30/05/2013 - 14h05min

O arqueiro fantasma

O Fluminense disse adeus à disputa da Copa Libertadores da América. Ontem, no estádio Defensores Del Chaco, o time brasileiro acabou eliminado do torneio pelo Olímpia, em uma partida repleta de drama e nervosismo.

 

Assistindo o jogo pela televisão, percebi um certo menosprezo por parte do locutor da nossa toda poderosa emissora ao falar sobre as imagens geradas pela sua colega paraguaia, ao mesmo tempo em que se vangloriava do “padrão Globo de transmissão”. Faltou ética nos comentários do sempre competente Luis Roberto que, para piorar, junto com Júnior, outro cara que eu admiro, teve a atitude pouco recomendável de dizer que a partida estava “fácil”, após o gol marcado por Rayner nos primeiros minutos do confronto.

 

Afinal, sabemos bem que o Olímpia é um time copeiro e experiente, que tem tradição, tendo vencido por três vezes a Libertadores da América. Após virar a partida, o clube da terra da guarânia literalmente abafou a reação tricolor, valendo-se de uma boa dose de catimba e especulando cinicamente em perigosos contra-ataques. Foi um duro golpe para a torcida, que viu adiada mais uma vez a chance de erguer a tão sonhada taça continental.

 

Por outro lado, uma sensação de “déjà-vu” deve ter percorrido a espinha do técnico Abel Braga após o apito final. Novamente o fantasma branco e preto do Olímpia surgia terrivelmente em seu caminho, levando embora esperanças de um futuro melhor. Em 1989, no comando do Internacional, um jovem Abel havia sofrido o mesmo destino cruel, quando o time paraguaio provocou aquela que é considerada a maior tragédia da história do estádio Beira-Rio até hoje.

 

Após expugnar o Defensores Del Chaco com um golaço de bicicleta do meia Luis Fernando Rosa Flores, o Inter sucumbiu à própria ansiedade e acabou derrotado em seus domínios no segundo jogo da semi-final. Na decisão por pênaltis, o veterano goleiro Almeida rechaçou a cobrança de Leomir, voando como um gato negro e abrindo as fendas do inferno para a imensa torcida colorada.

 

Agora, no rolo de técnico da equipe guarani, Almeida materializou-se outra vez na frente de Abel. Trajando um terno cinza e ostentando cabelos pintados, o arqueiro de outrora acabou sendo uma visão dantesca, surgindo como uma assombração através das portas do tempo e da noite escura de Assunção.      

 


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25/05/2013 - 15h05min

O doce gosto da nostalgia

Em uma pacata cidade do interior, cercada por montanhas verdejantes e onde charretes transitam pelas ruas, dia desses eu encontrei a felicidade. Na pracinha, à noite, seresteiros tocavam e casais dançavam alegremente ao redor do coreto. A luz da lua banhava as carrocinhas de pipoca, churros com doce de leite, maçãs do amor e raspadinhas com leite condensado, me levando de volta ao passado, a um tempo bom, que misteriosamente estava ali, agora, vivo outra vez. 

 

Nesse ambiente de sonho e sem perigos, também nasceu Mauro Ramos, o homem que ergueu pela segunda vez a taça Jules Rimet para o Brasil. Existe até uma estátua do zagueiro em frente ao estádio de futebol da cidade, uma justa homenagem ao seu filho ilustre e famoso. Mas isso foi bem depois que Mauro deixou a quietude de Poços de Caldas para atuar em terras bandeirantes. Vestindo a jaqueta tricolor do São Paulo, Mauro começou a se destacar, sendo muitas vezes campeão paulista. Mais tarde veio a transferência para o Santos, onde Mauro continuou a colecionar títulos e alegrias.

 

Mas nem tudo foram rosas, principalmente dentro da seleção brasileira. Depois de amargar a reserva nas Copas de 1954 e 58, Mauro foi obrigado a exigir lugar no time que disputaria o torneio no Chile, em 1962. Seu pedido foi aceito pelo técnico Aimoré Moreira e Mauro, além do posto, herdou também a braçadeira de capitão que era de Belini. Talvez essa demanda tenha sido a atitude mais ríspida dentro da carreira de Mauro, um beque que primava pela técnica e classe dentro de campo. E se na imaginação popular Heleno de Freitas era Gilda, personagem temperamental da atriz Rita Hayworth no cinema, Mauro, graças à sua elegância, recebeu o apelido de Marta Rocha.

