09/06/2018 - 11h06min

Um goleador sem fronteiras

     Nos primeiros meses de 1941, um jovem chegava na recepção do Hotel Majestic para dar entrada como hóspede. O Majestic, projetado pelo arquiteto Theodor Wiederspahn, era uma das joias da paisagem urbana da Porto Alegre de então, com suas passarelas e arcadas passando por cima de uma alameda interna que dividia o prédio. Divididos ao meio, no melhor estilo Clark Gable, também eram os cabelos do jovem, que com determinação assinou o seu nome na folha timbrada do Majestic: “José Villalba”. Oriundo da bucólica província de Corrientes, na Argentina, Villalba chegava para ser o novo atacante do Internacional.  Mostrando que era predestinado, em seu primeiro Grenal com a camisa escarlate Villalba deixou a sua marca, ajudando o Inter a conquistar uma importante vitória pelo placar de 3 a 2.  Os outros gols colorados foram marcados pela formidável dupla Carlitos e Tesourinha, enquanto o valente Foguinho por duas vezes deu esperanças à torcida tricolor.

     Eram os anos do “Rolo Compressor”, e Villalba acabou por se encaixar como uma luva no quinteto de ataque que sintetizou o espírito imbatível daquela equipe. Como se fosse um poema, velhos e crianças recitavam de cor a terrível formação que demolia sem piedade as defesas adversárias: Tesourinha, Russinho, Villalba, Rui e Carlitos. Sempre bem posicionado, Villalba aproveitava os cruzamentos de Carlitos e Tesourinha, empurrando o couro para o fundo das redes com destreza e picardia. Apesar da sua baixa estatura, o artilheiro argentino tinha uma impulsão fora de série, fazendo muitos gols de cabeça. Após passagens por Palmeiras e Atlético Mineiro, em 1947 Villalba retornou ao Inter para ser o protagonista de um momento indelével na história do clube. Em setembro de 1948, o Inter obteve a sua mais expressiva vitória dentro da antologia dos clássicos contra o seu velho rival. Na ocasião, apenas Villalba marcou quatro vezes, e o goleiro Sergio ainda buscou mais três bolas no fundo da sua rede. Incapaz de deter as malignas ofensivas do escrete colorado, o Grêmio terminou goleado pelo placar de 7 a 0, resultado que deu origem a comentários de espanto e admiração nos cafés da Rua da Praia.

     Em 1954, Villalba encerrou a carreira vestindo a camisa do Rio Grande. Depois de viver por mais de uma década na cidade portuária, o antigo atacante acabaria voltando para Porto Alegre e para o Internacional. Agora atuando nos bastidores, Villalba exerceu a função de chefe da concentração, zelando e orientando as novas gerações de craques colorados. Em seus momentos de lazer, Villalba gostava de colocar na vitrola discos de Roberto Carlos e Mercedes Sosa. Sentado em sua poltrona, no conforto do lar, o velho craque degustava as coisas simples da vida, a família, a música e o sabor do seu cachimbo. Outra das suas paixões eram os carros. Com o mesmo capricho com que finalizava as ações do ataque colorado em seus tempos dourados de atleta, Villalba gostava de manter a sua Caravan marrom sempre limpa e brilhante.

     Quando Tesourinha morreu, Villalba ficou triste. Parceiros dentro de campo, os ídolos colorados foram também amigos ao longo da vida. Caminhando pela Rua da Praia, ou passando em frente ao Hotel Majestic, Villalba lembrava do passado, e de como Tesourinha tinha sido uma figura leal, lhe recebendo de braços abertos em seus primeiros dias no estádio dos Eucaliptos. Por um instante, as façanhas do “Rolo Compressor” surgem em sua mente outra vez.  Apesar dos desafios e mistérios da metrópole, a estrela daquele jovem campesino brilhou com força, fazendo com que Villalba se tornasse o maior goleador estrangeiro a vestir a camisa colorada em sua rica história. Por 153 vezes ele fez enrouquecer a garganta da torcida, superando craques como o seu conterrâneo D’Alessandro, Rubem Paz e Figueroa.  Uma senda de gols impressionante, que permanece viva com suas nuances de saudade, beleza e fantasia.

