18/04/2016 - 16h43min

Vício e virtude no velho mundo

            Está perto do fim a temporada de futebol na Europa. Na Inglaterra a sensação é o Leicester City,  time de pequeno porte que lidera a corrida rumo ao título. Fundado em 1884, o Leicester já teve em suas fileiras nomes de relevo como o goleiro Banks e o atacante Lineker, mas nunca tinha ido tão longe no campeonato como agora, quando tem chances reais de erguer o caneco. A fábula do azarão que supera clubes ricos e cheios de estrelas sempre foi algo difícil de entender. Por isso mesmo é algo que fascina, como se fosse uma lenda bizarra e maravilhosa que se torna realidade.
            Entretanto, penso que isso só esteja sendo possível pelo fato de estarmos na Inglaterra, um país onde impera a dócil e justa figura do “gentleman”. Afinal, por algum motivo essa estranha criatura habita o imaginário popular ao redor do mundo, supostamente espelhando uma condição humana de quem vive na terra da monarquia e da cerveja preta. É provável que a cidadania inglesa não seja composta na sua exclusividade por indivíduos de caráter e maneira elevados, mas a figura do “gentleman” insiste em aparecer de vez em quando, envolta nas brumas do tempo e da neblina que esconde Londres.
            Dentro das quatro linhas, o campeonato inglês é algo bonito de se ver. Ao contrário da fama do chuveirinho e do jogo aéreo praticado na ilha, muitas vezes assisti a partidas onde a bola é tocada junto à relva, com passes longos e certeiros. Raras notícias de suborno, manipulação de resultados ou falcatruas chegam até nós, e o fato do Leicester estar prestes a se sagrar campeão é a prova cristalina de que este não é um campeonato de cartas marcadas.  A façanha do time do técnico Claudio Ranieri e do goleador Vardy combina com a Inglaterra, uma pátria onde, de alguma forma, ainda reina o espírito do fidalgo que admira as coisas puras e singelas do esporte.
            Em outras regiões da Europa, as coisas são bem menos surpreendentes. Na Itália, quem dá as cartas é a Juventus, entidade de poderes quase divinos, também conhecida como a “velha senhora” do futebol peninsular. Trata-se de uma velha avarenta e gananciosa, que raramente concede aos times de menor porte uma brecha que conduza ao tão sonhado "scudetto". Na atual temporada, o Napoli bem que tentou, inclusive liderando o torneio por muitas rodadas. Entretanto, na hora da verdade, o pragmatismo e a experiência da Juventus falaram mais alto, e a história dos últimos anos está prestes a se repetir.  Loas ao trabalho do técnico Massimiliano Allegri, à segurança de Buffon, Barzagli e Chiellini na zaga, à habilidade de Pogba e Cuadrado na meia cancha, aos gols de Dybala e Morata.  São eles os protagonistas do pentacampeonato.  
            Insensível e arrogante, confortavelmente instalada em sua mansão, a velha senhora avisa que não pretende largar o osso tão cedo. Saciando o seu vício pela vitória em cálices dourados, ela nutre apenas desprezo por um certo cavalheiro inglês, e sua tola mania de cordialidade.      


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28/02/2015 - 12h02min

Perna dura

Não é difícil entender o que se passa dentro da cabeça dos detratores do futebol. Afinal, o chamado “ópio do povo” traz em seu bojo absurdos injustificáveis, como o fato de qualquer cabeça de bagre ganhar mais do que um professor universitário, por exemplo. Além disso, o esporte mais popular do planeta é a seara que produz a barbárie das torcidas organizadas nas ruas e estádios. Um mundo selvagem, enfim, onde homens adultos correm atrás de uma bola como crianças, ou trogloditas. Se esses disparates seriam suficientes para convencer qualquer cidadão comum da inutilidade do futebol, imaginemos o que eles provocam em certos intelectuais, de maneiras mais elevadas, que não suam, e, provavelmente, não tomam banho.  

 

Digo isso pois quem despreza o futebol esquece dos inúmeros benefícios à saúde física e mental proporcionados por ele. Correr é abraçar a vida, chutar é extravasar um sonho, cabecear é exorcizar demônios. A camaradagem que se forma entre os atletas é uma das maravilhas da natureza humana, e até mesmo a violência do velho esporte bretão é algo que traz uma certa beleza em sua essência. O homem são, que é magnânimo, sabe receber o golpe mais duro, desde que leal, sem reclamar. Inclusive, não é absurdo dizer que, se depois da sua pelada semanal o sujeito não for para casa com algum tipo de dor decorrente do exercício, a brincadeira não terá tido a menor graça. A marca de uma canelada recebida, uma unha que despenca do dedão, um hematoma qualquer, são como troféus, lembranças de uma batalha agradável que termina com a confraternização entre os rivais.

