19/08/2017 - 11h14min

Uma guerra tão vazia

     A recente declaração de Maradona, afirmando ser “um soldado a serviço de Maduro”, provocou destemperadas e imediatas reações entre os seus pares futebolistas ao redor do planeta. O ex-goleiro Chilavert ironizou a questão, lembrando do fato de Maradona, apesar de se manifestar contra o imperialismo, viver de modo nababesco em Dubai.  

     Entretanto, o contragolpe mais forte partiu de Mario Kempes, o artilheiro da seleção argentina na Copa do Mundo de 1978. Através da uma rede social, Kempes, visivelmente indignado, perguntou a Maradona como ele podia apoiar um regime que matou, até agora, nada menos do que 124 jovens contrários a Maduro, dentro da triste onda de violência e indefinição que assola a Venezuela.  Para cúmulo, Kempes finalizou a sua manifestação com um rotundo “não à ditadura!”.

     Imediatamente o caçador virou a caça, e milhares de internautas passaram a contestar o antigo craque do Rosario Central. Afinal, Kempes foi uma das peças chaves na conquista do título de 1978, período em que o país vizinho estava, ele próprio, mergulhado em uma sinistra ditadura.  Para muitos, Kempes teria sido conivente com a situação, já que a conquista do caneco serviu como uma cortina de fumaça, alienando ainda mais o povo em relação ao real estado de tirania instalado nas ruas. Rapidamente, Kempes resgatou uma reportagem da época, onde ele afirmava que os seus gols “eram para a Argentina, e não para Videla”, de uma certa forma encerrando o assunto.

     Passada a euforia de 1978, o técnico Menotti também foi duramente criticado. Teria sido ele culpado ou inocente por participar do triunfo que ajudou a fortalecer os quartéis de Buenos Aires?  É evidente que “el flaco” sabia do que estava acontecendo nos porões vizinhos ao estádio Monumental de Nuñez, onde, inclusive, torturas aconteciam concomitantemente aos jogos da seleção. Mas Menotti teve que optar entre assumir a responsabilidade, ocupando o cargo que ele havia conquistado através de um trabalho honesto, ou deixá-lo nas mãos de outro profissional qualquer. Além disso, é provável que o técnico acreditasse, com uma boa dose de convicção, que a vitória final, mesmo que fosse utilizada como propaganda pela ditadura, seria uma forma de aliviar o sofrimento do povo, e ele não hesitou em colocar em prática as suas ideias e esquemas táticos. No fim, o sonho futebolístico falou mais alto, e Menotti fechou os olhos cinicamente para a infâmia da opressão.

     A verdade é que a política e os governos costumam vampirizar o futebol, e não o contrário. Em 1970, o Brasil de Pelé, Tostão e Rivelino estava empenhado em alcançar a classificação para a Copa do México.  Na ocasião, João Saldanha cunhou uma frase lapidar, capturando a essência da incompatível relação entre futebol e política. Quando o presidente Médici se atreveu a sugerir a inclusão de determinado atacante da sua preferência no time de Saldanha, o técnico foi cirúrgico: “eu não escalo o ministério, e o presidente não escala a seleção”. Bingo!

     Todo cidadão tem o direito de externar as suas posições políticas e ideológicas.  Entretanto, a condição de figura pública, com todos os privilégios que a fama acarreta, acaba fazendo com que certas declarações, ao invés de contribuir, acabem por empobrecer o debate. Nada mais pedante do que o artista que desce do palco para dar a sua opinião sobre tudo, acirrando ânimos de modo inconsequente e vazio.  A incoerência resultante dessa guerra de palavras pode atingir níveis extremos, como no caso do jornalista político que colocou em xeque a competência de Lobão enquanto músico, apenas por divergir do posicionamento ideológico deste. Não seria melhor se o jornalista fizesse jornalismo, o músico fizesse música e o jogador jogasse bola?

     A militância de figuras como Maradona, além de produzir uma espécie de samba do crioulo doido midiático, espelha um lado triste do ser humano, eternamente preso em sua ânsia quixotesca de mudar o mundo.

 


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12/08/2017 - 10h08min

Mistérios da bola laranja

     Schopenhauer já dizia que os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto, e os trinta seguintes, o comentário. Partindo dessa lógica, gostaria de contar um singelo episódio da minha infância e adolescência.