 


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02/06/2018 - 12h06min

Explosivo coquetel

     Frequentar redes sociais pode ser um passatempo indigesto. Quando o assunto é futebol, e opiniões são paridas no calor da paixão, a decepção pode ser ainda maior. Raramente encontramos algum posicionamento sensato, feito a partir do labor sereno da ponderação. O explosivo coquetel formado por fanatismo e ignorância, na maioria das vezes, acaba produzindo apenas lixo, ódio e virulência.

     Dentro desse mar de lama eletrônico existe um argumento recorrente entre aquele torcedor que tenta, de todas as formas, diminuir o rival. Segundo a lógica engendrada por essa perversa e cínica criatura, é permitido reescrever a história.  De acordo com os seus detratores, o Inter, por exemplo, teria “nascido” para o mundo em 2006, ano em que botou em sua estante as taças de campeão da Libertadores da América e do Mundial de Clubes. Por outro lado, nas refregas posteriores ao mais recente jogo entre Flamengo e Inter, um torcedor colorado pariu uma pérola reluzente, típica da provocação rasteira que impera no vácuo das redes sociais. Para meu espanto, o sujeito afirmava que o Flamengo só teria existido a partir da chamada “era Zico”. Nada mais falso.

     Levantemos o manto de olvido para amansar a feroz ignorância desse torcedor. Um dos primeiros esquadrões vencedores do Flamengo, responsável em popularizar e atrair aficionados para a causa rubro-negra ao redor do país, foi aquele formado em 1939. O técnico Flavio Costa dispunha de nomes de valor inestimável no elenco, como Leônidas, Domingos e os argentinos Volante, Valido e Gonzalez. O título carioca daquele ano foi o primeiro conquistado pelo Flamengo na era do profissionalismo. Essa façanha, aliada ao carisma de Leônidas e a classe estarrecedora de Domingos, fez com que a equipe de 1939 permanecesse de forma indelével no relicário afetivo dos torcedores rubro-negros. 

     Quando Leônidas foi para o São Paulo, o jovem armador Zizinho surgiu como o novo timoneiro da nau flamenguista. Enquanto bombas voavam sobre a Europa, um time fantástico estarrecia os admiradores do nosso popular esporte. Além de Zizinho, craques de raro esplendor vestiam a malha rubro-negra naqueles tempos. Domingos continuava firme na zaga, protegendo a famosa linha média formada pelo trio Biguá, Bria e Jaime. No ataque, a potência goleadora de Perácio e a astúcia de Pirilo eram trunfos decisivos na hora de definir as partidas para o time do técnico Flavio Costa. Embora Vasco e Fluminense contassem com notáveis conjuntos, quem dava as cartas na cidade do Rio de Janeiro era o Flamengo, vencedor do tricampeonato carioca de 1942, 43 e 44.

     Na década de 1950, a chegada do técnico Fleitas Solich coincidiu com uma nova leva de craques e alegrias para o torcedor. Sob o comando do folclórico “feiticeiro da Gávea” o Flamengo conquistou o seu segundo tricampeonato carioca, entre os anos de 1953 e 55. Os personagens dessa nova epopeia rubro-negra foram, entre outros, o ponteiro-direito Joel, o meia Rubens e o atacante Evaristo. Domingo após domingo, as arquibancadas do jovem estádio do Maracanã hospedavam a maré carnal que agitava suas bandeiras em estado de êxtase com as atuações do seu time.

