12/05/2017 - 20h27min

Vagar, sonhar, lutar

     Em razão do pouco futebol apresentado na temporada passada, o Internacional está fora do campeonato brasileiro da série A, que começa nesse final de semana. A sua sina, em 2017, será vagar por estádios menores, em cidades periféricas, fora das grandes metrópoles e longe dos holofotes histéricos da mídia. Para muitos torcedores e analistas, esse cenário é desolador, sendo sinônimo de tristeza e vergonha. Ao mesmo temo, a queda do gigante colorado foi a senha para que uma multidão extravasasse o seu lado revanchista, zombando do rival com fúria e alegria.  

     Mas, afinal, qual é o problema em jogar a série B? Não existiria nesse campeonato, desprovido de dinheiro e glamour, uma beleza escondida entre as sombras? Falo da beleza de conhecer diferentes cidades e culturas, abandonando a companhia arrogante dos grandes clubes do futebol brasileiro, da seleta turma da qual o próprio Inter foi, por muitas vezes, o maior e mais aguerrido representante.  Existirá beleza maior do que vagar pelas terras distantes e ensolaradas do Nordeste, pelo cerrado do Centro-Oeste, pelas praias de Santa Catarina, ou pelas cidades vizinhas de Caxias do Sul e Pelotas? A cidade de Londrina, também conhecida como a “Pequena Londres”, será o ponto de partida do roteiro que o Inter terá que cumprir, como um peregrino, a partir de amanhã.

     Quebrando regras e subvertendo convenções, o clube colorado empreenderá uma das suas maiores aventuras. Uma aventura que não tem de ser, necessariamente, em busca de glória e taças douradas de campeão. Não. A epopeia rubra pode muito bem ser uma serena caminhada em direção ao autoconhecimento, empregando uma atitude de desapego e humildade. Desalojado do castelo do poder, o Inter, na figura do mascote Saci, poderá fazer novas amizades, longe da sanha e da soberba viciante que impera na série A.  

     Na hora da verdade, contudo, o time do técnico Zago deverá atuar com a galhardia de sempre. Somente lutando com todas as suas forças pela posse de cada centímetro do gramado, Danilo Fernandes, D’Alessandro, Valdívia e seus companheiros poderão fazer com que o Inter retorne ao panteão dos clubes do nosso futebol. A batalha na segunda divisão tende a ser ainda mais encarniçada e insana, e o onze gaúcho terá que suar sangue para triunfar nos longínquos rincões do Brasil.

     Viajar é preciso. Afinal, aquele que anda sempre pelos mesmos caminhos, ainda que sejam caminhos de fama, luxo e prazer, não encontra nada de novo, e, consequentemente, não vive.  Que venha, portanto, a experiência da série B! Os fascinantes mistérios da sua geografia, e a catarse de descer rumo ao desconhecido são, por si só, um troféu de valor inestimável.

 


Comentários postados (1) - Deixe seu comentário
25/04/2017 - 21h04min

Uma engrenagem para a história

     Foi um grande pecado a eliminação do Caxias frente ao Inter, ocorrida no último domingo, no estádio Centenário. Uma decisão por pênaltis nunca é totalmente definitiva, nem traduz uma verdade insofismável, pois para se chegar até ela houve um empate de resultados, sem que se conseguisse determinar um legítimo vencedor dentro de 180 minutos de jogo. Mas não é por isso que a derrocada grená não é fácil de aceitar. Analisando a partida de domingo, mas, sobretudo, recordando toda a campanha ao longo do Gauchão de 2017, ficam nítidos, mesmo para quem olha de forma desapaixonada, uma qualidade e um elã superior no time interiorano. O Caxias foi um time melhor do que o Inter, e a sua despedida cruel e prematura do certame fatalmente deixará feridas na alma do torcedor.

     Por outro lado, o técnico Luiz Carlos Winck brindou o mundo futebolístico com uma engrenagem bem azeitada, que, da mesma maneira, não será esquecida facilmente. O goleiro Marcelo Pitol, com sua catimba e saltos felinos zelando pela cidadela grená, foi um dos personagens da epopeia da “uva mecânica” versão 2017. Os zagueiros Jean, Edson Borges e Laércio, juntamente com os polivalentes Geninho e Thiago Machado, foram vultos de destaque na retaguarda. Sem embrago, quando menos se esperava, empregavam mortíferas incursões ao ataque, marcando gols com maestria. E o que dizer do trio Marabá, Elyeser e Wagner? Sem dúvida um meio de campo para ninguém botar defeito. No setor ofensivo, Júlio César, Gilmar e Reis, auxiliados pelos reservas de luxo Jajá e Nicolas, vararam muitas defesas, concretizando vitórias importantes para o time das bandas do cemitério.

