20/10/2016 - 21h10min

O escritor invisível

     Semana passada, estive presente ao bate-papo com o escritor Luiz Ruffato, dentro da Feira do Livro de Caxias do Sul. Um dos aspectos abordados na palestra foi a situação lastimável da educação em nosso país. Para Ruffato, autor consagrado e laureado no Brasil e no exterior, a questão deveria ser abraçada, primordialmente, pelo Estado. Isso pois “estado” seria algo diferente de “governo”. Enquanto o primeiro teria uma ascendência permanente sobre os rumos do país, o segundo seria algo transitório, e sujeito as interferências políticas que almejam a tomada do poder por este ou aquele grupo.

     As colocações de Ruffato encontravam eco nas colocações de educadores presentes, e as conclusões foram bastante pessimistas quanto à possibilidade de se encontrar uma saída. Obviamente que um país com mais leitores, ou com mais indivíduos com acesso aos bancos escolares e universitários, será um país com cidadãos mais preparados, capazes de pensar e formar uma sociedade mais plena e justa. Pesa contra o nosso falido sistema educacional a pífia remuneração concedida aos professores, além da já mencionada alternância do poder nas esferas públicas, o que ocasiona mudanças repentinas, fatalmente baseadas em ideologias, nos programas de ensino. O despreparo dos professores, na sua maioria incapazes de aplicar “leituras literárias” aos alunos, seria outra causa do quadro alarmante em que se encontra a nossa educação.

     Longe de ser um pedagogo, o escritor se encontra em um dilema permanente dentro da questão. Quase sempre alguém que depende de um emprego paralelo e convencional para sobreviver, o escritor encontra dificuldades absurdas para colaborar com a educação. Sem ser obrigado a isso (e sem ser remunerado também), o escritor geralmente se encontra numa posição subserviente em relação ao poder público, às escolas e instituições que poderiam servir como elo entre ele e alunos, ou qualquer tipo de público interessado em arte e literatura.  

     Para encontrar espaço em algum evento, visitar alguma escola, ou participar de alguma atividade que possa edificar a cultura e a educação da sociedade, o escritor precisa, literalmente, mendigar, batendo sistematicamente na porta das instituições, na maioria das vezes sem sucesso.  Obviamente que estamos falando de escritores desconhecidos do grande público, que escrevem seus livros à margem da mídia e não usufruem dos conchavos e compadrios típicos do mundo literário, inclua-se aí o passaporte para visitar as escolas da cidade e as feiras do livro que proliferam ao redor do país.

     A literatura produzida por esses escritores é uma “má literatura”? Difícil dizer, mas em um país de famintos a comida servida não precisa ser necessariamente um banquete.  O que não pode acontecer é essa angustiante “falta de função” tacitamente imposta ao escritor que deseja se inserir no processo de melhoria sociocultural do seu próprio torrão. O problema vai mais além, entretanto, se pensarmos que muitos dos nossos jovens (e adultos) se encontram totalmente alienados ao que seja ler e sentir um livro. Mais uma vez aqui temos um círculo vicioso: em um mundo onde um tênis ou um celular representam itens de consumo “indispensáveis”, que aluno adolescente vai gastar aquilo que não tem na compra de um livro?  Se nem mesmo a comunidade literária comparece aos eventos (haviam pouquíssimas pessoas no bate-papo com Ruffato), o que dizer das classes mais baixas que, sufocadas pelo desemprego, tem como prioridade a sobrevivência pura e simples, e que encontram na cultura a sua última e improvável forma de lazer?

    Acredito que se houver uma maior interação entre escolas, escritores, o poder público, bibliotecários, livreiros e editores, e se cada uma dessas partes agir de forma inclusiva e magnânima, pode ser que seja possível encontrar alternativas que levem as pessoas, quer sejam elas alunos ou não, a se interessar pela leitura e pela literatura.  

     O escritor, tenho certeza, pode ser uma peça chave nesse quebra cabeça.    

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá, Lúcio. Está provado. Nos paises onde houve investimentos na cultura, a prosperidade e melhoria na qualidade de vida de seus habitantes foi extraordinária. Apenas para citar um exemplo: a Coréia do Sul. Infelizmente, nesse nosso País submundista, onde os governanres pensam mais em si e em levar vantagem, a perspectiva é desanimadora.A cultura é o alimento da alma. É importante que escritores se unam em torno de pessoas que tem uma visão do que representa ler e aprender, do que representa valorizar os professores. Só assim, melhoraremos. Ótima crônica.

Helena Terra - Excelente artigo!


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.