     Seria bom se acordássemos para o fato de que, assim como Inter e Flamengo, todos os times têm um passado e histórias para contar. Infelizmente, temos a tendência de desprezar os craques de antigamente. Além disso, é da natureza humana se apegar apenas aos times exitosos, esquecendo cinicamente dos atletas que, mesmo tendo derramado sangue e suor pelas cores do seu clube, terminaram sem o ansiado galardão da vitória.  Ah, como seria bom se no copo de raiva e retaliação que existe nos botecos virtuais fosse servida uma dose do elixir amargo que só a derrota é capaz de produzir! Um remédio forte e desagradável, mas capaz de curar a alma ferida pelas garras frias da fúria e do obscurantismo.

 


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18/05/2018 - 14h50min

Tudo por uma manchete

     A ânsia em atropelar os fatos é o deserto onde vaga o mau jornalista. Mas não só o mau. Muitos bons profissionais do ramo, impelidos pela urgência torpe de uma novidade qualquer, tem caído nessa armadilha, prestando um desserviço ao cidadão. Trata-se de uma prática antiga, onde a pressa em produzir matérias sensacionais atropela a ética e o bom senso. Quem não se lembra do funesto jornal carioca que, às vésperas da partida final da Copa do Mundo de 1950, estampou em sua capa uma manchete que "previa" a conquista do caneco pela seleção brasileira? A bravata foi usada pelo esperto capitão do Uruguai, Obdulio Varela, para atiçar os brios da sua equipe. Dizem até que “el negro jefe” teria comprado vários exemplares do periódico, espalhando as folhas no banheiro da concentração uruguaia para que os companheiros urinassem sobre elas. O resultado dentro de campo todos nós sabemos qual foi.  

     Recentemente, tivemos um pequeno frenesi coletivo quando foi anunciada a convocação da seleção que disputará a Copa da Rússia, a partir do mês que vem. Wiliam Bonner, que é um grande jornalista, não titubeou em perguntar ao técnico Tite, quando esse visitou a bancada do programa Jornal Nacional, qual seria a importância e o papel de Neymar no esquema do time. Todos sabemos que o astro do PSG é um jogador fora de série, e que a sua presença no elenco canarinho é um trunfo. De qualquer maneira, a exposição exagerada do atleta na mídia nunca foi vista com bons olhos por qualquer um que, sendo ou não fã de futebol, tenha um modo sereno e reflexivo de encarar a realidade. Mesmo sendo um jornalista experiente e íntegro, Bonner entrou na seara do jornalista medíocre, que, na falta de uma questão mais inteligente na manga, apela para a abordagem rasa e opaca. Cabe aqui, pois, outra pergunta: existia a necessidade em trazer à tona o nome desse notável, mas, ao mesmo tempo, sobrevalorizado jogador?  Será que havia interesse por parte do telespectador em ouvir, pela enésima vez, o nome do referido atleta, ainda mais quando sabemos que a essência da seleção de Tite é o conjunto e não um jogador específico?

     O polêmico e competente narrador Galvão Bueno, igualmente se deixou seduzir pelo canto da sereia da pieguice e do pedantismo. Em 2004, Daiane dos Santos era a grande sensação do nosso esporte. No ano anterior, a gaúcha havia conseguido a proeza de ser a primeira atleta brasileira a vencer uma prova dentro do Campeonato Mundial de Ginástica Artística, superando de forma categórica a terrível romena Catalina Ponor na modalidade do solo. Essa proeza justificava a esperança depositada pelos brasileiros em Daiane. Mas talvez não justificasse o teor imprimido por Galvão quando este entrevistou a moça. Estando prestes a enfrentar o crivo dos juízes nas Olimpíadas de Atenas, Daiane foi submetida aos devaneios de megalomania do narrador, que, de modo inconsequente, depositou um fardo gigantesco sobre as costas da menina, como se ela, além de favorita à medalha de ouro, fosse uma espécie de “salvadora da pátria”.  No dia da prova Daiane não alcançou as atuações anteriores, frustrando aqueles que sonhavam com o pódio.

