05/08/2017 - 12h08min

O medo e a máscara

     O mundo futebolístico foi sacudido com a repentina saída de Neymar do Barcelona. É verdade que houve, durante alguns dias, uma especulação, como se fosse a gestação de um monstro que iria abalar as estruturas da cidade, e a transferência para o PSG foi tomando forma de uma maneira, até certo ponto, coerente. Mas, no fim, o impacto da venda foi avassalador, e seus desdobramentos são ainda imprevisíveis. Não será tão fácil, principalmente para o torcedor blaugrana, digerir a, por que não dizer, intempestiva atitude do jogador. Ao deixar o time, Neymar partiu o coração de milhões de aficionados, que sonhavam com um amor eterno e feliz. Como pôde o craque olvidar, de uma hora para a outra, a companhia dos conterrâneos latinos Messi e Suárez, do amigo Piqué e de tantos outros, desprezando cinicamente a camisa do clube catalão e os novos desafios que viriam pela frente?

     Enfurecida com o desfecho da pequena novela, a torcida do Barça não tardou em classificar o funâmbulo número onze de traidor e mercenário. E aí repousa um dos pilares da questão, pois os valores da venda são absurdos, ofensivos à dignidade humana, até. Entretanto, essa é a lógica do jogo, e quem pode mais chora menos.  Alguns observadores consideram que seja o pai do jogador o responsável por essa ânsia faraônica por dinheiro. Manipulado por seu pai, Neymar, nesse caso, seria o jovem inocente corrompido pela avareza dos mais velhos. Fatos dessa natureza são comuns, basta lembrarmos de Ronaldinho e Assis, os irmãos de Porto Alegre que dominaram o mundo futebolístico graças à astúcia atlética do primeiro e o tino comercial do segundo. Assis, o irmão mais velho do craque, foi considerado por muitos como o verdadeiro fominha da dupla, e quanto mais dólares entrassem na conta do banco melhor.

     Mas, afinal, quem pode viver sem dinheiro? Temos razão em condenar alguém por gostar de dinheiro? Perguntas sem resposta, que ajudam a construir o enigma chamado Neymar. Mudando sutilmente nossa linha de raciocínio, poderíamos enxergar no jogador brasileiro uma espécie de Robin-Hood, um rebelde marginal que abandona uma das mecas do futebol europeu para viver em Paris, a cidade luz das artes e da cultura, mas de pouco relevo dentro do cenário relativo ao popular esporte. A atitude de Neymar, nesse caso, teria algo de original, e a sua recusa em continuar na Espanha seria motivo de aplausos. Indo rumo ao caminho das sombras, o craque estaria adotando uma postura introspectiva, de renúncia e estoicismo. E poderia recuperar o espaço como jogador de um time, mesmo que seja improvável conquistar a Bola de Ouro atuando pelo PSG.

     Disparates e suposições não faltam sobre o caso. Neymar afirmou categoricamente não estar buscando o vil metal ou o protagonismo perdido na Espanha. Do alto da sua “maturidade de 25 anos” ele estaria em busca simplesmente de novos horizontes. De fato, é provável que ele não seja o vilão, mas a vítima nessa história toda, o craque pré-fabricado pela mídia que fica cego pelos holofotes e acaba prejudicando a própria carreira.

     Nada disso teria o menor interesse, e minha reação provavelmente seria de total indiferença sobre o fato. Eu estaria apenas indignado com o estardalhaço gerado pela milionária e absurda transação. Mas existe um motivo pelo qual eu tenha sérias e profundas preocupações, pois, embora eu não seja torcedor nem do Barcelona nem do Paris Saint-German, ainda sou ferrenho torcedor da seleção brasileira. E, queiramos ou não, Neymar será o nosso maestro na aventura russa do ano que vem.  

     O meu medo é que o jovem, vestindo a máscara da fama e da fortuna, esqueça de vestir a malha que realmente importa, ou seja, aquela de cores verde e amarela. A minha esperança, por outro lado, é que ele assuma o seu papel de fora-de-série, e faça aquilo que ele sabe fazer como ninguém, deixando defensores estarrecidos e marcando gols com picardia. Jogar bola, enfim, não necessariamente dando espetáculo, mas dando motivos de orgulho para a torcida brasileira, que admira, ama e apoia a sua seleção.