     Embora fosse um atleta não mais do que razoável, os anos em que pratiquei basquete na escolinha do clube Recreio da Juventude deixaram lindas lembranças.  O começo de tudo foi na quadra que ficava junto à sede social do clube, um prédio histórico onde depois funcionou o Cine Central.  A professora Mirian ensinava as primeiras noções de passe, drible, arremesso e como picar a bola utilizando apenas os dedos. Um dia ela pegou a bola e executou, perante nossos incrédulos olhos, uma jogada diferente. A bandeja, movimento audaz e mirabolante, passou a ser um dos principais artifícios empregados pela piazada na ora de partir para o ataque, e praticávamos seus fundamentos com afinco. Mirian era adorada pela turma, muitas vezes nos dando carona até o portão de casa na garupa da sua moto, em uma nítida demonstração de carinho e desapego.   

     Quando as aulas passaram para a sede campestre do clube, um novo e inesquecível personagem surgiu. O professor César Santos era um daqueles abnegados pelo esporte, mesmerizando a turma com as suas palestras sobre o esporte e a vida. Criado no final do século dezenove pelo canadense James Naismith, o basquete nunca gozou da mesma popularidade que o futebol em terras brasileiras. César tinha uma missão difícil, e ele a cumpriu com maestria, conduzindo a turma rumo a desafios e caminhos distantes.

     As excursões, para participar dos eventuais campeonatos, eram um verdadeiro acontecimento. Hospedadas na bucólica ilha do União, em Porto Alegre, as hostes mirins do Recreio da Juventude se preparavam para enfrentar mais um torneio contra outros clubes do estado. A ilha tinha uma aura de mistério e encantamento, e para chegar até ela era preciso embarcar em um velho barquinho motorizado. Além dos imbatíveis União e Sogipa, lembro de times como Ypiranga, Santa Cruz e a sempre perigosa Funba, de Bagé. Quando o torneio era realizado em Rio Grande, uma visita ao Museu Oceanográfico era obrigatória, ocasião na qual a turma, embevecida, admirava as focas e os pinguins desgarrados sob custódia dos cientistas. Na hora de vestir o uniforme, contudo, o lazer dava lugar à seriedade. Lembro do nervosismo na hora de entrar em quadra, a luta tão ansiada e temida surgindo com esplendor, as tentativas de aplicar as jogadas ensaiadas, os tocos e erros grotescos, as raras cestas redentoras.

     Semana seguinte, sentada nos bancos da praça Dante, a turma aguarda ansiosa pela chegada do micro-ônibus. O motorista Deoclécio foi também uma figura marcante dessa era dourada, conduzindo o time até a sede arborizada em que aconteciam os treinos. Na hipótese de algum imprevisto, o próprio César disponibilizava o seu Dodge Polara azul metálico para levar a trupe. Tudo em nome do basquete.  Essa dedicação fora de série tornou o professor César uma espécie de ídolo da minha juventude.

     Pulando, fintando e arremessando, fiz grandes amigos, alguns dos quais permanecem fiéis até hoje. Com o passar dos anos, cada pirralho seguiu um rumo diferente, cumprindo as parábolas das suas vidas, repletas de tristezas e alegrias. Parábolas, aliás, sinuosas como as descritas pela bola laranja que rodopia misteriosamente rumo ao aro, até varar a rede com maestria. Chuá!

 

                                                                      *     *     *

 

     Aproveito para mandar um alô especial para o meu pai e grande amigo Mércio, pelo seu dia!

     Um forte abraço, e muito obrigado por tudo!

 


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05/08/2017 - 12h08min

O medo e a máscara

     O mundo futebolístico foi sacudido com a repentina saída de Neymar do Barcelona. É verdade que houve, durante alguns dias, uma especulação, como se fosse a gestação de um monstro que iria abalar as estruturas da cidade, e a transferência para o PSG foi tomando forma de uma maneira, até certo ponto, coerente. Mas, no fim, o impacto da venda foi avassalador, e seus desdobramentos são ainda imprevisíveis. Não será tão fácil, principalmente para o torcedor blaugrana, digerir a, por que não dizer, intempestiva atitude do jogador. Ao deixar o time, Neymar partiu o coração de milhões de aficionados, que sonhavam com um amor eterno e feliz. Como pôde o craque olvidar, de uma hora para a outra, a companhia dos conterrâneos latinos Messi e Suárez, do amigo Piqué e de tantos outros, desprezando cinicamente a camisa do clube catalão e os novos desafios que viriam pela frente?

