07/05/2016 - 13h05min

O vento gelado de Moscou

                     Faltando menos de cem dias para o início das Olimpíadas do Rio de Janeiro, não há clima de festa nas ruas. Pela primeira vez na história, um país sul-americano vai sediar o evento,  mas ninguém parece estar dando muita bola para isso. O cidadão comum, coitado, está mais preocupado em pagar as suas contas no fim do mês, resistindo bravamente em sua maratona particular, no sufoco e na pindaíba do dia a dia. Envolto nas crises da economia e da política, o sonho de hospedar a tocha olímpica corre o risco de ser vivido sem elã pela população. Como sempre, contudo, resta a esperança de que os jogos possam aliviar as retinas cansadas de acompanhar o espetáculo deprimente da corrupção que grassa no país.

                    Com efeito, a beleza do esporte é algo que marca e conforta. Lembro-me ainda das Olimpíadas de Moscou, em 1980. Eu, que era apenas uma criança, e nunca tinha visto nada parecido antes, torcia para os atletas brasileiros, sobretudo para a seleção de basquete. Carioquinha e Marquinhos comandavam as ações na quadra, municiados pelos jovens craques Marcel e Oscar, e a equipe alcançou um honroso quinto lugar no torneio. Aliás, foi uma Olimpíadas de poucas medalhas para o Brasil: duas de ouro, na vela, e duas de bronze, uma com João do Pulo no atletismo e outra com a equipe de natação, no revezamento 4x200m.

                    De qualquer maneira, as imagens saídas pelo vidro do televisor permanecem na minha cabeça desde então, luzindo como um vagalume enquanto eu envelheço. Lembro-me de assistir, embevecido, as pequenas ginastas russas, com seus rabos de cavalo e movimentos precisos no tablado. Vinda da Romênia, Nadia Comaneci fez o seu canto de cisne no torneio, quatro anos após ter mesmerizado o mundo em Montreal.

                    Na cerimônia de encerramento, o choro do ursinho Misha, representado por um jogral humano nas tribunas do estádio, foi um momento sublime e triste, em uma época em que ainda não se falava em “jogada de marketing”. As lágrimas do mascote olímpico, por outro lado, poderiam ser entendidas como um sinal de adeus, já que a União Soviética, enquanto país, em breve deixaria de existir. Não podemos esquecer que vivíamos o auge da Guerra Fria, e os Estados Unidos não mandaram atletas para Moscou. Quatro anos depois, foi a vez dos russos boicotarem as Olimpíadas de Los Angeles.  As tensões e a cisão entre comunismo e capitalismo, na época, era algo tão forte que nem mesmo o esporte pôde contornar.

                   Outro momento digno de nota, dentro do meu leque de recordações olímpicas, foi a arrancada fulminante do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, nas ruas de Atenas, em 2004.  Se não fosse por um desconhecido e lunático padre irlandês, que invadiu a pista para atacar e derrubar Vanderlei, o paranaense teria amealhado a medalha de ouro.  Ao se livrar do tenaz agressor, seguindo em frente para completar a prova em terceiro lugar, Vanderlei se comportou com um digno Fidípides tupiniquim, sendo o seu exemplo uma das pérolas mais brilhantes já produzidas pelo esporte em todos os tempos.

                   Portanto, seria bom se houvesse um clima mais caloroso no país em razão das Olimpíadas que se aproximam. Por que não valorizar a oportunidade única de hospedar um evento dessa magnitude e abraçar exímios atletas, turistas e jornalistas de todo o planeta? O esporte tem a propriedade de elevar a autoestima e a cultura de um povo, e é matéria que não depende ou se apega a ideologias. O esporte, de certa maneira, é algo poético, que não pode ser tocado, como o fogo que arde na pira olímpica. Mesmo que pareça banal, estarei de novo torcendo pela equipe brasileira, ávido pelo surgimento de novas lendas e emoções nas quadras, ruas, estádios e piscinas do Rio de Janeiro.

                  Quando Milton Setrini Junior, o Carioquinha, esteve em Caxias do Sul, participando de uma partida de exibição com outros veteranos, em 2007, fui até o ginásio do colégio Santa Catarina conhecer meu antigo ídolo.  Carioquinha foi muito gentil, tiramos uma foto e eu entreguei a ele um exemplar do meu primeiro livro. Naquele momento, uma espécie de círculo místico se fechou. Com seus arremessos e fintas desconcertantes, aquela figura havia me inspirado, de alguma forma, muitos anos antes. Agora eu retribuía, dando a ele um pouco da minha própria arte, resultado da fusão entre esporte e literatura.

                  Missão cumprida. O vento gelado de Moscou soprou entre as paredes do acanhado pavilhão, ecoando lembranças distantes, enquanto eu tomava o caminho da rua banhada pelo sol da manhã.

 

                                                                                  *     *     *

 

Aproveito para desejar um Feliz Dia das Mães a todas as mulheres que tiveram força e coragem para parir e criar seus filhos, sobretudo a minha mãe Beatriz , e minha irmã, Juliana. 

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá Lúcio Muito bom teu retorno com as belas crônicas. Estava fazendo falta. Parabens!


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.