13/01/2018 - 12h53min

O cavalheiro em extinção

     Ouço dizer que a figura do cavalheiro está fora de moda, e irremediavelmente fadada ao sumiço. Para cúmulo, em parte a derrocada dessa nobre e antiga figura pode ser atribuída às próprias mulheres, que não querem mais que lhes abramos a porta do carro ou lhes puxemos a cadeira no restaurante. De fato, parece que uma nova ordem, pautada por um distanciamento respeitoso e abjeto, esteja em voga, quando o assunto é a convivência entre homens e mulheres na sociedade atual. Obedecendo a um padrão recorrente e perverso, os bons acabam pagando pelos maus, e o galanteador íntegro está sofrendo as consequências dos hediondos casos de assédio perpetrados por canalhas e bufões.  

     Dentro do âmbito esportivo a situação é semelhante. Há muito tempo o cavalheiro é um personagem raro, como se fosse um animal em extinção, ou um item de museu. Entretanto, tal personagem existiu de fato, vicejando, curiosamente, em modalidades de natureza rude e brutal. Jack Dempsey, campeão mundial dos pesos-pesados entre os anos de 1919 e 1926, era um lutador destemido e sagaz, além de extremamente popular nos Estados Unidos. Quando soava o gongo, Dempsey tinha ares de um assassino incontrolável, distribuindo golpes fulminantes com uma ferocidade fora do comum. Contudo, depois que a sua mão esquerda nocauteasse o rival, com um gancho na mandíbula ou no abdômen, toda fúria imediatamente se desvanecia. Com a cordialidade de um genuíno cavalheiro, Dempsey ajudava o perdedor a se levantar, guiando-o em seus braços até o canto do ringue. Só depois haveria espaço para uma eventual comemoração. Embora essa prática fosse comum na época, não podemos tirar os méritos de Dempsey, que com o seu gesto singelo influenciou até mesmo nomes da era moderna do esporte, como Mike Tyson.

     Muitas vezes um jogo ainda mais violento que o boxe, o futebol também produziu em suas entranhas vultos de rara nobreza e fidalguia. Talvez o mais emblemático representante dessa estirpe tenha sido o inglês Stanley Matthews. O seu espírito combativo e leal fez do ponteiro-direito uma síntese da palavra “esportividade”. A sua carreira dentro dos gramados se estendeu por um longo período, e quando Matthews finalmente pendurou as chuteiras seu corpo bem cuidado e sua alma humilde tinham conhecido mais de cinquenta primaveras.  Em 1965, Matthews foi o primeiro jogador de futebol a receber o título de “sir”. Em suas memórias, o fabuloso atacante revelou que, embora lisonjeado, no momento em que era condecorado pela rainha não pôde deixar de pensar que talvez existissem pessoas mais valorosas do que ele, como  os enfermeiros e professores anônimos que se dedicam a erradicar a dor e a ignorância dos necessitados, para receber o galardão.  Um “gentleman” na acepção da palavra, Matthews foi também um herói, estimulando sonhos e cativando os admiradores do esporte que, certa vez, foi definido por um seu conterrâneo como “o balé do homem trabalhador”.

     Embora tendo nascido em terras distantes do velho mundo, Aírton Ferreira da Silva foi um beque majestoso, dono de raras qualidades técnicas e fleuma capaz de causar inveja a qualquer cavaleiro da rainha.  Provavelmente o maior jogador da história do Grêmio, em que pese o seu ofício de zagueiro, Aírton “Pavilhão” era incapaz de uma jogada desleal. Tendo defendido o tricolor no lapso em que o clube conquistou doze títulos gaúchos entre treze disputados, Aírton era conhecido pela facilidade assombrosa com que controlava a pelota. Mais do que evitar, de forma racional, o contato violento, é consenso entre especialistas que o beque de porte alto e elegante simplesmente não sabia dar carrinho, porrada ou pontapé.  Ficaram famosos os seus duelos contra Pelé e Puskas, sem que tenha havido qualquer nódoa que maculasse as atuações de Aírton. Pelo contrário, ao enfrentar o meia santista Aírton teria, inclusive, aplicado um drible de letra, durante determinado treino da seleção brasileira. Contra o “major galopante”, em partida contra o Real Madri realizada na França, em 1961, o beque gremista teve a perspicácia de evitar o bote, tática que confundiu Puskas, acostumado a enfrentar defensores afoitos e truculentos.

