07/01/2015 - 20h24min

O magnífico Mirisola

Existem escritores que vivem reclusos e são avessos aos holofotes, como Dalton Tevisan, por exemplo. Existem escritores que, mesmo sem ter um grande talento, tem o ego do tamanho de um elefante, vivendo encastelados e inacessíveis na sua própria arrogância. Deste tipo, prefiro não citar nomes. E existem aqueles escritores de perfil magnânimo que, apesar do seu alto gabarito e justa fama, nunca se furtam a atender pedidos para escrever prefácios de jovens autores, dar entrevistas ou retribuir o carinho dos fãs. O saudoso Moacyr Scliar, por exemplo.

 

Parece ser também esse o caso do paulista Marcelo Mirisola. Uma das vozes mais originais surgidas na literatura brasileira nas últimas décadas, Mirisola é um sujeito de posições fortes e polêmicas, uma voz inteligente pregando fervorosa em meio à selva de mediocridades geradas na mídia. Mais do que isso, as palavras tecidas por Mirisola em suas narrativas tem a notável capacidade de conduzir o leitor entre o que há de mais abominável e bagaceiro na condição humana, ao mesmo tempo em que revelam, de forma magistral, uma espécie de lirismo escondido nos instintos básicos e nas desilusões mesquinhas do cotidiano. Autor de muitos livros, como, por exemplo, “O azul do filho morto” e “O homem da quitinete de marfim”, Mirisola fala para quem sabe ouvir. Sorte nossa, não é mesmo?  

 

Saretta: Fale-nos um pouco sobre o seu novo livro, “Hosana na Sarjeta”...

 

Mirisola: Deu um trabalhão danado para escrevê-lo. O livro fala por si. Seria um contrassenso tentar resumi-lo em meia dúzia de palavras.

 

Saretta: Em que momento da sua vida você decidiu se tornar escritor?

 

Mirisola: Quando todas as outras opções naufragaram. 

 

Saretta: Você vê alguma semelhança entre o tipo de literatura que você faz e as histórias em quadrinho do americano Harvey Pekar? Eram histórias que retratavam o cotidiano dele mesmo, um cara normal que trabalhava como arquivista em um hospital. Confesso que quando vi o filme “Anti-herói americano” lembrei dos teus romances e daquela coisa da “auto-ficção”.

 

Mirisola: Nunca dei bola para quadrinhos. Vi o filme, e gostei. Acho que é só isso.

 

Saretta: Qual foi a tua maior alegria até hoje dentro do mundo das letras? E a maior decepção?

 

Mirisola: O “mundo das letras” é um chiqueiro.  Chafurdei no lixo, conheci muitos porcos e consequentemente tive grandes decepções. Mas, graças a Deus – e paradoxo dos paradoxos – também foi o mundo das letras que me apresentou meus melhores amigos, gente limpa e decente que nada tem a ver com o tal “mundo das letras”. Ou seja: o mundo das letras é o mesmo mundo do tênis, das pedicures, dos técnicos de refrigeração e ar condicionado. Do lugar que chamamos planeta terra.

 

Saretta:  O que você pensa a respeito da afirmativa de que “no Brasil existem mais escritores do que leitores”? O que você faria para mudar esse quadro?

 

Mirisola: Tinha fé no Ebola, mas parece que a epidemia está sob controle. Só o paredão resolve.

 

Saretta: Apesar de nomes consagrados como, por exemplo, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, e até mesmo Clarice Lispector, terem traçado linhas sobre o futebol, esse tema continua sendo menosprezado por muitos intelectuais/escritores. O que você acha disso?

 

Mirisola: Acho que os intelectuais/escritores estão certos. Quanto menos meterem a colher, mais chances o futebol terá de se livrar da chatice.  Exemplo disso é o Armando Nogueira – o texto mais chato e empolado que li na vida, o cara consegue ser mais indigesto do que todos aqueles parnasianos dos tempos de colégio, lembra?

 

Saretta: Você pratica esportes?

 

Mirisola: Não. Odeio esportes.

