o pintor solitário trabalha em silêncio, buscando inspiração na sua musa encantadora, na sua deusa particular. Empregando técnicas dignas de um Mondrian, ele dispõe de três cores básicas para desenhar e homenagear o seu amor maior. Azul, branco e grená formam a paleta das tintas derramadas no cimento, nas cadeiras, grades e paredes do estádio, para regozijo dos milhares que, como eu, testemunhavam o progresso lento e constante da obra-prima a cada domingo, quando o estádio abria as portas e acalentava a turba espessa em suas entranhas.

 

Já é noite. As lâmpadas da favela se acendem e os morcegos do cemitério acordam outra vez. O pintor recolhe o seu material, deixando que tintas e pincéis descansem até o dia seguinte. Por entre as ruas escuras da cidade, ele caminha feliz, assobiando uma canção rumo ao conforto do seu lar.

 

 

                                                                                                                                                                                                        Crônica dedicada ao torcedor Adriano Gardelin 

 


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09/07/2014 - 19h07min

O anfitrião aniquilado

No dia da festa, o anfitrião acordou cedo. Embora não fosse do seu costume, a ocasião exigia certos sacrifícios, como arrumar a casa, preparar os doces e salgados, além de providenciar bebida para o bar.  Afinal, ele receberia convidados de vários países, e tudo tinha que estar no capricho. Mesmo assim, certas providências ficaram para a última hora: a sujeira da sala acabou sendo varrida para baixo do tapete, e algumas teias de aranha permaneceram incólumes nos cantos da casa verde e amarela.

 

Mais tarde, quando o evento estivesse no auge, o anfitrião poderia finalmente convencer a sua mulher que ele era um grande jogador de futebol. A sua autoridade seria posta em xeque, o seu repertório de dribles, fintas, e a sua vocação irresistível pela vitória seriam testados no campinho do próprio quintal. Dentro dos seus domínios, ele seria o dono da bola outra vez! A mulher era uma torcedora, não muito fiel, diga-se de passagem, do marido, e estava ansiosa pelo desempenho daquele homem que ultimamente vivia atrelado a glórias e conquistas do passado. Ela, que adorava futebol, estava cansada da arrogância do marido, usando sempre a mesma camisa com cinco estrelas costuradas, se julgando o maioral. Não é que ela não o amasse. Pelo contrário, tinha certo orgulho do marido, sabia que ele era um sujeito de bom coração, prestativo, que gostava de samba, entre outras qualidades. Depois de tomar banho e vestir uma roupa nova, o anfitrião disse à mulher: “Querida, podemos ser humildes, e é verdade que a nossa mesa não é tão farta, mas a melhor iguaria que alguém pode oferecer às visitas é a alegria!”.

 

Os convidados foram chegando aos poucos, enquanto caia a noite cheia de estrelas no céu. Por alguns instantes, o anfitrião e a mulher foram felizes, servindo quitutes, bebidas e simpatia a todos. A festa, não restava dúvidas, estava sendo um sucesso. O rumor das risadas histéricas, o estouro das rolhas, e a música que tocava sem parar, preenchiam o ambiente da casa simples, mas acolhedora. Contudo, após duas ou três doses de uísque, o anfitrião passou a se comportar de forma estranha.  A mulher, que já conhecia o jeito do marido, temeu pelo pior, ainda mais quando ele, visivelmente nervoso e emocionado, passou a fazer embaixadinhas com uma bola de plástico. A cena, que misturava tragédia e comédia, comoveu a todos os presentes.

 

Nesse instante, o convidado alemão se aproximou e, demonstrando sangue frio e fidalguia, amparou o anfitrião, que repetia com a voz trêmula, “eu sou o melhor, eu sou o melhor!”.  O alemão não sabia fazer embaixadinhas, mas estava sóbrio, e, à medida que os ponteiros do relógio giravam madrugada adentro, tomou gentilmente a bola das mãos do anfitrião, como quem tira o doce de uma criança. Depois, esbofeteou o anfitrião sete vezes na cara, para que este acordasse do seu estado de torpor. Feito isso, despediu-se, e calmamente tomou o caminho da rua. Os demais convidados foram saindo devagar, chocados com o fiasco proporcionado pelo anfitrião.

 

Fim de festa. Esparramado no sofá da sala, o anfitrião observa os copos e as garrafas vazias ao redor, os cinzeiros repletos de baganas de cigarro sobre a mesa, os quadros imóveis na parede. Tudo parece um pesadelo tristonho e cruel. No banheiro do quarto, a mulher remove a maquiagem na frente do espelho, a tintura escorrendo pelo ralo junto com a ilusão perdida na noite. Um tênue raio de sol surge implacável através da cortina, enquanto o galo canta em algum lugar da vizinhança.   

 


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01/07/2014 - 19h07min

Simplesmente Givanildo

Terminado o sufoco e o drama da seleção brasileira em Belo Horizonte, um dos jogadores mais criticados foi o atacante Hulk. Injustiça! Hulk foi um dos únicos a mostrar raça,  partindo para cima do time chileno sempre que possível (enquanto outros se escondiam da bola), além de tentar atiçar os brios da apática torcida presente ao Mineirão. É verdade que o bravo e corpulento camisa sete perdeu o seu pênalti no desempate final, mas isso em nada tira o seu mérito, nem apaga a sua atuação positiva.

