17/11/2016 - 11h11min

Letras e melancolia

 

     Ao longo dos anos, tive a oportunidade de visitar algumas escolas e conversar com os alunos sobre minhas experiências como escritor. Trata-se de uma atividade singular e sempre ansiada, mas que traz consigo a sombra de um dilema.   
     Afinal, de que adianta exaltar, nessas visitas, as vantagens do hábito e do prazer da leitura para os jovens; de que adianta vender a ideia de que através da leitura o seu mundo será melhor; como posso iludi-los com a promessa de que a literatura fará deles pessoas felizes no futuro, mais aptas para enfrentar a vida? Como eu posso fazer isso se a pessoa que desenvolve o hábito de ler, muitas vezes, acaba virando uma pessoa solitária, fraca, avessa ao convívio social e, ciente ou não, abdica de certas aspirações e noções relativas ao mundo prático em que vivemos imersos, lutando freneticamente contra o relógio e o calendário para pagar as nossas contas?
     Na selva de concreto das cidades não existe espaço para o sonho, e o sonho é algo inerente a quem gosta de ler. Nesse cenário bizarro, mas real, “sonhador” rima com “perdedor”. Existe, ainda, a possibilidade do jovem se tornar alvo de chacotas na escola, ser chamado de cdf, acabar se isolando do mundo e desenvolver algum tipo de depressão.  Então às vezes me pergunto, “não é uma irresponsabilidade da minha parte querer incutir nessas cabecinhas que o ato de ler vai leva-los a algum lugar? Para quê? Para que permaneçam ignorantes sobre as artimanhas da vida real, tornando-se presas fáceis para a malandragem que vive a espreitar as ruas e o cidadão?”.    
     Um dos pontos que me impede de acreditar com mais ênfase no “poder transformador” do ato de ler é o fato de que, profissionalmente falando, o ramo das letras não oferece grandes perspectivas aos alunos jovens ou adultos. Tornar-se professor, jornalista ou escritor está longe de ser garantia de um salário digno. Para encontrar emprego, pragmatismo e experiências de trabalho anteriores valem muito mais do que ter lido uma dúzia de livros do Cortázar.  Como pedir a um jovem de família pobre, que não tem condições nem de se alimentar direito na hora do almoço, que ele leia livros, se essa providência não vai mudar em nada a sua situação degradante e emergencial?  Você vai falar sobre a beleza da poesia de Drummond e eles estão pensando em como sobreviver ao dia de amanhã. As prioridades são totalmente diferentes.    
     Outro dos perigos de abraçar o hábito de ler é a melancolia que ele pode acarretar.  A solidão encontrada nas páginas de um livro pode se tornar um vício. Mas também é um bálsamo. Surge, então, outra pergunta: somos taciturnos porque lemos, ou lemos porque somos taciturnos? Acredito que ambas as situações sejam verdadeiras, mas é provável que a qualidade de “taciturno” seja anterior ao hábito de ler livros.  De qualquer maneira, a leitura solitária de livros tem um parentesco com a melancolia, com uma sensação de desapego e tristeza. O indivíduo que lê, nas repartições, nos coletivos, no pátio da escola, rapidamente é visto como um estranho, um tipo de lunático, portador de alguma doença rara. É um verdadeiro alienígena, e passa longe daquilo que poderia se chamar de brasileiro “normal”. Claro, o perfil do brasileiro é esfuziante e bronzeado, o perfil do sujeito que lê é pálido e sombrio.
     Então, para que almejar incutir em um jovem, saudável e capaz, o hábito da leitura? Para desviá-lo de uma carreira de sucesso profissional e uma relação amorosa feliz?
     Quando eu entro nesse tipo de dilema, tento contar até dez. Depois que a calma retorna, apanho um bom livro na estante. Sentado em minha poltrona, ciente dos problemas do mundo, encontro um pouco de paz, e a lucidez necessária para me botar nos trilhos outra vez.

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Caro Lúcio O problema não é a leitura mas a superficialidade de nossos tempos.Tomando por base nosso País, as próprias autoridades não enfatisam a importância da leitura. Não estimulam nossos escritores. Por que só valem os textos dos famosos, quando sabemos existirem talentos no anonimato? Mas nesta luta o importante é não desistir e reclamar da falta de apoio. Quanto à ler, quem descobre os encantos, conquista um tesouro. E mais: Quem lê não sente solidão. Ótima crônica.


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Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.