 

Saretta:  Lendo o teu livro “Animais em Extinção”, senti uma certa melancolia nas partes que narram o protagonista observando a praia. Você considera a literatura como um lenitivo para a solidão, ou algo que arrasta o escritor ainda mais para dentro de si?

 

Mirisola: Do ponto de vista do leitor, a literatura pode ser um lenitivo para a solidão e para tantas outras frescuras que afetam o ser humano. Do ponto de vista do escritor “solidão” é apenas mais um instrumento de trabalho.

 

Saretta: Qual é o papel do artista?

 

Mirisola: Como diria meu amigo Evandrinho Grogotó Affonso Ferreira. O papel do escritor é o A-4.

 

Marcelo Mirisola, um talento fora de série na literatura brasileira. Foto: Google.


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22/12/2014 - 17h12min

Pedra viva

A cidade dorme imersa na escuridão. Por entre os prédios de São Paulo, uma luz solitária denuncia a presença de atividade em um pequeno quarto. Quem seria? Espiando pela janela vemos o artesão que trabalha incansavelmente madrugada adentro. O martelo golpeia o formão com paciência, dando origem a uma escultura colocada no centro do estúdio. Toc, toc, toc. Aos poucos, a massa disforme vai assumindo a feição de um rosto conhecido. Alguém que, assim como o artesão, valia-se de força e técnica para criar.

 

O busto de Manoel Nunes, o popular Neco, foi inaugurado na primavera de 1929, quando o Corinthians recebeu o Atlético Mineiro para um amistoso no Parque São Jorge. A hora de abandonar os gramados se aproximava para Neco, e o clube alvinegro não poderia deixar o seu primeiro ídolo sem uma devida homenagem. Afinal, as apresentações desse brilhante atleta jamais foram esquecidas. Desde os primeiros chutes dados pelo garoto no Liceu Coração de Jesus, passando pelos jogos na várzea do bairro do Bom Retiro, Neco mostrava que a fibra era a sua principal virtude. O futebol já era uma realidade e, no ano de 1910, é fundado o Corinthians. Neco fez do clube a sua segunda casa, dedicando-se de corpo e alma na árdua tarefa de defender o quadro paulista. Notável foi a dupla formada entre ele e Amílcar Barbuy, um centromédio de gabarito e primeiro jogador corintiano a vestir a malha da seleção brasileira. Neco, por sua vez, teve ao menos uma passagem marcante atuando pela nossa seleção. Foi no campeonato sul-americano de 1919, disputado no Rio de Janeiro. Na final contra o Uruguai, Neco construiu uma jogada belíssima que culminaria no gol do artilheiro Friedenreich. Gol que garantiu a conquista do título e a festa nas arquibancadas do estádio das Laranjeiras.

 

Porém, foi mesmo no Corinthians que Neco tornou-se uma lenda. Graças ao seu empenho e temperamento, o alvinegro venceu muitos campeonatos paulistas. Difícil esquecer o famoso episódio no qual Neco teria sacado o cinto, que prendia os calções de antigamente, para brigar com o goleiro Primo, do Palestra Itália. Não sabemos se realmente foi essa a sua intenção, ou apenas ajeitar a indumentária, já que os dois jogadores tinham engalfinhado-se em uma disputa pela bola. O fato é que a torcida adotou o gesto como sinal de valentia, clamando, a partir de então, que Neco tirasse o cinto sempre que a situação ficasse preta durante as partidas. Anos após a inauguração do busto de Neco, outros atletas corintianos gozaram da mesma honra, como, por exemplo, Cláudio, Luizinho e Baltazar. Estátuas que habitam os jardins do clube, com seus olhos de bronze a observar as pessoas de carne e osso.

 

Na margem oposta da metrópole, o Palmeiras igualmente produzia seus heróis.  Waldemar Fiúme foi um dos ases que conquistaram o emblemático campeonato paulista de 1942. Nesse ano turbulento, o clube foi obrigado a mudar de nome em razão da guerra europeia e da forte ligação com a colônia italiana de São Paulo. O Palestra Itália, então, renasceu como Sociedade Esportiva Palmeiras e Waldemar Fiúme iniciou um lapso de dezesseis anos militando nas fileiras da instituição. Nesse período, a presença de Waldemar no time era uma constante, impulsionando destemido os companheiros em busca de novas vitórias.

