26/08/2017 - 13h08min

O ralo da nossa humanidade

     De tempos em tempos, a humanidade atravessa mudanças radicais na sua maneira de se expressar e ler o mundo. Depois dos desenhos feitos a mão em cavernas, vieram os pergaminhos e hieróglifos egípcios. Um pouco mais tarde, os livros manuscritos capturavam o conhecimento, mas eram disponíveis para poucos nas bibliotecas escuras da Idade Média. Com o surgimento da imprensa de Gutemberg, o mundo foi convulsionado de forma irreversível, e o suporte físico de leitura foi configurado do modo como ainda o conhecemos hoje em dia. Entretanto, o advento da internet sacudiu o planeta novamente, inclusive ameaçando o longo reinado do livro de papel como o modo mais rápido e prático de obter lazer e informação.

     Prodígios como o notebook, tablete e telefone celular assumiram uma importância descomunal na rotina das pessoas, domesticando-as como se elas fossem mansos animais. Essa dependência e fidelidade canina se justificam, na medida em que as novas tecnologias proporcionam agilidade na comunicação, facilitando o trabalho de bilhões, viabilizando a pesquisa científica, democratizando o acesso à educação, entre uma série de outros benefícios relativos ao conforto e ao incremento da qualidade de vida dos habitantes da Terra.

     Por outro lado, acabamos perdendo um pouco a autonomia sobre os nossos atos. Cada vez que decidimos abrir o Twitter ou o Facebook, estamos agindo em razão de um instinto, de uma emoção pueril e incontrolável. Eis aí um perigo real, uma armadilha da qual é difícil escapar. O conteúdo raso encontrado nas páginas virtuais fez com que o cartunista Ziraldo certa vez classificasse a internet como “o antro do débil mental”. De fato, a informação encontrada nos labirintos dos sítios eletrônicos disponíveis é de um teor duvidável, diluído e fatalmente inútil, oferecendo ao navegante cibernético muito mais do que ele precisa.  Essa fartura, que supostamente concentra todo o conhecimento humano dentro de um objeto que cabe no bolso, na verdade acaba por aprisionar ao invés de libertar, reduzindo ao invés de ampliar os horizontes daqueles que, cegamente, transformam o aparato digital numa espécie de santo.

     A própria maneira como nos relacionamos foi hipotecada dentro do caldeirão febril das redes sociais. A obsessão doentia em perscrutar a vida alheia, bem como a ânsia em penetrar na intimidade do outro, ao mesmo tempo em que oferecemos a nossa própria em uma bandeja, apontam para uma inversão de valores nunca vista anteriormente. Enquanto isso, o mundo lá fora nos espera, aflito e desprezado.  O tempo que costumávamos passar caminhado pela cidade, olhando as estrelas, lavando o carro, fazendo um bolo, escrevendo poemas, andando de bicicleta, jogando bola, costurando, vendo um filme, fazendo a manutenção da casa, cultivando a horta, pescando, contemplando a natureza, rezando, indo ao teatro, amando, ou simplesmente pensando, agora é consumido freneticamente sobre a tela fria que passa sem parar perante os nossos olhos anestesiados. O ambiente virtual, com a sua enganosa promessa de felicidade, se transformou no ralo, no funil que devora os minutos da nossa já breve estadia nesse mundo, consumindo a nossa própria humanidade.

     Podíamos ser pobres, infelizes no amor e desiludidos com a situação do nosso país, mas sempre havia o tempo para parar e abrir um livro antes de dormir. Mergulhando nas páginas de um romance, de uma biografia ou de um volume de contos, alguém tinha a oportunidade de conversar consigo mesmo, de um modo profundo e prazeroso, e essa possibilidade era algo que ninguém podia tirar de nós...até agora.

 



Comentários postados


Lúcio - Verdade, Antônio! Obrigado pelo comentário!

Antonio Bauer - Olá, Lúcio. Concordo plenamente contigo. Se a Internet, por um lado, possibilita acesso rápido à informações úteis, por outro, empurra avassaladoramente a população à mais violenta perda de tempo em futilidades. Quanto aos livros em papel- a boa leitura- estatisticas mostram que está longe de desaparecer. Nem tudo está perdido. Ótima crônica.


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.