20/05/2016 - 18h05min

O pianista olímpico

       Em 1956, durante as Olimpíadas de Melbourne, aconteceu um fato inusitado. As delegações das duas Alemanhas, a Oriental e a Ocidental, entraram no estádio reunidas em uma só. O momento simbólico foi emoldurado pelos acordes do trecho mais famoso da Nona Sinfonia de Beethoven, o coral “Ode à alegria”. Desde então, a adaptação musical do poema de Schiller feita por Beethoven se tornou um momento obrigatório nas Olimpíadas.

       Quando caminhava pelas ruas geladas de Viena, o irascível e perturbado Beethoven provavelmente não imaginava que a sua obra-prima iria chegar tão longe, percorrendo novos continentes a cada quatro anos, cativando os cultores da arte e do esporte. Através dos tempos e ao redor do mundo, a magistral melodia se mantém. E agora, quem diria, teremos a chance de apreciá-la durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Depois da “blitzkrieg” aplicada pela seleção alemã na Copa do Mundo de dois anos atrás, dessa vez teremos algo muito mais ameno vindo da terra do chucrute. A “Ode à alegria” é um hino pacifista, que combina bem com o espírito de amizade entre os povos que é, afinal, o objetivo maior das Olimpíadas.  A grandiloquência do espetáculo dos Jogos também se assemelha à essência da Nona Sinfonia, uma música que acabou rompendo o limite das salas de concerto, encontrando o seu público-alvo nas multidões que preenchem palcos ao ar livre e grandes estádios.

       O Rio de Janeiro será a primeira cidade sul-americana a hospedar a Olimpíada.  Melbourne, por sua vez, havia sido a primeira cidade do Hemisfério Sul a receber a competição. Enquanto as delegações alemãs desfilavam irmanadas na pista do Melbourne Cricket Ground, Ademar Ferreira da Silva observava em silêncio. Nosso exímio atleta sabia que em breve a disputa cínica e fria da caixa de areia tomaria o lugar das cordialidades, e ele precisava estar preparado. No dia da prova, Ademar atingiu a marca de 16 metros 35 centímetros, superando terríveis adversários, como o islandês Einarsson e o soviético Kreyer. para conquistar a medalha de ouro no salto triplo. Foi a nossa única medalha em Melbourne, uma pérola de valor inestimável.

       As passadas longas e elegantes de Ademar, seguidas de seus pulos rumo ao infinito, encontram eco no gênio adormecido de Beethoven. Nos seus dias de esplendor, na década de 1790 e depois, o compositor protagonizou duelos memoráveis ao piano. Seus rivais eram alguns dos mais habilidosos instrumentistas da época, mas Beethoven era um às na arte do improviso, e acabou derrotando a todos de forma categórica. As mãos do virtuose alemão tinham algo de olímpico, enquanto desenhavam direções imprevisíveis sobre as teclas, como se fossem pombas em uma revoada.

      Quando a “Ode à alegria” for executada no Maracanã, o povo brasileiro poderá, nem que seja só por um instante, abrir o coração para um jeito novo de encarar a vida. Apesar das disputas pelo poder nos gabinetes escuros de Brasília, teremos a dádiva da música clássica, onde as ideologias não importam. E a beleza do esporte, onde atletas pobres e ricos se enfrentam em pé de igualdade, juntos como o branco e o preto das teclas do piano de Beethoven. 

 


Comentários postados (2) - Deixe seu comentário
07/05/2016 - 13h05min

O vento gelado de Moscou

                     Faltando menos de cem dias para o início das Olimpíadas do Rio de Janeiro, não há clima de festa nas ruas. Pela primeira vez na história, um país sul-americano vai sediar o evento,  mas ninguém parece estar dando muita bola para isso. O cidadão comum, coitado, está mais preocupado em pagar as suas contas no fim do mês, resistindo bravamente em sua maratona particular, no sufoco e na pindaíba do dia a dia. Envolto nas crises da economia e da política, o sonho de hospedar a tocha olímpica corre o risco de ser vivido sem elã pela população. Como sempre, contudo, resta a esperança de que os jogos possam aliviar as retinas cansadas de acompanhar o espetáculo deprimente da corrupção que grassa no país.