     Enfurecida com o desfecho da pequena novela, a torcida do Barça não tardou em classificar o funâmbulo número onze de traidor e mercenário. E aí repousa um dos pilares da questão, pois os valores da venda são absurdos, ofensivos à dignidade humana, até. Entretanto, essa é a lógica do jogo, e quem pode mais chora menos.  Alguns observadores consideram que seja o pai do jogador o responsável por essa ânsia faraônica por dinheiro. Manipulado por seu pai, Neymar, nesse caso, seria o jovem inocente corrompido pela avareza dos mais velhos. Fatos dessa natureza são comuns, basta lembrarmos de Ronaldinho e Assis, os irmãos de Porto Alegre que dominaram o mundo futebolístico graças à astúcia atlética do primeiro e o tino comercial do segundo. Assis, o irmão mais velho do craque, foi considerado por muitos como o verdadeiro fominha da dupla, e quanto mais dólares entrassem na conta do banco melhor.

     Mas, afinal, quem pode viver sem dinheiro? Temos razão em condenar alguém por gostar de dinheiro? Perguntas sem resposta, que ajudam a construir o enigma chamado Neymar. Mudando sutilmente nossa linha de raciocínio, poderíamos enxergar no jogador brasileiro uma espécie de Robin-Hood, um rebelde marginal que abandona uma das mecas do futebol europeu para viver em Paris, a cidade luz das artes e da cultura, mas de pouco relevo dentro do cenário relativo ao popular esporte. A atitude de Neymar, nesse caso, teria algo de original, e a sua recusa em continuar na Espanha seria motivo de aplausos. Indo rumo ao caminho das sombras, o craque estaria adotando uma postura introspectiva, de renúncia e estoicismo. E poderia recuperar o espaço como jogador de um time, mesmo que seja improvável conquistar a Bola de Ouro atuando pelo PSG.

     Disparates e suposições não faltam sobre o caso. Neymar afirmou categoricamente não estar buscando o vil metal ou o protagonismo perdido na Espanha. Do alto da sua “maturidade de 25 anos” ele estaria em busca simplesmente de novos horizontes. De fato, é provável que ele não seja o vilão, mas a vítima nessa história toda, o craque pré-fabricado pela mídia que fica cego pelos holofotes e acaba prejudicando a própria carreira.

     Nada disso teria o menor interesse, e minha reação provavelmente seria de total indiferença sobre o fato. Eu estaria apenas indignado com o estardalhaço gerado pela milionária e absurda transação. Mas existe um motivo pelo qual eu tenha sérias e profundas preocupações, pois, embora eu não seja torcedor nem do Barcelona nem do Paris Saint-German, ainda sou ferrenho torcedor da seleção brasileira. E, queiramos ou não, Neymar será o nosso maestro na aventura russa do ano que vem.  

     O meu medo é que o jovem, vestindo a máscara da fama e da fortuna, esqueça de vestir a malha que realmente importa, ou seja, aquela de cores verde e amarela. A minha esperança, por outro lado, é que ele assuma o seu papel de fora-de-série, e faça aquilo que ele sabe fazer como ninguém, deixando defensores estarrecidos e marcando gols com picardia. Jogar bola, enfim, não necessariamente dando espetáculo, mas dando motivos de orgulho para a torcida brasileira, que admira, ama e apoia a sua seleção.

 


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29/07/2017 - 11h07min

Campeões do ridículo

     Quando eu soube que Michael Phelps apostaria corrida contra um tubarão branco, percebi que o homem continua sendo um tipo estranho, triste admirador de cenas bizarras e brutais. Phelps, ao aceitar o desafio, sabia que não iria correr riscos, já que a prova não seria feita nadando de forma simultânea com o tubarão. Mesmo assim, a mórbida atração pelo evento atingiu milhões ao redor do planeta. A iniciativa de realizar a corrida partiu de um canal de televisão, o Discovery Channel. No fim, a besta marinha e a maravilha humana, campeão olímpico dos mais ilustres, recordista de pódios e louros, protagonizaram um duelo nas águas que, apesar do seu aspecto pouco convencional, pode ter tido algum mérito científico, além daquele puramente teatral.