 

A Miss Brasil de 1954 enfeitiçava os homens com seus olhos azuis brilhantes e seu corpo escultural. Na final do concurso de Miss Universo, Marta acabou perdendo para uma beldade americana, levando um jornalista da época a inventar a folclórica diferença das “duas polegadas a mais”, como sendo a razão da derrota. Outra lenda afirma que foi uma família de confeiteiros de Curitiba que teve a ideia de batizar uma das suas tortas em homenagem à moça baiana. A receita sobreviveu até os dias de hoje, permitindo que alguém adentre um universo paralelo, longe da rotina mesquinha do dia a dia, onde impera o sabor da massa de pão-de-ló recheada com creme de ovos, nozes e cobertura de suspiros. O sabor açucarado da infância e das praças, enfim. Um doce gosto de nostalgia que resiste incólume ao tempo nas padarias da vida, trazendo à tona agradáveis lembranças dos nossos campeões do futebol e da beleza.

 


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20/05/2013 - 21h05min

Mergulhando no rio da morte

Engana-se quem pensa que a literatura era a única aptidão de Edgar Allan Poe. O escritor americano foi também um exímio atleta, pelo menos durante a sua juventude. Ficou célebre o seu mergulho nas águas do Rio James, atravessando a distância apreciável de quase dez quilômetros a nado. A proeza foi aparentemente inspirada naquela realizada por Lord Byron, ídolo de Poe no mundo das letras, que cruzou o estreito de Dardanelos, em 1810.

 

A façanha de Poe foi executada sob um sol inclemente de verão, nadando contra a maré em boa parte do percurso. Uma atitude de coragem, sacrifício e estoicismo comparável apenas aos afazeres e dissabores do escritor que busca espaço no concorrido mundo das letras. Coincidência ou não, o autor do famoso poema “O Corvo” permanece como um exemplo clássico do artista que nunca obteve o reconhecimento devido nos seus dias, a despeito da sua obra magistral. De fato, quem mergulha no rio turbulento da literatura, arrisca a própria vida sem ter garantia de nada, além da alegria fugaz de compartilhar seus textos com algum amigo ou parente próximo, em um esforço solitário e nauseabundo.

 

Os escolhos a serem vencidos na travessia são infinitos, a começar pelo desprezo direcionado ao escritor desconhecido que busca iniciar uma carreira. Qualquer talento novo que apareça na cidade é logo rechaçado, afinal o que importa é idolatrar os valores que vem de fora. Escolas adotam livros somente de quem tiver algum conhecido lá dentro, ou de figuras públicas que estejam na mídia. Para viajar nos programas de escritores itinerantes (ganhando até cachê, vejam só!), é preciso ter os contatos certos. Ou seja, órgãos de apoio ao escritor são iniciativas louváveis, mas que funcionam apenas para alguns poucos.

 

Além disso, as editoras, na sua maioria, têm uma postura predadora e cínica para com o escritor. Primeiro adulam o pobre coitado, recebendo os originais do livro com alegria. Depois, vem o silêncio avassalador e eterno, castigando a alma ansiosa do artista sem misericórdia. Afinal, o que custa passar um e-mail informando que o projeto foi recusado? Todos nós sabemos que as editoras são empresas que visam o lucro, antes de serem entidades culturais ou filantrópicas. Não há nada de errado nisso. O problema é a falta de educação para com o escritor, o elo mais fraco da corrente. O ramo literário, onde o sentimento e a lira da inspiração valem ouro, é o mesmo onde as pessoas recebem um tratamento indigno e desumano.

 

Não são poucos os editores que agem como se fossem semideuses, brincando, de forma sádica até, com as esperanças do escritor. De forma covarde, encastelados na torre sórdida da prepotência, evitam até o fim o encontro com aquele que pede uma chance para mostrar seus rascunhos. Todas essas situações vão minando a autoestima do escritor, e podem fazê-lo desistir, ou resignar-se. Mas também podem servir como um estímulo extra, um desejo de lutar contra essa lógica perversa e seguir nadando contra a corrente.

