13/12/2014 - 12h18min

Caminhos cruzados

Um belo dia, o homem desperta para a sua vocação. Quando Rubem Braga, então um garoto de 15 anos, mudou-se para Niterói a fim de realizar seus estudos, passou a enviar regularmente relatos para o jornal dirigido por seus irmãos mais velhos. "O Correio do Sul", situado na bucólica terra natal de Rubem, Cachoeiro do Itapemirim, era um periódico com forte viés político, que fazia apologia ao Partido Republicano. O ano era 1928. Através das suas impressões sobre o Rio de Janeiro, Rubem começou a extravasar a sua veia de cronista, incorporando para sempre tal ofício. Foram os primeiros passos de um gigante das letras. Em 1936, é lançado o livro de estreia de Rubem, "O Conde e o Passarinho", pela editora José Olympio. No prefácio, o autor se define: "sou jornalista, o que quer dizer: nem um literato nem um homem de ação." Para muitos, ele foi o maior cronista que o Brasil já teve.

Às vezes precisamos de um "empurrãozinho" para encontrar o nosso rumo, o nosso destino. Trabalhando como arquivista do "Tribuna da Imprensa", Zuenir Ventura teve o incentivo do professor Hélcio Martins para começar a escrever para jornal. Futuro vencedor do Prêmio Esso e autor do elogiado "1968, o Ano Que Não Terminou", Zuenir ficou com aquele vaticínio na cabeça. Um belo dia, o irascível e habilidoso político Carlos Lacerda, dono da "Tribuna", irrompe na redação demandando uma matéria sobre o falecimento do escritor Albert Camus, que acabara de ocorrer. Instintivamente, Zuenir ergue o braço, aceitando o desafio e dando início a uma brilhante carreira dentro da imprensa nacional.

Mais de 45 anos como colaborador de um jornal não é pouca coisa. Pois esse é o tempo (mais precisamente desde 1968) que Horacio Pagani vem se dedicando ao diário argentino Clarín. Essa longa estrada teve começo quando o jovem Horacio, desinteressado pela faculdade de Ciências Econômicas e pelo emprego no Banco de Boston, escutou o conselho de um amigo, Julio Palazzo. Ciente das manias de Horacio - como, por exemplo, narrar partidas de futebol imaginárias e anotar freneticamente os resultados dos jogos em uma planilha -, Palazzo sugeriu ao rapaz a carreira de jornalista esportivo.

Em Buenos Aires havia a escola do Circulo de Periodistas Deportivos. Nesse ambiente, Horacio escreveu seus textos iniciais até chamar a atenção de seu ídolo Osvaldo Ardizzone. Figura respeitada, Ardizzone era nome de relevo na revista El Gráfico. Além disso, atuava como professor. E foi assim, corrigindo redações, que teve acesso ao trabalho de Horacio. Os elogios do mestre foram fundamentais para despertar o jornalista adormecido que havia no pupilo.

A palavra está nas tintas de um jornal e está, também, nas ondas do rádio. Luiz Mendes, um dos maiores locutores esportivos do Brasil, teve a chance de debutar em uma transmissão na Radio Globo por obra do imponderável. Como o titular Gagliano Neto não compareceu ao trabalho em um dia fortuito, Mendes aproveitou a deixa e acabou se firmando no posto por vários anos, criando bordões e cativando a audiência com a sua voz límpida e macia. Mais tarde, o próprio Mendes ajudaria outro notável profissional da área, ao sugerir o nome artístico e incentivar o futuro apresentador Leo Batista, quando este era um jovem em início de carreira.   

 

Para alguns, o desvelar de uma vocação é algo natural, constante e firme. Para outros, acontece por acaso, tardiamente, graças a algum conselho, um sinal qualquer ou à interferência de alguém mais experiente no ramo que vislumbre um talento escondido e aponte o caminho a ser tomado. Nesse dia, o homem nasce pela segunda vez, encontrando aquele destino que lhe trará a felicidade, a cidadania e o seu ganha-pão.