 

Se pegarmos o dicionário de italiano, veremos que a palavra “fiume” significa “rio”. Mario Quintana, por sua vez, versou com maestria: “Toda a tristeza dos rios é não poderem parar”. Waldemar era assim, caudaloso, sempre em movimento, tanto que jogou em várias posições, começando como meia ofensivo e, aos poucos, recuando até a zaga, quando encerrou a sua carreira.  A sua importância foi tanta dentro da história do Palmeiras que um busto seu adorna a sede do clube. Uma imagem de pedra, finalmente estática, imersa dentro do rio que era o próprio Waldemar, coberta de um musgo esverdeado, cor da camisa palmeirense. A água correndo vigorosa como o tempo, enquanto a pedra viva permanece quieta, adormecida. Uma simples estátua de mármore, não fossem as façanhas protagonizadas por Waldemar com a bola aos seus pés.

 


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13/12/2014 - 12h18min

Caminhos cruzados

Um belo dia, o homem desperta para a sua vocação. Quando Rubem Braga, então um garoto de 15 anos, mudou-se para Niterói a fim de realizar seus estudos, passou a enviar regularmente relatos para o jornal dirigido por seus irmãos mais velhos. "O Correio do Sul", situado na bucólica terra natal de Rubem, Cachoeiro do Itapemirim, era um periódico com forte viés político, que fazia apologia ao Partido Republicano. O ano era 1928. Através das suas impressões sobre o Rio de Janeiro, Rubem começou a extravasar a sua veia de cronista, incorporando para sempre tal ofício. Foram os primeiros passos de um gigante das letras. Em 1936, é lançado o livro de estreia de Rubem, "O Conde e o Passarinho", pela editora José Olympio. No prefácio, o autor se define: "sou jornalista, o que quer dizer: nem um literato nem um homem de ação." Para muitos, ele foi o maior cronista que o Brasil já teve.

Às vezes precisamos de um "empurrãozinho" para encontrar o nosso rumo, o nosso destino. Trabalhando como arquivista do "Tribuna da Imprensa", Zuenir Ventura teve o incentivo do professor Hélcio Martins para começar a escrever para jornal. Futuro vencedor do Prêmio Esso e autor do elogiado "1968, o Ano Que Não Terminou", Zuenir ficou com aquele vaticínio na cabeça. Um belo dia, o irascível e habilidoso político Carlos Lacerda, dono da "Tribuna", irrompe na redação demandando uma matéria sobre o falecimento do escritor Albert Camus, que acabara de ocorrer. Instintivamente, Zuenir ergue o braço, aceitando o desafio e dando início a uma brilhante carreira dentro da imprensa nacional.

Mais de 45 anos como colaborador de um jornal não é pouca coisa. Pois esse é o tempo (mais precisamente desde 1968) que Horacio Pagani vem se dedicando ao diário argentino Clarín. Essa longa estrada teve começo quando o jovem Horacio, desinteressado pela faculdade de Ciências Econômicas e pelo emprego no Banco de Boston, escutou o conselho de um amigo, Julio Palazzo. Ciente das manias de Horacio - como, por exemplo, narrar partidas de futebol imaginárias e anotar freneticamente os resultados dos jogos em uma planilha -, Palazzo sugeriu ao rapaz a carreira de jornalista esportivo.

Em Buenos Aires havia a escola do Circulo de Periodistas Deportivos. Nesse ambiente, Horacio escreveu seus textos iniciais até chamar a atenção de seu ídolo Osvaldo Ardizzone. Figura respeitada, Ardizzone era nome de relevo na revista El Gráfico. Além disso, atuava como professor. E foi assim, corrigindo redações, que teve acesso ao trabalho de Horacio. Os elogios do mestre foram fundamentais para despertar o jornalista adormecido que havia no pupilo.

