23/09/2017 - 10h09min

Um fantasma dormindo no porão

     As eliminatórias sul-americanas para a Copa da Rússia de 2018 se aproximam do final, e a seleção argentina ainda não carimbou o seu passaporte para o torneio. A campanha do time bicampeão mundial está longe de empolgar, e, para evitar um vexame ainda maior, os dirigentes apelaram para uma saída de contornos mágicos. O jogo contra o Peru foi marcado para o estádio da Bombonera, onde, teoricamente, a torcida exerce uma pressão maior do que no Monumental de Núñez, o palco geralmente usado pela seleção celeste e branca em Buenos Aires. Trata-se de uma solução cabalística para um problema prático, tendo em vista que, dentro de campo, serão sempre onze contra onze.

     Parece que a lembrança de uma remota partida contra o mesmo rival, no mesmo estádio, não assusta o técnico Sampaoli e seus discípulos. Em agosto de 1969, após empatar com o Peru pelo placar de 2 a 2, a Argentina foi eliminada de uma Copa do Mundo pela primeira e única vez em sua história.  Na ocasião, nem mesmo a ebulição de uma Bombonera lotada de fanáticos “hinchas” foi capaz de conduzir o time à vitória.

     Levantemos o manto de olvido sobre esse jogo marcante, que convulsionou, para o bem e para o mal, duas nações. No comando do esquadrão peruano, observando com olhar sereno desde o banco de reservas, um velho conhecido nosso aguarda o início da partida. Didi, agora no papel de técnico, precisava de apenas um empate para levar seus pupilos para a Copa do México, no ano seguinte. Envergando a jaqueta branca com a tradicional listra vermelha diagonal, nomes como Chumpitaz, León e Cubillas fariam de tudo para alcançar o acesso ao mundial. Do outro lado, Adolfo Pedernera tinha, além do grito rouco e louco das arquibancadas a seu favor, um time composto por figuras de grande gabarito, como Perfumo, Marzolini, Albrecht, Brindisi e Pachamé. Pedernera havia sido, como jogador, o cérebro de “La Máquina”, o fabuloso time do River Plate dos anos 1940. A sua presença na beira do gramado era motivo de esperança para o torcedor, sempre ansioso em ver a seleção atuando com espírito de luta e galhardia.

     Mas, assim como nos dias atuais, a equipe argentina era um conjunto opaco, de pífias apresentações, e nem mesmo a estrela de Pedernera pôde impedir a derrocada celeste e branca. O verdugo da seleção anfitriã foi o ponteiro-esquerdo Oswaldo “Cachito” Ramírez, que por duas vezes soube aproveitar o contra-ataque para depositar o couro no fundo das redes do bom goleiro Cejas. De forma cavalheiresca, ao final da partida os torcedores portenhos aplaudiram a equipe peruana, apesar do gosto amargo da desilusão. O Peru finalmente disputaria uma Copa do Mundo, concretizando um dos maiores feitos da sua história futebolística. Para Pedernera e companhia a tarde deu lugar a uma noite funda e desolada. Uma cortina de veludo negro cobriu os prédios da cidade, e os seus habitantes tiveram que adiar, pelos quatro anos seguintes, seus sonhos de glória e conquista. 

     Agora, quase cinquenta anos depois, o cenário e os protagonistas se repetem, em uma espécie de reencarnação de um duelo de vida ou morte. Apesar de ter excelentes valores individuais, como Messi e Dybala, a equipe do técnico Sampaoli parece perdida, sem rumo ou padrão de jogo. O Peru, por sua vez, virá a Buenos Aires sem nomes famosos em seu elenco, mas a verdade é que Guerrero e sua trupe formam um quadro harmonioso, e nada impede que o time possa voltar a disputar uma Copa do Mundo, algo que não acontece desde 1982.

     A sorte está lançada, e a mítica Bombonera vai rugir novamente. Para o bem da seleção argentina, contudo, é melhor que o cântico que emana desde a alma do torcedor seja entoado em um volume um pouco abaixo do costumeiro, sob o risco de acordar velhos fantasmas do futebol.

 



Comentários postados


LHS - Olá, Tiago, obrigado pelo comentário! Abs!

Tiago Sozo Marocon - Baita crônica, Lúcio! Que massa esse garimpo de possível um espelhamento no tempo e no espaço...bah, e que personagens e em que cenário hein, Buenos Aires, La Bombonera, o futebol e toda essa força que ele exerce sobre nossas atenções e afetos...


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.