     É bom que se diga que mesmo o mais valoroso cavalheiro costuma apresentar traços de pequenas extravagâncias em seu caráter, teoricamente incompatíveis com a condição honrada e altaneira que deles se espera. Aírton, por exemplo, teria despontado para o futebol impulsionado por um sentimento pouco edificante. Torcedor do Inter na infância, o beque não pôde suportar a humilhação de uma goleada, infligida pelo clube colorado,  quando defendia o modesto Força e Luz de Porto Alegre. Cego pelo desejo de vingança, Aírton não tardou em se aliar às hordas tricolores, traindo, assim, um velho e não correspondido amor. Sir Stanley Matthews, por sua vez, tinha o hábito nada pueril de provocar o próprio vômito antes de partidas importantes. Segundo ele, essa providência, ainda que repugnante, seria uma espécie de lenitivo contra a ansiedade. Quanto a Jack Dempsey, existe um aspecto pouco usual da sua vida afetiva capaz de causar desconforto em mentes mais puritanas, tendo em vista que, durante um curto período antes de alcançar fama e fortuna com o boxe, o campeão foi casado com uma prostituta de Salt Lake City.

     Como podemos ver, sentimentos distintos e conflitantes, bailando como sombras entre o vil e o varonil, habitam as profundezas da alma dos cavalheiros do esporte e da vida. Infelizmente tais criaturas, portadoras de uma forma de beleza misteriosa em sua essência, se encontram em franco processo de desaparecimento, arrebatadas pela velocidade e a fluidez das relações humanas e suas absurdas convenções. 

 


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12/12/2017 - 15h12min

Inequívocas demonstrações da imbecilidade humana

     Com a recente conquista do tri-campeonato da Libertadores da América pelo Grêmio, os tempos são propícios para o caos. O que temos visto nas ruas, bares, corações e mentes é o desvelar de um estado de espírito raivoso e grotesco. A besta está solta, correndo livre pelo asfalto, pronta para morder distintos cidadãos inocentes. De fato, na sequência dos jogos envolvendo a epopeia tricolor, o cenário que se descortina tem algo de dantesco e fabuloso: foguetes espocam madrugada adentro, carreatas e buzinaços tomam conta das avenidas da cidade, e a cada gol marcado urros  monstruosos são ouvidos no apartamento do vizinho. Bêbados dominam as praças, e fanáticos torcedores instauram um estado de sítio e loucura subjugando a sociedade indefesa.  Ao sujeito que não acompanha as notícias do futebol, resta apenas o assombro, a inércia e a dúvida: terá começado a terceira guerra mundial?

     O achincalhe entre as torcidas de Grêmio e Inter ultrapassa os limites do razoável, transformando as redes sociais em uma terra de ninguém. Após cada jogo, o frenesi coletivo ganha ares de drama e mistério. Como uma maré doentia, a procedência da flauta e do foguetório oscila morbidamente, permeada pela troca de provocações entre tricolores e colorados. Slogans e campanhas publicitárias são criados a toque de caixa, milhões de reais trocam de dono, ofensas gratuitas se espalham como um rastilho de pólvora, estremecendo amizades e levando o escárnio a níveis rasteiros e estratosféricos. Enquanto isso, o demônio da discórdia apenas ri, encastelado em sua dimensão paralela e nauseabunda. O ódio e o rancor se apresentam como os sentimentos reinantes, fazendo com que a vitória olímpica seja despida do seu significado original, servindo como um reles estopim para encurralar e menosprezar o outro. Raros são aqueles que torcem de uma maneira digna e elegante, raros são os que reconhecem os méritos do oponente que coloca um caneco em sua prateleira.

     Alguns argumentarão que a graça do futebol é justamente a gozação e o tripúdio às custas do rival. Se pararmos para pensar, essa lógica perversa está presente também no cotidiano alheio às questões esportivas. De um modo sub-reptício, estamos mais preocupados com a vida do próximo do que com os nossos próprios assuntos. A harmonia conjugal, o sucesso profissional, as viagens internacionais e o carro novo do vizinho na garagem têm o poder de nos transformar em seres macambúzios e mesquinhos, fazendo com que a nossa rotina seja um círculo vicioso de competição e tristeza. Voltando aos relvados onde é praticado o velho e violento esporte bretão, a derrota não é uma opção, e a conquista dos louros da vitória dá lugar a uma miríade de vingança, luxúria e atrocidades diversas, comparáveis àquelas perpetradas por tiranos e déspotas em geral.