A palavra está nas tintas de um jornal e está, também, nas ondas do rádio. Luiz Mendes, um dos maiores locutores esportivos do Brasil, teve a chance de debutar em uma transmissão na Radio Globo por obra do imponderável. Como o titular Gagliano Neto não compareceu ao trabalho em um dia fortuito, Mendes aproveitou a deixa e acabou se firmando no posto por vários anos, criando bordões e cativando a audiência com a sua voz límpida e macia. Mais tarde, o próprio Mendes ajudaria outro notável profissional da área, ao sugerir o nome artístico e incentivar o futuro apresentador Leo Batista, quando este era um jovem em início de carreira.   

 

Para alguns, o desvelar de uma vocação é algo natural, constante e firme. Para outros, acontece por acaso, tardiamente, graças a algum conselho, um sinal qualquer ou à interferência de alguém mais experiente no ramo que vislumbre um talento escondido e aponte o caminho a ser tomado. Nesse dia, o homem nasce pela segunda vez, encontrando aquele destino que lhe trará a felicidade, a cidadania e o seu ganha-pão.

 


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26/11/2014 - 21h11min

Os ossos da donzela

Linda donzela dos meus sonhos

Eras tão jovem e sem dores

Quando eu vinha do campo, a cavalo

Trazendo-te um buquê de flores


As tuas mãos frágeis e faceiras

Trabalhavam sem atraso

Quebrando os ramos mais compridos

Que não cabiam em teu vaso


Alguns anos se passaram

Envoltos nessa fantasia

Até que tu, linda donzela

Cansou da minha companhia


E então cinicamente

Nosso castelo abandonaste

Para buscar um outro amor

Que a tua boca osculasse


Sentada sob as sombras

De um carvalho muito antigo

Com os braços esticados

Para esse novo amigo


Acabaste falecendo

Ainda jovem e tão bela

Trazendo em teu olhar tristonho

Uma lágrima singela


Então o prático coveiro

Dos braços rijos, da tua mão

Foi quebrando aqueles ossos

Que não cabiam no caixão



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08/11/2014 - 10h11min

Uma crônica tão sonhada

Olá, pessoas! Chegou a hora de escrever uma crônica que eu vinha planejando há muito tempo, sem saber, no entanto, se eu teria a oportunidade de fazer isso algum dia. Depois de incontáveis anos de espera, tentativas em vão e bolas na trave, no último domingo o Inter venceu o Santos na Vila Belmiro pela primeira vez na sua história. Uma vitória insofismável e convincente, mas que seria banal, não fosse o tabu que cercava o duelo entre os times colorado e peixeiro na famosa e formosa Vila Belmiro. O alçapão do glorioso alvinegro praiano, palco de imorredouras jogadas de gênios como Feitiço, Pelé, Pepe e Clodoaldo, finalmente foi expugnado pelo Inter.  

 

Uma bonita tarde de sol emoldurava o cinzento estádio de cimento, enquanto ele ia devorando os pequenos magotes de torcedores, com suas ilusões, bandeiras e radinhos de pilha. Após o apito inicial do juiz, os times entregam-se à luta pela posse da pelota de forma voraz e insensível. O Santos martela e bate algumas vezes na porta do bom goleiro Alisson, mas quem abre o placar é o Inter, através de Aranguiz. Naquele instante, o moço de Puente Alto começava a escrever com letras douradas o seu nome no álbum de recordações do clube. Após receber um lançamento milimétrico de D’Alessandro, o chileno, descendente direto do lirismo de Figueroa, dominou a bola com perfeição, enganado um defensor santista antes de cravar a bola no fundo da meta custodiada por Aranha. Gelo nas arquibancadas da Vila. O Inter joga com cinismo, administrando a vantagem até que termina o primeiro tempo.

