20/05/2016 - 18h05min

O pianista olímpico

       Em 1956, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Melbourne, um fato inusitado aconteceu: as delegações das duas Alemanhas, a Oriental e a Ocidental, entraram no estádio reunidas em uma só. O momento simbólico foi emoldurado pelos acordes do trecho mais famoso da Nona Sinfonia de Beethoven, o coral “Ode à alegria”. Desde então, a adaptação musical do poema de Schiller feita por Beethoven se tornou um momento obrigatório nas Olimpíadas.

       Quando caminhava pelas ruas geladas de Viena, o irascível e perturbado Beethoven provavelmente não imaginava que a sua obra-prima iria chegar tão longe, percorrendo novos continentes a cada quatro anos, cativando os cultores da arte e do esporte. Através dos tempos e ao redor do mundo, a magistral melodia se mantém. E agora, quem diria, teremos a chance de apreciá-la durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Depois da “blitzkrieg” aplicada pela seleção alemã na Copa do Mundo de dois anos atrás, dessa vez teremos algo muito mais ameno vindo da terra do chucrute. A “Ode à alegria” é um hino pacifista, que combina bem com o espírito de amizade entre os povos que é, afinal, o objetivo maior das Olimpíadas.  A grandiloquência do espetáculo dos Jogos também se assemelha à essência da Nona Sinfonia, uma música que acabou rompendo o limite das salas de concerto, encontrando o seu público-alvo nas multidões que preenchem palcos ao ar livre e grandes estádios.

       O Rio de Janeiro será a primeira cidade sul-americana a hospedar a Olimpíada.  Melbourne, por sua vez, havia sido a primeira cidade do Hemisfério Sul a receber a competição. Enquanto as delegações alemãs desfilavam irmanadas na pista do Melbourne Cricket Ground, Ademar Ferreira da Silva observava em silêncio. Nosso exímio atleta sabia que em breve a disputa cínica e fria da caixa de areia tomaria o lugar das cordialidades, e ele precisava estar preparado. No dia da prova, Ademar atingiu a marca de 16 metros 35 centímetros, superando terríveis adversários, como o islandês Einarsson e o soviético Kreyer. para conquistar a medalha de ouro no salto triplo. Foi a nossa única medalha em Melbourne, uma pérola de valor inestimável.

       As passadas longas e elegantes de Ademar, seguidas de seus pulos rumo ao infinito, encontram eco no gênio adormecido de Beethoven. Nos seus dias de esplendor, na década de 1790 e depois, o compositor protagonizou duelos memoráveis ao piano. Seus rivais eram alguns dos mais habilidosos instrumentistas da época, mas Beethoven era um às na arte do improviso, e acabou derrotando a todos de forma categórica. As mãos do virtuose alemão tinham algo de olímpico, enquanto desenhavam direções imprevisíveis sobre as teclas, como se fossem pombas em uma revoada.

      Quando a “Ode à alegria” for executada no Maracanã, o povo brasileiro poderá, nem que seja só por um instante, abrir o coração para um jeito novo de encarar a vida. Apesar das disputas pelo poder nos gabinetes escuros de Brasília, teremos a dádiva da música clássica aliada a beleza do esporte. Um cenário em que ideologias não importam, e atletas pobres e ricos se enfrentam em pé de igualdade, convivendo em harmonia como o branco e o preto das teclas do piano de Beethoven. 

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá Lúcio. Ao ler esta tua crônica me emocionei. Magistral a inclusão de Beethoven e o fecho da crônica. É fantástico constatar que, após mais de 300 anos,  esse genio inigualavel continua presente . Um dádiva! Parabens 

beatriz - Muito ilustrativa a cronica ja que Beethoven, com suas obras, brilha no mais alto podio musical.

Juli - Lindo texto!


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.