 

Se pararmos para pensar, o apelido do jovem paraibano, inspirado no gigante verde criado por Stan Lee e Jack Kirby, em 1962, traz uma coincidência escondida em seu bojo. Afinal, Hulk é aquilo que chamamos de “super-herói”, um sujeito cheio de poderes fantásticos, capaz de fazer coisas que os reles mortais jamais ousariam, como atravessar o mundo dando pulos quilométricos ou açoitar terríveis inimigos com socos demolidores. Vivendo no universo fantasioso do "pais do futebol", acostumados com conquistas e láureas mil através dos tempos, às vezes parecemos acreditar que o simples fato de vestir a camisa canarinho transformará qualquer atleta em um estupendo jogador, como se ele fosse um personagem de uma história em quadrinhos. Em nossa  arrogância cega e desvairada, exigimos que Julio César seja infalível, que Neymar drible todo o time adversário sempre que receber a bola, que Fred marque um golaço em todas as partidas, que Luiz Gustavo não erre nenhum passe durante os noventa minutos do prélio.

 

Acho que deveríamos tirar, pois, a máscara de salvador da pátria imposta a Hulk, abandonando o apelido suntuoso e passando a chamá-lo pelo seu nome de batismo, ou seja, Givanildo. Um nome de craque, aliás, se lembramos da figura do volante Givanildo Oliveira, que jogou no Santa Cruz, Sport, Corinthians e na própria seleção brasileira durante a década de 1970.  Ao contrário do seu xará musculoso, o Givanildo de antigamente tinha o corpo esquálido, os membros finos e um rosto peculiar, sendo também conhecido entre a torcida como Givanildo “cabeça de navio”.

 

Voltando ao jogo do Mineirão, vale a pena destacar a qualidade do adversário, um time sólido e perigoso, formado por uma geração de craques como poucas vezes se viu no país andino. Sem dúvida, a rapaziada brasileira superou um escolho duríssimo na longa corrida rumo ao título. Um título que dificilmente será alcançado, contudo, se persistir a aura fabulosa criada ao redor conjunto, como se os nossos atletas fossem criaturas de um outro planeta. Mais sensato seria tratá-los como seres humanos de verdade, sujeitos à emoção, ao erro vil, ao choro deslavado. Sentimentos terrenos, mas, assim como a humildade e a coragem, necessários para encontrar a vitória sublime, onde quer que ela esteja afinal.

 


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17/06/2014 - 09h06min

Cidade fantasma

Desde que começou a Copa do Mundo, tenho vivido em uma espécie de torpor permanente, confortavelmente anestesiado com as partidas que passam sem parar, todos os dias, pela televisão. Imerso nessa overdose futebolística, tenho desfrutando a beleza e a plasticidade do esporte em todas as suas nuances, além de admirar o espetáculo da confraternização entre os povos, sem moderação. Trata-se de uma mania passageira e fugaz, que se repete religiosamente a cada quatro anos.

 

Mas nem sempre foi assim. Houve uma fase da minha vida em que eu abdiquei dos encantos de uma Copa do Mundo. Foi em 1986, no período excêntrico da adolescência, onde eu tinha asco a tudo aquilo que pudesse ser considerado "convencional". Depois do trauma de 1982, quando Paolo Rossi destruiu os sonhos da nossa seleção, e eu, ainda criança, chorei por causa de futebol pela única vez na vida, eu parecia vacinado contra as armadilhas daquele jogo tão banal. Minha paixão agora era outra: as curvas e as cordas da uma guitarra vermelha modelo Les Paul, novinha em folha, e que eu deixava encostada no sofá do quarto, de modo que eu pudesse ficar olhando para ela de noite na cama até dormir. A minha prioridade era, pois, aprender a tocar aquele instrumento misterioso e fascinante.

 

Lembro-me de ir estudar violão com o professor Merônio, nas alturas do Edifício Estrela, justamente em um dia de jogo do Brasil na Copa do México.  Sim, eu era um “rebelde sem causa”, quase um delinquente juvenil, pronto para quebrar as regras da normalidade e das convenções sociais pré-estabelecidas. Como o professor também não era nenhum fanático por futebol, ficou decidido que haveria aula de qualquer maneira, apesar da coincidência de horário com a peleja em terras astecas. Quando penso nesse dia, às vezes acho graça. Mas, às vezes, sinto um terrível calafrio percorrendo a espinha.

 

Se não me engano, o jogo seria entre Brasil e Irlanda do Norte, ainda pela primeira fase do torneio. Lembro apenas que era um dia útil de semana, e à medida que eu me aproximava do centro da cidade, com os cabelos compridos até a altura dos ombros e o caderno de tablaturas e acordes embaixo do braço, um cenário surreal foi se descortinando perante os meus olhos. As grades de ferro das lojas, dos bares e das farmácias estavam, invariavelmente, fechadas. Não havia carros buzinando na avenida, nem pedestres transitando pelas calçadas, e até mesmo os mendigos e os pardais tinham desaparecido. Não havia guardas, nem entregadores de volantes impressos com as palavras “compro ouro”, nem camelôs, nem harekrishnas vendendo incenso, nem mulheres bonitas, nem vagabundos nos bancos da praça. Não havia ninguém ao redor. Por um instante, parei de caminhar, assombrado com aquela paisagem dantesca. Olhando para os prédios imóveis e mudos, para o céu onde brancas nuvens passavam devagar, e para as ruas desertas onde as pessoas costumavam caminhar freneticamente todos os dias, tive a sensação de estar em um mundo paralelo. Pálidos raios de sol repousavam sobre as pedras geladas, como se um dilúvio ou uma bomba atômica houvessem varrido da face da terra toda e qualquer forma de vida. O rumor do vento a farfalhar entre os galhos das árvores era tudo o que se ouvia, nessa tarde desolada e absurda.

 

Por via das dúvidas, no jogo seguinte do Brasil eu fiquei em casa, sentado no sofá, enquanto nossos craques corriam como lebres sobre o tapete verde na televisão.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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