18/04/2016 - 16h43min

Vício e virtude no velho mundo

            Está perto do fim a temporada de futebol na Europa. Na Inglaterra a sensação é o Leicester City,  time de pequeno porte que lidera a corrida rumo ao título. Fundado em 1884, o Leicester já teve em suas fileiras nomes de relevo como o goleiro Banks e o atacante Lineker, mas nunca tinha ido tão longe no campeonato como agora, quando tem chances reais de erguer o caneco. A fábula do azarão que supera clubes ricos e cheios de estrelas sempre foi algo difícil de entender. Por isso mesmo é algo que fascina, como se fosse uma lenda bizarra e maravilhosa que se torna realidade.
            Entretanto, penso que isso só esteja sendo possível pelo fato de estarmos na Inglaterra, um país onde impera a dócil e justa figura do “gentleman”. Afinal, por algum motivo essa estranha criatura habita o imaginário popular ao redor do mundo, supostamente espelhando uma condição humana de quem vive na terra da monarquia e da cerveja preta. É provável que a cidadania inglesa não seja composta na sua exclusividade por indivíduos de caráter e maneira elevados, mas a figura do “gentleman” insiste em aparecer de vez em quando, envolta nas brumas do tempo e da neblina que esconde Londres.
            Dentro das quatro linhas, o campeonato inglês é algo bonito de se ver. Ao contrário da fama do chuveirinho e do jogo aéreo praticado na ilha, muitas vezes assisti a partidas onde a bola é tocada junto à relva, com passes longos e certeiros. Raras notícias de suborno, manipulação de resultados ou falcatruas chegam até nós, e o fato do Leicester estar prestes a se sagrar campeão é a prova cristalina de que este não é um campeonato de cartas marcadas.  A façanha do time do técnico Claudio Ranieri e do goleador Vardy combina com a Inglaterra, uma pátria onde, de alguma forma, ainda reina o espírito do fidalgo que admira as coisas puras e singelas do esporte.
            Em outras regiões da Europa, as coisas são bem menos surpreendentes. Na Itália, quem dá as cartas é a Juventus, entidade de poderes quase divinos, também conhecida como a “velha senhora” do futebol peninsular. Trata-se de uma velha avarenta e gananciosa, que raramente concede aos times de menor porte uma brecha que conduza ao tão sonhado "scudetto". Na atual temporada, o Napoli bem que tentou, inclusive liderando o torneio por muitas rodadas. Entretanto, na hora da verdade, o pragmatismo e a experiência da Juventus falaram mais alto, e a história dos últimos anos está prestes a se repetir.  Loas ao trabalho do técnico Massimiliano Allegri, à segurança de Buffon, Barzagli e Chiellini na zaga, à habilidade de Pogba e Cuadrado na meia cancha, aos gols de Dybala e Morata.  São eles os protagonistas do pentacampeonato.  
            Insensível e arrogante, confortavelmente instalada em sua mansão, a velha senhora avisa que não pretende largar o osso tão cedo. Saciando o seu vício pela vitória em cálices dourados, ela nutre apenas desprezo por um certo cavalheiro inglês, e sua tola mania de cordialidade.      



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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.