 

A violência sofrida dentro de campo, contudo, pode trazer consequências trágicas. Em 1956, o garoto Pelé assistiu das arquibancadas da Vila Belmiro o choque envolvendo o atacante Vasconcelos e o zagueiro Mauro, do São Paulo. Vasconcelos, jogador veterano com a camisa do Santos, era um dos protetores de Pelé nos primeiros dias do menino na cidade litorânea. Na dividida com Mauro, ele acabou levando a pior, e fraturou a perna. Esse acidente precipitou o fim da carreira de Vasconcelos, e fez Pelé lembrar do seu próprio pai, Dondinho. Jogando pelo Atlético Mineiro, o progenitor do futuro "atleta do século" sofrera uma séria lesão ao ser alvejado pelo zagueiro Augusto, do São Cristóvão.  No instante em que Vasconcelos contorcia-se de dor sobre a grama, Pelé pensou que o futebol era um jogo ruim, e teve vontade de chorar. Anos depois, quando já era um jogador consagrado, ele mesmo atingiria o joelho de Procópio, quase inutilizando o beque do Cruzeiro para o futebol. Teria sido uma fatalidade? Ou foram velhos fantasmas na mente de Pelé que o fizeram descarregar uma raiva acumulada em seu peito?     

 

Às vezes, a pancadaria nos gramados ganha contornos imprecisos, e a caça pode virar o caçador. Assim como dizem que os brutos também amam, é verdade que os craques também batem. Foi na final do campeonato carioca de 1951, entre Fluminense e Bangu, que o genial Didi quebrou a perna do modesto lateral Mendonça. Com a sola da chuteira rasgando o ar como uma foice sobre a bola, o inventor da “folha seca” teve um gesto extremo, mas que pode acontecer no mundo grotesco do futebol, sem que o seu autor seja necessariamente considerado um covarde, ou um canalha. Afinal, “a banca paga e recebe”, e o que transcorre dentro do retângulo verde nem sempre condiz com as regras da civilidade. O fato é que o ataque formado por Telê, Didi, Carlyle, Orlando “Pingo de Ouro” e Joel entrou para a história, e o Fluminense ergueu a taça. Ao Bangu de Zizinho sobraram apenas migalhas, além do infortúnio sofrido por Mendonça.

 

Sebastião Miranda da Silva Filho, o popular Mirandinha, viveu um drama semelhante. Em 1974, durante um jogo do campeonato paulista, o habilidoso atacante do São Paulo, na tentativa de chutar a bola, atingiu em cheio a perna tesa, que estava apoiada no solo, do zagueiro Baldini, do América de São José do Rio Preto. O impacto foi terrível, e Mirandinha sofreu fratura exposta da tíbia e fíbula. O instante exato da ruptura foi flagrado por Domício Pinheiro, em uma fotografia que venceu o Prêmio Esso de jornalismo. Na imagem, vemos a perna de Mirandinha dobrada como uma cobra, invertebrada, enroscando-se no tronco que era a perna de Baldini. Após longa convalescença, Mirandinha conseguiu voltar a jogar, inclusive sendo campeão brasileiro com o tricolor, em 1977. Mas a verdade é que o seu futebol nunca mais foi o mesmo depois do nefasto episódio. Mirandinha, contudo, sempre fez questão de dizer que não sente mágoa pelo ocorrido. A dor do momento fez nascer uma amizade entre ele e Baldini, rendendo até mesmo um reencontro emocionado entre ambos quarenta anos depois do choque fatal.

 

Quando estiverem descansando dentro do caixão, os ossos de Mirandinha vão carregar uma marca profunda e misteriosa, impossível de ser decifrada pelo mais astuto intelectual. Na fissura do seu esqueleto repousa a própria perfeição da vida, ou seja, o elo de simpatia e perdão que o esporte produz em suas entranhas.

 


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11/02/2015 - 23h02min

Folia de feras

Na frente da multidão que descia a rua, o negrinho carregava o estandarte com o sorriso cheio de dentes. Atrás dele vinham foliões e a charanga que tocava marchinhas carnavalescas com fervor. Serpentina e papel picado caíam das janelas dos prédios, flanando devagar até se alojar entre os fios do cabelo pixaim do negrinho. O bloco “Os Tesouras” era tradição no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, e o guri que gingava com malícia equilibrando o estandarte mais tarde faria sucesso vestindo um outro tipo de fantasia.