                    Com efeito, a beleza do esporte é algo que marca e conforta. Lembro-me ainda das Olimpíadas de Moscou, em 1980. Eu, que era apenas uma criança, e nunca tinha visto nada parecido antes, torcia para os atletas brasileiros, sobretudo para a seleção de basquete. Carioquinha e Marquinhos comandavam as ações na quadra, municiados pelos jovens craques Marcel e Oscar, e a equipe alcançou um honroso quinto lugar no torneio. Aliás, foi uma Olimpíadas de poucas medalhas para o Brasil: duas de ouro, na vela, e duas de bronze, uma com João do Pulo no atletismo e outra com a equipe de natação, no revezamento 4x200m.

                    De qualquer maneira, as imagens saídas pelo vidro do televisor permanecem na minha cabeça desde então, luzindo como um vagalume enquanto eu envelheço. Lembro-me de assistir, embevecido, as pequenas ginastas russas, com seus rabos de cavalo e movimentos precisos no tablado. Vinda da Romênia, Nadia Comaneci fez o seu canto de cisne no torneio, quatro anos após ter mesmerizado o mundo em Montreal.

                    Na cerimônia de encerramento, o choro do ursinho Misha, representado por um jogral humano nas tribunas do estádio, foi um momento sublime e triste, em uma época em que ainda não se falava em “jogada de marketing”. As lágrimas do mascote olímpico, por outro lado, poderiam ser entendidas como um sinal de adeus, já que a União Soviética, enquanto país, em breve deixaria de existir. Não podemos esquecer que vivíamos o auge da Guerra Fria, e os Estados Unidos não mandaram atletas para Moscou. Quatro anos depois, foi a vez dos russos boicotarem as Olimpíadas de Los Angeles.  As tensões e a cisão entre comunismo e capitalismo, na época, era algo tão forte que nem mesmo o esporte pôde contornar.

                   Outro momento digno de nota, dentro do meu leque de recordações olímpicas, foi a arrancada fulminante do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima, nas ruas de Atenas, em 2004.  Se não fosse por um desconhecido e lunático padre irlandês, que invadiu a pista para atacar e derrubar Vanderlei, o paranaense teria amealhado a medalha de ouro.  Ao se livrar do tenaz agressor, seguindo em frente para completar a prova em terceiro lugar, Vanderlei se comportou com um digno Fidípides tupiniquim, sendo o seu exemplo uma das pérolas mais brilhantes já produzidas pelo esporte em todos os tempos.

                   Portanto, seria bom se houvesse um clima mais caloroso no país em razão das Olimpíadas que se aproximam. Por que não valorizar a oportunidade única de hospedar um evento dessa magnitude e abraçar exímios atletas, turistas e jornalistas de todo o planeta? O esporte tem a propriedade de elevar a autoestima e a cultura de um povo, e é matéria que não depende ou se apega a ideologias. O esporte, de certa maneira, é algo poético, que não pode ser tocado, como o fogo que arde na pira olímpica. Mesmo que pareça banal, estarei de novo torcendo pela equipe brasileira, ávido pelo surgimento de novas lendas e emoções nas quadras, ruas, estádios e piscinas do Rio de Janeiro.

                  Quando Milton Setrini Junior, o Carioquinha, esteve em Caxias do Sul, participando de uma partida de exibição com outros veteranos, em 2007, fui até o ginásio do colégio Santa Catarina conhecer meu antigo ídolo.  Carioquinha foi muito gentil, tiramos uma foto e eu entreguei a ele um exemplar do meu primeiro livro. Naquele momento, uma espécie de círculo místico se fechou. Com seus arremessos e fintas desconcertantes, aquela figura havia me inspirado, de alguma forma, muitos anos antes. Agora eu retribuía, dando a ele um pouco da minha própria arte, resultado da fusão entre esporte e literatura.

                  Missão cumprida. O vento gelado de Moscou soprou entre as paredes do acanhado pavilhão, ecoando lembranças distantes, enquanto eu tomava o caminho da rua banhada pelo sol da manhã.

 

                                                                                  *     *     *

 

Aproveito para desejar um Feliz Dia das Mães a todas as mulheres que tiveram força e coragem para parir e criar seus filhos, sobretudo a minha mãe Beatriz , e minha irmã, Juliana. 

