27/08/2016 - 11h49min

Sílfides para pinguços

         Era uma tarde fria e cinzenta de sábado, quando voltei àquele bar querido, muito visitado em épocas remotas. Lá estavam as mesmas mesas e cadeiras de fórmica barata, o mesmo balcão de vidro contendo balas, chicletes e chocolates, e, atrás dele, o mesmo bodegueiro gordo e corcunda. Lá estavam também os mesmos homens, com seus olhares duros suspensos em direção ao nada. Não havia, como nunca houve, maiores luxos no estabelecimento. Pedi uma cerveja, apesar do frio, e sentei em uma mesa virado para a porta da rua.

        Carros passavam sobre a via de paralelepípedos. Ônibus iam e vinham, transportando as pessoas que eu via de relance através da janela, cada uma com os seus sonhos e problemas. Pedestres andavam pela calçada em total anonimato, e vez por outra algum “habitué” parava em frente à porta, espiando por alguns segundos, indeciso entre seguir em frente ou entrar para matar a sede e o tempo. Dentro do bar, enquanto bebia sozinho outra vez, observei os homens, muitos dos quais idosos, tomando o seu trago entre as horas mortas daquele dia vulgar.

        Alguma coisa, contudo, estava fora da sua ordem natural. Acostumada com o espetáculo grotesco de uma partida de futebol, a freguesia do boteco assistia, embevecida, à transmissão das Olimpíadas do Rio de Janeiro ao vivo pela televisão. No lugar da violência típica do velho esporte bretão, a sutileza encantadora das atletas da ginástica rítmica.

        Um sujeito de cabelo comprido e bombacha, de pé, na frente do balcão, analisava o balé de corpos acrobáticos, ao mesmo tempo em que segurava seu copo de cachaça com losna. O que estaria se passando na cabeça do homem, no instante em que a menina russa, como uma gazela, saltava e rodopiava no tablado?  Câmeras presas no teto do ginásio capturavam imagens em “plongée”, a bola que subia e descia até se aninhar suavemente nos braços frágeis e esguios das competidoras. 

        Atrás do balcão, o bodegueiro trabalhava com afinco. Duas doses de uísque com gelo para o senhor, mais um pouco de vinho tinto para o rapaz, uma caipira de vodka para o amigo. Mãos rudes, presas às correntes do vício, erguiam os copos avidamente, embaladas pela música sutil das coreografias que se sucediam na tevê. A espanhola de nariz arrebitado manejava as fitas coloridas com total precisão, nunca esmorecendo na sua postura altiva. A búlgara de olhos negros enroscava o seu corpo elástico no aro, misturando arte, esporte e sedução. Por um instante, as feições embrutecidas desvaneceram-se. No rastro de cada ginasta a subir no palco, pairava o suspiro enternecido de um pinguço.

       Foi então que eu vi soldadinhos de chumbo perfilados no balcão do bar. Estaria delirando? Tomei mais um gole de cerveja, como quem tenta recuperar os sentidos. Esfreguei os olhos ainda, mas eu estava certo. Eram soldadinhos, admirando suas bailarinas, com o coração derretendo no fogo de uma paixão impossível. 

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá Lucio. A arte sublima corações. Enternece até os rudes. Bem captada a imagem do ambiente.


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.