 

No segundo tempo, o esquadrão escarlate se fecha como um punho de ferro. A dupla de zaga Ernando e Alan Costa merece loas pelo desempenho sério e diligente, nunca esmorecendo nas divididas. Na meia cancha, Willians cadencia o ritmo do jogo, auxiliado pelo lépidos Jorge Henrique e Alan Patrick. E mesmo Nilmar, apesar de isolado no ataque, representa um perigo constante, com suas arrancadas fulminantes em direção ao gol santista. Apesar disso, o time dono da casa alcança o empate. Após cruzamento de Cicinho, Gabriel desvia com sutileza, ludibriando Alisson. Parecia que mais uma vez a tão sonhada crônica ficaria para trás, e a folha de papel permaneceria em branco por mais um longo e triste ano. No meu íntimo, contudo, eu sabia que aquele era o nosso dia. 

 

Até que então, de forma bizarra e inesperada, surgiu o lance crucial da partida. Após uma bola recuada por Mena, o goleiro Aranha, pressionado por Welington Paulista, se atrapalha e segura o balão de couro com as mãos. O juiz não titubeia e marca a falta. Claudio Winck ajeita para Fabrício, que ajeita para Aranguiz, que rola o couro suavemente entra a selva de pernas da barreira, colocando a bola no fundo da rede do Santos outra vez! É a glória tão temida que chega como uma tempestade de nuvens plúmbeas se formando no céu, varrendo a poeira das ruas e revolucionando as águas profundas do mar onde mora a grande baleia branca. Nesse dia, ela não emergiu triunfante com a cabeça sobre as ondas. A noite foi chegando aos poucos, trazendo consigo as suas criaturas. Na beira da praia, dizem que um saci foi visto pulando na areia, enquanto fumava cachimbo sob a luz amarela da lua.  

 

Desligo a televisão. A tão sonhada vitória havia sido conquistada heroicamente, com raça, unhas, dentes e talento.  O temido feitiço da Vila Belmiro havia sido desfeito, provando que, mesmo no futebol, nada é para sempre. No entanto, aquela sensação maravilhosa, de júbilo e euforia que eu esperava sentir, se acabou repentinamente, como o gozo depois de uma noite de luxúria.  Sem saber direito o que aconteceu, permaneço imóvel no sofá por mais alguns instantes. Uma dúvida cruel vem à minha mente. E agora? Com o que irei sonhar?  

 


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29/10/2014 - 21h10min

O louco no espelho

A música tem algo de belo, misterioso e sombrio. Os membros da banda parecem em estado de transe, como se a melodia dominasse as suas ações, e não o contrário, conduzindo as mãos que batem no tambor, nas teclas do piano, ou dedilham as cordas da guitarra elétrica. Quando a música termina, o acorde final permanece pairando no ar por alguns instantes, como a chama de uma vela que se extingue aos poucos, até se apagar totalmente. O ambiente do estúdio é lúgubre, e entre a penumbra da sala percebe-se uma estranha criatura sentada no fundo, imóvel como uma estátua, observando em silêncio.  Quem seria ele? Como teria conseguido entrar no famoso estúdio de Londres sem ser notado?  Quais seriam as suas intenções? Atraídos pelo magnetismo do vulto, os membros da banda sentem o coração bater mais forte à medida em que se aproximam do sinistro visitante.

 

Um calafrio percorre a espinha do grupo quando, em um átimo de horror e espanto, descobre-se a verdadeira identidade do estranho. Aquele ser gordo e careca ali sentado era Sid Barret, o antigo líder do Pink Floyd, que fazia uma súbita e inesperada aparição entre os ex-colegas. Seu olhar distante, impregnado de melancolia e loucura, arrancou lágrimas entre os presentes. Há muito tempo afastado, Sid, visivelmente grogue pelo abuso constante de substâncias alucinógenas, estava muito diferente do rapaz saudável de outrora. De forma inexplicável, o doido parece ter adivinhado que, naquele dia e hora, o grupo estaria ensaiando uma canção composta em sua homenagem, uma ode singela àquele que havia sido um dos fundadores do Pink Floyd.  A faixa estaria no próximo álbum da banda, e acabou tornando-se um grande sucesso. A letra dizia algo como “continue a brilhar, seu louco diamante”. Depois daquele dia, Sid desapareceu novamente, voltando para as sombras, onde ficou até morrer, muitos anos mais tarde.