 


Comentários postados (1) - Deixe seu comentário
28/04/2016 - 22h04min

O clã dos Jajás

                 A história de jogadores com o mesmo nome é um tema banal e fascinante, motivo de controvérsias infinitas entre os fãs do antigo esporte bretão. Houve vários Mirandinhas, por exemplo. Em seu programa de televisão, o jornalista Milton Neves teve a feliz ideia de estabelecer a diferença entre eles. Lembro bem da cena, como se ela fosse uma parte indissolúvel de velhos domingos. Enquanto mostrava gols em preto e branco, feitos por um atacante alto e magro, o jornalista narrava a ação, apresentando o craque como “o primeiro dos Mirandinhas”. Era como se Milton estivesse conferindo um título honorífico ao rapaz, que na certidão de nascimento era apenas Sebastião Miranda da Silva Filho. Em seus dias de esplendor, Mirandinha fez fama no São Paulo, inclusive sendo convocado para a seleção brasileira que disputou a Copa de 1974.

                Mais tarde, foi a vez do cearense Francisco Ernandi Lima da Silva vestir, como se fosse um par de botas, o apelido. O segundo dos Mirandinhas jogou em uma infinidade de times, como Palmeiras, Náutico e Portuguesa, e também chegou à seleção brasileira. Esse Mirandinha entrou para a história por ser o primeiro jogador brasileiro contratado por um clube inglês. O terceiro e último dos Mirandinhas era um esperto goleador, batizado como Isaílton Ferreira da Silva, que se notabilizou com a camisa do Corinthians na década de 1990.

               E existiu o clã dos Palhinhas. Como esquecer de Vanderlei Eustáquio de Oliveira? O popular Palhinha, do Cruzeiro e do Corinthians, foi um legítimo carrasco de goleiros, e suas proezas marcaram época no futebol brasileiro. Alguns anos depois, entraria em cena Jorge Ferreira da Silva. Assim como o seu xará e antecessor, o segundo Palhinha foi campeão da taça Libertadores da América com o Cruzeiro, coincidência que faz do nome Palhinha sinônimo de glórias nos corredores da Toca da Raposa.

              O jogador de futebol é um artista cigano. Como andorinhas, são criaturas errantes, voando por diversos clubes e cenários.  No final do ano passado, desembarcou no estádio Centenário um atacante veterano de apelido Jajá. O curioso é que antes dele houve outro Jajá defendendo as cores do Caxias. Jair Xavier de Brito integrou o elenco que ergueu a taça de campeão gaúcho, em 2000. Com suas jogadas intuitivas e gols mirabolantes, o Jajá original se tornou uma espécie de santo para a torcida. Na decisão do primeiro turno daquele certame, foi dele o gol da vitória contra o Grêmio. Após receber um cruzamento do seu fiel escudeiro Adão, Jajá desviou o couro com picardia, iludindo Danrlei e cimentando o triunfo grená em pleno estádio Olímpico.  

              Dezesseis anos depois, o torcedor observa, estarrecido, o recém-chegado Jajá empilhando gols na divisão de acesso do Gauchão. A última vítima do atacante foi o Esportivo. Em uma noite de temperatura polar no estádio Centenário, Jajá aproveitou um vacilo da zaga adversária para fazer o único gol da partida, assegurando ao Caxias a vitória no sempre importante “clássico da polenta”. Ao lado de nomes como Lacerda, Fidélis, Clebinho e Anderson Feijão, Jajá é parte de um conjunto que vem se mostrando coeso, fazendo o torcedor do Caxias sonhar com dias melhores.

              É verdade que só houve um Pelé, um Maradona, um Garrincha, astros que repousam  impávidos no panteão dos gênios da pelota. Entretanto, também é verdadeira a história do fenomenal clã dos Jajás, zelando pela dignidade da jaqueta grená em árduas batalhas nos gramados frios e enlameados do Rio Grande do Sul. 