 

A camisa escarlate do Internacional caía bem naquele corpo esquálido e cheio de vida. Dos tempos do bloco ficou o apelido, Tesourinha. A paixão pelo Carnaval nunca morreu, mas agora ele era um atleta profissional. Juntamente com Adãozinho, Alfeu, Nena e Ávila, Tesourinha faria parte do grupo dos “negros geniais” do Inter. Eram os anos 1940, época em que o “Rolo Compressor” colorado fazia a sua mágica transformando a vitória em regra, e a derrota em exceção. Para regozijo de Vicente Rao, Tesourinha e companhia aniquilavam as defesas inimigas domingo após domingo, colocando várias taças na cristaleira do clube. Rao era uma espécie de embaixador da alegria, idealizador das primeiras torcidas organizadas nos jogos, além de presença obrigatória no Carnaval da capital, onde desempenhava o papel de Rei Momo. Diziam que Rao era o Internacional em pessoa, tamanho o fanatismo do homem pelas cores branca e vermelha. O fato de Rao ter nascido em 04 de abril de 1909, data da fundação do clube, apenas aumenta a mística ao redor do seu nome.

 

Tesourinha era um ponteiro-direito como nunca se viu, segundo muitos o melhor que o Brasil já teve. Até mesmo o craque Zizinho, ao escalar a sua seleção canarinho de todos os tempos, colocou o colega gaúcho entre os onze. A verdade é que é muito difícil afirmar quem foi o melhor. Houve Julinho Botelho e houve Garrincha. E se Tesourinha gostava de brincar nos blocos da Porto Alegre da sua infância, Garrincha, que chegou a receber o apelido de “Alegria do Povo”, costumava fazer um carnaval particular o ano inteiro, desnorteando seus marcadores nas tardes douradas do Maracanã. Fora das quatro linhas Garrincha teve uma vida atribulada, feita de fama, drama e loucura. A sua debilidade era um certo líquido amargo que repousava dentro de garrafas das mais variadas cores, tamanhos e formatos, dispostas nas prateleiras dos botequins e bares do mundo.

 

Em fevereiro de 1980, Garrincha desfilou em um carro da escola de samba Mangueira. Minado pela cirrose, o anjo das pernas tortas abanava maquinalmente para a plateia nas arquibancadas. Foi um dia triste para o esporte. No meio da avenida e da euforia do Carnaval vinha um ser inocente, que manteve a pureza das crianças até o inverno dos seus dias. Paralisado por remédios, o galante craque de outrora protagonizou uma cena de contornos trágicos. O mórbido desfile avançava entre o breu da madrugada, como se fosse o suicídio de um poeta transmitido ao vivo para todo o país. O passarinho estava prestes a voar para longe, e pela última vez a turba pôde dar a ele o seu amor e carinho.

 

No instante em que Garrincha saía de cena, um novo esquadrão tomava forma na cidade do Rio de Janeiro. Era o Flamengo do técnico Claudio Coutinho, um time fadado à glória, que em breve conquistaria o Brasil, a América e o mundo. Entre os bambas do elenco rubro-negro, Zico era uma espécie de maestro, cadenciando o ritmo das partidas com destemor e picardia. Zagueiros do quilate de Rondinelli, Mozer e Marinho protegiam a meta custodiada pelos goleiros Raul ou Cantarelli. No setor ofensivo, o trio Tita, Nunes e Lico mandava a bola para o fundo das redes com destreza. E havia Júnior, um garoto que veio da Paraíba para jogar bola e brincar o Carnaval na cidade maravilhosa. Até hoje o homem que mais vezes vestiu a camisa rubro-negra na sua rica história, Júnior, mesmo depois de aposentado dos gramados, manteve a regularidade dos tempos de atleta ao extravasar a sua paixão nos desfiles de fevereiro. Os anos passam e a vitalidade do famoso lateral da Gávea parece inoxidável, sambando no asfalto da Marquês de Sapucaí como se fosse um menino da mais terna idade.   