     Ficará marcada na memória do torcedor, especialmente, a trinca de vitórias contra o Juventude, todas de forma categórica, amealhadas em menos de vinte dias, sendo que duas delas em pleno estádio Jaconi. A vitória contra o Grêmio, ainda no começo do campeonato, e os triunfos contra São Paulo, São José e Passo Fundo, também foram capítulos dignos de comentário. O perde e ganha contra o Inter, sem que o Caxias se curvasse ante o poderio econômico e a força da camisa do gigante de Porto Alegre, foi o ponto final de uma jornada ímpar. O fato do Caxias ter disputado a divisão de acesso no ano passado apenas engrandece o trabalho e a dedicação de todos no clube, desde o roupeiro até o presidente.

     Ainda que seja um filme conhecido para o fiel e sofrido torcedor grená, a eliminação de domingo traz em seu bojo alegria, não só tristeza. O time que no momento faz parte do passado, tendo em vista o inevitável desmanche do elenco, deixou uma marca escrita com ferro e fogo na história do nosso campeonato gaúcho. O título de campeão do interior é, pois, merecido. Ainda assim, creio que o mais justo teria sido uma final entre Novo Hamburgo e Caxias. Na minha  opinião, estes foram os dois melhores esquadrões do torneio.


Comentários postados (2) - Deixe seu comentário
17/11/2016 - 11h11min

Letras e melancolia

 

     Ao longo dos anos, tive a oportunidade de visitar algumas escolas e conversar com os alunos sobre minhas experiências como escritor. Trata-se de uma atividade singular e sempre ansiada, mas que traz consigo a sombra de um dilema.   
     Afinal, de que adianta exaltar, nessas visitas, as vantagens do hábito e do prazer da leitura para os jovens; de que adianta vender a ideia de que através da leitura o seu mundo será melhor; como posso iludi-los com a promessa de que a literatura fará deles pessoas felizes no futuro, mais aptas para enfrentar a vida? Como eu posso fazer isso se a pessoa que desenvolve o hábito de ler, muitas vezes, acaba virando uma pessoa solitária, fraca, avessa ao convívio social e, ciente ou não, abdica de certas aspirações e noções relativas ao mundo prático em que vivemos imersos, lutando freneticamente contra o relógio e o calendário para pagar as nossas contas?
     Na selva de concreto das cidades não existe espaço para o sonho, e o sonho é algo inerente a quem gosta de ler. Nesse cenário bizarro, mas real, “sonhador” rima com “perdedor”. Existe, ainda, a possibilidade do jovem se tornar alvo de chacotas na escola, ser chamado de cdf, acabar se isolando do mundo e desenvolver algum tipo de depressão.  Então às vezes me pergunto, “não é uma irresponsabilidade da minha parte querer incutir nessas cabecinhas que o ato de ler vai leva-los a algum lugar? Para quê? Para que permaneçam ignorantes sobre as artimanhas da vida real, tornando-se presas fáceis para a malandragem que vive a espreitar as ruas e o cidadão?”.    
     Um dos pontos que me impede de acreditar com mais ênfase no “poder transformador” do ato de ler é o fato de que, profissionalmente falando, o ramo das letras não oferece grandes perspectivas aos alunos jovens ou adultos. Tornar-se professor, jornalista ou escritor está longe de ser garantia de um salário digno. Para encontrar emprego, pragmatismo e experiências de trabalho anteriores valem muito mais do que ter lido uma dúzia de livros do Cortázar.  Como pedir a um jovem de família pobre, que não tem condições nem de se alimentar direito na hora do almoço, que ele leia livros, se essa providência não vai mudar em nada a sua situação degradante e emergencial?  Você vai falar sobre a beleza da poesia de Drummond e eles estão pensando em como sobreviver ao dia de amanhã. As prioridades são totalmente diferentes.    
     Outro dos perigos de abraçar o hábito de ler é a melancolia que ele pode acarretar.  A solidão encontrada nas páginas de um livro pode se tornar um vício. Mas também é um bálsamo. Surge, então, outra pergunta: somos taciturnos porque lemos, ou lemos porque somos taciturnos? Acredito que ambas as situações sejam verdadeiras, mas é provável que a qualidade de “taciturno” seja anterior ao hábito de ler livros.  De qualquer maneira, a leitura solitária de livros tem um parentesco com a melancolia, com uma sensação de desapego e tristeza. O indivíduo que lê, nas repartições, nos coletivos, no pátio da escola, rapidamente é visto como um estranho, um tipo de lunático, portador de alguma doença rara. É um verdadeiro alienígena, e passa longe daquilo que poderia se chamar de brasileiro “normal”. Claro, o perfil do brasileiro é esfuziante e bronzeado, o perfil do sujeito que lê é pálido e sombrio.
     Então, para que almejar incutir em um jovem, saudável e capaz, o hábito da leitura? Para desviá-lo de uma carreira de sucesso profissional e uma relação amorosa feliz?
     Quando eu entro nesse tipo de dilema, tento contar até dez. Depois que a calma retorna, apanho um bom livro na estante. Sentado em minha poltrona, ciente dos problemas do mundo, encontro um pouco de paz, e a lucidez necessária para me botar nos trilhos outra vez.