 

Para piorar, os agentes literários, que poderiam servir como uma espécie de empresário do escritor, querem trabalhar apenas com nomes já consagrados, em uma nítida atitude comodista e esperta. Se o seu livro for de crônicas ou poesia então, esses indivíduos vão fugir de você como o diabo foge da cruz, tendo pesadelos à noite só de lembrar da sua cara. Outro obstáculo a ser superado são as “legiões de não-leitores”, conceito empregado por Charles Kiefer para definir uma das chagas presentes na vida do aspirante a escriba. Afinal, quase ninguém lê o que a gente produz no começo (e às vezes é assim até o final), deixando uma sensação de vazio e solidão, algo parecido com a morte dentro da vida.    

 

No caso de Poe, outras armadilhas surgiram no percurso. A sua facilidade em colecionar desafetos foi uma delas. Embora tenha sido um excelente poeta e contista, Poe era mais conhecido em seu tempo como crítico. Da sua pena jorrava sangue, a ponto do escritor de bigodinho e olheiras profundas ser comparado a um índio em busca de escalpos. Mas é provável que ele buscasse mesmo, através dos seus comentários, ditar um novo rumo para a literatura americana, arrasando os supostos maus escribas em nome de um bem comum.  A pobreza sufocante experimentada por Poe também colaborou para a sua derrocada. Inábil no terreno dos negócios, ele nunca conseguiu juntar dinheiro para viver com dignidade. A falta de tino comercial é uma característica, aliás, presente na maioria dos artistas. Dickens e Picasso, por exemplo, foram exceções, obtendo glória e popularidade em vida.

 

Mas não é deles que eu estou falando. Estou falando do escritor comum, que espera, assim como Poe ao abordar Dickens quando o inglês veio para a América, fazer contatos com autores famosos, quem sabe entregando-lhes o seu livro autografado, com a esperança de que o maioral se interesse pelo trabalho e abra alguma porta no labirinto sombrio do mundo literário. Enquanto isso não acontece, as águas do rio correm vigorosas na direção oposta do sonhador, que ofegante emprega uma braçada após outra sob o calor do sol. Um cenário que seria lindo se não fosse tétrico, eco de um conto do próprio Poe, com a beleza das palavras compondo um universo indissolúvel às agruras da morte e dos percalços inevitáveis e tristonhos do fazer literário. 

 


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16/05/2013 - 21h05min

Ratoeiras da honra

O atacante Flávio Caça-Rato movia-se sorrateiro pela grama úmida e escura do estádio Centenário, suscitando um sem-número de pensamentos dentro da minha cabeça. O primeiro deles: “Meu Deus! O que fizeram com a iluminação do alçapão grená?”. As novas torres de refletores estão deixando muito a desejar, fica aqui o meu protesto. O segundo refere-se à obsessão do povo brasileiro pelos apelidos bizarros e grotescos. Por que não chamamos esse rapaz apenas de Flávio? O Santa Cruz, clube do jogador, bem que tentou amenizar a situação, tratando o atleta em seu sítio virtual como “Flávio Recife”. Mas a sanha pelo absurdo e inusitado presente nas ruas e nos meios de comunicação falou mais alto, e Flávio Caça-Rato é, desde já, a mais nova mania dentro do nosso popular esporte.  

 

No jogo contra o Inter, o sempre perigoso Caça-Rato rondou a área adversária sem trégua nem sucesso, até ser substituído no segundo tempo. O próprio Inter, curiosamente, já teve em suas fileiras o seu rato particular. Falo de Adriano “Gabiru”, o folclórico herói do título mundial de 2006. Gabiru, para quem não sabe, é uma espécie de ratazana negra que habita o Nordeste. O fato é que Adriano fez um dos gols mais importantes da história da instituição colorada, naquele dia em Yokohama, contra o milionário Barcelona. Isso não impediu que ele fosse desligado do plantel pouco tempo depois, vagando por clubes sem relevo desde então. Trata-se de um atleta e homem que deveria ter recebido um maior reconhecimento por parte do mundo futebolístico, mas a realidade foi outra.

