04/11/2017 - 15h11min

O vulto na vitrine

     Partindo da ciudad vieja de Montevideo, junto ao porto e suas docas, inicio uma jornada rumo ao desconhecido. Entre as esquinas da peatonal Sarandi, enquadradas por prédios decrépitos, belos e abandonados, as águas do Rio da Prata surgem vez por outra, azuladas e cinzentas. O povo é sereno, não há arrogância nem simpatia. Munido de garrafa térmica e cuia, o cidadão comum da metrópole se dirige para o trabalho. Às vezes, um odor acre de erva queimada trazido pelo vento invade as narinas, sem que seja possível identificar a sua procedência. O sol da primavera penetra timidamente entre as espessas sombras verdejantes das praças que eu atravesso. Não sei ao certo o que a minha busca trará, sou apenas um turista, vagando junto com a esperança de um sinal, de um momento único, de alguma coisa qualquer.  

     Cruzo a Puerta de la Ciudadela, e, de um modo inesperado, sou capturado pela amplitude e o céu azul que cobre a Plaza Independencia. Seria esse o meu sinal, a minha epifania? O mausoléu do General Artigas é majestoso. A estátua equestre esculpida em bronze repousa sobre uma base de granito, observando os transeuntes e os curiosos que param para uma foto. Ao fundo, o Palacio Salvo surge como uma entidade onipresente, magnífica e misteriosa. A partir de agora, minha companheira será a Avenida 18 de Julio.

     Lojas e vitrines desfilam pelos meus olhos, como um caleidoscópio frenético de cores e sonhos. O corriqueiro do dia, com o seu amargo esplendor, passa invisível em cada rosto, em cada banca de revistas, em cada semáforo. A aura da via caudalosa me transporta a outros lugares e avenidas.  Às vezes me sinto no centro de Porto Alegre, às vezes as sombras das calçadas me lembram do Rio de Janeiro. Mas estou em Montevideo, caminhando como o troglodita que avança dentro dos séculos em busca do fogo que mudará a sua vida para sempre. A beleza do Palacio Montero e da Plaza de Cagancha oblitera o cansaço que começa a tomar conta do meu corpo.

     Em um instante fortuito, passo pela estátua de Carlos Gardel. O “zorzal criollo” está sentado em uma mesa, onde há uma cadeira vazia. Fingindo conversar com o ídolo inanimado, reles mortais posam para retratos, felizes com o encontro inusitado e absurdo.  Gardel apenas sorri. Sem que eu saiba, esse também é o momento da minha descoberta sublime, do átimo em que o andarilho realiza a sua quimera, bebendo da fonte catártica que a história da cidade proporciona aos seus visitantes.

     Minhas pernas tremem, à medida em que a 18 de Julio chega ao seu final. Ou seria o seu começo?  Atravesso a rótula com dificuldade, lutando para escapar da chusma de carros que passa sem parar, até penetrar em um parque. Crianças e jovens participam de uma competição de atletismo, correndo sobre a pista azul sob os auspícios orgulhosos de seus pais. Para seguir adiante é preciso contornar a pista, o que demanda um esforço adicional para o meu já combalido esqueleto.  Não há mais sol, e nuvens cinzentas se misturam com a estrutura de concreto que surge aos poucos ante os meus olhos. O Estádio Centenário, moldura de glórias imemoriáveis do futebol sul-americano, está, finalmente, à minha mercê.

     Para meu espanto, um dos portões está aberto, permitindo que eu penetre calmamente no covil dos nossos terríveis inimigos uruguaios. O palco da primeira Copa do Mundo, em 1930, está vazio.  Apesar do aspecto de abandono, sobretudo das copas e banheiros que parecem congelados no passado, a relva está aparada, sendo regada por uma mangueira automática. Escalo as arquibancadas até atingir um ponto alto, onde é possível contemplar o gramado e imaginar as seleções de antigamente disputando uma partida, as tribunas tomadas pela maré carnal que exulta e se desespera. Onde estariam os heróis de então?