Comentários postados (0) - Deixe seu comentário
18/04/2016 - 16h43min

Vício e virtude no velho mundo

            Está perto do fim a temporada de futebol na Europa. Na Inglaterra a sensação é o Leicester City,  time de pequeno porte que lidera a corrida rumo ao título. Fundado em 1884, o Leicester já teve em suas fileiras nomes de relevo como o goleiro Banks e o atacante Lineker, mas nunca tinha ido tão longe no campeonato como agora, quando tem chances reais de erguer o caneco. A fábula do azarão que supera clubes ricos e cheios de estrelas sempre foi algo difícil de entender. Por isso mesmo é algo que fascina, como se fosse uma lenda bizarra e maravilhosa que se torna realidade.
            Entretanto, penso que isso só esteja sendo possível pelo fato de estarmos na Inglaterra, um país onde impera a dócil e justa figura do “gentleman”. Afinal, por algum motivo essa estranha criatura habita o imaginário popular ao redor do mundo, supostamente espelhando uma condição humana de quem vive na terra da monarquia e da cerveja preta. É provável que a cidadania inglesa não seja composta na sua exclusividade por indivíduos de caráter e maneira elevados, mas a figura do “gentleman” insiste em aparecer de vez em quando, envolta nas brumas do tempo e da neblina que esconde Londres.
            Dentro das quatro linhas, o campeonato inglês é algo bonito de se ver. Ao contrário da fama do chuveirinho e do jogo aéreo praticado na ilha, muitas vezes assisti a partidas onde a bola é tocada junto à relva, com passes longos e certeiros. Raras notícias de suborno, manipulação de resultados ou falcatruas chegam até nós, e o fato do Leicester estar prestes a se sagrar campeão é a prova cristalina de que este não é um campeonato de cartas marcadas.  A façanha do time do técnico Claudio Ranieri e do goleador Vardy combina com a Inglaterra, uma pátria onde, de alguma forma, ainda reina o espírito do fidalgo que admira as coisas puras e singelas do esporte.
            Em outras regiões da Europa, as coisas são bem menos surpreendentes. Na Itália, quem dá as cartas é a Juventus, entidade de poderes quase divinos, também conhecida como a “velha senhora” do futebol peninsular. Trata-se de uma velha avarenta e gananciosa, que raramente concede aos times de menor porte uma brecha que conduza ao tão sonhado "scudetto". Na atual temporada, o Napoli bem que tentou, inclusive liderando o torneio por muitas rodadas. Entretanto, na hora da verdade, o pragmatismo e a experiência da Juventus falaram mais alto, e a história dos últimos anos está prestes a se repetir.  Loas ao trabalho do técnico Massimiliano Allegri, à segurança de Buffon, Barzagli e Chiellini na zaga, à habilidade de Pogba e Cuadrado na meia cancha, aos gols de Dybala e Morata.  São eles os protagonistas do pentacampeonato.  
            Insensível e arrogante, confortavelmente instalada em sua mansão, a velha senhora avisa que não pretende largar o osso tão cedo. Saciando o seu vício pela vitória em cálices dourados, ela nutre apenas desprezo por um certo cavalheiro inglês, e sua tola mania de cordialidade.      


Comentários postados (0) - Deixe seu comentário
28/02/2015 - 12h02min

Perna dura

Não é difícil entender o que se passa dentro da cabeça dos detratores do futebol. Afinal, o chamado “ópio do povo” traz em seu bojo absurdos injustificáveis, como o fato de qualquer cabeça de bagre ganhar mais do que um professor universitário, por exemplo. Além disso, o esporte mais popular do planeta é a seara que produz a barbárie das torcidas organizadas nas ruas e estádios. Um mundo selvagem, enfim, onde homens adultos correm atrás de uma bola como crianças, ou trogloditas. Se esses disparates seriam suficientes para convencer qualquer cidadão comum da inutilidade do futebol, imaginemos o que eles provocam em certos intelectuais, de maneiras mais elevadas, que não suam, e, provavelmente, não tomam banho.  

 

Digo isso pois quem despreza o futebol esquece dos inúmeros benefícios à saúde física e mental proporcionados por ele. Correr é abraçar a vida, chutar é extravasar um sonho, cabecear é exorcizar demônios. A camaradagem que se forma entre os atletas é uma das maravilhas da natureza humana, e até mesmo a violência do velho esporte bretão é algo que traz uma certa beleza em sua essência. O homem são, que é magnânimo, sabe receber o golpe mais duro, desde que leal, sem reclamar. Inclusive, não é absurdo dizer que, se depois da sua pelada semanal o sujeito não for para casa com algum tipo de dor decorrente do exercício, a brincadeira não terá tido a menor graça. A marca de uma canelada recebida, uma unha que despenca do dedão, um hematoma qualquer, são como troféus, lembranças de uma batalha agradável que termina com a confraternização entre os rivais.