 


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29/07/2017 - 11h07min

Campeões do ridículo

     Quando eu soube que Michael Phelps apostaria corrida contra um tubarão branco, percebi que o homem continua sendo um tipo estranho, triste admirador de cenas bizarras e brutais. Phelps, ao aceitar o desafio, sabia que não iria correr riscos, já que a prova não seria feita nadando de forma simultânea com o tubarão. Mesmo assim, a mórbida atração pelo evento atingiu milhões ao redor do planeta. A iniciativa de realizar a corrida partiu de um canal de televisão, o Discovery Channel. No fim, a besta marinha e a maravilha humana, campeão olímpico dos mais ilustres, recordista de pódios e louros, protagonizaram um duelo nas águas que, apesar do seu aspecto pouco convencional, pode ter tido algum mérito científico, além daquele puramente teatral.

     O tubarão foi mais rápido, tendo percorrido 100 metros em 36,1 segundos, contra 38,1 atingidos por Phelps. O que chama a atenção é a ânsia do ser humano em desbravar as fronteiras do espetáculo e do perigo, apelando para um tipo de promoção de gosto duvidável. Ao tentar competir com uma criatura irracional, o homem não estaria se tornando mais irracional do que o próprio bicho? Curiosamente, o instinto dominador da raça humana, e a sua predileção pelo lado grotesco da ribalta permanecem intactos em pleno século XXI.

     As piscinas e raias olímpicas forjaram, antes de Phelps, outra figura vencedora e carismática, que também participou, ainda que inocentemente, das maquinações e fantasias do homem para controlar a natureza. Johnny Weissmuller foi um nadador que buscou o esporte como panaceia para uma doença adquirida na infância. O rapaz não só se curou, como se tornou um grande campeão, sobretudo nas Olimpíadas de 1924 e 28, quando ganhou várias medalhas de ouro. Aposentado como atleta, Weissmuller, que era de origem austro-húngara mas competia pelos EUA, tornou-se um ator famoso, interpretando o personagem Tarzan no cinema.  O seu físico avantajado, o tronco e os membros largos, com certeza foram vitais para que Johnny conseguisse o papel.

     Enquanto o seu dublê lutava contra um leão velho e desdentado, Weissmuller aguardava a hora de entrar em cena. Crocodilos, gorilas, tigres e feras em geral não eram páreo para o rei das selvas. O espetáculo deprimente e selvagem, onde Tarzan era retratado como um mero brutamontes desagradava o criador do personagem, Edgar Rice Burroughs. De fato, nos livros do escritor americano Tarzan era um cara inteligente, civilizado e culto. Além de ter imortalizado o grito de Tarzan nas telas cinematográficas, Weissmuller conquistou muitos fãs, sendo o ator mais identificado, dentro do imaginário popular, com o personagem, que teve outros intérpretes através da história.

     A vida é um circo, e a mágica não pode parar jamais! Tony Galento era dono de um bar em Orange, Nova Jérsei, antes de se dedicar ao boxe. A sua persona sempre teve algo de histriônico, e o homem gordo e careca que certa vez comeu cinquenta cachorros-quentes antes de uma luta extrapolou a noção do ridículo para atrair publicidade em torno do seu nome. Galento, contudo, foi autor de uma proeza gigantesca, que o fez ser respeitado dentro do mundo sujo e glamoroso do boxe. Em sua luta contra Joe Louis, em 1939, Galento teve a ousadia de derrubar o campeão. Ao desferir um gancho de esquerda no terceiro assalto, o azarão acertou em cheio o seu oponente, desencadeando um frenesi coletivo nas arquibancadas do Yankee Stadium, em Nova Iorque. Louis, apesar de atordoado, levantou-se rapidamente. Com o orgulho ferido, o magnífico pugilista tratou de encerrar a luta sem maiores sustos, nocauteando Galento no assalto seguinte.

     Galento, que afirmava ter estrangulado um octopus e realizava lutas de exibição com ursos e cangurus, foi um dos indivíduos mais exuberantes a vestir luvas dentro da era dourada do boxe.  A sua luta com Joe Louis foi um verdadeiro marco, provando que o folclórico, o bárbaro e o bizarro são elementos caros para a plebe, na hora em que ela, embevecida, elege os seus ídolos do esporte.