     Após descer as arquibancadas, entro novamente no Centenário, desa vez pela porta que conduz ao museu do estádio. No hall existe uma estátua de Ghiggia, o formidável carrasco que silenciou o Maracanã em 1950. A bandeira uruguaia usada pela delegação que triunfou em Paris, em 1924, repousa dentro de uma vitrine, as suas bordas esgarçadas pela passagem do tempo. Subo por uma escada até o andar superior, onde se concentra a maior parte do museu. As botinas de couro cru de Hector Scarone, bem como a sua camisa puída, com cordões entrelaçados na gola, estão à mostra em um nicho destinado àquele que foi um dos maiores craques do futebol charrua e mundial.  Me detenho por alguns instantes na frente de vitrinas aleatórias, deixando o tempo escorrer dentro da tarde vazia. Vejo ainda as camisas de Santos Iriarte, um dos heróis do título mundial de 1930, e de José Piendibene, eterno ídolo da torcida do Peñarol.  Troféus, medalhas e condecorações dividem a minha atenção, servindo como paisagem de uma agradável promenade.

     De repente, como que atingido por um soco no estômago, percebo estar diante de um item de valor simbólico inestimável. A camisa de Obdulio Varela, usada na final de 1950, está dentro de uma caixa de vidro, a centímetros dos meus olhos. Acostumado com imagens em preto e branco do capitão uruguaio, em livros ou películas sobre o famigerado Maracanazo, estremeço ao ver que o número cinco às costas da camisa celeste é de um vermelho vivo, escarlate como sangue. A sua cor quente e escura embriaga meus sentidos, fazendo com que eu viaje através do tempo, rumo ao domingo mais triste da história do futebol brasileiro. De um modo enérgico e silencioso, "el negro jefe" foi o mentor intelectual do feito que, na sua essência, representou o triunfo da humildade sobre a soberba. Quando a noite já havia caído, e o Maracanã encontrava-se vazio novamente, Obdulio saiu caminhando sozinho pelas ruas do Rio. Mesmo que ele quisesse, o calor da fama e dos holofotes nunca o alcançaria.

     No dia seguinte, procurei nas livrarias da metrópole oriental alguma biografia de Obdulio. Mas não havia nada, além da poeira das estantes e vultos desconhecidos andando nas calçadas.

 


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14/10/2017 - 10h41min

Castelos de um perdedor

     A feira do livro está chegando ao seu final, junto com os últimos resquícios do inverno. A chuva, como sempre, foi uma companheira fiel dos livreiros e dos leitores que buscaram o centro da cidade ávidos por descontos, obras clássicas e novidades. Também os amantes das letras, que foram à Casa da Cultura para conferir as palestras e bate-papos com escritores famosos, tiveram a sua cota de satisfação.  Nos bancos da praça, crianças folheavam seus livrinhos ilustrados com fascinação, irmanadas com os mendigos e vagabundos que, portando latões de cerveja, ansiavam interagir, de alguma forma, com o universo das histórias e personagens que habitam as páginas dos romances e biografias. 

     A feira do livro começou a fazer parte da minha vida, de um modo mais significativo, em 2007, quando eu lancei o meu primeiro livro, “Alicate contra diamante”. Foi uma tarde antológica, onde eu pude experimentar uma sensação parecida com aquilo que chamam de “sucesso”. Não que o mundo estivesse presenciando o nascimento de um grande escritor, dono de um talento fora de série e estarrecedor. Também não foi forjado ali, dez anos atrás, um autor que frequentaria com desenvoltura os círculos estreitos do mundo literário, ou alguém capaz de obter, ao longo do tempo, uma posição de destaque dentro do cenário de feiras e festivais ao redor do país.

     Mas a verdade é que, naquele dia, uma espessa turba de tios e tias, primos e amigos esteve na praça Dante prestigiando o nascimento do “Alicate”, fazendo com que o livrinho fosse um dos títulos mais vendidos naquele final de semana da feira (tenho, inclusive, um recorte de jornal provando o fato inusitado). Essa estupenda afluência de parentes e conhecidos nunca mais se repetiu nas minhas sessões de autógrafo dentro da programação do evento.  O fato de eu não ter realizado um lançamento do livro prévio à feira, como geralmente acontece, com certeza colaborou para a pequena façanha. 