 

A violência sofrida dentro de campo, contudo, pode trazer consequências trágicas. Em 1956, o garoto Pelé assistiu das arquibancadas da Vila Belmiro o choque envolvendo o atacante Vasconcelos e o zagueiro Mauro, do São Paulo. Vasconcelos, jogador veterano com a camisa do Santos, era um dos protetores de Pelé nos primeiros dias do menino na cidade litorânea. Na dividida com Mauro, ele acabou levando a pior, e fraturou a perna. Esse acidente precipitou o fim da carreira de Vasconcelos, e fez Pelé lembrar do seu próprio pai, Dondinho. Jogando pelo Atlético Mineiro, o progenitor do futuro "atleta do século" sofrera uma séria lesão ao ser alvejado pelo zagueiro Augusto, do São Cristóvão.  No instante em que Vasconcelos contorcia-se de dor sobre a grama, Pelé pensou que o futebol era um jogo ruim, e teve vontade de chorar. Anos depois, quando já era um jogador consagrado, ele mesmo atingiria o joelho de Procópio, quase inutilizando o beque do Cruzeiro para o futebol. Teria sido uma fatalidade? Ou foram velhos fantasmas na mente de Pelé que o fizeram descarregar uma raiva acumulada em seu peito?     

 

Às vezes, a pancadaria nos gramados ganha contornos imprecisos, e a caça pode virar o caçador. Assim como dizem que os brutos também amam, é verdade que os craques também batem. Foi na final do campeonato carioca de 1951, entre Fluminense e Bangu, que o genial Didi quebrou a perna do modesto lateral Mendonça. Com a sola da chuteira rasgando o ar como uma foice sobre a bola, o inventor da “folha seca” teve um gesto extremo, mas que pode acontecer no mundo grotesco do futebol, sem que o seu autor seja necessariamente considerado um covarde, ou um canalha. Afinal, “a banca paga e recebe”, e o que transcorre dentro do retângulo verde nem sempre condiz com as regras da civilidade. O fato é que o ataque formado por Telê, Didi, Carlyle, Orlando “Pingo de Ouro” e Joel entrou para a história, e o Fluminense ergueu a taça. Ao Bangu de Zizinho sobraram apenas migalhas, além do infortúnio sofrido por Mendonça.

 

Sebastião Miranda da Silva Filho, o popular Mirandinha, viveu um drama semelhante. Em 1974, durante um jogo do campeonato paulista, o habilidoso atacante do São Paulo, na tentativa de chutar a bola, atingiu em cheio a perna tesa, que estava apoiada no solo, do zagueiro Baldini, do América de São José do Rio Preto. O impacto foi terrível, e Mirandinha sofreu fratura exposta da tíbia e fíbula. O instante exato da ruptura foi flagrado por Domício Pinheiro, em uma fotografia que venceu o Prêmio Esso de jornalismo. Na imagem, vemos a perna de Mirandinha dobrada como uma cobra, invertebrada, enroscando-se no tronco que era a perna de Baldini. Após longa convalescença, Mirandinha conseguiu voltar a jogar, inclusive sendo campeão brasileiro com o tricolor, em 1977. Mas a verdade é que o seu futebol nunca mais foi o mesmo depois do nefasto episódio. Mirandinha, contudo, sempre fez questão de dizer que não sente mágoa pelo ocorrido. A dor do momento fez nascer uma amizade entre ele e Baldini, rendendo até mesmo um reencontro emocionado entre ambos quarenta anos depois do choque fatal.

 

Quando estiverem descansando dentro do caixão, os ossos de Mirandinha vão carregar uma marca profunda e misteriosa, impossível de ser decifrada pelo mais astuto intelectual. Na fissura do seu esqueleto repousa a própria perfeição da vida, ou seja, o elo de simpatia e perdão que o esporte produz em suas entranhas.

 


Comentários postados (2) - Deixe seu comentário
11/02/2015 - 23h02min

Folia de feras

Na frente da multidão que descia a rua, o negrinho carregava o estandarte com o sorriso cheio de dentes. Atrás dele vinham foliões e a charanga que tocava marchinhas carnavalescas com fervor. Serpentina e papel picado caíam das janelas dos prédios, flanando devagar até se alojar entre os fios do cabelo pixaim do negrinho. O bloco “Os Tesouras” era tradição no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, e o guri que gingava com malícia equilibrando o estandarte mais tarde faria sucesso vestindo um outro tipo de fantasia.