 


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26/11/2014 - 21h11min

Os ossos da donzela

Linda donzela dos meus sonhos

Eras tão jovem e sem dores

Quando eu vinha do campo, a cavalo

Trazendo-te um buquê de flores


As tuas mãos frágeis e faceiras

Trabalhavam sem atraso

Quebrando os ramos mais compridos

Que não cabiam em teu vaso


Alguns anos se passaram

Envoltos nessa fantasia

Até que tu, linda donzela

Cansou da minha companhia


E então cinicamente

Nosso castelo abandonaste

Para buscar um outro amor

Que a tua boca osculasse


Sentada sob as sombras

De um carvalho muito antigo

Com os braços esticados

Para esse novo amigo


Acabaste falecendo

Ainda jovem e tão bela

Trazendo em teu olhar tristonho

Uma lágrima singela


Então o prático coveiro

Dos braços rijos, da tua mão

Foi quebrando aqueles ossos

Que não cabiam no caixão



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08/11/2014 - 10h11min

Uma crônica tão sonhada

Olá, pessoas! Chegou a hora de escrever uma crônica que eu vinha planejando há muito tempo, sem saber, no entanto, se eu teria a oportunidade de fazer isso algum dia. Depois de incontáveis anos de espera, tentativas em vão e bolas na trave, no último domingo o Inter venceu o Santos na Vila Belmiro pela primeira vez na sua história. Uma vitória insofismável e convincente, mas que seria banal, não fosse o tabu que cercava o duelo entre os times colorado e peixeiro na famosa e formosa Vila Belmiro. O alçapão do glorioso alvinegro praiano, palco de imorredouras jogadas de gênios como Feitiço, Pelé, Pepe e Clodoaldo, finalmente foi expugnado pelo Inter.  

 

Uma bonita tarde de sol emoldurava o cinzento estádio de cimento, enquanto ele ia devorando os pequenos magotes de torcedores, com suas ilusões, bandeiras e radinhos de pilha. Após o apito inicial do juiz, os times entregam-se à luta pela posse da pelota de forma voraz e insensível. O Santos martela e bate algumas vezes na porta do bom goleiro Alisson, mas quem abre o placar é o Inter, através de Aranguiz. Naquele instante, o moço de Puente Alto começava a escrever com letras douradas o seu nome no álbum de recordações do clube. Após receber um lançamento milimétrico de D’Alessandro, o chileno, descendente direto do lirismo de Figueroa, dominou a bola com perfeição, enganado um defensor santista antes de cravar a bola no fundo da meta custodiada por Aranha. Gelo nas arquibancadas da Vila. O Inter joga com cinismo, administrando a vantagem até que termina o primeiro tempo.

 

No segundo tempo, o esquadrão escarlate se fecha como um punho de ferro. A dupla de zaga Ernando e Alan Costa merece loas pelo desempenho sério e diligente, nunca esmorecendo nas divididas. Na meia cancha, Willians cadencia o ritmo do jogo, auxiliado pelo lépidos Jorge Henrique e Alan Patrick. E mesmo Nilmar, apesar de isolado no ataque, representa um perigo constante, com suas arrancadas fulminantes em direção ao gol santista. Apesar disso, o time dono da casa alcança o empate. Após cruzamento de Cicinho, Gabriel desvia com sutileza, ludibriando Alisson. Parecia que mais uma vez a tão sonhada crônica ficaria para trás, e a folha de papel permaneceria em branco por mais um longo e triste ano. No meu íntimo, contudo, eu sabia que aquele era o nosso dia. 

 

Até que então, de forma bizarra e inesperada, surgiu o lance crucial da partida. Após uma bola recuada por Mena, o goleiro Aranha, pressionado por Welington Paulista, se atrapalha e segura o balão de couro com as mãos. O juiz não titubeia e marca a falta. Claudio Winck ajeita para Fabrício, que ajeita para Aranguiz, que rola o couro suavemente entra a selva de pernas da barreira, colocando a bola no fundo da rede do Santos outra vez! É a glória tão temida que chega como uma tempestade de nuvens plúmbeas se formando no céu, varrendo a poeira das ruas e revolucionando as águas profundas do mar onde mora a grande baleia branca. Nesse dia, ela não emergiu triunfante com a cabeça sobre as ondas. A noite foi chegando aos poucos, trazendo consigo as suas criaturas. Na beira da praia, dizem que um saci foi visto pulando na areia, enquanto fumava cachimbo sob a luz amarela da lua.  