     Contudo, para que eu me tornasse um escritor, ou aspirante a tal, foi preciso esquecer, desde as minhas primeiras leituras juvenis e adultas, qualquer pretensão de vitória ou coroamento.  Não foi uma atitude premeditada, de quem persegue alguma coisa, cercando um objetivo futuro através de sacrifício e resignação. Pelo contrário, foi justamente a minha natureza introspectiva e solitária que fez com que eu buscasse a companhia dos livros que, mais tarde, e sem eu saber, dariam o embasamento e a lira para o surgimento do escriba.

     Segundo Michele Petit, “a leitura literária tem a ver com a experiência da falta e da perda (...) quando alguém está imerso na ideologia do êxito foge da literatura”.  Enquanto a maioria dos meus amigos da juventude, que nunca desenvolveu o hábito da leitura, desde cedo colhia frutos nas suas investidas amorosas e profissionais, eu penava em uma espécie de limbo, fracassando de forma retumbante quando a vida exigia uma postura prática, de inclusão e desbravamento social.  O artista (e o monstro) foi parido depois de uma longa caminhada pelo lado escuro e marginal da rua, onde a turma forte, sadia e vencedora não pisava.

     O lançamento do “Alicate contra diamante” foi a minha revanche.  

     A feira do livro está no seu final, mas ainda há tempo para visita-la. Entre suas estantes, poças d’água e sombras, é possível encontrar a flor tímida da dignidade humana.

 


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23/09/2017 - 10h09min

Um fantasma dormindo no porão

     As eliminatórias sul-americanas para a Copa da Rússia de 2018 se aproximam do final, e a seleção argentina ainda não carimbou o seu passaporte para o torneio. A campanha do time bicampeão mundial está longe de empolgar, e, para evitar um vexame ainda maior, os dirigentes apelaram para uma saída de contornos mágicos. O jogo contra o Peru foi marcado para o estádio da Bombonera, onde, teoricamente, a torcida exerce uma pressão maior do que no Monumental de Núñez, o palco geralmente usado pela seleção celeste e branca em Buenos Aires. Trata-se de uma solução cabalística para um problema prático, tendo em vista que, dentro de campo, serão sempre onze contra onze.

     Parece que a lembrança de uma remota partida contra o mesmo rival, no mesmo estádio, não assusta o técnico Sampaoli e seus discípulos. Em agosto de 1969, após empatar com o Peru pelo placar de 2 a 2, a Argentina foi eliminada de uma Copa do Mundo pela primeira e única vez em sua história.  Na ocasião, nem mesmo a ebulição de uma Bombonera lotada de fanáticos “hinchas” foi capaz de conduzir o time à vitória.

     Levantemos o manto de olvido sobre esse jogo marcante, que convulsionou, para o bem e para o mal, duas nações. No comando do esquadrão peruano, observando com olhar sereno desde o banco de reservas, um velho conhecido nosso aguarda o início da partida. Didi, agora no papel de técnico, precisava de apenas um empate para levar seus pupilos para a Copa do México, no ano seguinte. Envergando a jaqueta branca com a tradicional listra vermelha diagonal, nomes como Chumpitaz, León e Cubillas fariam de tudo para alcançar o acesso ao mundial. Do outro lado, Adolfo Pedernera tinha, além do grito rouco e louco das arquibancadas a seu favor, um time composto por figuras de grande gabarito, como Perfumo, Marzolini, Albrecht, Brindisi e Pachamé. Pedernera havia sido, como jogador, o cérebro de “La Máquina”, o fabuloso time do River Plate dos anos 1940. A sua presença na beira do gramado era motivo de esperança para o torcedor, sempre ansioso em ver a seleção atuando com espírito de luta e galhardia.

     Mas, assim como nos dias atuais, a equipe argentina era um conjunto opaco, de pífias apresentações, e nem mesmo a estrela de Pedernera pôde impedir a derrocada celeste e branca. O verdugo da seleção anfitriã foi o ponteiro-esquerdo Oswaldo “Cachito” Ramírez, que por duas vezes soube aproveitar o contra-ataque para depositar o couro no fundo das redes do bom goleiro Cejas. De forma cavalheiresca, ao final da partida os torcedores portenhos aplaudiram a equipe peruana, apesar do gosto amargo da desilusão. O Peru finalmente disputaria uma Copa do Mundo, concretizando um dos maiores feitos da sua história futebolística. Para Pedernera e companhia a tarde deu lugar a uma noite funda e desolada. Uma cortina de veludo negro cobriu os prédios da cidade, e os seus habitantes tiveram que adiar, pelos quatro anos seguintes, seus sonhos de glória e conquista. 