     Talvez não percebamos, mas o fato é que vivemos dias estranhos, repletos de demonstrações inequívocas da imbecilidade humana, em que a plebe, mas não só ela, alcança a felicidade de um modo tão fácil quanto constrangedor.

 


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04/11/2017 - 15h11min

O vulto na vitrine

     Partindo da ciudad vieja de Montevideo, junto ao porto e suas docas, inicio uma jornada rumo ao desconhecido. Entre as esquinas da peatonal Sarandi, enquadradas por prédios decrépitos, belos e abandonados, as águas do Rio da Prata surgem vez por outra, azuladas e cinzentas. O povo é sereno, não há arrogância nem simpatia. Munido de garrafa térmica e cuia, o cidadão comum da metrópole se dirige para o trabalho. Às vezes, um odor acre de erva queimada trazido pelo vento invade as narinas, sem que seja possível identificar a sua procedência. O sol da primavera penetra timidamente entre as espessas sombras verdejantes das praças que eu atravesso. Não sei ao certo o que a minha busca trará, sou apenas um turista, vagando junto com a esperança de um sinal, de um momento único, de alguma coisa qualquer.  

     Cruzo a Puerta de la Ciudadela, e, de um modo inesperado, sou capturado pela amplitude e o céu azul que cobre a Plaza Independencia. Seria esse o meu sinal, a minha epifania? O mausoléu do General Artigas é majestoso. A estátua equestre esculpida em bronze repousa sobre uma base de granito, observando os transeuntes e os curiosos que param para uma foto. Ao fundo, o Palacio Salvo surge como uma entidade onipresente, magnífica e misteriosa. A partir de agora, minha companheira será a Avenida 18 de Julio.

     Lojas e vitrines desfilam pelos meus olhos, como um caleidoscópio frenético de cores e sonhos. O corriqueiro do dia, com o seu amargo esplendor, passa invisível em cada rosto, em cada banca de revistas, em cada semáforo. A aura da via caudalosa me transporta a outros lugares e avenidas.  Às vezes me sinto no centro de Porto Alegre, às vezes as sombras das calçadas me lembram do Rio de Janeiro. Mas estou em Montevideo, caminhando como o troglodita que avança dentro dos séculos em busca do fogo que mudará a sua vida para sempre. A beleza do Palacio Montero e da Plaza de Cagancha oblitera o cansaço que começa a tomar conta do meu corpo.

     Em um instante fortuito, passo pela estátua de Carlos Gardel. O “zorzal criollo” está sentado em uma mesa, onde há uma cadeira vazia. Fingindo conversar com o ídolo inanimado, reles mortais posam para retratos, felizes com o encontro inusitado e absurdo.  Gardel apenas sorri. Sem que eu saiba, esse também é o momento da minha descoberta sublime, do átimo em que o andarilho realiza a sua quimera, bebendo da fonte catártica que a história da cidade proporciona aos seus visitantes.

     Minhas pernas tremem, à medida em que a 18 de Julio chega ao seu final. Ou seria o seu começo?  Atravesso a rótula com dificuldade, lutando para escapar da chusma de carros que passa sem parar, até penetrar em um parque. Crianças e jovens participam de uma competição de atletismo, correndo sobre a pista azul sob os auspícios orgulhosos de seus pais. Para seguir adiante é preciso contornar a pista, o que demanda um esforço adicional para o meu já combalido esqueleto.  Não há mais sol, e nuvens cinzentas se misturam com a estrutura de concreto que surge aos poucos ante os meus olhos. O Estádio Centenário, moldura de glórias imemoriáveis do futebol sul-americano, está, finalmente, à minha mercê.

     Para meu espanto, um dos portões está aberto, permitindo que eu penetre calmamente no covil dos nossos terríveis inimigos uruguaios. O palco da primeira Copa do Mundo, em 1930, está vazio.  Apesar do aspecto de abandono, sobretudo das copas e banheiros que parecem congelados no passado, a relva está aparada, sendo regada por uma mangueira automática. Escalo as arquibancadas até atingir um ponto alto, onde é possível contemplar o gramado e imaginar as seleções de antigamente disputando uma partida, as tribunas tomadas pela maré carnal que exulta e se desespera. Onde estariam os heróis de então?

