08/03/2014 - 14h38min

A velha engrenagem

Vivemos a era digital em todo o seu esplendor. Aparelhos celulares e tabletes eletrônicos super sensíveis, onde o usuário navega entre redes sociais e outros sítios da internet, são a coqueluche do momento, trazendo as tentações e carícias da tecnologia através de um leve toque em uma tela de cristal. O que terá acontecido, por outro lado, com as máquinas velhas e pesadas da indústria, com engrenagens girando em meio à fumaça das fábricas como no filme “Tempos Modernos” de Charles Chaplin?  Em que mundo habitam os operários de macacão debruçados sobre as maravilhas da mecânica de outrora, e que hoje não passam de estruturas feias, sujas e obsoletas?

 

Parece que a única engrenagem que continua a girar com vigor é aquela costurada na camisa bordô do Caxias. A despeito das inovações cibernéticas, o escudo da equipe serrana mantém viva uma aura de mistério, rodando impávido rumo ao futuro, fascinando os amantes do futebol com seu ritmo firme e constante. São nove dentes afiados conduzindo milhares de corações com a sua força motriz, esmagando e triturando velhos e novos inimigos. De fato, a campanha do Caxias no Gauchão, longe de ser perfeita, tem trazido muitas alegrias ao torcedor, especialmente depois da última sequência de quatro vitórias consecutivas.

 

O clímax desta espetacular reação, foi, sem dúvida, a vitória no clássico Ca-Ju. Um triunfo incontestável e transparente, mas que foi pouco celebrado na mídia esportiva e até mesmo entre certos aficionados grenás. Parece que, para evitar melindres, o sucesso do Caxias foi abafado em nome de um “fair-play” ridículo e desnecessário. Afinal, onde está escrito que o Caxias não pode ganhar do seu maior rival, apenas porque o jogo foi incluído no programa de uma festa da cidade? Eu diria que foi uma vitória emblemática, fruto de uma melhor preparação e de uma superioridade insofismável demonstrada dentro das quatro linhas.

 

Entretanto, novos desafios aguardam os pupilos do técnico Beto Campos. A evolução à próxima fase do torneio descortinou um horizonte de possibilidades e jogos memoráveis, e deve ser creditada também ao antigo treinador, Picoli. O esboço do onze grená assemelha-se a uma pintura cubista, com formas geométricas diversas sobre a tela. O jovem goleiro Douglas, com boas atuações, tem sido uma grata surpresa. Em seu auxílio encontram-se os diligentes Léo Korte e Tiago, sempre prontos a rechaçar o perigo da área com frieza e contundência. Os laterais Dieyson e Bebeto são componentes vitais para o time, tecendo tramas envolventes com os meias Wallacer e Rafael Carioca. Um pouco mais atrás, “capitan” Alisson e Baiano dão mostras de caráter e ousadia, enquanto que os atacantes Julio Madureira, Lucão e Tiago Santana apavoram as defesas contrárias com seu faro de gol e picardia.

 

Sou um paladino incurável das causas perdidas, como frequentar barbearias, ler livros de papel e ouvir discos de vinil. Não posso, portanto, deixar de vibrar com esse time do Caxias. Um conjunto valente e bem azeitado, que lembra as engrenagens de antigamente, sempre girando e inspirando lindos sonhos, como se fossem as pás do moinho perseguido por Dom Quixote em seus devaneios medievais.

 

 

                                                                            *      *      *

 

 

Aproveito o ensejo para congratular todas as mulheres, em especial minha mãe Beatriz, pelo seu dia. Sem a sua força e beleza a amaciar os duros caminhos da vida, o homem não seria ninguém, e o mundo seria um lugar triste e perdido.

 



Comentários postados


Beatriz - Embora distante, me sínto feliz e gratificada pela homenagem prestada a nos mulleres. Gentileza e cavalheirismo estao muito em falta nos días de hoje. Beijos   

Maria Eduarda - Cheias de sensibilidade são suas crônicas. Me sinto incluida na homenagem e agradeço. . Ler livros de papel, ouvir discos de vinil refletem a bela alma que existe em ti.. És um cavalheiro.

Giovani S. Sentimenti - Caro Lúcio - Assim como a "vechia signora "Juventus da Italia, poderiamos chamar a "vechia "engrenagem do Caxias. A engrenagem pode, neste caso, representar a força do trabalho dos antigos, sem a qual, nada haveria de novo hoje.A engrenagem e a côr quasi do sangue fazem , do Caxias, a agremiação do coração de muitos caxienses. Boa crônica.


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.