 

Haverá canto da sereia como a magia do Carnaval? Não é preciso vestir a fantasia mais cara, roupa de lantejoulas, máscara negra ou plumas coloridas para desfrutar dessa ilusão. Enquanto durar a folia, o mendigo ganha status de rei, o homem tímido vira um pierrô conquistador, a mulher feia transforma-se em linda colombina. Em 1999, o chamado selvagem da orgia atravessou oceanos até alcançar o antigo craque vascaíno Edmundo. Vivendo na Itália, onde defendia as cores da Fiorentina, a fera carioca sente o suor escorrer pela testa nas noites geladas do inverno europeu.  Incapaz de resistir, o goleador protagoniza uma espécie de fuga de Florença, retornando de forma repentina para desfilar pelo Salgueiro, no Rio. O técnico Trapattoni não pode acreditar, não entende os motivos de tanta nostalgia.  Dono de cabelos brancos como a neve e olhos transparentes como o gelo, o treinador pensava já ter visto de tudo no futebol. Entretanto, os mistérios daquele jogador brasileiro a quem chamavam de “animal” permaneceram insolúveis para o velho Trap. Alheio a tudo isso, Edmundo sua e pula na avenida. Vestindo as cores da sua escola predileta, o folião que veio do frio gasta suas energias até o sol raiar, sem pudor, remorso, ou vergonha de ser feliz.  

 

Até que chegou a quarta-feira de cinzas, e com ela a hora de guardar os sonhos e fantasias no baú. Em meio às garras insensíveis da rotina, garis varrem os confetes e as latas de cerveja vazias nas ruas. Homens apressados, vestidos de terno e gravata, ocupam o lugar de piratas e arlequins, entrando e saindo de bancos, firmas e repartições públicas. Coletivos cospem fumaça aos borbotões, dominando o asfalto onde carros alegóricos e mulatas fogosas haviam passado na noite anterior.  Do Carnaval, agora restam apenas lembranças. E a melodia triste das marchinhas, ecoando como um murmúrio distante na imensidão dos dias, horas e minutos que, afinal, trarão consigo fevereiro outra vez.

 


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28/01/2015 - 20h01min

Dráculas do ringue

Uma luz tênue banha a mão que repousa sobre a mesa. Por entre as sombras, dedos calejados seguram um copo de vidro com um líquido viscoso e escarlate. A mão, que tantos homens botou para dormir, está quieta, e o único som que se ouve é o tic-tac do relógio na parede. É quase meia-noite, e Sugar Ray Robinson está tentando penetrar na mente do seu eterno rival Jake LaMotta. Estamos em um restaurante de Chicago, cenário escolhido para a assinatura do contrato da luta entre os dois. Jake era o detentor do cinturão dos pesos-médios do boxe, e Ray faria de tudo para usurpar-lhe o título.

 

Após a conclusão das formalidades, Ray decide pôr em prática uma espécie de pantomima mórbida e assustadora.  Beber o sangue que escorre do bife cru era um hábito há muito cultivado por ele, uma receita aprendida com o velho Joe Louis e que, segundo Ray, fazia bem à saúde. Em dado momento, ele chama o garçom e ordena o sinistro pedido. Após botar uma pitada de sal e pimenta no copo, Ray oferece a bebida ao campeão. Jake, enojado com a cena dantesca, recusa, enquanto os olhos rútilos e amarelados de Ray buscam perscrutar no âmago da sua alma. O vampiro de Chicago, então, bebe o sangue com um sorriso entre os lábios. Terminado o seu deleite, o astuto “boxeur” bate forte com o copo vazio na mesa, arrotando satisfeito.

 

Não sabemos se o teatro encenado por Ray teve alguma influência no resultado da luta. O que sabemos é que o duelo derradeiro entre os dois pugilistas foi um momento de rara beleza dentro do esporte. Como se fosse um Dominguín, Ray controlou a fúria animalesca do famigerado “Touro do Bronx”, esquivando os golpes com maestria.  E pode ser verdade mesmo que a estranha dieta de Ray tenha lhe dado energia extra, pois seus punhos rápidos fustigaram Jake como adagas sem cansar até o décimo-terceiro assalto. Nesse instante, o juiz preferiu encerrar a luta, dado o estado lastimável do agora ex-campeão.

 

Ó, lua macabra, que surge entre as nuvens negras da noite, acordando os esqueletos que tentam dormir no cemitério!  Serei eu também banhado pela tua luz opaca e mágica? Que instintos malignos trarei escondidos no peito, à espera do teu chamado?  Qual é o limite entre o homem e a besta, o santo e o pecador? O vento que uiva nas trevas agitando a copa das árvores parece saber a resposta. Em seus braços, ele carregou a lua macabra através dos tempos, até uma noite quente no deserto de Las Vegas. Foi durante o terceiro assalto da sua luta contra Evander Holyfield que Mike Tyson, o outrora imbatível campeão dos pesos-pesados, teve o seu lado animal desperto.