     Após descer as arquibancadas, entro novamente no Centenário, desa vez pela porta que conduz ao museu do estádio. No hall existe uma estátua de Ghiggia, o formidável carrasco que silenciou o Maracanã em 1950. A bandeira uruguaia usada pela delegação que triunfou em Paris, em 1924, repousa dentro de uma vitrine, as suas bordas esgarçadas pela passagem do tempo. Subo por uma escada até o andar superior, onde se concentra a maior parte do museu. As botinas de couro cru de Hector Scarone, bem como a sua camisa puída, com cordões entrelaçados na gola, estão à mostra em um nicho destinado àquele que foi um dos maiores craques do futebol charrua e mundial.  Me detenho por alguns instantes na frente de vitrinas aleatórias, deixando o tempo escorrer dentro da tarde vazia. Vejo ainda as camisas de Santos Iriarte, um dos heróis do título mundial de 1930, e de José Piendibene, eterno ídolo da torcida do Peñarol.  Troféus, medalhas e condecorações dividem a minha atenção, servindo como paisagem de uma agradável promenade.

     De repente, como que atingido por um soco no estômago, percebo estar diante de um item de valor simbólico inestimável. A camisa de Obdulio Varela, usada na final de 1950, está dentro de uma caixa de vidro, a centímetros dos meus olhos. Acostumado com imagens em preto e branco do capitão uruguaio, em livros ou películas sobre o famigerado Maracanazo, estremeço ao ver que o número cinco às costas da camisa celeste é de um vermelho vivo, escarlate como sangue. A sua cor quente e escura embriaga meus sentidos, fazendo com que eu viaje através do tempo, rumo ao domingo mais triste da história do futebol brasileiro. De um modo enérgico e silencioso, "el negro jefe" foi o mentor intelectual do feito que, na sua essência, representou o triunfo da humildade sobre a soberba. Quando a noite já havia caído, e o Maracanã encontrava-se vazio novamente, Obdulio saiu caminhando sozinho pelas ruas do Rio. Mesmo que ele quisesse, o calor da fama e dos holofotes nunca o alcançaria.

     No dia seguinte, procurei nas livrarias da metrópole oriental alguma biografia de Obdulio. Mas não havia nada, além da poeira das estantes e vultos desconhecidos andando nas calçadas.

 


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14/10/2017 - 10h41min

Castelos de um perdedor

     A feira do livro está chegando ao seu final, junto com os últimos resquícios do inverno. A chuva, como sempre, foi uma companheira fiel dos livreiros e dos leitores que buscaram o centro da cidade ávidos por descontos, obras clássicas e novidades. Também os amantes das letras, que foram à Casa da Cultura para conferir as palestras e bate-papos com escritores famosos, tiveram a sua cota de satisfação.  Nos bancos da praça, crianças folheavam seus livrinhos ilustrados com fascinação, irmanadas com os mendigos e vagabundos que, portando latões de cerveja, ansiavam interagir, de alguma forma, com o universo das histórias e personagens que habitam as páginas dos romances e biografias. 

     A feira do livro começou a fazer parte da minha vida, de um modo mais significativo, em 2007, quando eu lancei o meu primeiro livro, “Alicate contra diamante”. Foi uma tarde antológica, onde eu pude experimentar uma sensação parecida com aquilo que chamam de “sucesso”. Não que o mundo estivesse presenciando o nascimento de um grande escritor, dono de um talento fora de série e estarrecedor. Também não foi forjado ali, dez anos atrás, um autor que frequentaria com desenvoltura os círculos estreitos do mundo literário, ou alguém capaz de obter, ao longo do tempo, uma posição de destaque dentro do cenário de feiras e festivais ao redor do país.

     Mas a verdade é que, naquele dia, uma espessa turba de tios e tias, primos e amigos esteve na praça Dante prestigiando o nascimento do “Alicate”, fazendo com que o livrinho fosse um dos títulos mais vendidos naquele final de semana da feira (tenho, inclusive, um recorte de jornal provando o fato inusitado). Essa estupenda afluência de parentes e conhecidos nunca mais se repetiu nas minhas sessões de autógrafo dentro da programação do evento.  O fato de eu não ter realizado um lançamento do livro prévio à feira, como geralmente acontece, com certeza colaborou para a pequena façanha. 