     Pode ser que Galvão estivesse apenas repercutindo o sentimento geral da nação. Mas, por outro lado, é inegável que, do alto da sua popularidade e do alcance magnífico das suas transmissões, ele tenha criado uma expectativa desproporcional em torno da disputa, elevando a níveis insuportáveis a pressão sobre Daiane. Bajulando de um lado e tensionando de outro, o poderoso narrador acabou maculando a condição sagrada de isenção inerente ao seu dever.

     O papel do jornalista é informar e prestar serviço, com o máximo de honestidade possível. A irresponsabilidade e o vedetismo de alguns, no entanto, tem sido uma constante dentro da nossa imprensa, empobrecendo e aviltando esse nobre ofício. Afinal, como bem disse o mestre Joel Silveira, “jornalista não é o que toca na banda, é o que vê a banda passar”.

 


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03/03/2018 - 10h24min

Canarinhos na berlinda

     Estamos nos aproximando de mais uma Copa do Mundo. O fascínio inerente ao jogo de futebol, bem como o seu eventual aliciamento por parte de grandes empresas e corporações, além do cenário político vivido no país, com suas trincheiras e cismas ideológicas, são os ingredientes ideais para a confecção de um coquetel amargo e explosivo. As consequências dessa receita polêmica são imprevisíveis, mas nem tanto. A celeuma em torno do uso partidário do popular esporte e da suposta alienação resultante da sua magia certamente virá à tona nas mídias, bares e redes sociais, gerando discussões acaloradas.

     Justifica-se. Para o bem e para o mal, o futebol é uma caixa de ressonância do que acontece na sociedade, e os seus desdobramentos e filigranas são indissociáveis à mesma. Entretanto, essa relação parece ter atingido o ápice, e a corrupção endêmica que assola o país tornou-se uma espécie de irmã siamesa do velho esporte bretão, transformando-o no inimigo número um do cidadão, farto da falcatrua generalizada nos gabinetes do poder, que há tempos tomou conta também da entidade que detém o controle da nossa seleção, a CBF.

     De uma forma maniqueísta e perversa, criou-se um cenário onde aqueles que torcem pela seleção seriam como cordeiros, compactuando mansamente com a infâmia do lucro criminoso das grandes empresas de comunicação e do próprio governo, incapaz de superar a sua crise moral e oferecer saídas que proporcionem uma vida digna à população. A autoestima do brasileiro encontra-se esfacelada, e ser patriota tornou-se um estigma.

     Existe ainda a questão do salário astronômico dos craques que vestem a camisa canarinho, motivo de ultraje e indignação para o cidadão que trabalha honestamente sem ver a cor do dinheiro, e que acaba sendo tomado por um sentimento hostil em relação aos jovens astros da pelota, personificados na figura arrogante da eterna promessa Neymar.  

     Por outro lado, o prazer de acompanhar uma partida de futebol continua sendo um item de grande valor no relicário afetivo desse mesmo cidadão, ávido pelo desligamento da realidade opressora na qual se encontra mergulhado. Afinal, o futebol, assim como a música e a literatura, tem fins relacionados à nossa própria existência e bem-estar, justificando o famoso enunciado de Ferreira Gullar, no qual o poeta proclama que “a vida não basta”, sem a arte.

     Uma coisa é certa, contudo. Ganhando ou perdendo, os onze atletas vestidos de verde e amarelo não irão pagar as nossas contas nem resolver os nossos problemas de saúde e amorosos.

     De qualquer maneira, vale lembrar que a moral do esporte nem sempre se resume à vitória ou a derrota. A sua essência reside muito mais na beleza de uma jogada bem trabalhada, na trama coletiva dos conjuntos e no brilho individual do craque que conduz a bola com astúcia e fantasia. Cabe a nós decidir se vale a pena ignorar essa essência em nome do combate quixotesco a interesses escusos, que se encontram além da nossa capacidade de resolução.