 

Se Gabiru não amealhou as honras pelo seu feito marcante, talvez o escritor John Steinbeck tenha percorrido o caminho inverso. Apesar do seu grande talento, o autor do clássico “As Vinha da Ira” declarou, ao receber o prêmio Nobel de Literatura, em 1962, que ele não merecia o galardão. Para Steinbeck, algum outro escriba ao redor do planeta, de talento superior ao dele, deveria ter ficado com o troféu. Um dos aclamados romances de Steinbeck foi, justamente, “Ratos e Homens”, a história de dois agricultores na Califórnia da década de 1930 em busca de melhores condições de vida.

 

Bingo! Se tanto a literatura como o futebol podem gerar ídolos eternos e legítimos, eles são também um terreno repleto de armadilhas, onde nem sempre aquele que recebe as glórias é digno, e onde os verdadeiros heróis costumam padecer esquecidos nas sombras do ostracismo.  

 


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02/05/2013 - 23h05min

Líricos e brutais

Por entre sofás de couro, abajures e porta retratos, eles circulavam, os punhos nus e a consciência levemente ébria. Alegres como dois meninos, Ernest Hemingway e Gene Tunney trocavam golpes ludicamente, pelo prazer do exercício físico e da amizade.  O grande escritor americano era um notável entusiasta do boxe e, sempre que podia, desafiava algum pugilista de outrora para testar as suas habilidades. Tunney, por sua vez, era íntimo das rodas intelectuais. Letrado, ombreava-se sem problemas com figuras como, por exemplo, George Bernard Shaw, de quem inclusive era amigo.  Após destronar o mítico Jack Dempsey do posto de campeão dos pesos pesados, em 1926, Tunney definitivamente entrou para a história do esporte.  A segunda luta entre eles, no ano seguinte, foi marcada pela polêmica. Quando Dempsey derrubou o rival no sétimo assalto, os cem mil espectadores no Soldiers Field, em Chicago, entraram em êxtase. Nesse instante, talvez cego pelo desejo de vingança, o estupendo lutador não recuou para um canto neutro do ringue, o que acabou distraindo o juiz. Na confusão, Tunney ficou mais do que os dez segundos permitidos se recuperando e, posteriormente, venceu o combate por pontos. O episódio ficou conhecido como “a luta da longa contagem”.  

 

Algum tempo depois, Hemingway passou a receber Tunney com grande hospitalidade na sua casa, em Cuba. O autor de “O Velho e o Mar” gostava de ter um drink sempre pronto para brindar com o ex-campeão. No dia em que protagonizavam o estranho bailado sobre os tapetes da sala, Hemingway, de forma desajeitada e involuntária, acertou um golpe baixo. Tunney, que em seu auge tinha um estilo cerebral de lutar, foi tomado pelo instinto de esmurrar sem dó a face do anfitrião. Para sorte de Hemingway, o excelso pugilista conteve sua ira milímetros antes de acertar o alvo e a brincadeira acabou por ali mesmo. 

 

Durante as décadas de 1940 e 50, Mario Lanza gozou de imensa popularidade dentro do “showbusiness”. Além de ser um tenor da mais fina estirpe, Mario exibia seu talento em canções românticas nas telas do cinema. A sua interpretação de Enrico Caruso permanece até hoje na lembrança dos fãs da boa música e da sétima arte. Fazendo o papel do seu ídolo, Mario deixou fluir a potência, o lirismo e a paixão que emanava da sua voz.  A sua estampa impressionante, composta por largos ombros e um peito sempre estufado, explica-se pela devoção do cantor pelo boxe e pela cultura do corpo. É claro que na sua profissão de tenor ter uma caixa de ressonância avantajada contava muito. Mas o fato é que Mario foi, até o final dos seus dias, um lutador diletante. Não causa espanto, pois, a sua forte amizade com Rocky Marciano, o lendário e invicto campeão dos pesos pesados.  Além do esporte e da culinária italiana, admiração e respeito mútuo serviam de magneto entre eles. Certa vez, Mario recebeu Max Baer em sua casa. Também conhecido como “O Arlequim do Pugilismo”, Baer amealhou o cinturão da categoria máxima do boxe em 1934. Fiel ao seu apodo, o bravo campeão tinha uma veia humorística notável, sempre sorridente e disposto a entreter as platéias. Após beberem algumas taças de vinho, Baer gaba-se que Rocky não teria sido páreo para ele. Mario discorda, e as duas figuras começam a “treinar” na sala. Imitando o jeito de lutar agachado do amigo Rocky, o tenor acerta um gancho de esquerda, deixando o fanfarrão estirado sobre uma poltrona. 

