09/09/2017 - 10h09min

Fúria e megalomania

     Chama a atenção a megalomania das campanhas de marketing que certos clubes de futebol têm criado ultimamente. O Grêmio se auto intitulou “o imortal tricolor”, como se o seu time fosse uma espécie de divindade incapaz de ser derrotada, e seus jogadores fossem heróis de uma epopeia mitológica e mirabolante. O Internacional foi ainda mais longe, cunhando para si a alcunha de “o campeão de tudo”. Esse exercício de arrogância revela uma face triste e tacanha da mentalidade propagada pelas direções e cegamente absorvida pelos torcedores.

     Voltando ao caso do Inter, chega a ser constrangedora a pretensão de que um clube de futebol possa ser “campeão de tudo”, tendo em vista a quantidade e variedade de torneios disputados ao longo da sua história. Logo de cara lembramos da Taça Brasil e do Robertão, precursores da Copa do Brasil e do campeonato brasileiro, como exemplos de canecos que não constam nas cristaleiras coloradas. Por mais que seja boa a intenção em querer ressaltar os grandes feitos da trajetória vencedora do clube, no final o suntuoso apelido soa como uma fraude, revelando uma total falta de criatividade e humildade.

     No futebol e na vida a cautela é uma virtude das mais importantes, e diz o ditado que “quem tudo quer, tudo perde”. Recentemente o Internacional perdeu um dos seus maiores predicados, para a torcida equivalente ao valor de mil troféus. O fato do clube nunca ter caído para a segunda divisão do campeonato brasileiro era uma amostra inequívoca do gabarito superior do time colorado, uma das joias mais preciosas da sua coroa, que permanecia intacta desde que o torneio passou a ser disputado, em 1971.  Essa condição invejável não existe mais, pois o Inter caiu, com o estrondo de um gigante, e nesse momento experimenta o gosto amargo de atuar em relvados de menor prestígio e expressão.

     Além disso, nos últimos dias o Inter esteve ameaçado de perder outra láurea de valor inestimável. A condição de “o único campeão brasileiro invicto” esteve seriamente em perigo, tendo em vista a campanha fora de série realizada pelo Corinthians na primeira divisão do nosso futebol. O temor de mais uma perda devastadora para a sua já combalida autoestima assombrou a torcida como um fantasma real, rodada após rodada, até que o time bandeirante, que avança como um trem desgovernado em direção ao título, acabou tropeçando frente ao Vitória.  Rapidamente o medo se transformou em prepotência, e os fanáticos colorados puderam, mais uma vez, jactar-se pelo fenomenal título de 1979, quando a equipe do técnico Ênio Andrade levantou a taça sem conhecer o sabor da derrota.

     Coincidência ou não, foi a última vez que o Inter logrou dar a volta olímpica dentro de um campeonato brasileiro. Copas de outra grandeza, como a Libertadores da América e o Mundial Interclubes, foram conquistadas durante o período, enchendo a torcida de alegria e satisfação. Mas quando o assunto é o certame nacional, o jejum de títulos parece ser um calvário intransponível para os aficionados rubros. Para piorar, veio o rebaixamento, jogando o clube em um limbo de sombras e purgações.

     É verdade que o time do técnico Guto Ferreira provavelmente voltará à elite do futebol brasileiro em 2018. Mais do que isso, o próprio caneco da série B poderá ser amealhado, fazendo com que o clube acrescente uma conquista inédita ao seu cartel. De qualquer maneira, talvez o que realmente importe nesse momento seja a retomada de uma postura de serenidade e introspecção. Antes de vibrar com epítetos fabulosos e bater no peito com fúria animal, bradando que “time grande não cai”, o torcedor e os mandatários do clube bem que poderiam agir com um pouco de bom senso.

     Afinal, mais vale ser campeão de alguma coisa do que ser campeão de tudo.

 



Comentários postados


Tiago Sozo Marcon - Bah, lapidar, velho!


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.