 


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12/05/2017 - 20h27min

Vagar, sonhar, lutar

     Em razão do pouco futebol apresentado na temporada passada, o Internacional está fora do campeonato brasileiro da série A, que começa nesse final de semana. A sua sina, em 2017, será vagar por estádios menores, em cidades periféricas, fora das grandes metrópoles e longe dos holofotes histéricos da mídia. Para muitos torcedores e analistas, esse cenário é desolador, sendo sinônimo de tristeza e vergonha. Ao mesmo temo, a queda do gigante colorado foi a senha para que uma multidão extravasasse o seu lado revanchista, zombando do rival com fúria e alegria.  

     Mas, afinal, qual é o problema em jogar a série B? Não existiria nesse campeonato, desprovido de dinheiro e glamour, uma beleza escondida entre as sombras? Falo da beleza de conhecer diferentes cidades e culturas, abandonando a companhia arrogante dos grandes clubes do futebol brasileiro, da seleta turma da qual o próprio Inter foi, por muitas vezes, o maior e mais aguerrido representante.  Existirá beleza maior do que vagar pelas terras distantes e ensolaradas do Nordeste, pelo cerrado do Centro-Oeste, pelas praias de Santa Catarina, ou pelas cidades vizinhas de Caxias do Sul e Pelotas? A cidade de Londrina, também conhecida como a “Pequena Londres”, será o ponto de partida do roteiro que o Inter terá que cumprir, como um peregrino, a partir de amanhã.

     Quebrando regras e subvertendo convenções, o clube colorado empreenderá uma das suas maiores aventuras. Uma aventura que não tem de ser, necessariamente, em busca de glória e taças douradas de campeão. Não. A epopeia rubra pode muito bem ser uma serena caminhada em direção ao autoconhecimento, empregando uma atitude de desapego e humildade. Desalojado do castelo do poder, o Inter, na figura do mascote Saci, poderá fazer novas amizades, longe da sanha e da soberba viciante que impera na série A.  

     Na hora da verdade, contudo, o time do técnico Zago deverá atuar com a galhardia de sempre. Somente lutando com todas as suas forças pela posse de cada centímetro do gramado, Danilo Fernandes, D’Alessandro, Valdívia e seus companheiros poderão fazer com que o Inter retorne ao panteão dos clubes do nosso futebol. A batalha na segunda divisão tende a ser ainda mais encarniçada e insana, e o onze gaúcho terá que suar sangue para triunfar nos longínquos rincões do Brasil.

     Viajar é preciso. Afinal, aquele que anda sempre pelos mesmos caminhos, ainda que sejam caminhos de fama, luxo e prazer, não encontra nada de novo, e, consequentemente, não vive.  Que venha, portanto, a experiência da série B! Os fascinantes mistérios da sua geografia, e a catarse de descer rumo ao desconhecido são, por si só, um troféu de valor inestimável.

 


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25/04/2017 - 21h04min

Uma engrenagem para a história

     Foi um grande pecado a eliminação do Caxias frente ao Inter, ocorrida no último domingo, no estádio Centenário. Uma decisão por pênaltis nunca é totalmente definitiva, nem traduz uma verdade insofismável, pois para se chegar até ela houve um empate de resultados, sem que se conseguisse determinar um legítimo vencedor dentro de 180 minutos de jogo. Mas não é por isso que a derrocada grená não é fácil de aceitar. Analisando a partida de domingo, mas, sobretudo, recordando toda a campanha ao longo do Gauchão de 2017, ficam nítidos, mesmo para quem olha de forma desapaixonada, uma qualidade e um elã superior no time interiorano. O Caxias foi um time melhor do que o Inter, e a sua despedida cruel e prematura do certame fatalmente deixará feridas na alma do torcedor.