 

Cometendo uma das maiores infâmias da história da nobre arte, o baixinho boxeador arranca um pedaço da orelha de Holyfield, por mais inverossímil que isso possa parecer. Seu semblante lembra o de um Nosferatu negro e musculoso, e seus dentes afiados estão manchados de sangue. Ao redor do planeta, famílias assistem, estarrecidas, o evento ao vivo e a cores pela televisão. Até mesmo o experiente juiz Mills Lane parece incrédulo com a cena, a boca aberta em estado de transe enquanto Holyfield salta sobre o ringue, urrando como uma fera ferida. Tyson acaba desqualificado, precipitando o final de uma carreira que começara brilhantemente, e que agora terminava de forma patética.

 

Houve quem dissesse que a atitude grotesca de Tyson teria sido uma reação, ainda que instintiva, às constantes cabeçadas desferidas por Holyfield durante a primeira luta entre eles, um ano antes. É verdade que na ocasião Tyson reclamara bastante do artifício utilizado pelo rival. Talvez essa antiga mágoa, aliada à frustração de não estar conseguindo vazar a guarda de Holyfield, tenha causado o arroubo de loucura demoníaca que levou Tyson a morder, como um lobo, a sua vítima. Depois da luta, no ambiente lúgubre do vestiário, o perdedor está só. Enquanto tira as luvas ele observa, através da janela, a lua cheia entre prédios e luzes de neon. A melancolia do momento traz de volta um pouco da sua humanidade, e Tyson começa a beber, em silêncio, o remédio amargo da derrota.

 

Muitos anos se passaram, até que o sol apareceu de novo em um país distante e tropical. Nas areias da praia de Natal e no estádio Arena das Dunas, o povo nordestino espera ansioso para assistir a mais um dos jogos da Copa do Mundo. O clássico entre Uruguai e Itália era programa pra ninguém botar defeito, dois grandes campeões do futebol estavam prestes a desfilar sobre o tapete verde toda a sua técnica e galhardia. Entretanto, a partida acabou trazendo em seu bojo muito mais do que simples chutes, gols e tabelas. O que ocorreu diante dos olhos da turba foi uma espécie de filme de terror. Nem mesmo o astro-rei brilhando no céu foi capaz de impedir o surgimento de um novo vampiro em nossa história.

 

O Uruguai está atacando, e um punhado de jogadores aguarda o cruzamento na área do goleiro Buffon. Esgueirando-se entre as sombras no gramado, o jovem Suárez, como se fosse um Bela Lugosi latino, avança sobre o zagueiro Chielini, mordendo-o pelas costas. O juiz mexicano não percebe o ardil, e Suárez permanece em campo, fingindo-se inocente, até o final do jogo. As marcas dos dentes brancos e pontiagudos do goleador charrua ainda estão no ombro de Chielini, enquanto este rola na relva contorcendo-se de dor. Quando era apenas um guri caminhando pelas docas de Livorno, dando os primeiros passos dentro do futebol, Chielini nunca imaginou que “isso” fizesse parte do esporte. E agora ele estava ali, sentindo na pele um tipo diferente de perversão. Iria ele também transformar-se em um zumbi, em uma criatura atormentada? Infelizmente para ele, o pior ainda estava por vir. Com um gol marcado por Godín, o onze oriental venceu o jogo,  mandando Chielini e companhia de volta para casa mais cedo.

 

O crepúsculo toma conta do céu novamente, e as criaturas da noite agitam-se no seio da floresta. Depois de Sugar Ray Robinson e Mike Tyson, Luiz Suárez também teve o seu dia de príncipe das trevas. O valoroso grupo, aliás, poderia comparecer sem problemas nas próximas Olimpíadas da Transilvânia. Imaginemos os três atletas, cada qual montado em seu corcel, preparando-se para partir em direção às terras geladas no interior da Romênia. Na bagagem, luvas de boxe e bolas de futebol. Dentro do peito, algo de voluptuoso e trágico, sentimentos como desamparo, solidão, a ânsia pelo amor que não há, além da própria maldade que habita o coração do ser humano. Se prestarmos atenção, toda a tristeza e vilania dos mortos-vivos do cinema e da literatura encontra eco em nossa própria rotina às vezes. Mesmo que o ditado diga que vampiros não apareçam em espelhos.  

