02/06/2018 - 12h06min

Explosivo coquetel

     Frequentar redes sociais pode ser um passatempo indigesto. Quando o assunto é futebol, e opiniões são paridas no calor da paixão, a decepção pode ser ainda maior. Raramente encontramos algum posicionamento sensato, feito a partir do labor sereno da ponderação. O explosivo coquetel formado por fanatismo e ignorância, na maioria das vezes, acaba produzindo apenas lixo, ódio e virulência.

     Dentro desse mar de lama eletrônico existe um argumento recorrente entre aquele torcedor que tenta, de todas as formas, diminuir o rival. Segundo a lógica engendrada por essa perversa e cínica criatura, é permitido reescrever a história.  De acordo com os seus detratores, o Inter, por exemplo, teria “nascido” para o mundo em 2006, ano em que botou em sua estante as taças de campeão da Libertadores da América e do Mundial de Clubes. Por outro lado, nas refregas posteriores ao mais recente jogo entre Flamengo e Inter, um torcedor colorado pariu uma pérola reluzente, típica da provocação rasteira que impera no vácuo das redes sociais. Para meu espanto, o sujeito afirmava que o Flamengo só teria existido a partir da chamada “era Zico”. Nada mais falso.

     Levantemos o manto de olvido para amansar a feroz ignorância desse torcedor. Um dos primeiros esquadrões vencedores do Flamengo, responsável em popularizar e atrair aficionados para a causa rubro-negra ao redor do país, foi aquele formado em 1939. O técnico Flavio Costa dispunha de nomes de valor inestimável no elenco, como Leônidas, Domingos e os argentinos Volante, Valido e Gonzalez. O título carioca daquele ano foi o primeiro conquistado pelo Flamengo na era do profissionalismo. Essa façanha, aliada ao carisma de Leônidas e a classe estarrecedora de Domingos, fez com que a equipe de 1939 permanecesse de forma indelével no relicário afetivo dos torcedores rubro-negros. 

     Quando Leônidas foi para o São Paulo, o jovem armador Zizinho surgiu como o novo timoneiro da nau flamenguista. Enquanto bombas voavam sobre a Europa, um time fantástico estarrecia os admiradores do nosso popular esporte. Além de Zizinho, craques de raro esplendor vestiam a malha rubro-negra naqueles tempos. Domingos continuava firme na zaga, protegendo a famosa linha média formada pelo trio Biguá, Bria e Jaime. No ataque, a potência goleadora de Perácio e a astúcia de Pirilo eram trunfos decisivos na hora de definir as partidas para o time do técnico Flavio Costa. Embora Vasco e Fluminense contassem com notáveis conjuntos, quem dava as cartas na cidade do Rio de Janeiro era o Flamengo, vencedor do tricampeonato carioca de 1942, 43 e 44.

     Na década de 1950, a chegada do técnico Fleitas Solich coincidiu com uma nova leva de craques e alegrias para o torcedor. Sob o comando do folclórico “feiticeiro da Gávea” o Flamengo conquistou o seu segundo tricampeonato carioca, entre os anos de 1953 e 55. Os personagens dessa nova epopeia rubro-negra foram, entre outros, o ponteiro-direito Joel, o meia Rubens e o atacante Evaristo. Domingo após domingo, as arquibancadas do jovem estádio do Maracanã hospedavam a maré carnal que agitava suas bandeiras em estado de êxtase com as atuações do seu time.

     Seria bom se acordássemos para o fato de que, assim como Inter e Flamengo, todos os times têm um passado e histórias para contar. Infelizmente, temos a tendência de desprezar os craques de antigamente. Além disso, é da natureza humana se apegar apenas aos times exitosos, esquecendo cinicamente dos atletas que, mesmo tendo derramado sangue e suor pelas cores do seu clube, terminaram sem o ansiado galardão da vitória.  Ah, como seria bom se no copo de raiva e retaliação que existe nos botecos virtuais fosse servida uma dose do elixir amargo que só a derrota é capaz de produzir! Um remédio forte e desagradável, mas capaz de curar a alma ferida pelas garras frias da fúria e do obscurantismo.

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá, Lúcio. Concordo inteiramente contigo. Em minha infância acompanhava com veneração as narrações pelo rádio. Jornais e revistas também enalteciam aqueles craques, sem altos salários, sem mordomias mas com garra defendiam as cores de seus clubes.Além dos que citaste, acrescento Tesourinha , do Inter; Oberdan, do Pal-meiras; Ademir Menezes "queixada", do Vasco; Nilton Santos, Yustrich, para lembrar alguns.Boa crônica


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.