 

Mãos pesadas e rudes podem produzir linhas belas e suaves sobre uma folha de papel. Eder Jofre, a glória maior do boxe brasileiro, é, também, um talentoso desenhista. Desde a sua infância, o virtuose dos ringues empunhou o lápis para traçar imagens de rara sensibilidade. Com a mesma desenvoltura com que fazia os rivais beijarem a lona, Eder impressionou nomes consagrados da pintura como, por exemplo, o grande artista cearense Aldemir Martins. Contudo, as façanhas esportivas acabaram por ofuscar a sua faceta, digamos, subjetiva. Em novembro de 1960, Eder enfrentou o mexicano Eloy Sanchez no Olympic Auditorium, em Los Angeles. Diante de um público na sua maioria hostil e personalidades como o ator Kirk Douglas e o genial peso médio Sugar Ray Robinson, Eder alcançou o topo da sua árdua caminhada dentro do boxe. As vitórias contra inimigos clássicos, como Ernesto Miranda e o perigoso Joe Medel, não tinham sido em vão. No sexto assalto prevaleceu a qualidade e a têmpera do “Galo de Ouro”. Uma combinação perfeita de golpes pôs o valente Sanchez a nocaute, desencadeando uma bonita festa em todos os cantos do Brasil. Finalmente Eder Jofre era campeão mundial!

 

Em um primeiro momento, o boxe pode parecer um esporte brutal. Porém, é preciso analisar a brutalidade como algo relativo. Afinal, quantas pessoas de físico esquálido e inofensivo possuem um caráter torpe e mesquinho, capazes de vilanias e desumanidades de todos os tipos? Por outro lado, até mesmo os artistas mais sublimes viveram o sonho e a magia de desafiar o medo e a dor. E deixar para trás, junto com o suor da luta, a raiva e a solidão que existem dentro da alma humana.

 


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23/04/2013 - 19h04min

Fogo no circo da pulga amestrada!

Extra! Extra! O circo da fabulosa pulga amestrada está em chamas! Também conhecido como FC Barcelona, o time da Catalunha arde na brasa quente, depois de sofrer uma implacável goleada pelo placar de 4 a 0 nas mãos do Bayern, em Munique. Espanto! Horror! Morbidez! A companhia mambembe liderada pelo argentino Lionel Messi pede desesperadamente por um bombeiro, uma mangueira, ou um balde de água para aplacar a sua desgraça.

 

A “pulga” em questão, um dos apelidos de Messi no mundo esportivo, literalmente não viu a cor da bola na partida válida pela semi-final da Liga dos Campeões da Europa encerrada há pouco. E, ainda que o futebol seja um jogo imprevisível, vai ser difícil para o Barcelona dar o troco no jogo de volta, semana que vem, no Camp-Nou. Estaria Messi sentindo alguma lesão recente? Ou será que a sua estrela resolveu se apagar de repente? Nem uma coisa nem outra. O que acontece é que para todo veneno existe um antídoto, e o circo montado pelo ex-técnico Guardiola no clube espanhol, onde o craque argentino rodava o campo inteiro trocando passes de forma mecânica  até aninhar a bola nas redes, parece ter perdido o encanto.  

 

As brigadas alemãs do comandante Jupp Heynckes executaram sua “blitz” sem piedade, de forma perversa até, destruindo o lindo sonho de Lionel e da imensa torcida do Barcelona ao redor do planeta. Um duro golpe para quem acreditava que o modelo de toques e mais toques empregado pelo clube azul-grená fosse uma espécie de redenção técnica, uma fórmula mágica destinada a mudar os paradigmas do futebol.