 

Desligo a televisão. A tão sonhada vitória havia sido conquistada heroicamente, com raça, unhas, dentes e talento.  O temido feitiço da Vila Belmiro havia sido desfeito, provando que, mesmo no futebol, nada é para sempre. No entanto, aquela sensação maravilhosa, de júbilo e euforia que eu esperava sentir, se acabou repentinamente, como o gozo depois de uma noite de luxúria.  Sem saber direito o que aconteceu, permaneço imóvel no sofá por mais alguns instantes. Uma dúvida cruel vem à minha mente. E agora? Com o que irei sonhar?  

 


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29/10/2014 - 21h10min

O louco no espelho

A música tem algo de belo, misterioso e sombrio. Os membros da banda parecem em estado de transe, como se a melodia dominasse as suas ações, e não o contrário, conduzindo as mãos que batem no tambor, nas teclas do piano, ou dedilham as cordas da guitarra elétrica. Quando a música termina, o acorde final permanece pairando no ar por alguns instantes, como a chama de uma vela que se extingue aos poucos, até se apagar totalmente. O ambiente do estúdio é lúgubre, e entre a penumbra da sala percebe-se uma estranha criatura sentada no fundo, imóvel como uma estátua, observando em silêncio.  Quem seria ele? Como teria conseguido entrar no famoso estúdio de Londres sem ser notado?  Quais seriam as suas intenções? Atraídos pelo magnetismo do vulto, os membros da banda sentem o coração bater mais forte à medida em que se aproximam do sinistro visitante.

 

Um calafrio percorre a espinha do grupo quando, em um átimo de horror e espanto, descobre-se a verdadeira identidade do estranho. Aquele ser gordo e careca ali sentado era Sid Barret, o antigo líder do Pink Floyd, que fazia uma súbita e inesperada aparição entre os ex-colegas. Seu olhar distante, impregnado de melancolia e loucura, arrancou lágrimas entre os presentes. Há muito tempo afastado, Sid, visivelmente grogue pelo abuso constante de substâncias alucinógenas, estava muito diferente do rapaz saudável de outrora. De forma inexplicável, o doido parece ter adivinhado que, naquele dia e hora, o grupo estaria ensaiando uma canção composta em sua homenagem, uma ode singela àquele que havia sido um dos fundadores do Pink Floyd.  A faixa estaria no próximo álbum da banda, e acabou tornando-se um grande sucesso. A letra dizia algo como “continue a brilhar, seu louco diamante”. Depois daquele dia, Sid desapareceu novamente, voltando para as sombras, onde ficou até morrer, muitos anos mais tarde.

 

O diamante. Repleto de faces e cores, essa pedra dura esconde algo de fascinante no seu âmago. Algo que só aparece quando o diamante é dilapidado, e que surge como um rosto no espelho, revelando aspectos desconhecidos de nós mesmos. Sid Barret foi o gênio demente do rock, o diamante que brilhou com a força do sol e com a poesia da lua. Leônidas da Silva, por outro lado, foi uma estrela de rara grandeza dentro do mundo mágico e selvagem do futebol. O craque brasileiro maravilhou as plateias ao redor do planeta, recebendo o apelido de “Diamante Negro” em razão das suas proezas. Na Copa da França, em 1938, Leônidas atingiu os píncaros da fama, exibindo um repertório de lances e luxos inéditos até então. Depois de brilhar pelo Flamengo por muitos anos, em 1942 o centroavante transferiu-se para o São Paulo. Vestindo a jaqueta tricolor, Leônidas foi uma das forças propulsoras das primeiras conquistas de relevo do clube. Foram cinco campeonatos paulistas, até Leônidas pendurar as chuteiras, em 1950. A pele negra e reluzente do craque, posando para a explosão de magnésio das máquinas fotográficas, destacava Leônidas ainda mais entre os demais membros do time. Na hora de dar autógrafos, era sempre ele o mais assediado, aquele que todos queriam ver e tocar. Foram dias de rosas e vinho, onde Leônidas desfrutou os louros da vitória intensamente.