     Por outro lado, o técnico Luiz Carlos Winck brindou o mundo futebolístico com uma engrenagem bem azeitada, que, da mesma maneira, não será esquecida facilmente. O goleiro Marcelo Pitol, com sua catimba e saltos felinos zelando pela cidadela grená, foi um dos personagens da epopeia da “uva mecânica” versão 2017. Os zagueiros Jean, Edson Borges e Laércio, juntamente com os polivalentes Geninho e Thiago Machado, foram vultos de destaque na retaguarda. Sem embrago, quando menos se esperava, empregavam mortíferas incursões ao ataque, marcando gols com maestria. E o que dizer do trio Marabá, Elyeser e Wagner? Sem dúvida um meio de campo para ninguém botar defeito. No setor ofensivo, Júlio César, Gilmar e Reis, auxiliados pelos reservas de luxo Jajá e Nicolas, vararam muitas defesas, concretizando vitórias importantes para o time das bandas do cemitério.

     Ficará marcada na memória do torcedor, especialmente, a trinca de vitórias contra o Juventude, todas de forma categórica, amealhadas em menos de vinte dias, sendo que duas delas em pleno estádio Jaconi. A vitória contra o Grêmio, ainda no começo do campeonato, e os triunfos contra São Paulo, São José e Passo Fundo, também foram capítulos dignos de comentário. O perde e ganha contra o Inter, sem que o Caxias se curvasse ante o poderio econômico e a força da camisa do gigante de Porto Alegre, foi o ponto final de uma jornada ímpar. O fato do Caxias ter disputado a divisão de acesso no ano passado apenas engrandece o trabalho e a dedicação de todos no clube, desde o roupeiro até o presidente.

     Ainda que seja um filme conhecido para o fiel e sofrido torcedor grená, a eliminação de domingo traz em seu bojo alegria, não só tristeza. O time que no momento faz parte do passado, tendo em vista o inevitável desmanche do elenco, deixou uma marca escrita com ferro e fogo na história do nosso campeonato gaúcho. O título de campeão do interior é, pois, merecido. Ainda assim, creio que o mais justo teria sido uma final entre Novo Hamburgo e Caxias. Na minha  opinião, estes foram os dois melhores esquadrões do torneio.


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17/11/2016 - 11h11min

Letras e melancolia

 

     Ao longo dos anos, tive a oportunidade de visitar algumas escolas e conversar com os alunos sobre minhas experiências como escritor. Trata-se de uma atividade singular e sempre ansiada, mas que traz consigo a sombra de um dilema.   
     Afinal, de que adianta exaltar, nessas visitas, as vantagens do hábito e do prazer da leitura para os jovens; de que adianta vender a ideia de que através da leitura o seu mundo será melhor; como posso iludi-los com a promessa de que a literatura fará deles pessoas felizes no futuro, mais aptas para enfrentar a vida? Como eu posso fazer isso se a pessoa que desenvolve o hábito de ler, muitas vezes, acaba virando uma pessoa solitária, fraca, avessa ao convívio social e, ciente ou não, abdica de certas aspirações e noções relativas ao mundo prático em que vivemos imersos, lutando freneticamente contra o relógio e o calendário para pagar as nossas contas?
     Na selva de concreto das cidades não existe espaço para o sonho, e o sonho é algo inerente a quem gosta de ler. Nesse cenário bizarro, mas real, “sonhador” rima com “perdedor”. Existe, ainda, a possibilidade do jovem se tornar alvo de chacotas na escola, ser chamado de cdf, acabar se isolando do mundo e desenvolver algum tipo de depressão.  Então às vezes me pergunto, “não é uma irresponsabilidade da minha parte querer incutir nessas cabecinhas que o ato de ler vai leva-los a algum lugar? Para quê? Para que permaneçam ignorantes sobre as artimanhas da vida real, tornando-se presas fáceis para a malandragem que vive a espreitar as ruas e o cidadão?”.    
     Um dos pontos que me impede de acreditar com mais ênfase no “poder transformador” do ato de ler é o fato de que, profissionalmente falando, o ramo das letras não oferece grandes perspectivas aos alunos jovens ou adultos. Tornar-se professor, jornalista ou escritor está longe de ser garantia de um salário digno. Para encontrar emprego, pragmatismo e experiências de trabalho anteriores valem muito mais do que ter lido uma dúzia de livros do Cortázar.  Como pedir a um jovem de família pobre, que não tem condições nem de se alimentar direito na hora do almoço, que ele leia livros, se essa providência não vai mudar em nada a sua situação degradante e emergencial?  Você vai falar sobre a beleza da poesia de Drummond e eles estão pensando em como sobreviver ao dia de amanhã. As prioridades são totalmente diferentes.    
     Outro dos perigos de abraçar o hábito de ler é a melancolia que ele pode acarretar.  A solidão encontrada nas páginas de um livro pode se tornar um vício. Mas também é um bálsamo. Surge, então, outra pergunta: somos taciturnos porque lemos, ou lemos porque somos taciturnos? Acredito que ambas as situações sejam verdadeiras, mas é provável que a qualidade de “taciturno” seja anterior ao hábito de ler livros.  De qualquer maneira, a leitura solitária de livros tem um parentesco com a melancolia, com uma sensação de desapego e tristeza. O indivíduo que lê, nas repartições, nos coletivos, no pátio da escola, rapidamente é visto como um estranho, um tipo de lunático, portador de alguma doença rara. É um verdadeiro alienígena, e passa longe daquilo que poderia se chamar de brasileiro “normal”. Claro, o perfil do brasileiro é esfuziante e bronzeado, o perfil do sujeito que lê é pálido e sombrio.
     Então, para que almejar incutir em um jovem, saudável e capaz, o hábito da leitura? Para desviá-lo de uma carreira de sucesso profissional e uma relação amorosa feliz?
     Quando eu entro nesse tipo de dilema, tento contar até dez. Depois que a calma retorna, apanho um bom livro na estante. Sentado em minha poltrona, ciente dos problemas do mundo, encontro um pouco de paz, e a lucidez necessária para me botar nos trilhos outra vez.

