09/06/2018 - 11h06min

Um goleador sem fronteiras

     Nos primeiros meses de 1941, um jovem chegava na recepção do Hotel Majestic para dar entrada como hóspede. O Majestic, projetado pelo arquiteto Theodor Wiederspahn, era uma das joias da paisagem urbana da Porto Alegre de então, com suas passarelas e arcadas passando por cima de uma alameda interna que dividia o prédio. Divididos ao meio, no melhor estilo Clark Gable, também eram os cabelos do jovem, que com determinação assinou o seu nome na folha timbrada do Majestic: “José Villalba”. Oriundo da bucólica província de Corrientes, na Argentina, Villalba chegava para ser o novo atacante do Internacional.  Mostrando que era predestinado, em seu primeiro Grenal com a camisa escarlate Villalba deixou a sua marca, ajudando o Inter a conquistar uma importante vitória pelo placar de 3 a 2.  Os outros gols colorados foram marcados pela formidável dupla Carlitos e Tesourinha, enquanto o valente Foguinho por duas vezes deu esperanças à torcida tricolor.

     Eram os anos do “Rolo Compressor”, e Villalba acabou por se encaixar como uma luva no quinteto de ataque que sintetizou o espírito imbatível daquela equipe. Como se fosse um poema, velhos e crianças recitavam de cor a terrível formação que demolia sem piedade as defesas adversárias: Tesourinha, Russinho, Villalba, Rui e Carlitos. Sempre bem posicionado, Villalba aproveitava os cruzamentos de Carlitos e Tesourinha, empurrando o couro para o fundo das redes com destreza e picardia. Apesar da sua baixa estatura, o artilheiro argentino tinha uma impulsão fora de série, fazendo muitos gols de cabeça. Após passagens por Palmeiras e Atlético Mineiro, em 1947 Villalba retornou ao Inter para ser o protagonista de um momento indelével na história do clube. Em setembro de 1948, o Inter obteve a sua mais expressiva vitória dentro da antologia dos clássicos contra o seu velho rival. Na ocasião, apenas Villalba marcou quatro vezes, e o goleiro Sergio ainda buscou mais três bolas no fundo da sua rede. Incapaz de deter as malignas ofensivas do escrete colorado, o Grêmio terminou goleado pelo placar de 7 a 0, resultado que deu origem a comentários de espanto e admiração nos cafés da Rua da Praia.

     Em 1954, Villalba encerrou a carreira vestindo a camisa do Rio Grande. Depois de viver por mais de uma década na cidade portuária, o antigo atacante acabaria voltando para Porto Alegre e para o Internacional. Agora atuando nos bastidores, Villalba exerceu a função de chefe da concentração, zelando e orientando as novas gerações de craques colorados. Em seus momentos de lazer, Villalba gostava de colocar na vitrola discos de Roberto Carlos e Mercedes Sosa. Sentado em sua poltrona, no conforto do lar, o velho craque degustava as coisas simples da vida, a família, a música e o sabor do seu cachimbo. Outra das suas paixões eram os carros. Com o mesmo capricho com que finalizava as ações do ataque colorado em seus tempos dourados de atleta, Villalba gostava de manter a sua Caravan marrom sempre limpa e brilhante.

     Quando Tesourinha morreu, Villalba ficou triste. Parceiros dentro de campo, os ídolos colorados foram também amigos ao longo da vida. Caminhando pela Rua da Praia, ou passando em frente ao Hotel Majestic, Villalba lembrava do passado, e de como Tesourinha tinha sido uma figura leal, lhe recebendo de braços abertos em seus primeiros dias no estádio dos Eucaliptos. Por um instante, as façanhas do “Rolo Compressor” surgem em sua mente outra vez.  Apesar dos desafios e mistérios da metrópole, a estrela daquele jovem campesino brilhou com força, fazendo com que Villalba se tornasse o maior goleador estrangeiro a vestir a camisa colorada em sua rica história. Por 153 vezes ele fez enrouquecer a garganta da torcida, superando craques como o seu conterrâneo D’Alessandro, Rubem Paz e Figueroa.  Uma senda de gols impressionante, que permanece viva com suas nuances de saudade, beleza e fantasia.

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá, Lúcio Este eu vi jogar. Nem sei como definir este craque! Maravilhoso!. Extraordinário! Tua crônica define tudo. Parabens! Saudades do rolo compressor.

Saretta - Cara Doris, que bom que você gostou! Para mim é uma satisfação e uma honra retratar, embora sem ter vivido aquela época, uma figura tão relevante para a história do futebol gaúcho, além de excelente pai e ser humano. Um abração!

Doris Villalba - Meu amigo, fiquei muito emocionada com a homenagem e de lembrar do meu pai em momentos de glória da carreira que ele trilhou com muito amor. Lindas palavras, belas lembranças! Maravilhoso! Só posso te dizer: obrigada! Que Deus te abençoe sempre! Bjsd


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.