     O tubarão foi mais rápido, tendo percorrido 100 metros em 36,1 segundos, contra 38,1 atingidos por Phelps. O que chama a atenção é a ânsia do ser humano em desbravar as fronteiras do espetáculo e do perigo, apelando para um tipo de promoção de gosto duvidável. Ao tentar competir com uma criatura irracional, o homem não estaria se tornando mais irracional do que o próprio bicho? Curiosamente, o instinto dominador da raça humana, e a sua predileção pelo lado grotesco da ribalta permanecem intactos em pleno século XXI.

     As piscinas e raias olímpicas forjaram, antes de Phelps, outra figura vencedora e carismática, que também participou, ainda que inocentemente, das maquinações e fantasias do homem para controlar a natureza. Johnny Weissmuller foi um nadador que buscou o esporte como panaceia para uma doença adquirida na infância. O rapaz não só se curou, como se tornou um grande campeão, sobretudo nas Olimpíadas de 1924 e 28, quando ganhou várias medalhas de ouro. Aposentado como atleta, Weissmuller, que era de origem austro-húngara mas competia pelos EUA, tornou-se um ator famoso, interpretando o personagem Tarzan no cinema.  O seu físico avantajado, o tronco e os membros largos, com certeza foram vitais para que Johnny conseguisse o papel.

     Enquanto o seu dublê lutava contra um leão velho e desdentado, Weissmuller aguardava a hora de entrar em cena. Crocodilos, gorilas, tigres e feras em geral não eram páreo para o rei das selvas. O espetáculo deprimente e selvagem, onde Tarzan era retratado como um mero brutamontes desagradava o criador do personagem, Edgar Rice Burroughs. De fato, nos livros do escritor americano Tarzan era um cara inteligente, civilizado e culto. Além de ter imortalizado o grito de Tarzan nas telas cinematográficas, Weissmuller conquistou muitos fãs, sendo o ator mais identificado, dentro do imaginário popular, com o personagem, que teve outros intérpretes através da história.

     A vida é um circo, e a mágica não pode parar jamais! Tony Galento era dono de um bar em Orange, Nova Jérsei, antes de se dedicar ao boxe. A sua persona sempre teve algo de histriônico, e o homem gordo e careca que certa vez comeu cinquenta cachorros-quentes antes de uma luta extrapolou a noção do ridículo para atrair publicidade em torno do seu nome. Galento, contudo, foi autor de uma proeza gigantesca, que o fez ser respeitado dentro do mundo sujo e glamoroso do boxe. Em sua luta contra Joe Louis, em 1939, Galento teve a ousadia de derrubar o campeão. Ao desferir um gancho de esquerda no terceiro assalto, o azarão acertou em cheio o seu oponente, desencadeando um frenesi coletivo nas arquibancadas do Yankee Stadium, em Nova Iorque. Louis, apesar de atordoado, levantou-se rapidamente. Com o orgulho ferido, o magnífico pugilista tratou de encerrar a luta sem maiores sustos, nocauteando Galento no assalto seguinte.

     Galento, que afirmava ter estrangulado um octopus e realizava lutas de exibição com ursos e cangurus, foi um dos indivíduos mais exuberantes a vestir luvas dentro da era dourada do boxe.  A sua luta com Joe Louis foi um verdadeiro marco, provando que o folclórico, o bárbaro e o bizarro são elementos caros para a plebe, na hora em que ela, embevecida, elege os seus ídolos do esporte.

 


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12/05/2017 - 20h27min

Vagar, sonhar, lutar

     Em razão do pouco futebol apresentado na temporada passada, o Internacional está fora do campeonato brasileiro da série A, que começa nesse final de semana. A sua sina, em 2017, será vagar por estádios menores, em cidades periféricas, fora das grandes metrópoles e longe dos holofotes histéricos da mídia. Para muitos torcedores e analistas, esse cenário é desolador, sendo sinônimo de tristeza e vergonha. Ao mesmo temo, a queda do gigante colorado foi a senha para que uma multidão extravasasse o seu lado revanchista, zombando do rival com fúria e alegria.  

     Mas, afinal, qual é o problema em jogar a série B? Não existiria nesse campeonato, desprovido de dinheiro e glamour, uma beleza escondida entre as sombras? Falo da beleza de conhecer diferentes cidades e culturas, abandonando a companhia arrogante dos grandes clubes do futebol brasileiro, da seleta turma da qual o próprio Inter foi, por muitas vezes, o maior e mais aguerrido representante.  Existirá beleza maior do que vagar pelas terras distantes e ensolaradas do Nordeste, pelo cerrado do Centro-Oeste, pelas praias de Santa Catarina, ou pelas cidades vizinhas de Caxias do Sul e Pelotas? A cidade de Londrina, também conhecida como a “Pequena Londres”, será o ponto de partida do roteiro que o Inter terá que cumprir, como um peregrino, a partir de amanhã.