     Agora, quase cinquenta anos depois, o cenário e os protagonistas se repetem, em uma espécie de reencarnação de um duelo de vida ou morte. Apesar de ter excelentes valores individuais, como Messi e Dybala, a equipe do técnico Sampaoli parece perdida, sem rumo ou padrão de jogo. O Peru, por sua vez, virá a Buenos Aires sem nomes famosos em seu elenco, mas a verdade é que Guerrero e sua trupe formam um quadro harmonioso, e nada impede que o time possa voltar a disputar uma Copa do Mundo, algo que não acontece desde 1982.

     A sorte está lançada, e a mítica Bombonera vai rugir novamente. Para o bem da seleção argentina, contudo, é melhor que o cântico que emana desde a alma do torcedor seja entoado em um volume um pouco abaixo do costumeiro, sob o risco de acordar velhos fantasmas do futebol.

 


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09/09/2017 - 10h09min

Fúria e megalomania

     Chama a atenção a megalomania das campanhas de marketing que certos clubes de futebol têm criado ultimamente. O Grêmio se auto intitulou “o imortal tricolor”, como se o seu time fosse uma espécie de divindade incapaz de ser derrotada, e seus jogadores fossem heróis de uma epopeia mitológica e mirabolante. O Internacional foi ainda mais longe, cunhando para si a alcunha de “o campeão de tudo”. Esse exercício de arrogância revela uma face triste e tacanha da mentalidade propagada pelas direções e cegamente absorvida pelos torcedores.

     Voltando ao caso do Inter, chega a ser constrangedora a pretensão de que um clube de futebol possa ser “campeão de tudo”, tendo em vista a quantidade e variedade de torneios disputados ao longo da sua história. Logo de cara lembramos da Taça Brasil e do Robertão, precursores da Copa do Brasil e do campeonato brasileiro, como exemplos de canecos que não constam nas cristaleiras coloradas. Por mais que seja boa a intenção em querer ressaltar os grandes feitos da trajetória vencedora do clube, no final o suntuoso apelido soa como uma fraude, revelando uma total falta de criatividade e humildade.

     No futebol e na vida a cautela é uma virtude das mais importantes, e diz o ditado que “quem tudo quer, tudo perde”. Recentemente o Internacional perdeu um dos seus maiores predicados, para a torcida equivalente ao valor de mil troféus. O fato do clube nunca ter caído para a segunda divisão do campeonato brasileiro era uma amostra inequívoca do gabarito superior do time colorado, uma das joias mais preciosas da sua coroa, que permanecia intacta desde que o torneio passou a ser disputado, em 1971.  Essa condição invejável não existe mais, pois o Inter caiu, com o estrondo de um gigante, e nesse momento experimenta o gosto amargo de atuar em relvados de menor prestígio e expressão.

     Além disso, nos últimos dias o Inter esteve ameaçado de perder outra láurea de valor inestimável. A condição de “o único campeão brasileiro invicto” esteve seriamente em perigo, tendo em vista a campanha fora de série realizada pelo Corinthians na primeira divisão do nosso futebol. O temor de mais uma perda devastadora para a sua já combalida autoestima assombrou a torcida como um fantasma real, rodada após rodada, até que o time bandeirante, que avança como um trem desgovernado em direção ao título, acabou tropeçando frente ao Vitória.  Rapidamente o medo se transformou em prepotência, e os fanáticos colorados puderam, mais uma vez, jactar-se pelo fenomenal título de 1979, quando a equipe do técnico Ênio Andrade levantou a taça sem conhecer o sabor da derrota.

