29/07/2017 - 11h07min

Campeões do ridículo

     Quando eu soube que Michael Phelps apostaria corrida contra um tubarão branco, percebi que o homem continua sendo um tipo estranho, triste admirador de cenas bizarras e brutais. Phelps, ao aceitar o desafio, sabia que não iria correr riscos, já que a prova não seria feita nadando de forma simultânea com o tubarão. Mesmo assim, a mórbida atração pelo evento atingiu milhões ao redor do planeta. A iniciativa de realizar a corrida partiu de um canal de televisão, o Discovery Channel. No fim, a besta marinha e a maravilha humana, campeão olímpico dos mais ilustres, recordista de pódios e louros, protagonizaram um duelo nas águas que, apesar do seu aspecto pouco convencional, pode ter tido algum mérito científico, além daquele puramente teatral.

     O tubarão foi mais rápido, tendo percorrido 100 metros em 36,1 segundos, contra 38,1 atingidos por Phelps. O que chama a atenção é a ânsia do ser humano em desbravar as fronteiras do espetáculo e do perigo, apelando para um tipo de promoção de gosto duvidável. Ao tentar competir com uma criatura irracional, o homem não estaria se tornando mais irracional do que o próprio bicho? Curiosamente, o instinto dominador da raça humana, e a sua predileção pelo lado grotesco da ribalta permanecem intactos em pleno século XXI.

     As piscinas e raias olímpicas forjaram, antes de Phelps, outra figura vencedora e carismática, que também participou, ainda que inocentemente, das maquinações e fantasias do homem para controlar a natureza. Johnny Weissmuller foi um nadador que buscou o esporte como panaceia para uma doença adquirida na infância. O rapaz não só se curou, como se tornou um grande campeão, sobretudo nas Olimpíadas de 1924 e 28, quando ganhou várias medalhas de ouro. Aposentado como atleta, Weissmuller, que era de origem austro-húngara mas competia pelos EUA, tornou-se um ator famoso, interpretando o personagem Tarzan no cinema.  O seu físico avantajado, o tronco e os membros largos, com certeza foram vitais para que Johnny conseguisse o papel.

     Enquanto o seu dublê lutava contra um leão velho e desdentado, Weissmuller aguardava a hora de entrar em cena. Crocodilos, gorilas, tigres e feras em geral não eram páreo para o rei das selvas. O espetáculo deprimente e selvagem, onde Tarzan era retratado como um mero brutamontes desagradava o criador do personagem, Edgar Rice Burroughs. De fato, nos livros do escritor americano Tarzan era um cara inteligente, civilizado e culto. Além de ter imortalizado o grito de Tarzan nas telas cinematográficas, Weissmuller conquistou muitos fãs, sendo o ator mais identificado, dentro do imaginário popular, com o personagem, que teve outros intérpretes através da história.

     A vida é um circo, e a mágica não pode parar jamais! Tony Galento era dono de um bar em Orange, Nova Jérsei, antes de se dedicar ao boxe. A sua persona sempre teve algo de histriônico, e o homem gordo e careca que certa vez comeu cinquenta cachorros-quentes antes de uma luta extrapolou a noção do ridículo para atrair publicidade em torno do seu nome. Galento, contudo, foi autor de uma proeza gigantesca, que o fez ser respeitado dentro do mundo sujo e glamoroso do boxe. Em sua luta contra Joe Louis, em 1939, Galento teve a ousadia de derrubar o campeão. Ao desferir um gancho de esquerda no terceiro assalto, o azarão acertou em cheio o seu oponente, desencadeando um frenesi coletivo nas arquibancadas do Yankee Stadium, em Nova Iorque. Louis, apesar de atordoado, levantou-se rapidamente. Com o orgulho ferido, o magnífico pugilista tratou de encerrar a luta sem maiores sustos, nocauteando Galento no assalto seguinte.

     Galento, que afirmava ter estrangulado um octopus e realizava lutas de exibição com ursos e cangurus, foi um dos indivíduos mais exuberantes a vestir luvas dentro da era dourada do boxe.  A sua luta com Joe Louis foi um verdadeiro marco, provando que o folclórico, o bárbaro e o bizarro são elementos caros para a plebe, na hora em que ela, embevecida, elege os seus ídolos do esporte.

 



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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.