12/12/2017 - 15h12min

Inequívocas demonstrações da imbecilidade humana

     Com a recente conquista do tri-campeonato da Libertadores da América pelo Grêmio, os tempos são propícios para o caos. O que temos visto nas ruas, bares, corações e mentes é o desvelar de um estado de espírito raivoso e grotesco. A besta está solta, correndo livre pelo asfalto, pronta para morder distintos cidadãos inocentes. De fato, na sequência dos jogos envolvendo a epopeia tricolor, o cenário que se descortina tem algo de dantesco e fabuloso: foguetes espocam madrugada adentro, carreatas e buzinaços tomam conta das avenidas da cidade, e a cada gol marcado urros  monstruosos são ouvidos no apartamento do vizinho. Bêbados dominam as praças, e fanáticos torcedores instauram um estado de sítio e loucura subjugando a sociedade indefesa.  Ao sujeito que não acompanha as notícias do futebol, resta apenas o assombro, a inércia e a dúvida: terá começado a terceira guerra mundial?

     O achincalhe entre as torcidas de Grêmio e Inter ultrapassa os limites do razoável, transformando as redes sociais em uma terra de ninguém. Após cada jogo, o frenesi coletivo ganha ares de drama e mistério. Como uma maré doentia, a procedência da flauta e do foguetório oscila morbidamente, permeada pela troca de provocações entre tricolores e colorados. Slogans e campanhas publicitárias são criados a toque de caixa, milhões de reais trocam de dono, ofensas gratuitas se espalham como um rastilho de pólvora, estremecendo amizades e levando o escárnio a níveis rasteiros e estratosféricos. Enquanto isso, o demônio da discórdia apenas ri, encastelado em sua dimensão paralela e nauseabunda. O ódio e o rancor se apresentam como os sentimentos reinantes, fazendo com que a vitória olímpica seja despida do seu significado original, servindo como um reles estopim para encurralar e menosprezar o outro. Raros são aqueles que torcem de uma maneira digna e elegante, raros são os que reconhecem os méritos do oponente que coloca um caneco em sua prateleira.

     Alguns argumentarão que a graça do futebol é justamente a gozação e o tripúdio às custas do rival. Se pararmos para pensar, essa lógica perversa está presente também no cotidiano alheio às questões esportivas. De um modo sub-reptício, estamos mais preocupados com a vida do próximo do que com os nossos próprios assuntos. A harmonia conjugal, o sucesso profissional, as viagens internacionais e o carro novo do vizinho na garagem têm o poder de nos transformar em seres macambúzios e mesquinhos, fazendo com que a nossa rotina seja um círculo vicioso de competição e tristeza. Voltando aos relvados onde é praticado o velho e violento esporte bretão, a derrota não é uma opção, e a conquista dos louros da vitória dá lugar a uma miríade de vingança, luxúria e atrocidades diversas, comparáveis àquelas perpetradas por tiranos e déspotas em geral.

     Talvez não percebamos, mas o fato é que vivemos dias estranhos, repletos de demonstrações inequívocas da imbecilidade humana, em que a plebe, mas não só ela, alcança a felicidade de um modo tão fácil quanto constrangedor.

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá, Lúcio Perfeita a análise. Situações como esta nos levam a pensar como o ser humano é inconsequente. Graças a Deus não são todas as pessoas.Mas a arrogância e a inveja de quem acha que tudo pode deslustram não só o esporte como o dia a dia das pessoas, já tão dificil. Parabens!


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.