 

Alguns anos se passaram, até que o destino reaproximou Leônidas de alguém que havia dividido com ele a pelota e o clamor da multidão em tardes douradas no Pacaembu. Em uma loja qualquer de material de construção, nas entranhas da cidade, o eterno “Diamante Negro” examina as prateleiras. O dono do estabelecimento, ávido para agradar o ilustre freguês, manda chamar um dos seus funcionários, sem que Leônidas entenda direito o porquê. Foram momentos de tensão, até que um homem com o rosto coberto de cal e cimento surge timidamente pela porta do depósito, nos fundos da loja. Suas mãos rudes chamam a atenção de Leônidas, que ergue a cabeça para encarar o sujeito. Quem seria ele afinal? O pó branco dos sacos de gesso cobre a sua face, como se ele fosse um palhaço prestes a entrar em cena. Com a mão estendida em direção ao grande “Diamante Negro”, o humilde carregador esboça um sorriso. “Olá, Leônidas”. Seu olhar brilha por um longo instante, como se o tempo estivesse congelado naquele silêncio, naquela loucura. Uma gota de suor escorre pela testa do craque, caindo sobre o seu terno de tecido marrom, até que finalmente, em um estalo de memória, Leônidas reconhece o funcionário. Era Pardal, um antigo companheiro dos tempos do São Paulo!

 

Lino Mancila era seu nome. Gaúcho de Pelotas, Pardal fora um dos integrantes do lendário quinteto ofensivo que qualquer criança recitava de cor, quando o tricolor sagrou-se campeão paulista, em 1943. Através das ondas do rádio, a escalação do São Paulo penetrava os lares e bares da cidade, terminando sempre como uma espécie de poesia: Luisinho, Sastre, Leônidas, Remo e Pardal. Pardal não teve a mesma sorte de Leônidas, que, além de empresário era comentarista esportivo. Após pendurar as chuteiras, o ponteiro-esquerdo, como uma Cinderela às avessas, terminou forçado a abraçar empregos menos charmosos. Mesmo que Pardal fosse um homem feliz, trabalhador e honrado, Leônidas foi tomado pela tristeza, como se aquela fosse a sua própria imagem refletida em um espelho coberto por uma fina camada de poeira cinza. Afinal, poderia ser ele quem estivesse enfrentando aquela situação difícil, vivendo nas sombras do olvido, como um anjo caído.  Pardal era o fantasma que Leônidas temia tanto ver, com seu rosto branco e pálido lembrando que a sociedade está sempre a cobrar o êxito, seja como for, custe o que custar.

 

Uma lufada de vento entrou pela janela e varreu o pó branco de cal da loja, através da cidade e dos anos, transformando-o em uma substância poderosa e letal. Em uma noite quente ela chegou até Houston, levando embora as folhas de papelão que cobriam um mendigo na calçada. Do outro lado da rua, há um burburinho em frente ao saguão de um hotel de luxo. Estamos no início da década de 1990, e o time de basquete do Filadélfia 76ers está na cidade! Entre os ases da companhia vemos Charles Barkley, um verdadeiro mestre na arte do arremesso. Não por acaso, foi Barkley o cestinha do famigerado “Dream Team” norte-americano, que encantou o mundo nas Olimpíadas de Barcelona. Uma legítima façanha, se observarmos que figuras do quilate de Larry Bird, Magic Johnson e Michael Jordan também faziam parte daquele time.