 

A camisa escarlate do Internacional caía bem naquele corpo esquálido e cheio de vida. Dos tempos do bloco ficou o apelido, Tesourinha. A paixão pelo Carnaval nunca morreu, mas agora ele era um atleta profissional. Juntamente com Adãozinho, Alfeu, Nena e Ávila, Tesourinha faria parte do grupo dos “negros geniais” do Inter. Eram os anos 1940, época em que o “Rolo Compressor” colorado fazia a sua mágica transformando a vitória em regra, e a derrota em exceção. Para regozijo de Vicente Rao, Tesourinha e companhia aniquilavam as defesas inimigas domingo após domingo, colocando várias taças na cristaleira do clube. Rao era uma espécie de embaixador da alegria, idealizador das primeiras torcidas organizadas nos jogos, além de presença obrigatória no Carnaval da capital, onde desempenhava o papel de Rei Momo. Diziam que Rao era o Internacional em pessoa, tamanho o fanatismo do homem pelas cores branca e vermelha. O fato de Rao ter nascido em 04 de abril de 1909, data da fundação do clube, apenas aumenta a mística ao redor do seu nome.

 

Tesourinha era um ponteiro-direito como nunca se viu, segundo muitos o melhor que o Brasil já teve. Até mesmo o craque Zizinho, ao escalar a sua seleção canarinho de todos os tempos, colocou o colega gaúcho entre os onze. A verdade é que é muito difícil afirmar quem foi o melhor. Houve Julinho Botelho e houve Garrincha. E se Tesourinha gostava de brincar nos blocos da Porto Alegre da sua infância, Garrincha, que chegou a receber o apelido de “Alegria do Povo”, costumava fazer um carnaval particular o ano inteiro, desnorteando seus marcadores nas tardes douradas do Maracanã. Fora das quatro linhas Garrincha teve uma vida atribulada, feita de fama, drama e loucura. A sua debilidade era um certo líquido amargo que repousava dentro de garrafas das mais variadas cores, tamanhos e formatos, dispostas nas prateleiras dos botequins e bares do mundo.

 

Em fevereiro de 1980, Garrincha desfilou em um carro da escola de samba Mangueira. Minado pela cirrose, o anjo das pernas tortas abanava maquinalmente para a plateia nas arquibancadas. Foi um dia triste para o esporte. No meio da avenida e da euforia do Carnaval vinha um ser inocente, que manteve a pureza das crianças até o inverno dos seus dias. Paralisado por remédios, o galante craque de outrora protagonizou uma cena de contornos trágicos. O mórbido desfile avançava entre o breu da madrugada, como se fosse o suicídio de um poeta transmitido ao vivo para todo o país. O passarinho estava prestes a voar para longe, e pela última vez a turba pôde dar a ele o seu amor e carinho.

 

No instante em que Garrincha saía de cena, um novo esquadrão tomava forma na cidade do Rio de Janeiro. Era o Flamengo do técnico Claudio Coutinho, um time fadado à glória, que em breve conquistaria o Brasil, a América e o mundo. Entre os bambas do elenco rubro-negro, Zico era uma espécie de maestro, cadenciando o ritmo das partidas com destemor e picardia. Zagueiros do quilate de Rondinelli, Mozer e Marinho protegiam a meta custodiada pelos goleiros Raul ou Cantarelli. No setor ofensivo, o trio Tita, Nunes e Lico mandava a bola para o fundo das redes com destreza. E havia Júnior, um garoto que veio da Paraíba para jogar bola e brincar o Carnaval na cidade maravilhosa. Até hoje o homem que mais vezes vestiu a camisa rubro-negra na sua rica história, Júnior, mesmo depois de aposentado dos gramados, manteve a regularidade dos tempos de atleta ao extravasar a sua paixão nos desfiles de fevereiro. Os anos passam e a vitalidade do famoso lateral da Gávea parece inoxidável, sambando no asfalto da Marquês de Sapucaí como se fosse um menino da mais terna idade.   

 