 


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20/10/2016 - 21h10min

O escritor invisível

     Semana passada, estive presente ao bate-papo com o escritor Luiz Ruffato, dentro da Feira do Livro de Caxias do Sul. Um dos aspectos abordados na palestra foi a situação lastimável da educação em nosso país. Para Ruffato, autor consagrado e laureado no Brasil e no exterior, a questão deveria ser abraçada, primordialmente, pelo Estado. Isso pois “estado” seria algo diferente de “governo”. Enquanto o primeiro teria uma ascendência permanente sobre os rumos do país, o segundo seria algo transitório, e sujeito as interferências políticas que almejam a tomada do poder por este ou aquele grupo.

     As colocações de Ruffato encontravam eco nas colocações de educadores presentes, e as conclusões foram bastante pessimistas quanto à possibilidade de se encontrar uma saída. Obviamente que um país com mais leitores, ou com mais indivíduos com acesso aos bancos escolares e universitários, será um país com cidadãos mais preparados, capazes de pensar e formar uma sociedade mais plena e justa. Pesa contra o nosso falido sistema educacional a pífia remuneração concedida aos professores, além da já mencionada alternância do poder nas esferas públicas, o que ocasiona mudanças repentinas, fatalmente baseadas em ideologias, nos programas de ensino. O despreparo dos professores, na sua maioria incapazes de aplicar “leituras literárias” aos alunos, seria outra causa do quadro alarmante em que se encontra a nossa educação.

     Longe de ser um pedagogo, o escritor se encontra em um dilema permanente dentro da questão. Quase sempre alguém que depende de um emprego paralelo e convencional para sobreviver, o escritor encontra dificuldades absurdas para colaborar com a educação. Sem ser obrigado a isso (e sem ser remunerado também), o escritor geralmente se encontra numa posição subserviente em relação ao poder público, às escolas e instituições que poderiam servir como elo entre ele e alunos, ou qualquer tipo de público interessado em arte e literatura.  

     Para encontrar espaço em algum evento, visitar alguma escola, ou participar de alguma atividade que possa edificar a cultura e a educação da sociedade, o escritor precisa, literalmente, mendigar, batendo sistematicamente na porta das instituições, na maioria das vezes sem sucesso.  Obviamente que estamos falando de escritores desconhecidos do grande público, que escrevem seus livros à margem da mídia e não usufruem dos conchavos e compadrios típicos do mundo literário, inclua-se aí o passaporte para visitar as escolas da cidade e as feiras do livro que proliferam ao redor do país.