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13/01/2018 - 12h53min

O cavalheiro em extinção

     Ouço dizer que a figura do cavalheiro está fora de moda, e irremediavelmente fadada ao sumiço. Para cúmulo, em parte a derrocada dessa nobre e antiga figura pode ser atribuída às próprias mulheres, que não querem mais que lhes abramos a porta do carro ou lhes puxemos a cadeira no restaurante. De fato, parece que uma nova ordem, pautada por um distanciamento respeitoso e abjeto, esteja em voga, quando o assunto é a convivência entre homens e mulheres na sociedade atual. Obedecendo a um padrão recorrente e perverso, os bons acabam pagando pelos maus, e o galanteador íntegro está sofrendo as consequências dos hediondos casos de assédio perpetrados por canalhas e bufões.  

     Dentro do âmbito esportivo a situação é semelhante. Há muito tempo o cavalheiro é um personagem raro, como se fosse um animal em extinção, ou um item de museu. Entretanto, tal personagem existiu de fato, vicejando, curiosamente, em modalidades de natureza rude e brutal. Jack Dempsey, campeão mundial dos pesos-pesados entre os anos de 1919 e 1926, era um lutador destemido e sagaz, além de extremamente popular nos Estados Unidos. Quando soava o gongo, Dempsey tinha ares de um assassino incontrolável, distribuindo golpes fulminantes com uma ferocidade fora do comum. Contudo, depois que a sua mão esquerda nocauteasse o rival, com um gancho na mandíbula ou no abdômen, toda fúria imediatamente se desvanecia. Com a cordialidade de um genuíno cavalheiro, Dempsey ajudava o perdedor a se levantar, guiando-o em seus braços até o canto do ringue. Só depois haveria espaço para uma eventual comemoração. Embora essa prática fosse comum na época, não podemos tirar os méritos de Dempsey, que com o seu gesto singelo influenciou até mesmo nomes da era moderna do esporte, como Mike Tyson.

     Muitas vezes um jogo ainda mais violento que o boxe, o futebol também produziu em suas entranhas vultos de rara nobreza e fidalguia. Talvez o mais emblemático representante dessa estirpe tenha sido o inglês Stanley Matthews. O seu espírito combativo e leal fez do ponteiro-direito uma síntese da palavra “esportividade”. A sua carreira dentro dos gramados se estendeu por um longo período, e quando Matthews finalmente pendurou as chuteiras seu corpo bem cuidado e sua alma humilde tinham conhecido mais de cinquenta primaveras.  Em 1965, Matthews foi o primeiro jogador de futebol a receber o título de “sir”. Em suas memórias, o fabuloso atacante revelou que, embora lisonjeado, no momento em que era condecorado pela rainha não pôde deixar de pensar que talvez existissem pessoas mais valorosas do que ele, como  os enfermeiros e professores anônimos que se dedicam a erradicar a dor e a ignorância dos necessitados, para receber o galardão.  Um “gentleman” na acepção da palavra, Matthews foi também um herói, estimulando sonhos e cativando os admiradores do esporte que, certa vez, foi definido por um seu conterrâneo como “o balé do homem trabalhador”.

     Embora tendo nascido em terras distantes do velho mundo, Aírton Ferreira da Silva foi um beque majestoso, dono de raras qualidades técnicas e fleuma capaz de causar inveja a qualquer cavaleiro da rainha.  Provavelmente o maior jogador da história do Grêmio, em que pese o seu ofício de zagueiro, Aírton “Pavilhão” era incapaz de uma jogada desleal. Tendo defendido o tricolor no lapso em que o clube conquistou doze títulos gaúchos entre treze disputados, Aírton era conhecido pela facilidade assombrosa com que controlava a pelota. Mais do que evitar, de forma racional, o contato violento, é consenso entre especialistas que o beque de porte alto e elegante simplesmente não sabia dar carrinho, porrada ou pontapé.  Ficaram famosos os seus duelos contra Pelé e Puskas, sem que tenha havido qualquer nódoa que maculasse as atuações de Aírton. Pelo contrário, ao enfrentar o meia santista Aírton teria, inclusive, aplicado um drible de letra, durante determinado treino da seleção brasileira. Contra o “major galopante”, em partida contra o Real Madri realizada na França, em 1961, o beque gremista teve a perspicácia de evitar o bote, tática que confundiu Puskas, acostumado a enfrentar defensores afoitos e truculentos.

