04/02/2014 - 22h02min

Um dia no inferno

Parece que a onda de calor que se abateu sobre o país veio para ficar. Neste, que é o verão mais rigoroso dos últimos tempos, realizar coisas simples, como caminhar nas ruas da cidade, cumprir a rotina laboral, ou apenas dormir à noite, tem se tornado uma verdadeira epopeia. Aviões sendo impedidos de decolar, frangos morrendo em aviários, brigadianos usando bermudas e sandálias no lugar de calças e coturnos, são algumas das notícias que estampam os jornais atualmente. Cada amanhecer é como se fosse a porta de entrada para mais um dia no inferno. Não adianta fugir nem se esconder, o bafo quente e o mormaço do ar vão te pegar, queimando mais do que as lavas de um vulcão.

 

Durante as Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, a temperatura escaldante do oeste americano também fez suas vítimas. Mesmo entre os atletas, seres dotados de condicionamento físico exemplar, o castigo do sol inclemente sobre a cabeça foi um fardo pesado demais para suportar. Na ocasião, pela primeira vez na história dos Jogos foi disputada a  maratona feminina, e o desfecho da prova deixaria para a posteridade um momento inesquecível. As três primeiras colocadas preparavam-se para receber os louros da vitória, entre abraços e sorrisos de alegria. Uma a uma, as retardatárias iam ultrapassando a linha de chegada, quando, de repente, algo inusitado aconteceu.

 

Um calafrio percorreu a espinha da multidão no instante em que aquela criatura de corpo frágil, movendo-se lentamente, adentrou o Los Angeles Coliseum. Mal conseguindo se manter em pé, a figura avançava em zigue-zague, ao estilo dos bêbados que perambulam nas calçadas. Logo ficou claro se tratar de uma competidora, mais precisamente Gabrielle Andersen, da Suíça. O passo canhestro e trôpego da moça, extenuada pelo calor intenso, desidratada e com cãibras, despertou o sinal de alerta entre a equipe médica. Entretanto, segundo as regras da competição, se fosse tocada Gabrielle seria desclassificada, e ela, não se sabe como, sinalizou que queria concluir o trajeto sozinha.

 

Durante os metros finais, a plateia prendeu a respiração, atônita com a determinação da atleta que andava como um pássaro ferido sobre a pista laranja, com os  braços retorcidos e movimentos cambaleantes. Finalmente, no segundo após cruzar a linha fatal, Gabrielle foi amparada pelos socorristas, vindo a se recuperar sem maiores sequelas. O gesto dramático da corredora, contudo, ficou eternizado na retina de milhões. Pouco importa se Gabrielle foi apenas a trigésima-sétima colocada no percurso. A sua têmpera comoveu o mundo, tocando fundo no peito de qualquer um que tenha visto a cena, repetida várias vezes, através dos tubos da televisão.

 

Eis aí a beleza do esporte. Um bálsamo que conforta e estimula simples mortais, acossados pelas garras de um clima cada vez mais inóspito, a seguir em frente. Pois, se é provável que o próprio homem seja o causador desse apocalipse moderno, com sua ganância desafiando as forças da natureza e alterando o equilíbrio do planeta, também ele é capaz de superar a si mesmo, dando esperanças de que nem tudo está perdido.

 



Comentários postados


Antonio Bauer - Olá Lúcio - Fui um dos milhões de tele espectadores que ví, emocionado e "arrepiado" a façanha daquela mulher. Garra, determinação e espírito olímpico são poucos adjetivos. E o mais importante: era uma mulher. Parabens às mulheres valorosas. Parabens por resgatares esta história.


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.