 

Barkley está distribuindo autógrafos despreocupadamente, sob a luz da lua e o céu estrelado do Texas, quando, de repente, um vulto o agarra por trás. Pego de surpresa, Barkley procura livrar-se do abraço tenaz, mas trata-se de alguém muito forte e alto, alguém que exala um odor nauseabundo pelos poros. Era o mendigo que estava deitado na calçada e que, depois do assalto inicial, agora apenas encara o craque com o rosto sujo e um sorriso dócil e insano nos lábios. Barkley, totalmente confuso, intui que o mendigo deveria conhecê-lo de algum lugar. O vento sopra forte ainda, agitando a copa das árvores ao redor, enquanto Barkley vasculha a própria mente em busca de alguma recordação, de alguma pista. É então que ele reconhece o maltrapilho como sendo John Drew, um veterano jogador que havia dado conselhos a Barkley quando este era apenas um novato.

 

Tomado pelo pavor, Barkley balbucia palavras sem nexo, sacando a carteira do bolso e estendendo notas graúdas de dólar ao mendigo, com as mãos trêmulas e a visão turva. De volta ao quarto do hotel, Barkley lava o rosto na pia do banheiro, procurando refazer os sentidos. Quando se olha no espelho, ele vê a imagem de Drew lhe alertando, muitos anos atrás, sobre o perigo das drogas, admitindo ter gasto pequenas fortunas na compra de um certo pó branco. Drew havia sido um grande jogador, especialmente com a camisa do Atlanta Hawks, tendo participado por duas vezes do All-Star Game da NBA. Mas o vício da cocaína acabou com a sua carreira de forma prematura, e ninguém mais ouvira falar dele desde então.

 

Com um nó na garganta, fitando fundo no espelho com os olhos rasos d'água, Barkley pensa que talvez estejamos todos loucos, afinal. Absortos na luta diária e absurda pela vitória, pelo prazer e pelo sucesso, caminhamos mansamente rumo à ruína, sem perceber o rosto daquele que vaga ao nosso lado, oculto como um diamante entre a multidão das ruas, pronto para dizer coisas belas, terríveis e verdadeiras sobre nós mesmos. 

 


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02/10/2014 - 22h10min

Suando na sinagoga

Confesso que desconheço a razão pela qual o povo judeu tem sido tão perseguido ao longo dos séculos. Vilões ou heróis, oprimidos ou opressores, vítimas ou carrascos, os judeus possuem, mais do que a sina de vagar sem pátria pelo mundo (pelo menos até a criação de Israel), uma espécie de mistério intrínseco à sua existência. Para mim parece evidente que os judeus (por mais que a sua habilidade para os negócios seja comumente ligada à avareza e ganância), também tiveram seus méritos e papel de relevo em vários momentos da História.

 

Por que então o escárnio e a repulsa endereçados a esse povo? Até mesmo Charles Dickens, o grande escritor inglês do século dezenove, confeccionou um dos seus terríveis e memoráveis vilões a partir de um representante da raça judaica. No romance “Oliver Twist”, o personagem Fagin, normalmente tratado apenas como “the Jew”, alicia garotos órfãos para transformá-los em batedores de carteira nas ruas de Londres.  Por que Dickens, um nome consagrado dentro da literatura universal, teria deixado recair de forma tão evidente a pecha de malfeitor sobre um judeu, relacionando-o de forma contundente com o mundo do crime?

 

Saindo do reino da ficção e chegando até os ringues da vida real, encontraremos o caso emblemático do pugilista americano Max Baer. Também conhecido pelo singelo apelido de “O Carniceiro de Livermore”, Baer, que na juventude trabalhava no açougue do pai carregando carcaças de gado (daí o mote), teve uma carreira marcada pela glória e pela tragédia. Espécie de “playboy”, sempre sorrindo com mulheres bonitas ao seu lado, Baer foi um dos primeiros fanfarrões da história do boxe. Gostava de provocar os adversários, contar piadas e frequentar as rodas da alta sociedade. De forma repentina, ele passou a conviver com o fantasma da culpa após a morte de dois de seus rivais, Frank Campbell e Ernie Schaaf. O primeiro deixou o ringue desacordado em decorrência de lesões ocasionadas pelos punhos de Baer. Levado a um hospital, não sairia vivo. Schaaf, por sua vez, foi duramente castigado pelo “Arlequim do Pugilismo”, mas sobreviveu. Sequelado, veio a falecer em um combate contra o gigante italiano Primo Carnera, meses depois. A pecha de assassino, contudo, caiu sobre Baer outra vez.