     É bom que se diga que mesmo o mais valoroso cavalheiro costuma apresentar traços de pequenas extravagâncias em seu caráter, teoricamente incompatíveis com a condição honrada e altaneira que deles se espera. Aírton, por exemplo, teria despontado para o futebol impulsionado por um sentimento pouco edificante. Torcedor do Inter na infância, o beque não pôde suportar a humilhação de uma goleada, infligida pelo clube colorado,  quando defendia o modesto Força e Luz de Porto Alegre. Cego pelo desejo de vingança, Aírton não tardou em se aliar às hordas tricolores, traindo, assim, um velho e não correspondido amor. Sir Stanley Matthews, por sua vez, tinha o hábito nada pueril de provocar o próprio vômito antes de partidas importantes. Segundo ele, essa providência, ainda que repugnante, seria uma espécie de lenitivo contra a ansiedade. Quanto a Jack Dempsey, existe um aspecto pouco usual da sua vida afetiva capaz de causar desconforto em mentes mais puritanas, tendo em vista que, durante um curto período antes de alcançar fama e fortuna com o boxe, o campeão foi casado com uma prostituta de Salt Lake City.

     Como podemos ver, sentimentos distintos e conflitantes, bailando como sombras entre o vil e o varonil, habitam as profundezas da alma dos cavalheiros do esporte e da vida. Infelizmente tais criaturas, portadoras de uma forma de beleza misteriosa em sua essência, se encontram em franco processo de desaparecimento, arrebatadas pela velocidade e a fluidez das relações humanas e suas absurdas convenções. 

 


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12/12/2017 - 15h12min

Inequívocas demonstrações da imbecilidade humana

     Com a recente conquista do tri-campeonato da Libertadores da América pelo Grêmio, os tempos são propícios para o caos. O que temos visto nas ruas, bares, corações e mentes é o desvelar de um estado de espírito raivoso e grotesco. A besta está solta, correndo livre pelo asfalto, pronta para morder distintos cidadãos inocentes. De fato, na sequência dos jogos envolvendo a epopeia tricolor, o cenário que se descortina tem algo de dantesco e fabuloso: foguetes espocam madrugada adentro, carreatas e buzinaços tomam conta das avenidas da cidade, e a cada gol marcado urros  monstruosos são ouvidos no apartamento do vizinho. Bêbados dominam as praças, e fanáticos torcedores instauram um estado de sítio e loucura subjugando a sociedade indefesa.  Ao sujeito que não acompanha as notícias do futebol, resta apenas o assombro, a inércia e a dúvida: terá começado a terceira guerra mundial?

     O achincalhe entre as torcidas de Grêmio e Inter ultrapassa os limites do razoável, transformando as redes sociais em uma terra de ninguém. Após cada jogo, o frenesi coletivo ganha ares de drama e mistério. Como uma maré doentia, a procedência da flauta e do foguetório oscila morbidamente, permeada pela troca de provocações entre tricolores e colorados. Slogans e campanhas publicitárias são criados a toque de caixa, milhões de reais trocam de dono, ofensas gratuitas se espalham como um rastilho de pólvora, estremecendo amizades e levando o escárnio a níveis rasteiros e estratosféricos. Enquanto isso, o demônio da discórdia apenas ri, encastelado em sua dimensão paralela e nauseabunda. O ódio e o rancor se apresentam como os sentimentos reinantes, fazendo com que a vitória olímpica seja despida do seu significado original, servindo como um reles estopim para encurralar e menosprezar o outro. Raros são aqueles que torcem de uma maneira digna e elegante, raros são os que reconhecem os méritos do oponente que coloca um caneco em sua prateleira.