 

O diamante. Repleto de faces e cores, essa pedra dura esconde algo de fascinante no seu âmago. Algo que só aparece quando o diamante é dilapidado, e que surge como um rosto no espelho, revelando aspectos desconhecidos de nós mesmos. Sid Barret foi o gênio demente do rock, o diamante que brilhou com a força do sol e com a poesia da lua. Leônidas da Silva, por outro lado, foi uma estrela de rara grandeza dentro do mundo mágico e selvagem do futebol. O craque brasileiro maravilhou as plateias ao redor do planeta, recebendo o apelido de “Diamante Negro” em razão das suas proezas. Na Copa da França, em 1938, Leônidas atingiu os píncaros da fama, exibindo um repertório de lances e luxos inéditos até então. Depois de brilhar pelo Flamengo por muitos anos, em 1942 o centroavante transferiu-se para o São Paulo. Vestindo a jaqueta tricolor, Leônidas foi uma das forças propulsoras das primeiras conquistas de relevo do clube. Foram cinco campeonatos paulistas, até Leônidas pendurar as chuteiras, em 1950. A pele negra e reluzente do craque, posando para a explosão de magnésio das máquinas fotográficas, destacava Leônidas ainda mais entre os demais membros do time. Na hora de dar autógrafos, era sempre ele o mais assediado, aquele que todos queriam ver e tocar. Foram dias de rosas e vinho, onde Leônidas desfrutou os louros da vitória intensamente.

 

Alguns anos se passaram, até que o destino reaproximou Leônidas de alguém que havia dividido com ele a pelota e o clamor da multidão em tardes douradas no Pacaembu. Em uma loja qualquer de material de construção, nas entranhas da cidade, o eterno “Diamante Negro” examina as prateleiras. O dono do estabelecimento, ávido para agradar o ilustre freguês, manda chamar um dos seus funcionários, sem que Leônidas entenda direito o porquê. Foram momentos de tensão, até que um homem com o rosto coberto de cal e cimento surge timidamente pela porta do depósito, nos fundos da loja. Suas mãos rudes chamam a atenção de Leônidas, que ergue a cabeça para encarar o sujeito. Quem seria ele afinal? O pó branco dos sacos de gesso cobre a sua face, como se ele fosse um palhaço prestes a entrar em cena. Com a mão estendida em direção ao grande “Diamante Negro”, o humilde carregador esboça um sorriso. “Olá, Leônidas”. Seu olhar brilha por um longo instante, como se o tempo estivesse congelado naquele silêncio, naquela loucura. Uma gota de suor escorre pela testa do craque, caindo sobre o seu terno de tecido marrom, até que finalmente, em um estalo de memória, Leônidas reconhece o funcionário. Era Pardal, um antigo companheiro dos tempos do São Paulo!

 

Lino Mancila era seu nome. Gaúcho de Pelotas, Pardal fora um dos integrantes do lendário quinteto ofensivo que qualquer criança recitava de cor, quando o tricolor sagrou-se campeão paulista, em 1943. Através das ondas do rádio, a escalação do São Paulo penetrava os lares e bares da cidade, terminando sempre como uma espécie de poesia: Luisinho, Sastre, Leônidas, Remo e Pardal. Pardal não teve a mesma sorte de Leônidas, que, além de empresário era comentarista esportivo. Após pendurar as chuteiras, o ponteiro-esquerdo, como uma Cinderela às avessas, terminou forçado a abraçar empregos menos charmosos. Mesmo que Pardal fosse um homem feliz, trabalhador e honrado, Leônidas foi tomado pela tristeza, como se aquela fosse a sua própria imagem refletida em um espelho coberto por uma fina camada de poeira cinza. Afinal, poderia ser ele quem estivesse enfrentando aquela situação difícil, vivendo nas sombras do olvido, como um anjo caído.  Pardal era o fantasma que Leônidas temia tanto ver, com seu rosto branco e pálido lembrando que a sociedade está sempre a cobrar o êxito, seja como for, custe o que custar.