 

Entretanto, a “débâcle” espanhola também pode ser creditada na conta do próprio Messi. Um sujeito pacato e um baita jogador, mas que certa vez afirmou desconhecer quem foi Pelé, e tampouco ter interesse em sabê-lo. No mínimo, uma tremenda demonstração de empáfia desse rapaz que é uma máquina de fazer gols, mas que não é o melhor de todos os tempos, como pregam falsos profetas por aí. E sabem por quê? Porque falta um pouco de fantasia e latinidade em seu futebol. Hoje, quanta ironia, o castelo de gelo do pequenino e saltitante ás dos gramados acabou derretendo graças ao cinismo do Bayern, ele mesmo dono de um futebol feio e frio. Mas que vestiu a capa de demônio para atear fogo na decadente casa de espetáculos catalã. 

 

 


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20/04/2013 - 16h04min

Todo mundo ama alguém um dia

No futebol brasileiro de hoje, ninguém está jogando mais do que Seedorf e Zé Roberto. Os craques de Botafogo e Grêmio vem mostrando, a despeito da idade avançada para os padrões do esporte, uma classe estarrecedora, exibindo um repertório de passes, dribles e gols de fazer inveja a muitos garotos. Acredito que boa parte do sucesso desses veteranos e habilidosos atletas esteja no seu zelo com a saúde e na sua postura profissional, além, é claro, do dom natural em tratar a pelota com carinho.

 

Depois deles, eu incluiria no rol dos velhos virtuoses que continuam a barbarizar nos gramados o incomparável Ronaldinho Gaúcho. Agora com a malha do Atlético Mineiro, o funâmbulo e diabólico maestro do meio campo continua criando pequenas pérolas, ainda mais refinadas do que antes, quando deslumbrou o universo defendendo o Barcelona. Tratam-se de toques sutis, urdidos com malícia e uma terrível indiferença, movimentos artísticos que Messi, o jogador mais badalado da atualidade, teria sérias dificuldades em executar. 

 

É comum ouvirmos, nas conversas de bar sobre futebol, alguém reclamar que certos lances protagonizados por jogadores consagrados, que atuam em grandes clubes, recebem um destaque maior na mídia, em relação àqueles concebidos por um atleta anônimo que joga na segunda ou terceira divisão. Afinal, um golaço é um golaço, independente do seu autor. Acontece que existe uma coisa chamada “história” que, depois da passagem de um certo período de tempo, acaba por plasmar para a eternidade os craques de verdade. Por isso é que aqueles que conseguem apresentar uma performance de alto nível, mesmo quando o caminho da aposentadoria vai se aproximando, chamam tanto a atenção do aficionado esportivo, a ponto de cada jogo de Ronaldinho, por exemplo, ser uma atração à parte, um acontecimento imperdível para quem gosta de apreciar o bom futebol.

 

Por outro lado, muitas vezes o desprezo por quem já alcançou uma certa idade é evidente. Não temos respeito com nossos pais e avós, somos impacientes com quem tem dificuldades em se locomover e falar, como se nossa beleza física e nosso ímpeto juvenil nunca fossem terminar. Em 1964, o cantor americano Dean Martin, incomodado com a adoração do seu filho de doze anos pelos Beatles, tomou uma atitude drástica. Dean resolveu que iria tirar aqueles garotos cabeludos do topo das paradas. E assim foi. Com a canção “Everybody Loves Somebody”, Dean ultrapassou em popularidade o tema “A Hard Day’s Night” do quarteto inglês. A voz macia e envolvente de Dean ainda tinha força e apelo junto ao público, fazendo com que a mania do momento fosse esquecida, ainda que por alguns instantes.   

 

Nos versos do sucesso que desbancou os Beatles, Dean escancara a verdade inevitável da vida, dizendo que “todo mundo ama alguém um dia”. Um dia que não está necessariamente em nosso passado ou futuro, mas em cada manhã que nos levantamos e embalamos nossas esperanças de amor e felicidade. Ronaldinho, que certa vez foi chamado por Romário de “o último romântico do nosso futebol”, parece saber bem disso. Em seus chutes e cabeçadas existe uma emoção que não acaba, surgindo mansamente das profundezas da alma e das rugas que, cada vez mais, nascem em seu rosto.      

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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