     Coincidência ou não, foi a última vez que o Inter logrou dar a volta olímpica dentro de um campeonato brasileiro. Copas de outra grandeza, como a Libertadores da América e o Mundial Interclubes, foram conquistadas durante o período, enchendo a torcida de alegria e satisfação. Mas quando o assunto é o certame nacional, o jejum de títulos parece ser um calvário intransponível para os aficionados rubros. Para piorar, veio o rebaixamento, jogando o clube em um limbo de sombras e purgações.

     É verdade que o time do técnico Guto Ferreira provavelmente voltará à elite do futebol brasileiro em 2018. Mais do que isso, o próprio caneco da série B poderá ser amealhado, fazendo com que o clube acrescente uma conquista inédita ao seu cartel. De qualquer maneira, talvez o que realmente importe nesse momento seja a retomada de uma postura de serenidade e introspecção. Antes de vibrar com epítetos fabulosos e bater no peito com fúria animal, bradando que “time grande não cai”, o torcedor e os mandatários do clube bem que poderiam agir com um pouco de bom senso.

     Afinal, mais vale ser campeão de alguma coisa do que ser campeão de tudo.

 


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26/08/2017 - 13h08min

O ralo da nossa humanidade

     De tempos em tempos, a humanidade atravessa mudanças radicais na sua maneira de se expressar e ler o mundo. Depois dos desenhos feitos a mão em cavernas, vieram os pergaminhos e hieróglifos egípcios. Um pouco mais tarde, os livros manuscritos capturavam o conhecimento, mas eram disponíveis para poucos nas bibliotecas escuras da Idade Média. Com o surgimento da imprensa de Gutemberg, o mundo foi convulsionado de forma irreversível, e o suporte físico de leitura foi configurado do modo como ainda o conhecemos hoje em dia. Entretanto, o advento da internet sacudiu o planeta novamente, inclusive ameaçando o longo reinado do livro de papel como o modo mais rápido e prático de obter lazer e informação.

     Prodígios como o notebook, tablete e telefone celular assumiram uma importância descomunal na rotina das pessoas, domesticando-as como se elas fossem mansos animais. Essa dependência e fidelidade canina se justificam, na medida em que as novas tecnologias proporcionam agilidade na comunicação, facilitando o trabalho de bilhões, viabilizando a pesquisa científica, democratizando o acesso à educação, entre uma série de outros benefícios relativos ao conforto e ao incremento da qualidade de vida dos habitantes da Terra.

     Por outro lado, acabamos perdendo um pouco a autonomia sobre os nossos atos. Cada vez que decidimos abrir o Twitter ou o Facebook, estamos agindo em razão de um instinto, de uma emoção pueril e incontrolável. Eis aí um perigo real, uma armadilha da qual é difícil escapar. O conteúdo raso encontrado nas páginas virtuais fez com que o cartunista Ziraldo certa vez classificasse a internet como “o antro do débil mental”. De fato, a informação encontrada nos labirintos dos sítios eletrônicos disponíveis é de um teor duvidável, diluído e fatalmente inútil, oferecendo ao navegante cibernético muito mais do que ele precisa.  Essa fartura, que supostamente concentra todo o conhecimento humano dentro de um objeto que cabe no bolso, na verdade acaba por aprisionar ao invés de libertar, reduzindo ao invés de ampliar os horizontes daqueles que, cegamente, transformam o aparato digital numa espécie de santo.

     A própria maneira como nos relacionamos foi hipotecada dentro do caldeirão febril das redes sociais. A obsessão doentia em perscrutar a vida alheia, bem como a ânsia em penetrar na intimidade do outro, ao mesmo tempo em que oferecemos a nossa própria em uma bandeja, apontam para uma inversão de valores nunca vista anteriormente. Enquanto isso, o mundo lá fora nos espera, aflito e desprezado.  O tempo que costumávamos passar caminhado pela cidade, olhando as estrelas, lavando o carro, fazendo um bolo, escrevendo poemas, andando de bicicleta, jogando bola, costurando, vendo um filme, fazendo a manutenção da casa, cultivando a horta, pescando, contemplando a natureza, rezando, indo ao teatro, amando, ou simplesmente pensando, agora é consumido freneticamente sobre a tela fria que passa sem parar perante os nossos olhos anestesiados. O ambiente virtual, com a sua enganosa promessa de felicidade, se transformou no ralo, no funil que devora os minutos da nossa já breve estadia nesse mundo, consumindo a nossa própria humanidade.