 

Em 1933, Baer teve uma grande atuação ao nocautear o alemão Max Schmeling, em Nova Iorque.  Schmeling, embora simpatizante do partido, não era nenhum nazista fanático. E Baer, mesmo sendo filho de pai judeu, não era um “judeu puro” segundo os ortodoxos, pois sua mãe era de origem irlandesa. Mas Baer lutou com a estrela de Davi costurada no calção, e o resultado foi festejado como uma derrota simbólica do regime hitlerista em ascensão na Europa. Foram dias felizes para Baer, ainda mais depois que ele amealhou o cinturão dos pesos-pesados, no ano seguinte. Curiosamente, quando foi defender o título recém conquistado, Baer acabou derrotado pelo azarão Jim Braddock, um estivador do cais do porto que, graças à improvável vitória, recebeu o apelido de “Homem Cinderela”.  

 

Enquanto isso, em Porto Alegre, o Grêmio vencia o Inter no famoso clássico do centenário da Revolução Farroupilha. No setor ofensivo do time tricolor despontava o jovem Russinho, atuando com galhardia ao lado do craque Foguinho. Após uma rápida passagem pelo Americano, em 1939 Russinho foi vestir a camisa escarlate do Internacional. Filho de um rico comerciante judeu, David Russowsky escreveria, então, seu nome na história, ao integrar o ataque do formidável “Rolo Compressor”: Tesourinha, Russinho, Vilalba, Ruy e Carlitos. Em 1942, quando a equipe estava no seu auge, Russinho optou por abandonar os gramados para dedicar-se à carreira de advogado. Além de notável atleta, o atacante colorado sempre foi um indivíduo altruísta, doando parte do seu salário no clube para funcionários mais humildes.

 

Nas ruas da cidade, mais precisamente no bairro do Bom Fim, um garoto de calças curtas ia observando as façanhas do “Rolo Compressor” e descobrindo as coisas da vida e do esporte. Quando adulto, o garoto tornou-se torcedor do clube Cruzeiro da capital gaúcha, além de um tenaz jogador de basquete. Enquanto arremessava a bola laranja com maestria em direção ao arco, Moacyr Scliar ia compondo histórias e personagens em sua mente. O suor das arrancadas, pulos e fintas escorria pelo seu corpo como uma cachoeira, levando embora a preguiça e enchendo de saúde aquele que foi um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.  

 

Chegando em casa, após uma passagem pela sinagoga onde exercia sua fé pelas tradições judaicas, Scliar sentava-se à escrivaninha para produzir os seus romances, contos e crônicas. A beleza e a contundência dessas palavras tinham a força de mil rolos compressores, de mil ganchos devastadores, fazendo alguém beijar a lona e a capa dos seus livros com um prazer indescritível nos lábios e, especialmente, na alma.

 


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19/09/2014 - 17h19min

Enquanto isso, em algum lugar do oceano...


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30/08/2014 - 13h08min

Passaporte para o inferno

Por entre os becos estreitos da cidade, uma sombra movediça surge lentamente. No seu rastro, o vulto de um homem, ou do que restou dele, após garrafas terem sido esvaziadas no interior de algum bar. Atravessando a espessa névoa da noite, a criatura avança com o rosto pálido e olheiras profundas, traços de uma existência desafortunada, e que aos poucos chega ao seu final. Delírios, visões turvas e alucinações habitam a mente do andarilho, enquanto ele vaga sem rumo pelas calçadas escuras. A luz amarela de um poste paira sobre os paralelepípedos, e, por um instante, banha o corpo que passa cambaleando pela sarjeta.

