19/08/2017 - 11h14min

Uma guerra tão vazia

     A recente declaração de Maradona, afirmando ser “um soldado a serviço de Maduro”, provocou destemperadas e imediatas reações entre os seus pares futebolistas ao redor do planeta. O ex-goleiro Chilavert ironizou a questão, lembrando do fato de Maradona, apesar de se manifestar contra o imperialismo, viver de modo nababesco em Dubai.  

     Entretanto, o contragolpe mais forte partiu de Mario Kempes, o artilheiro da seleção argentina na Copa do Mundo de 1978. Através da uma rede social, Kempes, visivelmente indignado, perguntou a Maradona como ele podia apoiar um regime que matou, até agora, nada menos do que 124 jovens contrários a Maduro, dentro da triste onda de violência e indefinição que assola a Venezuela.  Para cúmulo, Kempes finalizou a sua manifestação com um rotundo “não à ditadura!”.

     Imediatamente o caçador virou a caça, e milhares de internautas passaram a contestar o antigo craque do Rosario Central. Afinal, Kempes foi uma das peças chaves na conquista do título de 1978, período em que o país vizinho estava, ele próprio, mergulhado em uma sinistra ditadura.  Para muitos, Kempes teria sido conivente com a situação, já que a conquista do caneco serviu como uma cortina de fumaça, alienando ainda mais o povo em relação ao real estado de tirania instalado nas ruas. Rapidamente, Kempes resgatou uma reportagem da época, onde ele afirmava que os seus gols “eram para a Argentina, e não para Videla”, de uma certa forma encerrando o assunto.

     Passada a euforia de 1978, o técnico Menotti também foi duramente criticado. Teria sido ele culpado ou inocente por participar do triunfo que ajudou a fortalecer os quartéis de Buenos Aires?  É evidente que “el flaco” sabia do que estava acontecendo nos porões vizinhos ao estádio Monumental de Nuñez, onde, inclusive, torturas aconteciam concomitantemente aos jogos da seleção. Mas Menotti teve que optar entre assumir a responsabilidade, ocupando o cargo que ele havia conquistado através de um trabalho honesto, ou deixá-lo nas mãos de outro profissional qualquer. Além disso, é provável que o técnico acreditasse, com uma boa dose de convicção, que a vitória final, mesmo que fosse utilizada como propaganda pela ditadura, seria uma forma de aliviar o sofrimento do povo, e ele não hesitou em colocar em prática as suas ideias e esquemas táticos. No fim, o sonho futebolístico falou mais alto, e Menotti fechou os olhos cinicamente para a infâmia da opressão.

     A verdade é que a política e os governos costumam vampirizar o futebol, e não o contrário. Em 1970, o Brasil de Pelé, Tostão e Rivelino estava empenhado em alcançar a classificação para a Copa do México.  Na ocasião, João Saldanha cunhou uma frase lapidar, capturando a essência da incompatível relação entre futebol e política. Quando o presidente Médici se atreveu a sugerir a inclusão de determinado atacante da sua preferência no time de Saldanha, o técnico foi cirúrgico: “eu não escalo o ministério, e o presidente não escala a seleção”. Bingo!

     Todo cidadão tem o direito de externar as suas posições políticas e ideológicas.  Entretanto, a condição de figura pública, com todos os privilégios que a fama acarreta, acaba fazendo com que certas declarações, ao invés de contribuir, acabem por empobrecer o debate. Nada mais pedante do que o artista que desce do palco para dar a sua opinião sobre tudo, acirrando ânimos de modo inconsequente e vazio.  A incoerência resultante dessa guerra de palavras pode atingir níveis extremos, como no caso do jornalista político que colocou em xeque a competência de Lobão enquanto músico, apenas por divergir do posicionamento ideológico deste. Não seria melhor se o jornalista fizesse jornalismo, o músico fizesse música e o jogador jogasse bola?

     A militância de figuras como Maradona, além de produzir uma espécie de samba do crioulo doido midiático, espelha um lado triste do ser humano, eternamente preso em sua ânsia quixotesca de mudar o mundo.

 



Comentários postados


José Walter - Crônica perfeita. E o Maradona que se mude para a Venezuela.


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.