 


Comentários postados (1) - Deixe seu comentário
20/10/2016 - 21h10min

O escritor invisível

     Semana passada, estive presente ao bate-papo com o escritor Luiz Ruffato, dentro da Feira do Livro de Caxias do Sul. Um dos aspectos abordados na palestra foi a situação lastimável da educação em nosso país. Para Ruffato, autor consagrado e laureado no Brasil e no exterior, a questão deveria ser abraçada, primordialmente, pelo Estado. Isso pois “estado” seria algo diferente de “governo”. Enquanto o primeiro teria uma ascendência permanente sobre os rumos do país, o segundo seria algo transitório, e sujeito as interferências políticas que almejam a tomada do poder por este ou aquele grupo.

     As colocações de Ruffato encontravam eco nas colocações de educadores presentes, e as conclusões foram bastante pessimistas quanto à possibilidade de se encontrar uma saída. Obviamente que um país com mais leitores, ou com mais indivíduos com acesso aos bancos escolares e universitários, será um país com cidadãos mais preparados, capazes de pensar e formar uma sociedade mais plena e justa. Pesa contra o nosso falido sistema educacional a pífia remuneração concedida aos professores, além da já mencionada alternância do poder nas esferas públicas, o que ocasiona mudanças repentinas, fatalmente baseadas em ideologias, nos programas de ensino. O despreparo dos professores, na sua maioria incapazes de aplicar “leituras literárias” aos alunos, seria outra causa do quadro alarmante em que se encontra a nossa educação.

     Longe de ser um pedagogo, o escritor se encontra em um dilema permanente dentro da questão. Quase sempre alguém que depende de um emprego paralelo e convencional para sobreviver, o escritor encontra dificuldades absurdas para colaborar com a educação. Sem ser obrigado a isso (e sem ser remunerado também), o escritor geralmente se encontra numa posição subserviente em relação ao poder público, às escolas e instituições que poderiam servir como elo entre ele e alunos, ou qualquer tipo de público interessado em arte e literatura.  

     Para encontrar espaço em algum evento, visitar alguma escola, ou participar de alguma atividade que possa edificar a cultura e a educação da sociedade, o escritor precisa, literalmente, mendigar, batendo sistematicamente na porta das instituições, na maioria das vezes sem sucesso.  Obviamente que estamos falando de escritores desconhecidos do grande público, que escrevem seus livros à margem da mídia e não usufruem dos conchavos e compadrios típicos do mundo literário, inclua-se aí o passaporte para visitar as escolas da cidade e as feiras do livro que proliferam ao redor do país.

     A literatura produzida por esses escritores é uma “má literatura”? Difícil dizer, mas em um país de famintos a comida servida não precisa ser necessariamente um banquete.  O que não pode acontecer é essa angustiante “falta de função” tacitamente imposta ao escritor que deseja se inserir no processo de melhoria sociocultural do seu próprio torrão. O problema vai mais além, entretanto, se pensarmos que muitos dos nossos jovens (e adultos) se encontram totalmente alienados ao que seja ler e sentir um livro. Mais uma vez aqui temos um círculo vicioso: em um mundo onde um tênis ou um celular representam itens de consumo “indispensáveis”, que aluno adolescente vai gastar aquilo que não tem na compra de um livro?  Se nem mesmo a comunidade literária comparece aos eventos (haviam pouquíssimas pessoas no bate-papo com Ruffato), o que dizer das classes mais baixas que, sufocadas pelo desemprego, tem como prioridade a sobrevivência pura e simples, e que encontram na cultura a sua última e improvável forma de lazer?

    Acredito que se houver uma maior interação entre escolas, escritores, o poder público, bibliotecários, livreiros e editores, e se cada uma dessas partes agir de forma inclusiva e magnânima, pode ser que seja possível encontrar alternativas que levem as pessoas, quer sejam elas alunos ou não, a se interessar pela leitura e pela literatura.  