     Alguns argumentarão que a graça do futebol é justamente a gozação e o tripúdio às custas do rival. Se pararmos para pensar, essa lógica perversa está presente também no cotidiano alheio às questões esportivas. De um modo sub-reptício, estamos mais preocupados com a vida do próximo do que com os nossos próprios assuntos. A harmonia conjugal, o sucesso profissional, as viagens internacionais e o carro novo do vizinho na garagem têm o poder de nos transformar em seres macambúzios e mesquinhos, fazendo com que a nossa rotina seja um círculo vicioso de competição e tristeza. Voltando aos relvados onde é praticado o velho e violento esporte bretão, a derrota não é uma opção, e a conquista dos louros da vitória dá lugar a uma miríade de vingança, luxúria e atrocidades diversas, comparáveis àquelas perpetradas por tiranos e déspotas em geral.

     Talvez não percebamos, mas o fato é que vivemos dias estranhos, repletos de demonstrações inequívocas da imbecilidade humana, em que a plebe, mas não só ela, alcança a felicidade de um modo tão fácil quanto constrangedor.

 


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04/11/2017 - 15h11min

O vulto na vitrine

     Partindo da ciudad vieja de Montevideo, junto ao porto e suas docas, inicio uma jornada rumo ao desconhecido. Entre as esquinas da peatonal Sarandi, enquadradas por prédios decrépitos, belos e abandonados, as águas do Rio da Prata surgem vez por outra, azuladas e cinzentas. O povo é sereno, não há arrogância nem simpatia. Munido de garrafa térmica e cuia, o cidadão comum da metrópole se dirige para o trabalho. Às vezes, um odor acre de erva queimada trazido pelo vento invade as narinas, sem que seja possível identificar a sua procedência. O sol da primavera penetra timidamente entre as espessas sombras verdejantes das praças que eu atravesso. Não sei ao certo o que a minha busca trará, sou apenas um turista, vagando junto com a esperança de um sinal, de um momento único, de alguma coisa qualquer.  

     Cruzo a Puerta de la Ciudadela, e, de um modo inesperado, sou capturado pela amplitude e o céu azul que cobre a Plaza Independencia. Seria esse o meu sinal, a minha epifania? O mausoléu do General Artigas é majestoso. A estátua equestre esculpida em bronze repousa sobre uma base de granito, observando os transeuntes e os curiosos que param para uma foto. Ao fundo, o Palacio Salvo surge como uma entidade onipresente, magnífica e misteriosa. A partir de agora, minha companheira será a Avenida 18 de Julio.

     Lojas e vitrines desfilam pelos meus olhos, como um caleidoscópio frenético de cores e sonhos. O corriqueiro do dia, com o seu amargo esplendor, passa invisível em cada rosto, em cada banca de revistas, em cada semáforo. A aura da via caudalosa me transporta a outros lugares e avenidas.  Às vezes me sinto no centro de Porto Alegre, às vezes as sombras das calçadas me lembram do Rio de Janeiro. Mas estou em Montevideo, caminhando como o troglodita que avança dentro dos séculos em busca do fogo que mudará a sua vida para sempre. A beleza do Palacio Montero e da Plaza de Cagancha oblitera o cansaço que começa a tomar conta do meu corpo.

     Em um instante fortuito, passo pela estátua de Carlos Gardel. O “zorzal criollo” está sentado em uma mesa, onde há uma cadeira vazia. Fingindo conversar com o ídolo inanimado, reles mortais posam para retratos, felizes com o encontro inusitado e absurdo.  Gardel apenas sorri. Sem que eu saiba, esse também é o momento da minha descoberta sublime, do átimo em que o andarilho realiza a sua quimera, bebendo da fonte catártica que a história da cidade proporciona aos seus visitantes.

