07/01/2015 - 20h24min

O magnífico Mirisola

Existem escritores que vivem reclusos e são avessos aos holofotes, como Dalton Tevisan, por exemplo. Existem escritores que, mesmo sem ter um grande talento, tem o ego do tamanho de um elefante, vivendo encastelados e inacessíveis na sua própria arrogância. Deste tipo, prefiro não citar nomes. E existem aqueles escritores de perfil magnânimo que, apesar do seu alto gabarito e justa fama, nunca se furtam a atender pedidos para escrever prefácios de jovens autores, dar entrevistas ou retribuir o carinho dos fãs. O saudoso Moacyr Scliar, por exemplo.

 

Parece ser também esse o caso do paulista Marcelo Mirisola. Uma das vozes mais originais surgidas na literatura brasileira nas últimas décadas, Mirisola é um sujeito de posições fortes e polêmicas, uma voz inteligente pregando fervorosa em meio à selva de mediocridades geradas na mídia. Mais do que isso, as palavras tecidas por Mirisola em suas narrativas tem a notável capacidade de conduzir o leitor entre o que há de mais abominável e bagaceiro na condição humana, ao mesmo tempo em que revelam, de forma magistral, uma espécie de lirismo escondido nos instintos básicos e nas desilusões mesquinhas do cotidiano. Autor de muitos livros, como, por exemplo, “O azul do filho morto” e “O homem da quitinete de marfim”, Mirisola fala para quem sabe ouvir. Sorte nossa, não é mesmo?  

 

Saretta: Fale-nos um pouco sobre o seu novo livro, “Hosana na Sarjeta”...

 

Mirisola: Deu um trabalhão danado para escrevê-lo. O livro fala por si. Seria um contrassenso tentar resumi-lo em meia dúzia de palavras.

 

Saretta: Em que momento da sua vida você decidiu se tornar escritor?

 

Mirisola: Quando todas as outras opções naufragaram. 

 

Saretta: Você vê alguma semelhança entre o tipo de literatura que você faz e as histórias em quadrinho do americano Harvey Pekar? Eram histórias que retratavam o cotidiano dele mesmo, um cara normal que trabalhava como arquivista em um hospital. Confesso que quando vi o filme “Anti-herói americano” lembrei dos teus romances e daquela coisa da “auto-ficção”.

 

Mirisola: Nunca dei bola para quadrinhos. Vi o filme, e gostei. Acho que é só isso.

 

Saretta: Qual foi a tua maior alegria até hoje dentro do mundo das letras? E a maior decepção?

 

Mirisola: O “mundo das letras” é um chiqueiro.  Chafurdei no lixo, conheci muitos porcos e consequentemente tive grandes decepções. Mas, graças a Deus – e paradoxo dos paradoxos – também foi o mundo das letras que me apresentou meus melhores amigos, gente limpa e decente que nada tem a ver com o tal “mundo das letras”. Ou seja: o mundo das letras é o mesmo mundo do tênis, das pedicures, dos técnicos de refrigeração e ar condicionado. Do lugar que chamamos planeta terra.

 

Saretta:  O que você pensa a respeito da afirmativa de que “no Brasil existem mais escritores do que leitores”? O que você faria para mudar esse quadro?

 

Mirisola: Tinha fé no Ebola, mas parece que a epidemia está sob controle. Só o paredão resolve.

 

Saretta: Apesar de nomes consagrados como, por exemplo, Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, e até mesmo Clarice Lispector, terem traçado linhas sobre o futebol, esse tema continua sendo menosprezado por muitos intelectuais/escritores. O que você acha disso?

 

Mirisola: Acho que os intelectuais/escritores estão certos. Quanto menos meterem a colher, mais chances o futebol terá de se livrar da chatice.  Exemplo disso é o Armando Nogueira – o texto mais chato e empolado que li na vida, o cara consegue ser mais indigesto do que todos aqueles parnasianos dos tempos de colégio, lembra?

 

Saretta: Você pratica esportes?

 

Mirisola: Não. Odeio esportes.

 

Saretta:  Lendo o teu livro “Animais em Extinção”, senti uma certa melancolia nas partes que narram o protagonista observando a praia. Você considera a literatura como um lenitivo para a solidão, ou algo que arrasta o escritor ainda mais para dentro de si?

 

Mirisola: Do ponto de vista do leitor, a literatura pode ser um lenitivo para a solidão e para tantas outras frescuras que afetam o ser humano. Do ponto de vista do escritor “solidão” é apenas mais um instrumento de trabalho.

 

Saretta: Qual é o papel do artista?

 

Mirisola: Como diria meu amigo Evandrinho Grogotó Affonso Ferreira. O papel do escritor é o A-4.

 

Marcelo Mirisola, um talento fora de série na literatura brasileira. Foto: Google.



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá Lúcio. O cara não é de meias palavras.  E conseguiste entrevistá-lo. Parabens.


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.