     Contudo, para que eu me tornasse um escritor, ou aspirante a tal, foi preciso esquecer, desde as minhas primeiras leituras juvenis e adultas, qualquer pretensão de vitória ou coroamento.  Não foi uma atitude premeditada, de quem persegue alguma coisa, cercando um objetivo futuro através de sacrifício e resignação. Pelo contrário, foi justamente a minha natureza introspectiva e solitária que fez com que eu buscasse a companhia dos livros que, mais tarde, e sem eu saber, dariam o embasamento e a lira para o surgimento do escriba.

     Segundo Michele Petit, “a leitura literária tem a ver com a experiência da falta e da perda (...) quando alguém está imerso na ideologia do êxito foge da literatura”.  Enquanto a maioria dos meus amigos da juventude, que nunca desenvolveu o hábito da leitura, desde cedo colhia frutos nas suas investidas amorosas e profissionais, eu penava em uma espécie de limbo, fracassando de forma retumbante quando a vida exigia uma postura prática, de inclusão e desbravamento social.  O artista (e o monstro) foi parido depois de uma longa caminhada pelo lado escuro e marginal da rua, onde a turma forte, sadia e vencedora não pisava.

     O lançamento do “Alicate contra diamante” foi a minha revanche.  

     A feira do livro está no seu final, mas ainda há tempo para visita-la. Entre suas estantes, poças d’água e sombras, é possível encontrar a flor tímida da dignidade humana.

 


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23/09/2017 - 10h09min

Um fantasma dormindo no porão

     As eliminatórias sul-americanas para a Copa da Rússia de 2018 se aproximam do final, e a seleção argentina ainda não carimbou o seu passaporte para o torneio. A campanha do time bicampeão mundial está longe de empolgar, e, para evitar um vexame ainda maior, os dirigentes apelaram para uma saída de contornos mágicos. O jogo contra o Peru foi marcado para o estádio da Bombonera, onde, teoricamente, a torcida exerce uma pressão maior do que no Monumental de Núñez, o palco geralmente usado pela seleção celeste e branca em Buenos Aires. Trata-se de uma solução cabalística para um problema prático, tendo em vista que, dentro de campo, serão sempre onze contra onze.

     Parece que a lembrança de uma remota partida contra o mesmo rival, no mesmo estádio, não assusta o técnico Sampaoli e seus discípulos. Em agosto de 1969, após empatar com o Peru pelo placar de 2 a 2, a Argentina foi eliminada de uma Copa do Mundo pela primeira e única vez em sua história.  Na ocasião, nem mesmo a ebulição de uma Bombonera lotada de fanáticos “hinchas” foi capaz de conduzir o time à vitória.

     Levantemos o manto de olvido sobre esse jogo marcante, que convulsionou, para o bem e para o mal, duas nações. No comando do esquadrão peruano, observando com olhar sereno desde o banco de reservas, um velho conhecido nosso aguarda o início da partida. Didi, agora no papel de técnico, precisava de apenas um empate para levar seus pupilos para a Copa do México, no ano seguinte. Envergando a jaqueta branca com a tradicional listra vermelha diagonal, nomes como Chumpitaz, León e Cubillas fariam de tudo para alcançar o acesso ao mundial. Do outro lado, Adolfo Pedernera tinha, além do grito rouco e louco das arquibancadas a seu favor, um time composto por figuras de grande gabarito, como Perfumo, Marzolini, Albrecht, Brindisi e Pachamé. Pedernera havia sido, como jogador, o cérebro de “La Máquina”, o fabuloso time do River Plate dos anos 1940. A sua presença na beira do gramado era motivo de esperança para o torcedor, sempre ansioso em ver a seleção atuando com espírito de luta e galhardia.

     Mas, assim como nos dias atuais, a equipe argentina era um conjunto opaco, de pífias apresentações, e nem mesmo a estrela de Pedernera pôde impedir a derrocada celeste e branca. O verdugo da seleção anfitriã foi o ponteiro-esquerdo Oswaldo “Cachito” Ramírez, que por duas vezes soube aproveitar o contra-ataque para depositar o couro no fundo das redes do bom goleiro Cejas. De forma cavalheiresca, ao final da partida os torcedores portenhos aplaudiram a equipe peruana, apesar do gosto amargo da desilusão. O Peru finalmente disputaria uma Copa do Mundo, concretizando um dos maiores feitos da sua história futebolística. Para Pedernera e companhia a tarde deu lugar a uma noite funda e desolada. Uma cortina de veludo negro cobriu os prédios da cidade, e os seus habitantes tiveram que adiar, pelos quatro anos seguintes, seus sonhos de glória e conquista. 