     O escritor, tenho certeza, pode ser uma peça chave nesse quebra cabeça.    

 


Comentários postados (2) - Deixe seu comentário
27/08/2016 - 11h49min

Sílfides para pinguços

         Era uma tarde fria e cinzenta de sábado, quando voltei àquele bar querido, muito visitado em épocas remotas. Lá estavam as mesmas mesas e cadeiras de fórmica barata, o mesmo balcão de vidro contendo balas, chicletes e chocolates, e, atrás dele, o mesmo bodegueiro gordo e corcunda. Lá estavam também os mesmos homens, com seus olhares duros suspensos em direção ao nada. Não havia, como nunca houve, maiores luxos no estabelecimento. Pedi uma cerveja, apesar do frio, e sentei em uma mesa virado para a porta da rua.

        Carros passavam sobre a via de paralelepípedos. Ônibus iam e vinham, transportando as pessoas que eu via de relance através da janela, cada uma com os seus sonhos e problemas. Pedestres andavam pela calçada em total anonimato, e vez por outra algum “habitué” parava em frente à porta, espiando por alguns segundos, indeciso entre seguir em frente ou entrar para matar a sede e o tempo. Dentro do bar, enquanto bebia sozinho outra vez, observei os homens, muitos dos quais idosos, tomando o seu trago entre as horas mortas daquele dia vulgar.

        Alguma coisa, contudo, estava fora da sua ordem natural. Acostumada com o espetáculo grotesco de uma partida de futebol, a freguesia do boteco assistia, embevecida, à transmissão das Olimpíadas do Rio de Janeiro ao vivo pela televisão. No lugar da violência típica do velho esporte bretão, a sutileza encantadora das atletas da ginástica rítmica.

        Um sujeito de cabelo comprido e bombacha, de pé, na frente do balcão, analisava o balé de corpos acrobáticos, ao mesmo tempo em que segurava seu copo de cachaça com losna. O que estaria se passando na cabeça do homem, no instante em que a menina russa, como uma gazela, saltava e rodopiava no tablado?  Câmeras presas no teto do ginásio capturavam imagens em “plongée”, a bola que subia e descia até se aninhar suavemente nos braços frágeis e esguios das competidoras. 

        Atrás do balcão, o bodegueiro trabalhava com afinco. Duas doses de uísque com gelo para o senhor, mais um pouco de vinho tinto para o rapaz, uma caipira de vodka para o amigo. Mãos rudes, presas às correntes do vício, erguiam os copos avidamente, embaladas pela música sutil das coreografias que se sucediam na tevê. A espanhola de nariz arrebitado manejava as fitas coloridas com total precisão, nunca esmorecendo na sua postura altiva. A búlgara de olhos negros enroscava o seu corpo elástico no aro, misturando arte, esporte e sedução. Por um instante, as feições embrutecidas desvaneceram-se. No rastro de cada ginasta a subir no palco, pairava o suspiro enternecido de um pinguço.

       Foi então que eu vi soldadinhos de chumbo perfilados no balcão do bar. Estaria delirando? Tomei mais um gole de cerveja, como quem tenta recuperar os sentidos. Esfreguei os olhos ainda, mas eu estava certo. Eram soldadinhos, admirando suas bailarinas, com o coração derretendo no fogo de uma paixão impossível. 

 


Comentários postados (1) - Deixe seu comentário
19/08/2016 - 18h08min

O ouro e a madeira

      O rumoroso caso dos nadadores americanos pegos em flagrante após delatar um falso assalto nas ruas do Rio de Janeiro mostra que nem sempre os campeões do esporte são um exemplo de boas maneiras e civilidade.

      O mentor intelectual da trama fabulosa foi Ryan Lochte, craque das raias olímpicas, em 2009 eleito o melhor nadador em seu país, superando inclusive o fenômeno Michael Phelps. Após ter amealhado a medalha de ouro no revezamento 4x200 metros, Ryan, em uma madrugada de embalos etílicos e festas, acabou, juntamente com alguns colegas, depredando o banheiro de um posto de gasolina. Para fugir das consequências do seu ato tresloucado, esse legítimo Pinóquio das piscinas inventou uma história incrível, afirmando ter sido assaltado por bandidos disfarçados de policiais, assumindo, assim, o papel de vítima.

     O que poderia ser encarado como um pequeno incidente adquiriu proporções avassaladoras a partir da falsa denúncia de Ryan. Afinal, manchetes retratando a cidade carioca como um antro de insegurança e selvageria ganharam o planeta outra vez, envergonhando todo o Brasil.