 


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14/01/2015 - 16h01min

Relvas do rock

Eu era pouco mais que uma criança naquele verão. Em janeiro de 1985 aconteceu o primeiro Rock in Rio, e a gurizada toda parou para ver. Dois anos antes, um primo mais velho havia me mostrado o disco “Creatures of the Night”, do Kiss. Dois anos depois, eu montei uma banda com alguns colegas, dando início a uma atividade que até hoje provoca desespero nos vizinhos. No meio disso tudo, a transmissão do festival pela tevê foi como jogar querosene no fogo. A partir dali não haveria mais volta, e o germe do rock´n´roll instalou-se definitivamente dentro da minha cabeça.

 

Lembro dos shows que começavam de tarde, com as bandas nacionais da época abrindo os trabalhos, como Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho (com o saudoso Cazuza no vocal). À medida que o crepúsculo avançava, os mestres do rock pesado subiam no palco de múltiplas luzes coloridas, desfilando seu repertório para delírio da impressionante multidão que oscilava como se fosse uma maré humana, milhares e milhares de cabeças preenchendo a tela do aparelho, até perder de vista. Bandas como AC/DC, Iron Maiden, Scorpions, Whitesnake e Ozzy Osbourne (iria o lunático cantor inglês, famoso por morder a cabeça de um morcego ao vivo, aprontar alguma maluquice dessa vez?), revezavam-se sobre a ribalta sem parar, realizando os sonhos mais improváveis dos metaleiros tupiniquins.

 

Mas não foi só isso. Conjuntos de outros naipes, como Yes e Queen, desempenharam o seu ofício com louvor. Como esquecer Fred Mercury regendo, como um maestro sem batuta, a turba que cantava em uníssono a singela canção “Love of my life”? Ou o bardo James Taylor  tocando “You’ve got a friend” no violão? O festival também teve as suas musas: Baby Consuelo, que subiu no palco grávida, e a misteriosa cantora alemã Nina Hagen, capturaram a atenção da plateia com o seu charme fora do comum. Indo um pouco além do aspecto artístico, o evento aconteceu em meios aos estertores da ditadura, e o clima de euforia e esperança por um futuro melhor no país foi inevitável.

 

Além do rock, outra mania importada da Inglaterra que têm fascinado as plebes por aqui é o futebol. Se lembrarmos do campeonato brasileiro daquele ano, veremos Bangu e Coritiba decidindo o título no Maracanã. Foi uma final inusitada, e os ases dos gramados não ficaram nem um pouco atrás dos astros que fizeram a orgia elétrica e sonora do Rock in Rio, alguns meses antes. Analisemos o caso de Rafael Cammarota, do Coritiba. Com suas longas melenas e bigodes loiros, o intrépido goleiro lembrava em muito um lorde, ou um roqueiro britânico. Seus pulos elásticos, voando como um gato na tarefa de rechaçar a pelota, foram motivo de fortes emoções entre a torcida “coxa branca”. Durante o prélio final, Rafael teve no ponteiro Marinho um terrível inimigo. O atacante do time suburbano, com suas arrancadas maliciosas e intuitivas rumo ao gol, bem que poderia ser comparado a um George Benson, outra das estrelas do Rock in Rio. A pele negra reluzindo de suor, as mãos do músico dedilhando as cordas da guitarra e os pés do jogador conduzindo a bola com galhardia sobre a relva. 

 

E o que dizer de Reinaldo Felisbino, o popular Lela? Escorregadio como um peixe ensaboado, o ponteiro-direito do Coritiba tinha o estranho hábito de fazer caretas para as câmeras depois de cada gol marcado. Graças a essa mania, e às suas pernas curtas que driblavam com astúcia, Lela tornou-se um personagem marcante dentro do elenco dirigido pelo técnico Ênio Andrade. Após o empate pelo placar de 1 a 1 no tempo normal, a decisão foi para os pênaltis, e Ado, do Bangu, acabou desperdiçando a sua cobrança. O Coritiba ergueu o caneco, foguetes espocaram noite adentro, e então todos puderam dormir em paz.

 

Foi um ano mágico. Depois do “desbunde” do Rock in Rio, com suas carícias de amor e música, o velho esporte bretão voltava às manchetes do jornal. Entretanto, nada mais seria como antes. Uma nova sensação tinha vindo para ficar, correndo pelas veias como a água da chuva que levou embora aquele incrível verão.  