     Podíamos ser pobres, infelizes no amor e desiludidos com a situação do nosso país, mas sempre havia o tempo para parar e abrir um livro antes de dormir. Mergulhando nas páginas de um romance, de uma biografia ou de um volume de contos, alguém tinha a oportunidade de conversar consigo mesmo, de um modo profundo e prazeroso, e essa possibilidade era algo que ninguém podia tirar de nós...até agora.

 


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19/08/2017 - 11h14min

Uma guerra tão vazia

     A recente declaração de Maradona, afirmando ser “um soldado a serviço de Maduro”, provocou destemperadas e imediatas reações entre os seus pares futebolistas ao redor do planeta. O ex-goleiro Chilavert ironizou a questão, lembrando do fato de Maradona, apesar de se manifestar contra o imperialismo, viver de modo nababesco em Dubai.  

     Entretanto, o contragolpe mais forte partiu de Mario Kempes, o artilheiro da seleção argentina na Copa do Mundo de 1978. Através da uma rede social, Kempes, visivelmente indignado, perguntou a Maradona como ele podia apoiar um regime que matou, até agora, nada menos do que 124 jovens contrários a Maduro, dentro da triste onda de violência e indefinição que assola a Venezuela.  Para cúmulo, Kempes finalizou a sua manifestação com um rotundo “não à ditadura!”.

     Imediatamente o caçador virou a caça, e milhares de internautas passaram a contestar o antigo craque do Rosario Central. Afinal, Kempes foi uma das peças chaves na conquista do título de 1978, período em que o país vizinho estava, ele próprio, mergulhado em uma sinistra ditadura.  Para muitos, Kempes teria sido conivente com a situação, já que a conquista do caneco serviu como uma cortina de fumaça, alienando ainda mais o povo em relação ao real estado de tirania instalado nas ruas. Rapidamente, Kempes resgatou uma reportagem da época, onde ele afirmava que os seus gols “eram para a Argentina, e não para Videla”, de uma certa forma encerrando o assunto.

     Passada a euforia de 1978, o técnico Menotti também foi duramente criticado. Teria sido ele culpado ou inocente por participar do triunfo que ajudou a fortalecer os quartéis de Buenos Aires?  É evidente que “el flaco” sabia do que estava acontecendo nos porões vizinhos ao estádio Monumental de Nuñez, onde, inclusive, torturas aconteciam concomitantemente aos jogos da seleção. Mas Menotti teve que optar entre assumir a responsabilidade, ocupando o cargo que ele havia conquistado através de um trabalho honesto, ou deixá-lo nas mãos de outro profissional qualquer. Além disso, é provável que o técnico acreditasse, com uma boa dose de convicção, que a vitória final, mesmo que fosse utilizada como propaganda pela ditadura, seria uma forma de aliviar o sofrimento do povo, e ele não hesitou em colocar em prática as suas ideias e esquemas táticos. No fim, o sonho futebolístico falou mais alto, e Menotti fechou os olhos cinicamente para a infâmia da opressão.

     A verdade é que a política e os governos costumam vampirizar o futebol, e não o contrário. Em 1970, o Brasil de Pelé, Tostão e Rivelino estava empenhado em alcançar a classificação para a Copa do México.  Na ocasião, João Saldanha cunhou uma frase lapidar, capturando a essência da incompatível relação entre futebol e política. Quando o presidente Médici se atreveu a sugerir a inclusão de determinado atacante da sua preferência no time de Saldanha, o técnico foi cirúrgico: “eu não escalo o ministério, e o presidente não escala a seleção”. Bingo!

     Todo cidadão tem o direito de externar as suas posições políticas e ideológicas.  Entretanto, a condição de figura pública, com todos os privilégios que a fama acarreta, acaba fazendo com que certas declarações, ao invés de contribuir, acabem por empobrecer o debate. Nada mais pedante do que o artista que desce do palco para dar a sua opinião sobre tudo, acirrando ânimos de modo inconsequente e vazio.  A incoerência resultante dessa guerra de palavras pode atingir níveis extremos, como no caso do jornalista político que colocou em xeque a competência de Lobão enquanto músico, apenas por divergir do posicionamento ideológico deste. Não seria melhor se o jornalista fizesse jornalismo, o músico fizesse música e o jogador jogasse bola?