     A literatura produzida por esses escritores é uma “má literatura”? Difícil dizer, mas em um país de famintos a comida servida não precisa ser necessariamente um banquete.  O que não pode acontecer é essa angustiante “falta de função” tacitamente imposta ao escritor que deseja se inserir no processo de melhoria sociocultural do seu próprio torrão. O problema vai mais além, entretanto, se pensarmos que muitos dos nossos jovens (e adultos) se encontram totalmente alienados ao que seja ler e sentir um livro. Mais uma vez aqui temos um círculo vicioso: em um mundo onde um tênis ou um celular representam itens de consumo “indispensáveis”, que aluno adolescente vai gastar aquilo que não tem na compra de um livro?  Se nem mesmo a comunidade literária comparece aos eventos (haviam pouquíssimas pessoas no bate-papo com Ruffato), o que dizer das classes mais baixas que, sufocadas pelo desemprego, tem como prioridade a sobrevivência pura e simples, e que encontram na cultura a sua última e improvável forma de lazer?

    Acredito que se houver uma maior interação entre escolas, escritores, o poder público, bibliotecários, livreiros e editores, e se cada uma dessas partes agir de forma inclusiva e magnânima, pode ser que seja possível encontrar alternativas que levem as pessoas, quer sejam elas alunos ou não, a se interessar pela leitura e pela literatura.  

     O escritor, tenho certeza, pode ser uma peça chave nesse quebra cabeça.    

 


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27/08/2016 - 11h49min

Sílfides para pinguços

         Era uma tarde fria e cinzenta de sábado, quando voltei àquele bar querido, muito visitado em épocas remotas. Lá estavam as mesmas mesas e cadeiras de fórmica barata, o mesmo balcão de vidro contendo balas, chicletes e chocolates, e, atrás dele, o mesmo bodegueiro gordo e corcunda. Lá estavam também os mesmos homens, com seus olhares duros suspensos em direção ao nada. Não havia, como nunca houve, maiores luxos no estabelecimento. Pedi uma cerveja, apesar do frio, e sentei em uma mesa virado para a porta da rua.

        Carros passavam sobre a via de paralelepípedos. Ônibus iam e vinham, transportando as pessoas que eu via de relance através da janela, cada uma com os seus sonhos e problemas. Pedestres andavam pela calçada em total anonimato, e vez por outra algum “habitué” parava em frente à porta, espiando por alguns segundos, indeciso entre seguir em frente ou entrar para matar a sede e o tempo. Dentro do bar, enquanto bebia sozinho outra vez, observei os homens, muitos dos quais idosos, tomando o seu trago entre as horas mortas daquele dia vulgar.

        Alguma coisa, contudo, estava fora da sua ordem natural. Acostumada com o espetáculo grotesco de uma partida de futebol, a freguesia do boteco assistia, embevecida, à transmissão das Olimpíadas do Rio de Janeiro ao vivo pela televisão. No lugar da violência típica do velho esporte bretão, a sutileza encantadora das atletas da ginástica rítmica.

        Um sujeito de cabelo comprido e bombacha, de pé, na frente do balcão, analisava o balé de corpos acrobáticos, ao mesmo tempo em que segurava seu copo de cachaça com losna. O que estaria se passando na cabeça do homem, no instante em que a menina russa, como uma gazela, saltava e rodopiava no tablado?  Câmeras presas no teto do ginásio capturavam imagens em “plongée”, a bola que subia e descia até se aninhar suavemente nos braços frágeis e esguios das competidoras. 

        Atrás do balcão, o bodegueiro trabalhava com afinco. Duas doses de uísque com gelo para o senhor, mais um pouco de vinho tinto para o rapaz, uma caipira de vodka para o amigo. Mãos rudes, presas às correntes do vício, erguiam os copos avidamente, embaladas pela música sutil das coreografias que se sucediam na tevê. A espanhola de nariz arrebitado manejava as fitas coloridas com total precisão, nunca esmorecendo na sua postura altiva. A búlgara de olhos negros enroscava o seu corpo elástico no aro, misturando arte, esporte e sedução. Por um instante, as feições embrutecidas desvaneceram-se. No rastro de cada ginasta a subir no palco, pairava o suspiro enternecido de um pinguço.

       Foi então que eu vi soldadinhos de chumbo perfilados no balcão do bar. Estaria delirando? Tomei mais um gole de cerveja, como quem tenta recuperar os sentidos. Esfreguei os olhos ainda, mas eu estava certo. Eram soldadinhos, admirando suas bailarinas, com o coração derretendo no fogo de uma paixão impossível. 

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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