     Quebrando regras e subvertendo convenções, o clube colorado empreenderá uma das suas maiores aventuras. Uma aventura que não tem de ser, necessariamente, em busca de glória e taças douradas de campeão. Não. A epopeia rubra pode muito bem ser uma serena caminhada em direção ao autoconhecimento, empregando uma atitude de desapego e humildade. Desalojado do castelo do poder, o Inter, na figura do mascote Saci, poderá fazer novas amizades, longe da sanha e da soberba viciante que impera na série A.  

     Na hora da verdade, contudo, o time do técnico Zago deverá atuar com a galhardia de sempre. Somente lutando com todas as suas forças pela posse de cada centímetro do gramado, Danilo Fernandes, D’Alessandro, Valdívia e seus companheiros poderão fazer com que o Inter retorne ao panteão dos clubes do nosso futebol. A batalha na segunda divisão tende a ser ainda mais encarniçada e insana, e o onze gaúcho terá que suar sangue para triunfar nos longínquos rincões do Brasil.

     Viajar é preciso. Afinal, aquele que anda sempre pelos mesmos caminhos, ainda que sejam caminhos de fama, luxo e prazer, não encontra nada de novo, e, consequentemente, não vive.  Que venha, portanto, a experiência da série B! Os fascinantes mistérios da sua geografia, e a catarse de descer rumo ao desconhecido são, por si só, um troféu de valor inestimável.

 


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25/04/2017 - 21h04min

Uma engrenagem para a história

     Foi um grande pecado a eliminação do Caxias frente ao Inter, ocorrida no último domingo, no estádio Centenário. Uma decisão por pênaltis nunca é totalmente definitiva, nem traduz uma verdade insofismável, pois para se chegar até ela houve um empate de resultados, sem que se conseguisse determinar um legítimo vencedor dentro de 180 minutos de jogo. Mas não é por isso que a derrocada grená não é fácil de aceitar. Analisando a partida de domingo, mas, sobretudo, recordando toda a campanha ao longo do Gauchão de 2017, ficam nítidos, mesmo para quem olha de forma desapaixonada, uma qualidade e um elã superior no time interiorano. O Caxias foi um time melhor do que o Inter, e a sua despedida cruel e prematura do certame fatalmente deixará feridas na alma do torcedor.

     Por outro lado, o técnico Luiz Carlos Winck brindou o mundo futebolístico com uma engrenagem bem azeitada, que, da mesma maneira, não será esquecida facilmente. O goleiro Marcelo Pitol, com sua catimba e saltos felinos zelando pela cidadela grená, foi um dos personagens da epopeia da “uva mecânica” versão 2017. Os zagueiros Jean, Edson Borges e Laércio, juntamente com os polivalentes Geninho e Thiago Machado, foram vultos de destaque na retaguarda. Sem embrago, quando menos se esperava, empregavam mortíferas incursões ao ataque, marcando gols com maestria. E o que dizer do trio Marabá, Elyeser e Wagner? Sem dúvida um meio de campo para ninguém botar defeito. No setor ofensivo, Júlio César, Gilmar e Reis, auxiliados pelos reservas de luxo Jajá e Nicolas, vararam muitas defesas, concretizando vitórias importantes para o time das bandas do cemitério.

     Ficará marcada na memória do torcedor, especialmente, a trinca de vitórias contra o Juventude, todas de forma categórica, amealhadas em menos de vinte dias, sendo que duas delas em pleno estádio Jaconi. A vitória contra o Grêmio, ainda no começo do campeonato, e os triunfos contra São Paulo, São José e Passo Fundo, também foram capítulos dignos de comentário. O perde e ganha contra o Inter, sem que o Caxias se curvasse ante o poderio econômico e a força da camisa do gigante de Porto Alegre, foi o ponto final de uma jornada ímpar. O fato do Caxias ter disputado a divisão de acesso no ano passado apenas engrandece o trabalho e a dedicação de todos no clube, desde o roupeiro até o presidente.