     Agora, quase cinquenta anos depois, o cenário e os protagonistas se repetem, em uma espécie de reencarnação de um duelo de vida ou morte. Apesar de ter excelentes valores individuais, como Messi e Dybala, a equipe do técnico Sampaoli parece perdida, sem rumo ou padrão de jogo. O Peru, por sua vez, virá a Buenos Aires sem nomes famosos em seu elenco, mas a verdade é que Guerrero e sua trupe formam um quadro harmonioso, e nada impede que o time possa voltar a disputar uma Copa do Mundo, algo que não acontece desde 1982.

     A sorte está lançada, e a mítica Bombonera vai rugir novamente. Para o bem da seleção argentina, contudo, é melhor que o cântico que emana desde a alma do torcedor seja entoado em um volume um pouco abaixo do costumeiro, sob o risco de acordar velhos fantasmas do futebol.

 


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09/09/2017 - 10h09min

Fúria e megalomania

     Chama a atenção a megalomania das campanhas de marketing que certos clubes de futebol têm criado ultimamente. O Grêmio se auto intitulou “o imortal tricolor”, como se o seu time fosse uma espécie de divindade incapaz de ser derrotada, e seus jogadores fossem heróis de uma epopeia mitológica e mirabolante. O Internacional foi ainda mais longe, cunhando para si a alcunha de “o campeão de tudo”. Esse exercício de arrogância revela uma face triste e tacanha da mentalidade propagada pelas direções e cegamente absorvida pelos torcedores.

     Voltando ao caso do Inter, chega a ser constrangedora a pretensão de que um clube de futebol possa ser “campeão de tudo”, tendo em vista a quantidade e variedade de torneios disputados ao longo da sua história. Logo de cara lembramos da Taça Brasil e do Robertão, precursores da Copa do Brasil e do campeonato brasileiro, como exemplos de canecos que não constam nas cristaleiras coloradas. Por mais que seja boa a intenção em querer ressaltar os grandes feitos da trajetória vencedora do clube, no final o suntuoso apelido soa como uma fraude, revelando uma total falta de criatividade e humildade.

     No futebol e na vida a cautela é uma virtude das mais importantes, e diz o ditado que “quem tudo quer, tudo perde”. Recentemente o Internacional perdeu um dos seus maiores predicados, para a torcida equivalente ao valor de mil troféus. O fato do clube nunca ter caído para a segunda divisão do campeonato brasileiro era uma amostra inequívoca do gabarito superior do time colorado, uma das joias mais preciosas da sua coroa, que permanecia intacta desde que o torneio passou a ser disputado, em 1971.  Essa condição invejável não existe mais, pois o Inter caiu, com o estrondo de um gigante, e nesse momento experimenta o gosto amargo de atuar em relvados de menor prestígio e expressão.

     Além disso, nos últimos dias o Inter esteve ameaçado de perder outra láurea de valor inestimável. A condição de “o único campeão brasileiro invicto” esteve seriamente em perigo, tendo em vista a campanha fora de série realizada pelo Corinthians na primeira divisão do nosso futebol. O temor de mais uma perda devastadora para a sua já combalida autoestima assombrou a torcida como um fantasma real, rodada após rodada, até que o time bandeirante, que avança como um trem desgovernado em direção ao título, acabou tropeçando frente ao Vitória.  Rapidamente o medo se transformou em prepotência, e os fanáticos colorados puderam, mais uma vez, jactar-se pelo fenomenal título de 1979, quando a equipe do técnico Ênio Andrade levantou a taça sem conhecer o sabor da derrota.

     Coincidência ou não, foi a última vez que o Inter logrou dar a volta olímpica dentro de um campeonato brasileiro. Copas de outra grandeza, como a Libertadores da América e o Mundial Interclubes, foram conquistadas durante o período, enchendo a torcida de alegria e satisfação. Mas quando o assunto é o certame nacional, o jejum de títulos parece ser um calvário intransponível para os aficionados rubros. Para piorar, veio o rebaixamento, jogando o clube em um limbo de sombras e purgações.