Haverá canto da sereia como a magia do Carnaval? Não é preciso vestir a fantasia mais cara, roupa de lantejoulas, máscara negra ou plumas coloridas para desfrutar dessa ilusão. Enquanto durar a folia, o mendigo ganha status de rei, o homem tímido vira um pierrô conquistador, a mulher feia transforma-se em linda colombina. Em 1999, o chamado selvagem da orgia atravessou oceanos até alcançar o antigo craque vascaíno Edmundo. Vivendo na Itália, onde defendia as cores da Fiorentina, a fera carioca sente o suor escorrer pela testa nas noites geladas do inverno europeu.  Incapaz de resistir, o goleador protagoniza uma espécie de fuga de Florença, retornando de forma repentina para desfilar pelo Salgueiro, no Rio. O técnico Trapattoni não pode acreditar, não entende os motivos de tanta nostalgia.  Dono de cabelos brancos como a neve e olhos transparentes como o gelo, o treinador pensava já ter visto de tudo no futebol. Entretanto, os mistérios daquele jogador brasileiro a quem chamavam de “animal” permaneceram insolúveis para o velho Trap. Alheio a tudo isso, Edmundo sua e pula na avenida. Vestindo as cores da sua escola predileta, o folião que veio do frio gasta suas energias até o sol raiar, sem pudor, remorso, ou vergonha de ser feliz.  

 

Até que chegou a quarta-feira de cinzas, e com ela a hora de guardar os sonhos e fantasias no baú. Em meio às garras insensíveis da rotina, garis varrem os confetes e as latas de cerveja vazias nas ruas. Homens apressados, vestidos de terno e gravata, ocupam o lugar de piratas e arlequins, entrando e saindo de bancos, firmas e repartições públicas. Coletivos cospem fumaça aos borbotões, dominando o asfalto onde carros alegóricos e mulatas fogosas haviam passado na noite anterior.  Do Carnaval, agora restam apenas lembranças. E a melodia triste das marchinhas, ecoando como um murmúrio distante na imensidão dos dias, horas e minutos que, afinal, trarão consigo fevereiro outra vez.

 


Comentários postados (3) - Deixe seu comentário
28/01/2015 - 20h01min

Dráculas do ringue

Uma luz tênue banha a mão que repousa sobre a mesa. Por entre as sombras, dedos calejados seguram um copo de vidro com um líquido viscoso e escarlate. A mão, que tantos homens botou para dormir, está quieta, e o único som que se ouve é o tic-tac do relógio na parede. É quase meia-noite, e Sugar Ray Robinson está tentando penetrar na mente do seu eterno rival Jake LaMotta. Estamos em um restaurante de Chicago, cenário escolhido para a assinatura do contrato da luta entre os dois. Jake era o detentor do cinturão dos pesos-médios do boxe, e Ray faria de tudo para usurpar-lhe o título.

 

Após a conclusão das formalidades, Ray decide pôr em prática uma espécie de pantomima mórbida e assustadora.  Beber o sangue que escorre do bife cru era um hábito há muito cultivado por ele, uma receita aprendida com o velho Joe Louis e que, segundo Ray, fazia bem à saúde. Em dado momento, ele chama o garçom e ordena o sinistro pedido. Após botar uma pitada de sal e pimenta no copo, Ray oferece a bebida ao campeão. Jake, enojado com a cena dantesca, recusa, enquanto os olhos rútilos e amarelados de Ray buscam perscrutar no âmago da sua alma. O vampiro de Chicago, então, bebe o sangue com um sorriso entre os lábios. Terminado o seu deleite, o astuto “boxeur” bate forte com o copo vazio na mesa, arrotando satisfeito.

 

Não sabemos se o teatro encenado por Ray teve alguma influência no resultado da luta. O que sabemos é que o duelo derradeiro entre os dois pugilistas foi um momento de rara beleza dentro do esporte. Como se fosse um Dominguín, Ray controlou a fúria animalesca do famigerado “Touro do Bronx”, esquivando os golpes com maestria.  E pode ser verdade mesmo que a estranha dieta de Ray tenha lhe dado energia extra, pois seus punhos rápidos fustigaram Jake como adagas sem cansar até o décimo-terceiro assalto. Nesse instante, o juiz preferiu encerrar a luta, dado o estado lastimável do agora ex-campeão.

 

Ó, lua macabra, que surge entre as nuvens negras da noite, acordando os esqueletos que tentam dormir no cemitério!  Serei eu também banhado pela tua luz opaca e mágica? Que instintos malignos trarei escondidos no peito, à espera do teu chamado?  Qual é o limite entre o homem e a besta, o santo e o pecador? O vento que uiva nas trevas agitando a copa das árvores parece saber a resposta. Em seus braços, ele carregou a lua macabra através dos tempos, até uma noite quente no deserto de Las Vegas. Foi durante o terceiro assalto da sua luta contra Evander Holyfield que Mike Tyson, o outrora imbatível campeão dos pesos-pesados, teve o seu lado animal desperto.