     Ainda que seja um filme conhecido para o fiel e sofrido torcedor grená, a eliminação de domingo traz em seu bojo alegria, não só tristeza. O time que no momento faz parte do passado, tendo em vista o inevitável desmanche do elenco, deixou uma marca escrita com ferro e fogo na história do nosso campeonato gaúcho. O título de campeão do interior é, pois, merecido. Ainda assim, creio que o mais justo teria sido uma final entre Novo Hamburgo e Caxias. Na minha  opinião, estes foram os dois melhores esquadrões do torneio.


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17/11/2016 - 11h11min

Letras e melancolia

 

     Ao longo dos anos, tive a oportunidade de visitar algumas escolas e conversar com os alunos sobre minhas experiências como escritor. Trata-se de uma atividade singular e sempre ansiada, mas que traz consigo a sombra de um dilema.   
     Afinal, de que adianta exaltar, nessas visitas, as vantagens do hábito e do prazer da leitura para os jovens; de que adianta vender a ideia de que através da leitura o seu mundo será melhor; como posso iludi-los com a promessa de que a literatura fará deles pessoas felizes no futuro, mais aptas para enfrentar a vida? Como eu posso fazer isso se a pessoa que desenvolve o hábito de ler, muitas vezes, acaba virando uma pessoa solitária, fraca, avessa ao convívio social e, ciente ou não, abdica de certas aspirações e noções relativas ao mundo prático em que vivemos imersos, lutando freneticamente contra o relógio e o calendário para pagar as nossas contas?
     Na selva de concreto das cidades não existe espaço para o sonho, e o sonho é algo inerente a quem gosta de ler. Nesse cenário bizarro, mas real, “sonhador” rima com “perdedor”. Existe, ainda, a possibilidade do jovem se tornar alvo de chacotas na escola, ser chamado de cdf, acabar se isolando do mundo e desenvolver algum tipo de depressão.  Então às vezes me pergunto, “não é uma irresponsabilidade da minha parte querer incutir nessas cabecinhas que o ato de ler vai leva-los a algum lugar? Para quê? Para que permaneçam ignorantes sobre as artimanhas da vida real, tornando-se presas fáceis para a malandragem que vive a espreitar as ruas e o cidadão?”.    
     Um dos pontos que me impede de acreditar com mais ênfase no “poder transformador” do ato de ler é o fato de que, profissionalmente falando, o ramo das letras não oferece grandes perspectivas aos alunos jovens ou adultos. Tornar-se professor, jornalista ou escritor está longe de ser garantia de um salário digno. Para encontrar emprego, pragmatismo e experiências de trabalho anteriores valem muito mais do que ter lido uma dúzia de livros do Cortázar.  Como pedir a um jovem de família pobre, que não tem condições nem de se alimentar direito na hora do almoço, que ele leia livros, se essa providência não vai mudar em nada a sua situação degradante e emergencial?  Você vai falar sobre a beleza da poesia de Drummond e eles estão pensando em como sobreviver ao dia de amanhã. As prioridades são totalmente diferentes.    
     Outro dos perigos de abraçar o hábito de ler é a melancolia que ele pode acarretar.  A solidão encontrada nas páginas de um livro pode se tornar um vício. Mas também é um bálsamo. Surge, então, outra pergunta: somos taciturnos porque lemos, ou lemos porque somos taciturnos? Acredito que ambas as situações sejam verdadeiras, mas é provável que a qualidade de “taciturno” seja anterior ao hábito de ler livros.  De qualquer maneira, a leitura solitária de livros tem um parentesco com a melancolia, com uma sensação de desapego e tristeza. O indivíduo que lê, nas repartições, nos coletivos, no pátio da escola, rapidamente é visto como um estranho, um tipo de lunático, portador de alguma doença rara. É um verdadeiro alienígena, e passa longe daquilo que poderia se chamar de brasileiro “normal”. Claro, o perfil do brasileiro é esfuziante e bronzeado, o perfil do sujeito que lê é pálido e sombrio.
     Então, para que almejar incutir em um jovem, saudável e capaz, o hábito da leitura? Para desviá-lo de uma carreira de sucesso profissional e uma relação amorosa feliz?
     Quando eu entro nesse tipo de dilema, tento contar até dez. Depois que a calma retorna, apanho um bom livro na estante. Sentado em minha poltrona, ciente dos problemas do mundo, encontro um pouco de paz, e a lucidez necessária para me botar nos trilhos outra vez.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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