13/01/2018 - 12h53min

O cavalheiro em extinção

     Ouço dizer que a figura do cavalheiro está fora de moda, e irremediavelmente fadada ao sumiço. Para cúmulo, em parte a derrocada dessa nobre e antiga figura pode ser atribuída às próprias mulheres, que não querem mais que lhes abramos a porta do carro ou lhes puxemos a cadeira no restaurante. De fato, parece que uma nova ordem, pautada por um distanciamento respeitoso e abjeto, esteja em voga, quando o assunto é a convivência entre homens e mulheres na sociedade atual. Obedecendo a um padrão recorrente e perverso, os bons acabam pagando pelos maus, e o galanteador íntegro está sofrendo as consequências dos hediondos casos de assédio perpetrados por canalhas e bufões.  

     Dentro do âmbito esportivo a situação é semelhante. Há muito tempo o cavalheiro é um personagem raro, como se fosse um animal em extinção, ou um item de museu. Entretanto, tal personagem existiu de fato, vicejando, curiosamente, em modalidades de natureza rude e brutal. Jack Dempsey, campeão mundial dos pesos-pesados entre os anos de 1919 e 1926, era um lutador destemido e sagaz, além de extremamente popular nos Estados Unidos. Quando soava o gongo, Dempsey tinha ares de um assassino incontrolável, distribuindo golpes fulminantes com uma ferocidade fora do comum. Contudo, depois que a sua mão esquerda nocauteasse o rival, com um gancho na mandíbula ou no abdômen, toda fúria imediatamente se desvanecia. Com a cordialidade de um genuíno cavalheiro, Dempsey ajudava o perdedor a se levantar, guiando-o em seus braços até o canto do ringue. Só depois haveria espaço para uma eventual comemoração. Embora essa prática fosse comum na época, não podemos tirar os méritos de Dempsey, que com o seu gesto singelo influenciou até mesmo nomes da era moderna do esporte, como Mike Tyson.

     Muitas vezes um jogo ainda mais violento que o boxe, o futebol também produziu em suas entranhas vultos de rara nobreza e fidalguia. Talvez o mais emblemático representante dessa estirpe tenha sido o inglês Stanley Matthews. O seu espírito combativo e leal fez do ponteiro-direito uma síntese da palavra “esportividade”. A sua carreira dentro dos gramados se estendeu por um longo período, e quando Matthews finalmente pendurou as chuteiras seu corpo bem cuidado e sua alma humilde tinham conhecido mais de cinquenta primaveras.  Em 1965, Matthews foi o primeiro jogador de futebol a receber o título de “sir”. Em suas memórias, o fabuloso atacante revelou que, embora lisonjeado, no momento em que era condecorado pela rainha não pôde deixar de pensar que talvez existissem pessoas mais valorosas do que ele, como  os enfermeiros e professores anônimos que se dedicam a erradicar a dor e a ignorância dos necessitados, para receber o galardão.  Um “gentleman” na acepção da palavra, Matthews foi também um herói, estimulando sonhos e cativando os admiradores do esporte que, certa vez, foi definido por um seu conterrâneo como “o balé do homem trabalhador”.

     Embora tendo nascido em terras distantes do velho mundo, Aírton Ferreira da Silva foi um beque majestoso, dono de raras qualidades técnicas e fleuma capaz de causar inveja a qualquer cavaleiro da rainha.  Provavelmente o maior jogador da história do Grêmio, em que pese o seu ofício de zagueiro, Aírton “Pavilhão” era incapaz de uma jogada desleal. Tendo defendido o tricolor no lapso em que o clube conquistou doze títulos gaúchos entre treze disputados, Aírton era conhecido pela facilidade assombrosa com que controlava a pelota. Mais do que evitar, de forma racional, o contato violento, é consenso entre especialistas que o beque de porte alto e elegante simplesmente não sabia dar carrinho, porrada ou pontapé.  Ficaram famosos os seus duelos contra Pelé e Puskas, sem que tenha havido qualquer nódoa que maculasse as atuações de Aírton. Pelo contrário, ao enfrentar o meia santista Aírton teria, inclusive, aplicado um drible de letra, durante determinado treino da seleção brasileira. Contra o “major galopante”, em partida contra o Real Madri realizada na França, em 1961, o beque gremista teve a perspicácia de evitar o bote, tática que confundiu Puskas, acostumado a enfrentar defensores afoitos e truculentos.

     É bom que se diga que mesmo o mais valoroso cavalheiro costuma apresentar traços de pequenas extravagâncias em seu caráter, teoricamente incompatíveis com a condição honrada e altaneira que deles se espera. Aírton, por exemplo, teria despontado para o futebol impulsionado por um sentimento pouco edificante. Torcedor do Inter na infância, o beque não pôde suportar a humilhação de uma goleada, infligida pelo clube colorado,  quando defendia o modesto Força e Luz de Porto Alegre. Cego pelo desejo de vingança, Aírton não tardou em se aliar às hordas tricolores, traindo, assim, um velho e não correspondido amor. Sir Stanley Matthews, por sua vez, tinha o hábito nada pueril de provocar o próprio vômito antes de partidas importantes. Segundo ele, essa providência, ainda que repugnante, seria uma espécie de lenitivo contra a ansiedade. Quanto a Jack Dempsey, existe um aspecto pouco usual da sua vida afetiva capaz de causar desconforto em mentes mais puritanas, tendo em vista que, durante um curto período antes de alcançar fama e fortuna com o boxe, o campeão foi casado com uma prostituta de Salt Lake City.

     Como podemos ver, sentimentos distintos e conflitantes, bailando como sombras entre o vil e o varonil, habitam as profundezas da alma dos cavalheiros do esporte e da vida. Infelizmente tais criaturas, portadoras de uma forma de beleza misteriosa em sua essência, se encontram em franco processo de desaparecimento, arrebatadas pela velocidade e a fluidez das relações humanas e suas absurdas convenções. 

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá, Lúcio Excelente crônica. Apesar dos "modernismos", ainda há os que, por terem boa educação, praticam o cavalheirismo. Assim como os exemplos citados, ainda existem desportistas que praticam estas virtudes . O "fair play" nada mais é do que educação e cavalheirismo. Infelizmente nem todos agem assim. Havia no Brasil um reconhecimento aos atletas que praticavam o esporte com lealdade. Tratava-se do Prêmio Belfort Duarte .Sobre isso, valeria outra crônica. Parabens


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.