     A militância de figuras como Maradona, além de produzir uma espécie de samba do crioulo doido midiático, espelha um lado triste do ser humano, eternamente preso em sua ânsia quixotesca de mudar o mundo.

 


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12/08/2017 - 10h08min

Mistérios da bola laranja

     Schopenhauer já dizia que os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto, e os trinta seguintes, o comentário. Partindo dessa lógica, gostaria de contar um singelo episódio da minha infância e adolescência.

     Embora fosse um atleta não mais do que razoável, os anos em que pratiquei basquete na escolinha do clube Recreio da Juventude deixaram lindas lembranças.  O começo de tudo foi na quadra que ficava junto à sede social do clube, um prédio histórico onde depois funcionou o Cine Central.  A professora Mirian ensinava as primeiras noções de passe, drible, arremesso e como picar a bola utilizando apenas os dedos. Um dia ela pegou a bola e executou, perante nossos incrédulos olhos, uma jogada diferente. A bandeja, movimento audaz e mirabolante, passou a ser um dos principais artifícios empregados pela piazada na ora de partir para o ataque, e praticávamos seus fundamentos com afinco. Mirian era adorada pela turma, muitas vezes nos dando carona até o portão de casa na garupa da sua moto, em uma nítida demonstração de carinho e desapego.   

     Quando as aulas passaram para a sede campestre do clube, um novo e inesquecível personagem surgiu. O professor César Santos era um daqueles abnegados pelo esporte, mesmerizando a turma com as suas palestras sobre o esporte e a vida. Criado no final do século dezenove pelo canadense James Naismith, o basquete nunca gozou da mesma popularidade que o futebol em terras brasileiras. César tinha uma missão difícil, e ele a cumpriu com maestria, conduzindo a turma rumo a desafios e caminhos distantes.

     As excursões, para participar dos eventuais campeonatos, eram um verdadeiro acontecimento. Hospedadas na bucólica ilha do União, em Porto Alegre, as hostes mirins do Recreio da Juventude se preparavam para enfrentar mais um torneio contra outros clubes do estado. A ilha tinha uma aura de mistério e encantamento, e para chegar até ela era preciso embarcar em um velho barquinho motorizado. Além dos imbatíveis União e Sogipa, lembro de times como Ypiranga, Santa Cruz e a sempre perigosa Funba, de Bagé. Quando o torneio era realizado em Rio Grande, uma visita ao Museu Oceanográfico era obrigatória, ocasião na qual a turma, embevecida, admirava as focas e os pinguins desgarrados sob custódia dos cientistas. Na hora de vestir o uniforme, contudo, o lazer dava lugar à seriedade. Lembro do nervosismo na hora de entrar em quadra, a luta tão ansiada e temida surgindo com esplendor, as tentativas de aplicar as jogadas ensaiadas, os tocos e erros grotescos, as raras cestas redentoras.

     Semana seguinte, sentada nos bancos da praça Dante, a turma aguarda ansiosa pela chegada do micro-ônibus. O motorista Deoclécio foi também uma figura marcante dessa era dourada, conduzindo o time até a sede arborizada em que aconteciam os treinos. Na hipótese de algum imprevisto, o próprio César disponibilizava o seu Dodge Polara azul metálico para levar a trupe. Tudo em nome do basquete.  Essa dedicação fora de série tornou o professor César uma espécie de ídolo da minha juventude.

     Pulando, fintando e arremessando, fiz grandes amigos, alguns dos quais permanecem fiéis até hoje. Com o passar dos anos, cada pirralho seguiu um rumo diferente, cumprindo as parábolas das suas vidas, repletas de tristezas e alegrias. Parábolas, aliás, sinuosas como as descritas pela bola laranja que rodopia misteriosamente rumo ao aro, até varar a rede com maestria. Chuá!

 

                                                                      *     *     *

 

     Aproveito para mandar um alô especial para o meu pai e grande amigo Mércio, pelo seu dia!

     Um forte abraço, e muito obrigado por tudo!

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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