     Minhas pernas tremem, à medida em que a 18 de Julio chega ao seu final. Ou seria o seu começo?  Atravesso a rótula com dificuldade, lutando para escapar da chusma de carros que passa sem parar, até penetrar em um parque. Crianças e jovens participam de uma competição de atletismo, correndo sobre a pista azul sob os auspícios orgulhosos de seus pais. Para seguir adiante é preciso contornar a pista, o que demanda um esforço adicional para o meu já combalido esqueleto.  Não há mais sol, e nuvens cinzentas se misturam com a estrutura de concreto que surge aos poucos ante os meus olhos. O Estádio Centenário, moldura de glórias imemoriáveis do futebol sul-americano, está, finalmente, à minha mercê.

     Para meu espanto, um dos portões está aberto, permitindo que eu penetre calmamente no covil dos nossos terríveis inimigos uruguaios. O palco da primeira Copa do Mundo, em 1930, está vazio.  Apesar do aspecto de abandono, sobretudo das copas e banheiros que parecem congelados no passado, a relva está aparada, sendo regada por uma mangueira automática. Escalo as arquibancadas até atingir um ponto alto, onde é possível contemplar o gramado e imaginar as seleções de antigamente disputando uma partida, as tribunas tomadas pela maré carnal que exulta e se desespera. Onde estariam os heróis de então?

     Após descer as arquibancadas, entro novamente no Centenário, desa vez pela porta que conduz ao museu do estádio. No hall existe uma estátua de Ghiggia, o formidável carrasco que silenciou o Maracanã em 1950. A bandeira uruguaia usada pela delegação que triunfou em Paris, em 1924, repousa dentro de uma vitrine, as suas bordas esgarçadas pela passagem do tempo. Subo por uma escada até o andar superior, onde se concentra a maior parte do museu. As botinas de couro cru de Hector Scarone, bem como a sua camisa puída, com cordões entrelaçados na gola, estão à mostra em um nicho destinado àquele que foi um dos maiores craques do futebol charrua e mundial.  Me detenho por alguns instantes na frente de vitrinas aleatórias, deixando o tempo escorrer dentro da tarde vazia. Vejo ainda as camisas de Santos Iriarte, um dos heróis do título mundial de 1930, e de José Piendibene, eterno ídolo da torcida do Peñarol.  Troféus, medalhas e condecorações dividem a minha atenção, servindo como paisagem de uma agradável promenade.

     De repente, como que atingido por um soco no estômago, percebo estar diante de um item de valor simbólico inestimável. A camisa de Obdulio Varela, usada na final de 1950, está dentro de uma caixa de vidro, a centímetros dos meus olhos. Acostumado com imagens em preto e branco do capitão uruguaio, em livros ou películas sobre o famigerado Maracanazo, estremeço ao ver que o número cinco às costas da camisa celeste é de um vermelho vivo, escarlate como sangue. A sua cor quente e escura embriaga meus sentidos, fazendo com que eu viaje através do tempo, rumo ao domingo mais triste da história do futebol brasileiro. De um modo enérgico e silencioso, "el negro jefe" foi o mentor intelectual do feito que, na sua essência, representou o triunfo da humildade sobre a soberba. Quando a noite já havia caído, e o Maracanã encontrava-se vazio novamente, Obdulio saiu caminhando sozinho pelas ruas do Rio. Mesmo que ele quisesse, o calor da fama e dos holofotes nunca o alcançaria.

     No dia seguinte, procurei nas livrarias da metrópole oriental alguma biografia de Obdulio. Mas não havia nada, além da poeira das estantes e vultos desconhecidos andando nas calçadas.

 


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Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

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