 


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07/01/2015 - 20h24min

O magnífico Mirisola

Existem escritores que vivem reclusos e são avessos aos holofotes, como Dalton Tevisan, por exemplo. Existem escritores que, mesmo sem ter um grande talento, tem o ego do tamanho de um elefante, vivendo encastelados e inacessíveis na sua própria arrogância. Deste tipo, prefiro não citar nomes. E existem aqueles escritores de perfil magnânimo que, apesar do seu alto gabarito e justa fama, nunca se furtam a atender pedidos para escrever prefácios de jovens autores, dar entrevistas ou retribuir o carinho dos fãs. O saudoso Moacyr Scliar, por exemplo.

 

Parece ser também esse o caso do paulista Marcelo Mirisola. Uma das vozes mais originais surgidas na literatura brasileira nas últimas décadas, Mirisola é um sujeito de posições fortes e polêmicas, uma voz inteligente pregando fervorosa em meio à selva de mediocridades geradas na mídia. Mais do que isso, as palavras tecidas por Mirisola em suas narrativas tem a notável capacidade de conduzir o leitor entre o que há de mais abominável e bagaceiro na condição humana, ao mesmo tempo em que revelam, de forma magistral, uma espécie de lirismo escondido nos instintos básicos e nas desilusões mesquinhas do cotidiano. Autor de muitos livros, como, por exemplo, “O azul do filho morto” e “O homem da quitinete de marfim”, Mirisola fala para quem sabe ouvir. Sorte nossa, não é mesmo?  

 

Saretta: Fale-nos um pouco sobre o seu novo livro, “Hosana na Sarjeta”...

 

Mirisola: Deu um trabalhão danado para escrevê-lo. O livro fala por si. Seria um contrassenso tentar resumi-lo em meia dúzia de palavras.

 

Saretta: Em que momento da sua vida você decidiu se tornar escritor?

 

Mirisola: Quando todas as outras opções naufragaram. 

 

Saretta: Você vê alguma semelhança entre o tipo de literatura que você faz e as histórias em quadrinho do americano Harvey Pekar? Eram histórias que retratavam o cotidiano dele mesmo, um cara normal que trabalhava como arquivista em um hospital. Confesso que quando vi o filme “Anti-herói americano” lembrei dos teus romances e daquela coisa da “auto-ficção”.

 

Mirisola: Nunca dei bola para quadrinhos. Vi o filme, e gostei. Acho que é só isso.

 

Saretta: Qual foi a tua maior alegria até hoje dentro do mundo das letras? E a maior decepção?

 

Mirisola: O “mundo das letras” é um chiqueiro.  Chafurdei no lixo, conheci muitos porcos e consequentemente tive grandes decepções. Mas, graças a Deus – e paradoxo dos paradoxos – também foi o mundo das letras que me apresentou meus melhores amigos, gente limpa e decente que nada tem a ver com o tal “mundo das letras”. Ou seja: o mundo das letras é o mesmo mundo do tênis, das pedicures, dos técnicos de refrigeração e ar condicionado. Do lugar que chamamos planeta terra.

 

Saretta:  O que você pensa a respeito da afirmativa de que “no Brasil existem mais escritores do que leitores”? O que você faria para mudar esse quadro?

 

Mirisola: Tinha fé no Ebola, mas parece que a epidemia está sob controle. Só o paredão resolve.

 

Saretta: Apesar de nomes consagrados como, por exemplo, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, e até mesmo Clarice Lispector, terem traçado linhas sobre o futebol, esse tema continua sendo menosprezado por muitos intelectuais/escritores. O que você acha disso?

 

Mirisola: Acho que os intelectuais/escritores estão certos. Quanto menos meterem a colher, mais chances o futebol terá de se livrar da chatice.  Exemplo disso é o Armando Nogueira – o texto mais chato e empolado que li na vida, o cara consegue ser mais indigesto do que todos aqueles parnasianos dos tempos de colégio, lembra?

 

Saretta: Você pratica esportes?

 

Mirisola: Não. Odeio esportes.

 

Saretta:  Lendo o teu livro “Animais em Extinção”, senti uma certa melancolia nas partes que narram o protagonista observando a praia. Você considera a literatura como um lenitivo para a solidão, ou algo que arrasta o escritor ainda mais para dentro de si?

 

Mirisola: Do ponto de vista do leitor, a literatura pode ser um lenitivo para a solidão e para tantas outras frescuras que afetam o ser humano. Do ponto de vista do escritor “solidão” é apenas mais um instrumento de trabalho.

 

Saretta: Qual é o papel do artista?

 

Mirisola: Como diria meu amigo Evandrinho Grogotó Affonso Ferreira. O papel do escritor é o A-4.