 

Cometendo uma das maiores infâmias da história da nobre arte, o baixinho boxeador arranca um pedaço da orelha de Holyfield, por mais inverossímil que isso possa parecer. Seu semblante lembra o de um Nosferatu negro e musculoso, e seus dentes afiados estão manchados de sangue. Ao redor do planeta, famílias assistem, estarrecidas, o evento ao vivo e a cores pela televisão. Até mesmo o experiente juiz Mills Lane parece incrédulo com a cena, a boca aberta em estado de transe enquanto Holyfield salta sobre o ringue, urrando como uma fera ferida. Tyson acaba desqualificado, precipitando o final de uma carreira que começara brilhantemente, e que agora terminava de forma patética.

 

Houve quem dissesse que a atitude grotesca de Tyson teria sido uma reação, ainda que instintiva, às constantes cabeçadas desferidas por Holyfield durante a primeira luta entre eles, um ano antes. É verdade que na ocasião Tyson reclamara bastante do artifício utilizado pelo rival. Talvez essa antiga mágoa, aliada à frustração de não estar conseguindo vazar a guarda de Holyfield, tenha causado o arroubo de loucura demoníaca que levou Tyson a morder, como um lobo, a sua vítima. Depois da luta, no ambiente lúgubre do vestiário, o perdedor está só. Enquanto tira as luvas ele observa, através da janela, a lua cheia entre prédios e luzes de neon. A melancolia do momento traz de volta um pouco da sua humanidade, e Tyson começa a beber, em silêncio, o remédio amargo da derrota.

 

Muitos anos se passaram, até que o sol apareceu de novo em um país distante e tropical. Nas areias da praia de Natal e no estádio Arena das Dunas, o povo nordestino espera ansioso para assistir a mais um dos jogos da Copa do Mundo. O clássico entre Uruguai e Itália era programa pra ninguém botar defeito, dois grandes campeões do futebol estavam prestes a desfilar sobre o tapete verde toda a sua técnica e galhardia. Entretanto, a partida acabou trazendo em seu bojo muito mais do que simples chutes, gols e tabelas. O que ocorreu diante dos olhos da turba foi uma espécie de filme de terror. Nem mesmo o astro-rei brilhando no céu foi capaz de impedir o surgimento de um novo vampiro em nossa história.

 

O Uruguai está atacando, e um punhado de jogadores aguarda o cruzamento na área do goleiro Buffon. Esgueirando-se entre as sombras no gramado, o jovem Suárez, como se fosse um Bela Lugosi latino, avança sobre o zagueiro Chielini, mordendo-o pelas costas. O juiz mexicano não percebe o ardil, e Suárez permanece em campo, fingindo-se inocente, até o final do jogo. As marcas dos dentes brancos e pontiagudos do goleador charrua ainda estão no ombro de Chielini, enquanto este rola na relva contorcendo-se de dor. Quando era apenas um guri caminhando pelas docas de Livorno, dando os primeiros passos dentro do futebol, Chielini nunca imaginou que “isso” fizesse parte do esporte. E agora ele estava ali, sentindo na pele um tipo diferente de perversão. Iria ele também transformar-se em um zumbi, em uma criatura atormentada? Infelizmente para ele, o pior ainda estava por vir. Com um gol marcado por Godín, o onze oriental venceu o jogo,  mandando Chielini e companhia de volta para casa mais cedo.

 

O crepúsculo toma conta do céu novamente, e as criaturas da noite agitam-se no seio da floresta. Depois de Sugar Ray Robinson e Mike Tyson, Luiz Suárez também teve o seu dia de príncipe das trevas. O valoroso grupo, aliás, poderia comparecer sem problemas nas próximas Olimpíadas da Transilvânia. Imaginemos os três atletas, cada qual montado em seu corcel, preparando-se para partir em direção às terras geladas no interior da Romênia. Na bagagem, luvas de boxe e bolas de futebol. Dentro do peito, algo de voluptuoso e trágico, sentimentos como desamparo, solidão, a ânsia pelo amor que não há, além da própria maldade que habita o coração do ser humano. Se prestarmos atenção, toda a tristeza e vilania dos mortos-vivos do cinema e da literatura encontra eco em nossa própria rotina às vezes. Mesmo que o ditado diga que vampiros não apareçam em espelhos.  

 


Comentários postados (1) - Deixe seu comentário
PUBLICIDADE PUBLICIDADE

Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

Você também vai gostar de ler...