     É verdade que o time do técnico Guto Ferreira provavelmente voltará à elite do futebol brasileiro em 2018. Mais do que isso, o próprio caneco da série B poderá ser amealhado, fazendo com que o clube acrescente uma conquista inédita ao seu cartel. De qualquer maneira, talvez o que realmente importe nesse momento seja a retomada de uma postura de serenidade e introspecção. Antes de vibrar com epítetos fabulosos e bater no peito com fúria animal, bradando que “time grande não cai”, o torcedor e os mandatários do clube bem que poderiam agir com um pouco de bom senso.

     Afinal, mais vale ser campeão de alguma coisa do que ser campeão de tudo.

 


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26/08/2017 - 13h08min

O ralo da nossa humanidade

     De tempos em tempos, a humanidade atravessa mudanças radicais na sua maneira de se expressar e ler o mundo. Depois dos desenhos feitos a mão em cavernas, vieram os pergaminhos e hieróglifos egípcios. Um pouco mais tarde, os livros manuscritos capturavam o conhecimento, mas eram disponíveis para poucos nas bibliotecas escuras da Idade Média. Com o surgimento da imprensa de Gutemberg, o mundo foi convulsionado de forma irreversível, e o suporte físico de leitura foi configurado do modo como ainda o conhecemos hoje em dia. Entretanto, o advento da internet sacudiu o planeta novamente, inclusive ameaçando o longo reinado do livro de papel como o modo mais rápido e prático de obter lazer e informação.

     Prodígios como o notebook, tablete e telefone celular assumiram uma importância descomunal na rotina das pessoas, domesticando-as como se elas fossem mansos animais. Essa dependência e fidelidade canina se justificam, na medida em que as novas tecnologias proporcionam agilidade na comunicação, facilitando o trabalho de bilhões, viabilizando a pesquisa científica, democratizando o acesso à educação, entre uma série de outros benefícios relativos ao conforto e ao incremento da qualidade de vida dos habitantes da Terra.

     Por outro lado, acabamos perdendo um pouco a autonomia sobre os nossos atos. Cada vez que decidimos abrir o Twitter ou o Facebook, estamos agindo em razão de um instinto, de uma emoção pueril e incontrolável. Eis aí um perigo real, uma armadilha da qual é difícil escapar. O conteúdo raso encontrado nas páginas virtuais fez com que o cartunista Ziraldo certa vez classificasse a internet como “o antro do débil mental”. De fato, a informação encontrada nos labirintos dos sítios eletrônicos disponíveis é de um teor duvidável, diluído e fatalmente inútil, oferecendo ao navegante cibernético muito mais do que ele precisa.  Essa fartura, que supostamente concentra todo o conhecimento humano dentro de um objeto que cabe no bolso, na verdade acaba por aprisionar ao invés de libertar, reduzindo ao invés de ampliar os horizontes daqueles que, cegamente, transformam o aparato digital numa espécie de santo.

     A própria maneira como nos relacionamos foi hipotecada dentro do caldeirão febril das redes sociais. A obsessão doentia em perscrutar a vida alheia, bem como a ânsia em penetrar na intimidade do outro, ao mesmo tempo em que oferecemos a nossa própria em uma bandeja, apontam para uma inversão de valores nunca vista anteriormente. Enquanto isso, o mundo lá fora nos espera, aflito e desprezado.  O tempo que costumávamos passar caminhado pela cidade, olhando as estrelas, lavando o carro, fazendo um bolo, escrevendo poemas, andando de bicicleta, jogando bola, costurando, vendo um filme, fazendo a manutenção da casa, cultivando a horta, pescando, contemplando a natureza, rezando, indo ao teatro, amando, ou simplesmente pensando, agora é consumido freneticamente sobre a tela fria que passa sem parar perante os nossos olhos anestesiados. O ambiente virtual, com a sua enganosa promessa de felicidade, se transformou no ralo, no funil que devora os minutos da nossa já breve estadia nesse mundo, consumindo a nossa própria humanidade.

     Podíamos ser pobres, infelizes no amor e desiludidos com a situação do nosso país, mas sempre havia o tempo para parar e abrir um livro antes de dormir. Mergulhando nas páginas de um romance, de uma biografia ou de um volume de contos, alguém tinha a oportunidade de conversar consigo mesmo, de um modo profundo e prazeroso, e essa possibilidade era algo que ninguém podia tirar de nós...até agora.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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