 

Marcelo Mirisola, um talento fora de série na literatura brasileira. Foto: Google.


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22/12/2014 - 17h12min

Pedra viva

A cidade dorme imersa na escuridão. Por entre os prédios de São Paulo, uma luz solitária denuncia a presença de atividade em um pequeno quarto. Quem seria? Espiando pela janela vemos o artesão que trabalha incansavelmente madrugada adentro. O martelo golpeia o formão com paciência, dando origem a uma escultura colocada no centro do estúdio. Toc, toc, toc. Aos poucos, a massa disforme vai assumindo a feição de um rosto conhecido. Alguém que, assim como o artesão, valia-se de força e técnica para criar.

 

O busto de Manoel Nunes, o popular Neco, foi inaugurado na primavera de 1929, quando o Corinthians recebeu o Atlético Mineiro para um amistoso no Parque São Jorge. A hora de abandonar os gramados se aproximava para Neco, e o clube alvinegro não poderia deixar o seu primeiro ídolo sem uma devida homenagem. Afinal, as apresentações desse brilhante atleta jamais foram esquecidas. Desde os primeiros chutes dados pelo garoto no Liceu Coração de Jesus, passando pelos jogos na várzea do bairro do Bom Retiro, Neco mostrava que a fibra era a sua principal virtude. O futebol já era uma realidade e, no ano de 1910, é fundado o Corinthians. Neco fez do clube a sua segunda casa, dedicando-se de corpo e alma na árdua tarefa de defender o quadro paulista. Notável foi a dupla formada entre ele e Amílcar Barbuy, um centromédio de gabarito e primeiro jogador corintiano a vestir a malha da seleção brasileira. Neco, por sua vez, teve ao menos uma passagem marcante atuando pela nossa seleção. Foi no campeonato sul-americano de 1919, disputado no Rio de Janeiro. Na final contra o Uruguai, Neco construiu uma jogada belíssima que culminaria no gol do artilheiro Friedenreich. Gol que garantiu a conquista do título e a festa nas arquibancadas do estádio das Laranjeiras.

 

Porém, foi mesmo no Corinthians que Neco tornou-se uma lenda. Graças ao seu empenho e temperamento, o alvinegro venceu muitos campeonatos paulistas. Difícil esquecer o famoso episódio no qual Neco teria sacado o cinto, que prendia os calções de antigamente, para brigar com o goleiro Primo, do Palestra Itália. Não sabemos se realmente foi essa a sua intenção, ou apenas ajeitar a indumentária, já que os dois jogadores tinham engalfinhado-se em uma disputa pela bola. O fato é que a torcida adotou o gesto como sinal de valentia, clamando, a partir de então, que Neco tirasse o cinto sempre que a situação ficasse preta durante as partidas. Anos após a inauguração do busto de Neco, outros atletas corintianos gozaram da mesma honra, como, por exemplo, Cláudio, Luizinho e Baltazar. Estátuas que habitam os jardins do clube, com seus olhos de bronze a observar as pessoas de carne e osso.

 

Na margem oposta da metrópole, o Palmeiras igualmente produzia seus heróis.  Waldemar Fiúme foi um dos ases que conquistaram o emblemático campeonato paulista de 1942. Nesse ano turbulento, o clube foi obrigado a mudar de nome em razão da guerra europeia e da forte ligação com a colônia italiana de São Paulo. O Palestra Itália, então, renasceu como Sociedade Esportiva Palmeiras e Waldemar Fiúme iniciou um lapso de dezesseis anos militando nas fileiras da instituição. Nesse período, a presença de Waldemar no time era uma constante, impulsionando destemido os companheiros em busca de novas vitórias.

 

Se pegarmos o dicionário de italiano, veremos que a palavra “fiume” significa “rio”. Mario Quintana, por sua vez, versou com maestria: “Toda a tristeza dos rios é não poderem parar”. Waldemar era assim, caudaloso, sempre em movimento, tanto que jogou em várias posições, começando como meia ofensivo e, aos poucos, recuando até a zaga, quando encerrou a sua carreira.  A sua importância foi tanta dentro da história do Palmeiras que um busto seu adorna a sede do clube. Uma imagem de pedra, finalmente estática, imersa dentro do rio que era o próprio Waldemar, coberta de um musgo esverdeado, cor da camisa palmeirense. A água correndo vigorosa como o tempo, enquanto a pedra viva permanece quieta, adormecida. Uma simples estátua de mármore, não fossem as façanhas protagonizadas por Waldemar com a bola aos seus pés.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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