     No fim, o ilustre cidadão daquela que muitos chamam de “a maior nação do mundo”, provou que errar é normal, independentemente de bandeiras, etnias e galardões. Fazendo-nos lembrar os versos de Ederaldo Gentil em seu samba “O ouro e a madeira”, a verdade veio à tona, boiando sutilmente como um pedaço de pau. O ouro conquistado por Ryan, por sua vez, naufragou, até desaparecer entre a lama que habita as profundezas dos rios e da consciência humana.                                                                                          


Comentários postados (1) - Deixe seu comentário
20/05/2016 - 18h05min

O pianista olímpico

       Em 1956, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Melbourne, um fato inusitado aconteceu: as delegações das duas Alemanhas, a Oriental e a Ocidental, entraram no estádio reunidas em uma só. O momento simbólico foi emoldurado pelos acordes do trecho mais famoso da Nona Sinfonia de Beethoven, o coral “Ode à alegria”. Desde então, a adaptação musical do poema de Schiller feita por Beethoven se tornou um momento obrigatório nas Olimpíadas.

       Quando caminhava pelas ruas geladas de Viena, o irascível e perturbado Beethoven provavelmente não imaginava que a sua obra-prima iria chegar tão longe, percorrendo novos continentes a cada quatro anos, cativando os cultores da arte e do esporte. Através dos tempos e ao redor do mundo, a magistral melodia se mantém. E agora, quem diria, teremos a chance de apreciá-la durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Depois da “blitzkrieg” aplicada pela seleção alemã na Copa do Mundo de dois anos atrás, dessa vez teremos algo muito mais ameno vindo da terra do chucrute. A “Ode à alegria” é um hino pacifista, que combina bem com o espírito de amizade entre os povos que é, afinal, o objetivo maior das Olimpíadas.  A grandiloquência do espetáculo dos Jogos também se assemelha à essência da Nona Sinfonia, uma música que acabou rompendo o limite das salas de concerto, encontrando o seu público-alvo nas multidões que preenchem palcos ao ar livre e grandes estádios.

       O Rio de Janeiro será a primeira cidade sul-americana a hospedar a Olimpíada.  Melbourne, por sua vez, havia sido a primeira cidade do Hemisfério Sul a receber a competição. Enquanto as delegações alemãs desfilavam irmanadas na pista do Melbourne Cricket Ground, Ademar Ferreira da Silva observava em silêncio. Nosso exímio atleta sabia que em breve a disputa cínica e fria da caixa de areia tomaria o lugar das cordialidades, e ele precisava estar preparado. No dia da prova, Ademar atingiu a marca de 16 metros 35 centímetros, superando terríveis adversários, como o islandês Einarsson e o soviético Kreyer. para conquistar a medalha de ouro no salto triplo. Foi a nossa única medalha em Melbourne, uma pérola de valor inestimável.

       As passadas longas e elegantes de Ademar, seguidas de seus pulos rumo ao infinito, encontram eco no gênio adormecido de Beethoven. Nos seus dias de esplendor, na década de 1790 e depois, o compositor protagonizou duelos memoráveis ao piano. Seus rivais eram alguns dos mais habilidosos instrumentistas da época, mas Beethoven era um às na arte do improviso, e acabou derrotando a todos de forma categórica. As mãos do virtuose alemão tinham algo de olímpico, enquanto desenhavam direções imprevisíveis sobre as teclas, como se fossem pombas em uma revoada.

      Quando a “Ode à alegria” for executada no Maracanã, o povo brasileiro poderá, nem que seja só por um instante, abrir o coração para um jeito novo de encarar a vida. Apesar das disputas pelo poder nos gabinetes escuros de Brasília, teremos a dádiva da música clássica aliada a beleza do esporte. Um cenário em que ideologias não importam, e atletas pobres e ricos se enfrentam em pé de igualdade, convivendo em harmonia como o branco e o preto das teclas do piano de Beethoven. 

 


Comentários postados (3) - Deixe seu comentário
PUBLICIDADE PUBLICIDADE

Memórias do esporte

Lúcio Humberto Saretta, autor dos livros "Alicate Contra Diamante", "Crônicas Douradas" e "Lições da Barbearia", resgata os monstros sagrados do futebol, do boxe e do basquete de um jeito diferente, contrastando o ser humano e o ídolo, o mito e a realidade, jogando novas luzes em um tesouro adormecido e pronto para ser explorado, ou seja, as memórias do esporte e seus curiosos protagonistas. Neste espaço, o leitor também vai encontrar a opinião do cronista sobre o atual cenário esportivo, seus detalhes, polêmicas e novidades.

Você também vai gostar de ler...