 

Uma lufada de vento entrou pela janela e varreu o pó branco de cal da loja, através da cidade e dos anos, transformando-o em uma substância poderosa e letal. Em uma noite quente ela chegou até Houston, levando embora as folhas de papelão que cobriam um mendigo na calçada. Do outro lado da rua, há um burburinho em frente ao saguão de um hotel de luxo. Estamos no início da década de 1990, e o time de basquete do Filadélfia 76ers está na cidade! Entre os ases da companhia vemos Charles Barkley, um verdadeiro mestre na arte do arremesso. Não por acaso, foi Barkley o cestinha do famigerado “Dream Team” norte-americano, que encantou o mundo nas Olimpíadas de Barcelona. Uma legítima façanha, se observarmos que figuras do quilate de Larry Bird, Magic Johnson e Michael Jordan também faziam parte daquele time.

 

Barkley está distribuindo autógrafos despreocupadamente, sob a luz da lua e o céu estrelado do Texas, quando, de repente, um vulto o agarra por trás. Pego de surpresa, Barkley procura livrar-se do abraço tenaz, mas trata-se de alguém muito forte e alto, alguém que exala um odor nauseabundo pelos poros. Era o mendigo que estava deitado na calçada e que, depois do assalto inicial, agora apenas encara o craque com o rosto sujo e um sorriso dócil e insano nos lábios. Barkley, totalmente confuso, intui que o mendigo deveria conhecê-lo de algum lugar. O vento sopra forte ainda, agitando a copa das árvores ao redor, enquanto Barkley vasculha a própria mente em busca de alguma recordação, de alguma pista. É então que ele reconhece o maltrapilho como sendo John Drew, um veterano jogador que havia dado conselhos a Barkley quando este era apenas um novato.

 

Tomado pelo pavor, Barkley balbucia palavras sem nexo, sacando a carteira do bolso e estendendo notas graúdas de dólar ao mendigo, com as mãos trêmulas e a visão turva. De volta ao quarto do hotel, Barkley lava o rosto na pia do banheiro, procurando refazer os sentidos. Quando se olha no espelho, ele vê a imagem de Drew lhe alertando, muitos anos atrás, sobre o perigo das drogas, admitindo ter gasto pequenas fortunas na compra de um certo pó branco. Drew havia sido um grande jogador, especialmente com a camisa do Atlanta Hawks, tendo participado por duas vezes do All-Star Game da NBA. Mas o vício da cocaína acabou com a sua carreira de forma prematura, e ninguém mais ouvira falar dele desde então.

 

Com um nó na garganta, fitando fundo no espelho com os olhos rasos d'água, Barkley pensa que talvez estejamos todos loucos, afinal. Absortos na luta diária e absurda pela vitória, pelo prazer e pelo sucesso, caminhamos mansamente rumo à ruína, sem perceber o rosto daquele que vaga ao nosso lado, oculto como um diamante entre a multidão das ruas, pronto para dizer coisas belas, terríveis e verdadeiras sobre nós mesmos. 

 


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02/10/2014 - 22h10min

Suando na sinagoga

Confesso que desconheço a razão pela qual o povo judeu tem sido tão perseguido ao longo dos séculos. Vilões ou heróis, oprimidos ou opressores, vítimas ou carrascos, os judeus possuem, mais do que a sina de vagar sem pátria pelo mundo (pelo menos até a criação de Israel), uma espécie de mistério intrínseco à sua existência. Para mim parece evidente que os judeus (por mais que a sua habilidade para os negócios seja comumente ligada à avareza e ganância), também tiveram seus méritos e papel de relevo em vários momentos da História.

 

Por que então o escárnio e a repulsa endereçados a esse povo? Até mesmo Charles Dickens, o grande escritor inglês do século dezenove, confeccionou um dos seus terríveis e memoráveis vilões a partir de um representante da raça judaica. No romance “Oliver Twist”, o personagem Fagin, normalmente tratado apenas como “the Jew”, alicia garotos órfãos para transformá-los em batedores de carteira nas ruas de Londres.  Por que Dickens, um nome consagrado dentro da literatura universal, teria deixado recair de forma tão evidente a pecha de malfeitor sobre um judeu, relacionando-o de forma contundente com o mundo do crime?