 

O mórbido desfile acabou quando o homem foi detido por embriaguez e conduzido por policiais até a prisão. Lá, parte do mistério foi desfeita. O farrapo era um poeta de certa fama chamado Poe. Enternecido pela beleza dos seus versos, o braço forte da lei terminou por liberar o contraventor, sem que ele tivesse que pagar fiança ou qualquer multa do gênero. O fato aconteceu em Filadélfia, durante o ano de 1849. Dentro de alguns meses, o hoje mundialmente conhecido autor do poema “O Corvo” estaria morto, possivelmente vítima de uma nova e derradeira orgia etílica.

 

Esse capítulo na vida de Poe mais parece uma peça de ficção, onde um reles escritor recebe os benefícios geralmente reservados a figuras de outra hierarquia. Com efeito, em nossa sociedade, os depositários desse tipo de privilégio fazem parte de castas que nada tem a ver com o solitário e mal remunerado ofício das letras. Afinal,  certos juízes e políticos transitam imunes aos próprios atos, regendo a vida de simples mortais de acordo com seus caprichos, distribuindo “carteiraços” aqui e ali, com o olhar rútilo e feroz que somente a posse do poder confere.  Vestidos em suas togas e colarinhos, esses distintos cidadãos gozam de trânsito livre dentro dos inexpugnáveis labirintos da falcatrua institucionalizada, em salas e gabinetes com ar condicionado, onde milhões de homens comuns jamais pisarão. 

 

Entretanto, até mesmo no mundo artístico existem celebridades que se aproveitam da fama para caminhar imunes entre as armadilhas cotidianas da vida. Aparecer em novelas, ser um cantor de sucesso ou jogador de futebol, por exemplo, são sinônimos de “status”, predicados que valem ouro na luta por um lugar ao sol nas entranhas de concreto da cidade. Analisemos por um instante o caso de Heleno de Freitas, figura carismática que viveu dias de glória defendendo o Botafogo durante a década de 1940. Ao ser negociado com o Boca Juniors, o esfuziante jogador protagonizou um episódio que retrata fielmente a relação de promiscuidade existente entre as plebes e seus ídolos. 

 

Após a triunfal estreia com a camisa do clube argentino, tendo marcado gols e realizado boas tabelas com os craques Mario Boyé e Natalio Pescia, Heleno era conduzido incógnito em meio ao trânsito intenso de Buenos Aires. Dentro do carro estavam ainda os jornalistas Geraldo Romualdo da Silva e Luiz Mendes, que narrou a cena em suas memórias muitos anos depois. O motorista da trupe, talvez envolvido pela emoção da vitória, em determinado momento acabou abalroando levemente o veículo que ia na frente. O proprietário deste, então, desembarcou furioso, ávido em tirar satisfações com o desastrado condutor. Entretanto, ao ver o grande Heleno de Freitas entre a tripulação, a vítima da colisão mudou de ânimo repentinamente, balbuciando desculpas, abdicando seus direitos, e permitindo que os culpados seguissem seu caminho livremente.

 

Ironia do destino, talvez esse tenha sido uma espécie de salvo-conduto para o inferno, tendo em vista a derrocada enfrentada pelo craque a partir de então.  Heleno acabou fracassando no Boca, e sua própria saúde entrou em um declínio impressionante, ocasionado pelo consumo de éter e por uma sífilis adquirida em incontáveis festas nas madrugadas cariocas. O mito do galante Narciso dos gramados foi aos poucos desaparecendo, dando lugar a uma realidade de loucura e abandono. Ainda na flor da idade, Heleno terminou seus dias internado em um hospício na cidade de Barbacena, totalmente desfigurado e senil.

 

Entre as paredes frias e úmidas do sanatório, Heleno, então, fumou os cigarros que lhe eram dados com piedade pelos cuidadores.  Alucinações faziam o suor escorrer pela sua testa, enquanto ele sonhava com o palco relvado onde, em tardes antigas e douradas, atuou com esplendor. Em um dado momento, ele chega a ver a luz dos holofotes e ouvir o clamor da multidão. Mas, no fim, eram apenas sombras bailando na penumbra, embaladas pelo murmúrio triste da saudade. 

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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