 

Saindo do reino da ficção e chegando até os ringues da vida real, encontraremos o caso emblemático do pugilista americano Max Baer. Também conhecido pelo singelo apelido de “O Carniceiro de Livermore”, Baer, que na juventude trabalhava no açougue do pai carregando carcaças de gado (daí o mote), teve uma carreira marcada pela glória e pela tragédia. Espécie de “playboy”, sempre sorrindo com mulheres bonitas ao seu lado, Baer foi um dos primeiros fanfarrões da história do boxe. Gostava de provocar os adversários, contar piadas e frequentar as rodas da alta sociedade. De forma repentina, ele passou a conviver com o fantasma da culpa após a morte de dois de seus rivais, Frank Campbell e Ernie Schaaf. O primeiro deixou o ringue desacordado em decorrência de lesões ocasionadas pelos punhos de Baer. Levado a um hospital, não sairia vivo. Schaaf, por sua vez, foi duramente castigado pelo “Arlequim do Pugilismo”, mas sobreviveu. Sequelado, veio a falecer em um combate contra o gigante italiano Primo Carnera, meses depois. A pecha de assassino, contudo, caiu sobre Baer outra vez.

 

Em 1933, Baer teve uma grande atuação ao nocautear o alemão Max Schmeling, em Nova Iorque.  Schmeling, embora simpatizante do partido, não era nenhum nazista fanático. E Baer, mesmo sendo filho de pai judeu, não era um “judeu puro” segundo os ortodoxos, pois sua mãe era de origem irlandesa. Mas Baer lutou com a estrela de Davi costurada no calção, e o resultado foi festejado como uma derrota simbólica do regime hitlerista em ascensão na Europa. Foram dias felizes para Baer, ainda mais depois que ele amealhou o cinturão dos pesos-pesados, no ano seguinte. Curiosamente, quando foi defender o título recém conquistado, Baer acabou derrotado pelo azarão Jim Braddock, um estivador do cais do porto que, graças à improvável vitória, recebeu o apelido de “Homem Cinderela”.  

 

Enquanto isso, em Porto Alegre, o Grêmio vencia o Inter no famoso clássico do centenário da Revolução Farroupilha. No setor ofensivo do time tricolor despontava o jovem Russinho, atuando com galhardia ao lado do craque Foguinho. Após uma rápida passagem pelo Americano, em 1939 Russinho foi vestir a camisa escarlate do Internacional. Filho de um rico comerciante judeu, David Russowsky escreveria, então, seu nome na história, ao integrar o ataque do formidável “Rolo Compressor”: Tesourinha, Russinho, Vilalba, Ruy e Carlitos. Em 1942, quando a equipe estava no seu auge, Russinho optou por abandonar os gramados para dedicar-se à carreira de advogado. Além de notável atleta, o atacante colorado sempre foi um indivíduo altruísta, doando parte do seu salário no clube para funcionários mais humildes.

 

Nas ruas da cidade, mais precisamente no bairro do Bom Fim, um garoto de calças curtas ia observando as façanhas do “Rolo Compressor” e descobrindo as coisas da vida e do esporte. Quando adulto, o garoto tornou-se torcedor do clube Cruzeiro da capital gaúcha, além de um tenaz jogador de basquete. Enquanto arremessava a bola laranja com maestria em direção ao arco, Moacyr Scliar ia compondo histórias e personagens em sua mente. O suor das arrancadas, pulos e fintas escorria pelo seu corpo como uma cachoeira, levando embora a preguiça e enchendo de saúde aquele que foi um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.  

 

Chegando em casa, após uma passagem pela sinagoga onde exercia sua fé pelas tradições judaicas, Scliar sentava-se à escrivaninha para produzir os seus romances, contos e crônicas. A beleza e a contundência dessas palavras tinham a força de mil rolos compressores, de mil ganchos devastadores, fazendo alguém beijar a lona e a capa dos seus livros com um prazer indescritível nos lábios e, especialmente, na alma.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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